16.10.09

Preferências artísticas

No movimento da humanidade, desde a antiguidade ágrafa até hoje, aparece um grande esforço construtivo, um movimento de permanente construção e autoconstrução dos homens, com grande vantagem para nós, que vemos este progresso do topo – e com grande destaque para a arte, em todo este processo. Mas tenho percebido que toda vez que se esboça uma definição de arte baseada em perspectivas histórica ou social, aparece uma condenação: esse ponto de vista é limitado. Isto é intrigante. Pode uma obra de arte estar desvinculada da sociedade que a produz? De outra maneira, se a perspectiva histórica é limitada, qual a seria a mais abrangente das perspectivas? Eu não sei. O que sei é que quando vejo que nos meus autores preferidos aparece muito forte o peso da crítica social, uma coisa me perturba. Não pela repetição da mesma crítica; dificilmente poderia haver retrato artístico da atual sociedade sem crítica, para haver um mínimo de honestidade intelectual. O que incomoda é a ideia de que "meus gostos" não são meus, mas produto do meu tempo – essa é talvez a coisa incômoda na história. Se o que me particulariza, aquilo que me faz singular, são as minhas preferências, os meus gostos, saber que são eles, em grande parte, fabricados por uma teia industrial sem a qual eu não poderia tê-los – isto não agrada a ninguém. E, a pensar assim, teríamos que repensar também que como indivíduos nada temos de inato; tudo o que temos/somos se fez a partir de relações sociais, de amizades, de trabalho, de estudos, de compra e de venda, que não poderiam haver de jeito algum há míseros 400 anos atrás. E aí fica a subjetividade reduzida a um mero produto da história. Se isto por um lado reafirma a determinação histórica da arte, da espécie humana e de tudo, por outro lado cria um problema: posso gostar de ler romances do XIX, mas detestaria ter de abrir mão dos do XX. Quanto à música, igualmente, se ouvisse só pianos e violoncelos certamente que não seria o eu que agora sou. O que, numa perspectiva futura, leva a perguntar: o que acharão desta nossa arte, desta nossa vida, destes nossos gostos, daqui a cem anos? Com certeza, terão outros "gostos", talvez que ainda gostem dos nossos, mas, tendo outros, serão também outros. E, assim, essa coisa do movimento mostra também um lado destrutivo, com prejuízo para isso que agora somos.

7.10.09

Fichamento

Cansei de perder minhas fichas. Isto aqui começa a virar espaço realmente útil.

[...] há no romance dois ângulos principais que definem a visão do autor e condicionam sua “arte de escrever”: a investigação da realidade como algo subordinado à consciência (esta alçada ao primeiro plano) ou a consciência sendo posta a serviço de uma realidade existente fora dela. Levando em conta tais ângulos de subjetivismo e objetividade, combinados nas mais variadas formas, [Antonio] Candido considera que “as obras mais completas são em geral as que manifestam simultaneamente os dois aspectos da realidade – o interior e o exterior – tratados, porém, como se o romancista houvesse estabelecido com o seu material uma relação de sujeito e objeto”. [...] os escritores em geral alcançam a plenitude quando conseguem passar do subjetivismo adolescente (“que faz da realidade um conjunto de impressões e emoções”) para a análise objetiva (que “reconhece a existência própria do mundo onde o sujeito se insere”), como seria o caso de José Lins do Rego.

[...]

Escreve Suassuna: “[...] eu tenho uma visão particular sobre História. Veja bem, não sou historiador, sou fundamentalmente escritor. Fui muito marcado por Leonardo Mota e por um outro escritor, tido como um autor menor, mas do qual gosto muito, Alexandre Dumas. O Conde de Monte Cristo, que muita gente vê como uma obra de diversão, para mim tem um grande sentido mítico, algo que me toca muito. Vejo o personagem do Abade Faria como Mefistóteles de Fausto, pois ele transforma um jovem e inocente marinheiro no sombrio Conde. Mas o caso aqui é outro livro, Os Três Mosqueteiros. Acontece que os historiadores modernos começaram a fazer uma História baseada em documentos. Tudo bem, eles são importantíssimos, sim. Mas, com essa ênfase nos registros, os historiadores deixam de lado algo muito importante que é o personagem. Só que para isso tem que ser escritor. O grande historiador tem que ter a precisão, a documentação, o estudo, o esforço do cientista, e também a chama do escritor. Sem isso, ele não coloca a pessoa diante do personagem. Por conta de Dumas, eu nunca vi o Cardeal Richelieu como um homem cinzento e abstrato igual aos outros personagens nos livros de História. O escritor tornara o personagem vivo para mim. Estudar História foi fascinante porque eu não a via friamente” (2004; grifo nosso [vermelho meu]).

