16.7.07

Autenticidade

Há três coisas que não se pode agüentar: bêbado; chulé; e gente que fala sem acreditar naquilo que diz. Não tem coisa pior que ouvir alguém dizendo coisas sem paixão. Ou fazendo qualquer coisa sem paixão. Mas de pseudo-palestrante já tá cheio: tem muito. Do tipo que fala sobre os males das drogas (lícitas ou não), recrimina o uso, o usuário, sua casa, a favela, e é visto em casas noturnas tomando black label com marlboro. Esse tipo de gente anda em alta. Foi-se o tempo do valor das palavras. E da palavra. Bem lembrado pela lulu, a tendência é piorar: cada vez mais a tecnologia, o bate-papo on-line, a conversa instantânea faz diminuir o senso de responsabilidade dos adolescentes de nossos dias. O que se disse há alguns minutos, como scraps velhos de orkut, fica para trás, não tem mais importância. Nem valor.

Perde-se. Perdem-se os princípios. Perde-se um modelo de gente que é hoje raro. Ainda há alguns, é claro. Tempos atrás um amigo me contava sobre um diálogo entre aluno e uma velha diretora, já bem antiga, tradicional, nestes tempos de escola nova, e novas pedagogias. O aluno não gostou da cor do uniforme que a escola tinha dado e reclamava: "Pôxa, mas é obrigado a usar isso?". E a diretora já impaciente: "Não. Obrigado não é. Mas sem ele v. não entra na escola." "Ah, mas a gente tinha que poder escolher... a gente não vive numa democracia?" "Ô, menino, v. nem sabe o que é democracia nem o que é ditadura: eu que já vivi tudo isso não sei bem o que é. Tanta gente passando fome, e você reclamando dum uniforme? V. tá ganhando isso aí de graça, procure o que fazer, menino, xô." Não dá pra não gostar dessas coisas. Ou de gente assim, que sentenciava tempos atrás, sobre um aluno, digamos... complicado, de seu estabelecimento de ensino: "Deve ser hiperativo. Só pode. Que hoje em dia não tem mais esse negócio de indisciplina..." Rude, antigo, mas autêntico.

Foi o mesmo amigo a me lembrar a imagem autêntica, inegável da nossa polícia, ou, melhor, de um setor dela, a Ronda Ostensiva Tobias Aguiar. Inegável até por eles mesmos. Houve um tempo mais sombrio em que um misto de audácia e humor negro até lhes permitia fixar no vidro das viaturas o adesivo: "Deus cria. A Rota mata". Mas o caso mais espantoso foi o de uma entrevista que, segundo consta, após um massacre, o repórter ousou entrevistar os homens. "Que é que vocês têm a declarar sobre essa... sobre esse...massacre? essa chacina? esse monte de bandido morto?" Ao que um deles, sem parar, sem olhar pro lado, semblante fechado, boina a cair sobre a testa, respondeu, sem culpa: "Eles riem da lei. Não da gente". Era a pura verdade. Rude. Dura. Autêntica.

6.7.07

Para umas memórias

Afinal, percebi que o meu lugar tinha todo o tipo de frutas: manga, caju, banana, ameixa, melancia, laranja, limão e até pinha (vulgarmente conhecida por fruta-do-conde). Lembro-me particularmente das romãs. Eram vermelhas, e doces, e boas. Lembro-me de uma avó boa dizendo que comer romã fazia bem pra garganta. E eu, que sofria dores de garganta, achava aquilo o máximo. Devia ter uns cinco ou seis anos.

As mangas sempre tinham cheiro de aventura. Ainda verde, uma manga no alto da mangueira era motivo de escalar, abraçar caules, andar sobre o equilíbrio dos galhos arriscados. Uma manga na mão era logo garapa escorrendo nos dedos, no rosto, no queixo, no peito. Fiapo no dente, por fim. Mangueiras davam mangas, paz e sombras. Eram ensolarados os anos 80 na mesorregião do oeste potiguar.

Algumas informações nutricionais:

a) a manga tem mais ou menos 15% de açúcar, até 1% de proteína e consideráveis quantidades de mineirais e vitaminas A, B e C; faz bem às pessoas com anemia e às mulheres grávidas, porque tem muita concentração de ferro. A ciência diz também que pessoas com cãibras, estresse e problemas cardíacos devem comer manga, por conter potássio e magnésio. A religião, na Índia, de onde a manga é fruta nativa e quase sagrada (como as vacas, o que serve para desconstruir a crendice de que leite com manga faz mal), diz que faz bem ao cérebro, estanca hemorragia e faz bem ao coração (note, perspicaz leitor, que aqui ciência e religião concordam). E, last but not least, a sabedoria popular diz que manga "solta intestino preso". Tem apenas uma semente, também chamada de "caroço".

b) a romã era para os gregos símbolo do amor e da fecundidade, razão por que consagraram-na à deusa Afrodite. Para os romanos, era, além disso, símbolo de ordem e riqueza. Conta-nos outra vez a sabedoria popular que se você carrega três sementes de romã na carteira, não lhe faltará nunca o vil metal. Como a manga, a romã veio da Ásia. Ao contrário da manga, tem muitas sementes, e sementes especiais, pois têm polpa comestível. O suco de romã contém mais anti-oxidantes do que qualquer outro.

Mas, mesmo assim, faltava-me conhecer os doces frutos dos climas frios. Um dia, num entardecer, quase noite, chegou alguém, de muito longe, com fala esquisita, diferente. Nunca o tinha visto, mas logo gostei dele. Vinha do Sul. Trouxe alegria e muitas malas, e numa delas uma fruta desconhecida: maçã. Ainda não tinha visto uma. Quando recebi a minha, reconheci que não era qualquer fruta: tinha pele fina, era delicada, era rara, e era vermelha. Tinha um aroma delicioso, inominável, que nunca mais senti (até hoje me pergunto se maçã tem aroma, de fato). Mordi devagar, mastiguei com cuidado e cada pedaço foi a reiteração de um sabor novo e apaixonante. Foi minha primeira vez.