(Ortega et al. A Literatura no caminho da História e da Geografia. Cortez, 23-25)

5.10.09

Aposta

E um amigo diz que a BR Foods existirá ad eternum. Eu não dou cinco anos para uma nova fusão.

4.10.09

Por um voto nulo

"[...]a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações."

Toda vez que alguém diz que vai votar nulo, aparece alguém dizendo que votar nulo é ruim. Que se as pessoas todas que têm alguma consciência deixarem de votar, o resultado vai ser é muito pior. O primeiro, que desistiu do voto, vira assim um cidadão nulo; o último, que segue acreditando nas urnas, segue também norteando o curso da política.

A imagem parece real, mas só pode ser falsa. Primeiro, porque o voto nulo não transmite nulidade à pessoa que vota nulo. É uma inversão: não somos cidadãos porque votamos; votamos (ou não votamos) porque somos cidadãos, oras. E toda vez que o cara conversa com alguém, escreve um comentário, emite uma opinião, faz projetos, escreve livros, produz arte, movimenta ideias, sai às ruas ou, no limite, impede a circulação do trânsito, das pessoas ou das rotinas institucionais, para descontentamento de reacionários, motoristas e empresas prestadoras de serviços, está norteando o curso da política, talvez mais que pelo voto, além de incomodar as pessoas, o que não deixa de ser bom. Porque o grande mau são as pessoas acomodadas, isso é fato. Segundo, porque o voto válido no mais das vezes não norteia nada, desde que o número de pessoas que vota conscientemente é sempre reduzido. Para não falar que escolher entre três ou quatro candidatos (já escolhidos antes sabe-se Deus por quem) não significa escolher entre projetos diferentes. Eles fazem questão de ressaltar as diferenças e quando elas não existem, mudam-se as palavras (sem mudar seu conteúdo); mas no essencial são sempre iguais. Plínio Sampaio diz coisa parecida nesta entrevista, aliás, uma concessão rara de espaço a esse pessoal radical, que é tudo maluco, né gente?

Este ano foi bom; a avaliação antecipada não deve mudar nestes três meses restantes. Quando achei que não havia mais nenhum campo de ação nem de visão, para aqueles que gostam de fazer e olhar o que estão fazendo, vi novas janelas se abrindo e conheci uma ciência nova, que nunca achei pudesse ser isso que é: a geografia. No Encontro com Milton Santos, de Silvio Tendler, aparece uma fala de José Saramago sobre a democracia. E parecem até ásperas as palavras do português, mas no decorrer do filme (na íntegra, aqui) vai-se além: "[...]a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações", diz o geógrafo brasileiro. Não é só a democracia. É isso em que se tornou toda a nossa vida: uma grande fábula.

Falta ainda um ano para as eleições, pode ser que mude de ideia até lá, mas, por enquanto, por tudo isso, só posso dizer que não acredito mais nesta política das urnas. Mas ainda acredito na vida, ainda bem. Pensando bem, só posso continuar acreditando na vida porque escolhi não acreditar mais neste joguinho sem-vergonha que é a política, que premia nossas melhores esperanças com as maiores frustrações. Eu estou fora.

29.9.09

Das obviedades

Perder o emprego nunca matou ninguém. Morre-se por não achar um.

15.9.09

Morte

Estes tempos de pandemia, gripe etc. tornaram a gente um pouco mais neuróticos. É todo mundo lavando a mãozinha, passando álcool, lendo precauções – que morrer ninguém quer. Ficam duas semanas sem aparecer nas escolas, preservando a vida, e mal as coisas se equilibram, vai todo mundo gastar essa mesma vida em inúmeros sábados de trabalho repositivo e sei lá quantas mais horas ordinárias na linha de produção, cujo limite único são as vinte e quatro horas do dia.

Hoje, senti-me meio mal, nariz escorrendo, enjoo-quase-vômito, febrinha... é a tal gripe, pensei. Vou para casa. E abandonei uma aula de política pela metade, precisava descansar, o corpo doía. Daí, fico até agora pensando no ridículo que é pensar em morrer. Mas gosto da brincadeira, e como também sinto medo, vou brincando a sério, já me convenço de que não passo de amanhã, morte vindo a cavalo, e já que é assim, passo uma última vez pelo supermercado, faço bem em me preparar; se o consumismo é um mal, também sei que pecado não é, e nem compro muita coisa, só o bastante para um moribundo de hábitos simples. É, por exemplo, pegar somente um suco preferido, que é de manga, uma fruta boa com gosto de coisa antiga, que é maçã, e afinal uma bolacha, uns pães, uma escova de dentes. Este último item é que não se explica muito bem, afinal, a escova que tinha em casa estava lá com algumas cerdas meio espandongadas, é verdade, mas se estava só meio ruim, também estava obrigatoriamente meio boa – aguentaria ainda alguns dias, sem contar que morimbundos não costumam enxergar muito longe, nem chegam a pensar em dias, pensam quando muito em minutos, sendo na maior parte das vezes um "ajeite aqui este travesseiro, que me incomoda", "dê-me ali aquele remédio, que me dói", "não me venham com jazigo feio".

E fico assim perdido com a escova na mão, frente à gôndola, que fornece escovas de todos os tipos e bolsos, para tornar os dentes mais brancos e lisos, e talvez ignore que a terra de onde vêm seus componentes não faz questão de dentes fortes ou cariados, devora-os a todos com a mesma voracidade, sem distinção de cor ou tecnologia. Resolvo pela mais barata, não há cerda que não limpe nem se estrague. Saio, chego na casa vazia, sinto-me só, e desgraçadamente feliz. Talvez devesse pensar mais em morte, sem precisão de noticiários.

8.9.09

7 de setembro

Também não fui desfilar ontem. Dia ensolarado, hino nacional, bandas e fanfarras, escolinhas, aluninhos, prefeitinho acenando para o séquito de funcionários públicos que anualmente lhe vão pedir a bênção. A cama preguiçosa e quente finalmente disse um "Fique" mais alto. "Está bem", concordei, vencido e vitorioso.

Não há nada mais estúpido que uma Pátria – esta perigosa abstração. Deveria haver o dia de queimar bandeiras, cuspir em brasões, parodiar o hino, riscar o mapa, abraçar uruguaios, argentinos, paraguaios, bolivianos etc. etc. e saber que, concretamente, não existe nada além de humanidade. E que triste seria um 4 de julho por aqui... Pior que ter uma mentira, é ter uma mentira que deu certo. E mesmo não tendo uma nação que funcione, cá pra nós, dos substantivos abstratos, "país" é o mais concreto. É comum ouvir gente dizer que Stálin foi pior que Hitler, afinal, o alemão matou judeus estrangeiros, enquanto o russo, aaahhh, o cara matou gente de seu próprio país! De longe, a ideia de país, se não for a mais perigosa, é a mais mentirosa das invenções.

Vanusa, v. é linda.

31.8.09

E agora professores das redes estadual, municipal, particular etc. perderam seus sábados até o fim do ano: a maioria das escolas anunciou reposição das aulas perdidas com a gripe. Inclusive a minha. E foi assim que eu disse à minha querida diretora que não topava.




P.S. Se fiz mesmo isso? Bom, na segunda passada, finalmente consegui entregar isto à sra. diretora, que é realmente querida. Após algum tempo, chamou-me para alguns esclarecimentos. Após uma conversinha nossa, acabei convencido de que a versão a ser enviada para a secretaria de educação deveria ser mais light, menos emotiva, por este motivo e mais aquele outro, de maneira que eliminássemos termos como "necessidade de ócio", "cansativa jornada", com alguma hipocrisia, sem tanto atrevimento e antíteses padrevieirianas. E foi o que fiz, na terça. Com que direito posso eu querer ser sincero, íntegro? Seria muita audácia para este tão primitivo estágio da história. E, outra vez, deixei de ouvir o que sentia para dizer somente o que raciocinava.

Sim, mesmo eu, que tento ser só o que sou, o que sou mesmo é um grande bunda-mole.

De qualquer maneira, não trabalharei aos sábados.

30.8.09

Tempo

Num momento quando já não tinha argumentos para explicar o absurdo que aos poucos vou praticando, um bom amigo me falou numa tal oposição entre cronos e kairos. Até nessa hora os gregos ajudam. Eles, realmente, pensaram em tudo:

Para os gregos, cronos representava o tempo que falta para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é kairos: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte!

Gostei muito de ler isso. Acho que começo a entrar numa fase espiritualista, embora cada vez mais crente no materialismo dialético. Vá lá entender.

24.8.09

Antropologia

Sábado, pus-me pra fora do abc paulista e fui à capital, até a praça Roosevelt ver os "120 dias de Sodoma". Não sei se fiz bem em revê-los. Fazia tempo que não passava pelo centro velho. E agora, além das crianças malabaristas, pirotécnicos, limpadores de parabrisas, mendigos enrolados em cobertores imundos – temos novos rituais de contato. Na esquina da Ricardo Jafet com a avenida do Estado, um menino de uns 11, 12 anos, antes do show, subiu na linha branca, olhou-me de frente, levantou a camiseta (só de camiseta num frio do caralho), virou-se de costas, voltou-se outra vez, baixou a camisa, fez um leve aceno com a cabeça e começou o espetáculo. Na Ipiranga com a Rio Branco, um morador de rua aproximando-se de um carro, de novo, mostrou ao motorista que não portava armas na cintura, e só então aproximou-se dos vidros sujos.

Andar pelas ruas é como travar contato com mundos os mais desconhecidos, etnias as mais diversas, costumes os mais estranhos, linguagens as mais absurdas, seres humanos os mais improváveis, relações humanas as mais desumanas. Fiquei perturbado sem saber como responder, ou não responder, se mostrar boa vontade, se me esconder, se expressar menos medo (expressei medo?), se corresponder à confiança, se duvidar das falsas amistosidades, se mostrar que não sou perigoso, dar a moeda, não dar a moeda, viver, morrer, viver, morrer...

Não é pra menos que a gente viva morrendo todo dia. Há muito tempo encena-se uma história da humanidade, com os mais horrendos crimes, hipocrisias e degradações, violentamente apagados pela alegria contagiante e final de quantos carnavais puder fazer a indústria. A gente demora a entender que não deve cantar a música.

22.8.09

Loucura

Um cara vai ao médico, preocupado. Sofre dores no estômago, o médico lhe diz que as causas, além de genéticas ou resultado de alimentação ruim, são agravadas por abalos emocionais, e o homem acredita mais nessa última explicação, tem ele percebido isso tudo, nesta parte do ano quando o movimento é mais intenso no trabalho, está mais estressado. Sabem as causas de sua aflição, ele e o médico, que lhe receita alguma droga. E combate-se o efeito, mesmo sabendo-se das causas.

Que é o homem, que é a sociedade, que é a existência, que é a matéria? Nenhuma pergunta sobre nenhum objeto poderá ser suficientemente respondida sem que se conheça suas origens, suas causas, sua gênese. Muitas das causas dos problemas que afligem um e outros são bem conhecidas, estudadas, comprovadas etc. etc. Mas não se combatem as causas. Só os efeitos.

Certa vez um professor questionou: "afinal, quem é realmente louco: nós ou os loucos?" Não entendi então. Mas agora vejo bem: a loucura é um dado meramente proporcional. Se num dado país a maior parte das pessoas forem loucas, os normais é que serão os loucos. Disso resulta que, num mundo inteiramente globalizado pela insanidade, aqueles que veem percebendo a essência das coisas só podem ser loucos.

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Update 1: Donde se conclui que a sabedoria popular tem de fato alguma sabedoria: "Não estude muito, menino, que isso deixa louco." Ouvi isso do meu avô tempos atrás. E eu só estava lendo a Bíblia.

Update 2: Mia Couto usou no seu Um outro pé da sereia uma epígrafe que há três anos atrás não só não entendi como recusei com nojo. Hoje, entendo tão bem que sinto dentro de mim:

Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;
aquele para quem toda terra é natal já é forte;
mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.
A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;
a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;
o homem perfeito extinguiu o seu.
(Hugo de Saint Victor, monge saxão do séc. XI)

21.8.09

Burrice ortográfica

Quem um dia ler Eça de Queiroz (A cidade e as serras), quando chegar em:

"Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a espingarda de agulha que vencera em Sadowa e fora o mestre-escola quem vencera em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição."

ou vai chegar ao final, compreendendo bem a desconfiança no positivismo, ou, mais burro, como eu, vai se demorar muito, perdendo tempo e vida, empacando (como sói ocorrer aos animais híbridos) naquele pedaço vermelho, em que flagrantemente Eça errou a sintaxe, devendo-se escrever "a quem" em lugar de "quem". Na verdade, o problema todo está na leitura dos dois "fora" que aparecem: sei lá por que(1), li cinco vezes como 'fóra', quando o certo é ler como 'fôra'. Culpa de quem? Minha, que sou burro e não sei das batalhas do XIX. Mas também das reformas ortográficas, primeiro da que tirou o circunflexo desta forma verbal; em segundo, desta última de agora, que também não pôs de volta. E agora Eça já não tem mais culpa, restando os xingamentos para a secreta ligação que une revisores, editores, copidesques, donos de editora e ministros da educação em geral. Aliás, essa reforma foi só mesmo pra realimentar o mercado editorial. O melhor da minha burrice não foi ter chegado ao entendimento só na sexta leitura, mas principalmente perder tempo fazendo um post, que não vai mudar nada. Também, só de burrice, daqui pra frente vou escrever sempre "fôra" erradamente, com acento e tudo, pra me conformar comigo mesmo.

1 - Na verdade, sei, e a razão se deve à combinação de duas circunstâncias: o pretérito mais-que-perfeito simples em geral não é falado, e só raramente escrito; no caso do verbo "ser", é muito mais usado o homônimo advérbio "fóra".

15.8.09

Fora, Sarney!

Taí uma coisa que eu não faço mais. As pessoas que vão pra Paulista, talvez pensem que fazendo isso estão consolidando os valores democráticos e dando um basta à corrupção, como se a corrupção estivesse encarnada em Sarney, como se não fosse estrutural. Por que será que a Folha, o Estadão, a Globo – tudo que é jornaleco não param de falar na corrupção no Senado? Não há corrupção na Câmara? Dizer que a mídia é golpista é demais, mas não dá pra negar que é poderosa e tendenciosa. Mesmo assim, a sociedade pauta suas lutas a partir daquilo que é notícia, sem ponderar que a imprensa recorta um fragmento do mundo, apenas um fragmento. Mas... e o que não é notícia? A concentração de renda, a exclusão e o engodo chamado democracia – baseado em voto, passeatas na Paulista e abaixo-assinados, que nunca resolvem nada – são problemas muito mais graves, mas como não são notícia (nem podem ser, porque fragmentadamente isso não é visível, e mesmo quando noticiada a coisa é vista pela conservadoríssima concepção epistemológica de que o mundo é estático e, além do mais, o modo mais apropriado de ver o movimento é a dialética, e quase ninguém mais lê Heráclito) ... mas como não são notícia, ninguém reclama mais disso. Virou a coisa mais normal do mundo.

Outro dia apareceu uma cidade do Sul aí que, por causa da gripe suína, mandou fechar tudo que era restaurante e boteco, só alguns casos especias puderam abrir. Mesmo os que abriram, reclamavam do fraco movimento: "As pessoas estão com medo de sair de casa, esse mês fecharemos no vermelho, prejuízo, prejuízo." Em nenhum momento alguém lamentou o desperdício de comida que isso representou (e que ocorre em todo restaurante até em situações normais), porque, quando a visão do tema é fragmentada, isso não tem muita importância, nem relação com a fome de outros lugares. Vou assistindo sempre que posso a tevê Senado, agora fazer alguma coisa, tô fora. Fazer o quê, se estamos todos cegos, sem saber o que fazer. E agora a culpa toda é do Sarney, ele é a maior afronta à democracia e à sociedade?

Engraçado ninguém ter dado bola pro caso da PROIBIÇÃO da "marcha da maconha", quer atentado maior à democracia? Proibiram uma marcha! Os maconheiros também são bem burros: é claro que o Estado não vai permitir tão fácil a legalização desse tipo de drogas. Cada lei que for extinta, é a negação de Foucault, uma razão a menos pra existir polícia e outras tantas mais pra não necessitarmos de OAB, Porto Seguro, Cadeados Papaiz e deus sabe que mais ramos industriais. De qualquer maneira, essa é a democracia. Ah, me poupe dessa farsa.

10.8.09

Sobre o PLC 122/2006

Algumas pessoas conseguem explicar as coisas mais complicadas com as palavras mais simples. Não sei como alguém que leia isto honestamente não possa se colocar ao lado do autor. Pra que a humanidade se liberte do seu maior algoz: ela mesma.

6.8.09

Acordei sem sono, eram duas da manhã. Tinha ido dormir cedo, mas nunca tenho muito tempo para dormir, e continuei de olhos fechados, insistente até quando não deu. Quando os abri, vi pelo vidro o balançar dos galhos mais altos de um árvore cuja espécie não sei, tem uns 70 metros de altura, e o vento faz barulho ao mover cada folha de sua copa. Devo morar perto de área de mananciais. E fiquei me perguntando por que não dormia, em vez de constatações inúteis e perigosamente bichogrilosas. Mas logo vi que o céu estava estranhamente claro, coisa rara na cidade, lembrava-me os céus da infância, claros, estrelados, alumiados da lua, tão perto agora. Era um céu escandalosamente decifrável, apesar das nuvens, via-se tudo pela janela. Havia a lâmpada de 500 watts fora do prédio, mas só ela não faria tanto. Distingui vida em cada caule de árvores, vi o branco da nuvem, o azul enegrecido do céu de espaço a espaço. Era um milagre. Abri a janela e percorri o olhar pelo espaço a procura do disco voador, mas não vi nenhum. Só ouvi os metais dos grilos, a sinfonia dos sapos, cães viralatas latiam de tempo em tempo. No mais, o silêncio. Grande. E quis pôr tudo abaixo. Se tivesse o poder de Pyongyang teria mandado tudo pelos ares, detonaria não só minhas ogivas nucleares, mas também as adversárias. Por um momento achei que o planeta viveria melhor sem os humanos.

Mas logo me interrompi. Que pensará o planeta sobre melhor e pior? Que é, de fato, a paz, a tranquilidade e o silêncio das duas da madrugada depois que o último ser humano dorme? Que é vida? Nada, quando tudo dorme. Nada tem importância, senão para nós mesmos acordados. A medida do tempo, a transparência dos cristais, os nomes da fauna e da flora, as medidas do espaço, a demarcação das áreas, as fases da vida, a memória, o homem na lua, a eletricidade, as cores, a aerodinâmica das naves espaciais, a constituição carbônica dos alienígenas, a diplomacia, a bomba atômica, o poder, a verdade. Tudo, absolutamente tudo, das estrelas aos micróbios – é algo que jamais saberemos. Porque toda vez que olhamos estrelas e micróbios não estamos vendo nada além de nós mesmos. O mundo tal qual é deixará de ser nos primeiros movimentos do cosmos, da physis, do universo – sem os homens.

29.7.09

A mãe

No dia 29 de julho, exatamente às 19h47, entrei na cozinha, encontrei minha mãe e perdi algo. Seria um encontro qualquer, mas havia alguma coisa, ela olhou-me sorrindo e enquanto via os dentes, contou-me algo importante e feliz; agitava as mãos abertas no ar. Deus, fossem só sorrisos e mãos... havia brilho nos olhos. Um choque de anormalidade, olhei percebendo bem, alegrias tornando-se estranhas. E resisti ouvindo dois minutos, vendo o que nunca tinha visto, sentindo um estranhamento, um nó na garganta, sabendo a incomum alegria depois das comuns tristezas, e veio a lembrança, de todas a mais velha – e enquanto no chão perguntava sobre o mundo, ela muito alta e jovem explicando –, vi também rugas em seu rosto, vi em seus dedos as marcas do tempo, vi em seus olhos agora pequenos tanta felicidade... Perdi alguma coisa, pensei, pela primeira vez perdi algo realmente importante, como um Paulo Honório que diz, braços sobre a mesa – estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente. Disse qualquer coisa e fugi perturbado ao meu quarto, um aperto no peito. E senti-me no tempo, inteiro, impotente, só. Chorei um choro delicioso e trágico. Devo ter soluçado alto, ela escutou, as mães se preocupam, abriu a porta, indagou se tudo bem. Estava, estava tudo ótimo. Fiquei bravo, então um homem não pode chorar em paz? E essa mania de abrir a porta... Além do que, um homem chorando é sempre patético, não expliquei, ela saiu, nem poderia explicar, porque voltava à minha verdadeira situação, só outra vez. Chorei dez minutos mais, sentindo a verdade, sentindo-me bem, sem saber por que tanto desgosto, por que tantas lágrimas, sentindo-me o mais patético dos homens, sentindo-me mal, sem saber o que fazer, sem saber o que perdi.

26.7.09

Fome

Era uma quinta-feira. Tarde-noite. Chovia. Estava no caminho quando ela me ligou e avisou do atraso. Senti fome: quis muito umas esfihas. Tinha ganhado um tempo, então parei e comprei quatro, e enquanto ia comendo fui gostando o gosto do limão, e olhando o verde do limão, ah...., quis de todo coração uma caipirinha, tinha fome outra vez, mas a fome agora era outra. E já estava na segunda dose, e a vodca nunca foi tão boa, e enquanto ia bebendo, ah... quis beber para sempre... Tinha uma grande fome de beber, mas era diferente, a fome agora, sendo outra, era uma fome de viver. Mas lembrei que amanhã trabalhava. Senti raiva. E enquanto o meu ódio crescia, foi aparecendo despretenciosamente, agora devagar, agora como um raio, um pensamento pequeno e agora ligeiro: e se eu roubasse? Quis muito ganhar sem trabalhar, quis muito prazer sem esforço, quis muito viver sem morrer. A fome agora era outra.

22.7.09

Passei três longos anos sentado em minha cadeira, digitando em meu teclado, olhando em minha tela, dobrando meus joelhos. Sob a escrivaninha, havia um compartimento tipo prateleira, onde incialmente deixei o estabilizador e a quem lentamente fui juntando uma biblioteca de livros insossos, cds inúteis, apostilas velhas, pastas, envelopes e um nunca mais acabar de papéis, textos, fanzines, correspondência bancária, publicidade e muita poeira. Um dia, a prateleira caiu. Ainda tentei voltá-la ao lugar, calcei com caixas, tomei cuidado, rezei – tudo em vão. Estava inflexível. Saiu. E agora posso esticar minhas pernas, endireitar a coluna, encostar meus pés cansados na parede. De fato, só vemos a ruindade das coisas quando as perdemos. Também por isso damos talvez tanto valor a nossos cães, casas, carros, empregos, vidas, amigos e parentes.

24.6.09

Se o universo é feito de música e se, como você afirma, as pessoas são mesmo poemas, me mostre: o que é a poesia?

1.6.09

Felicidade

Agora, ultimamente, tem me aparecido uma sensação vaga de tranqulidade e calma, que se confunde com felicidade, mas que não resiste muito. É aparecer e me incomodar, o que me faz perguntar de onde essa sensação vem, e isso eu sei bem, mas não sei o que ela é. Porque é sempre franzir o cenho, como quem enxota um cão intruso, e perceber que essas sensações boas só derivam de eu estar vivo, e relativamente livre (porque relativamente só), e somente. De resto, é o mesmo inferno que sempre foi.

Preciso trocar de emprego. Odeio adolescentes, definitivamente (ou pessoas, o que dá no mesmo). As contas estão sempre fechando o mês vermelhas – consumismo filhadaputa e inútil. Não ganho na megasena. Não declarei ainda o imposto de renda. Não leio mais meus livros queridos. Não tenho tempo nem saco de ler pras aulas de sociologia e política. Não tenho tempo de apagar emeiols. Não tenho tempo de pensar. E, pra completar, errei a declamação de um poema ontem, sábado, numa feira do livro: quis morrer. Que merda! Que poema filhadaputa do Drummond! Desaparecer assim da memória, com todo mundo olhando...

Também não jogo mais essa porcaria da megasena. E nunca mais declamo poemas. Idéia besta.

Agora só falta o problema das pessoas, das contas, dos impostos e das insuficientes 24 horas do dia. Ora, quem disser que é difícil viver ou ser feliz, simplesmente não nomeou direito seus problemas.