Nunca mais comi aquela maçã. A lembrança que tenho daquela noite foi ficando na memória. E cada vez que a olho, como para sentir outra vez um prazer antigo, parece que a encontro modificada. E logo me aborreço com a idéia de que alguém mexeu nas minhas coisas. Bobagem, não há nada nem ninguém entre eu e minhas lembranças, a não ser o tempo. E cada vez que as renovo, modifico-as, daí a sensação de estranhamento. E quanto mais as revivo, mais me afasto da realidade que vivi, que queria reviver e que somente reconstruo, à minha maneira. E é assim que as memórias têm sido, por excelência, minhas primeiras ficções, editadas em momentos ociosos, estilizadas pela beleza das coisas envelhecidas, emolduradas pela augusta cor sem-cor do esquecimento.

16.6.07

Disgrafia

Descobri que sou disléxico.

O dicionário diz que a dislexia é a perturbarção da leitura causada pela dificuldade em reconhecer a correspondência entre sinais gráficos e fonemas. Isso explica algumas coisas que me aconteceram. Mas talvez eu tenha um tipo de dislexia ainda não catalogado.

Tudo começou quando a coordenadora foi examinar meus diários de classe e percebeu excesso de corretivo. Até aí tudo bem: organização nunca foi meu forte; caligrafia boa, nunca a tive; e erros em preenchimento de diário são bem comuns a neófitos. O principal é que, mesmo com as tais "rasuras", não deixei passar nada; elas eram a prova de que corrigi todos os erros. E, assim, continuei feliz.

Se até ali esse primeiro sinal não me havia causado impressão, outros dois incidentes vieram como reforço. Postar bobagens pelo orkut é um problema: ainda quando brincamos, percebem o quanto não conhecemos da nossa materna língua. E escrevi, sei-lá-por-que, "expremer" com "x". Por sorte, minha interlocutora era uma gramática, e fui admoestado sem complacência alguma. Ainda tentei argumentar que era um absurdo nossa ortografia fixar a forma "espremer" com "s", se na origem, em latim, se escrevia "exprimere". Mas o que fazia era apenas tergiversar num mundo virtual; na realidade, estava com a pulga atrás da orelha.

Eis que, então, numa sexta-feira quente, quando pensava em pós-graduação em literaturas lusófonas, quando revia velhos amigos de faculdade, quando me inscrevia para o curso do próximo semestre, notei que estava a errar demais no preenchimento da ficha. Ia me inscrever para apenas duas disciplinas e já havia consumido mais de quatro fichas. Ao fim da quinta tentativa, resignei-me. “Isso é dislexia, ou déficit de atenção”, explicou-me uma amiga. Compreendi, não sem alguma perplexidade, que meus erros não são produto do descaso, mas antes efeito de uma perturbação mental. “Mas é uma perturbação especial”, conformei-me.

Leio bem: apenas não escrevo. Pensei então em forjar o termo “disgrafia”, para significar ‘a arte de escrever incorretamente, motivada por distúrbios cerebrais que anulam a formação, a escolaridade e o conhecimento gramatical do indivíduo’. Frustrado, descobri, entretanto, que o termo já existe desde a primeira metade do século XX. E destarte, num só dia, vi que a ortografia e o nelogismo me negavam. Apesar disso, está clara a especialidade que o termo “disgrafia” tem para mim.

Tenho razoável conhecimento ortográfico e, portanto, quando escrevo incorretamente, logo percebo o erro. Mas perceber o erro a posteriori resulta em problemas: para diários de classe, que não podem ter corretivo; para scraps no orkut, que, além de não ser o território da correção gramatical, é o reino do ócio; e para fichas de inscrição, que são sempre extensas e cansativas, gente! De modo que, leitor, perdoe o texto ruim: é obra da disgrafia.

E na ficha de inscrição o país onde nasci ficou assim grafado: “Brazil”.

9.6.07

Orgulho e Preconceito

Da leitura de Orgulho e Preconceito (1813), de Jane Austen (1775-1817), ficou-me: afinal, o preconceito é de Elisabeth e o orgulho é de Darcy, ou vice-versa. Orgulhosos os dois são. Fiquei apenas tentando encontrar o preconceito em Darcy, sem chegar a resultados. Aí, outro dia, esbarrei com o filme nas estantes. Fui ver.

Um bom filme, sim senhor, ambientado no XVIII, figurino muito bem feito (e apesar da bela atuação da bela Keira Knightley, talvez o figurino merecesse mais o Oscar 2006 do que a atriz), perfeita reconstrução de cenários, luxo, pompa, circunstâncias e todas as frescuras mais a que tinham direito. As imagens são bem fiéis ao livro, sobretudo as externas, recriando toda a riqueza em jogo, castelos, mansões, laguinhos cristalinos, extensos campos verdes etc. Os diálogos, ácidos, também lá estão, em sintaxe rebuscada, associação veloz de idéias, lambuzados em ironia o tempo todo.

É claro que a história toda tem um ponto fraco: é romântica. O enredo é irreal. É inverossímel alguém como a personagem principal contrapor-se à sociedade de seu tempo, enfrentá-la, desafiá-la e, ainda assim, casar-se, como se nada fosse, ou como se não fosse aquilo que ela, Elisabeth, mais critica. É claro que ela se casa em condições especiais; casa-se por amor. E, só pra mostrar que o amor vence tudo, exatamente por não buscar isso, casa-se com um homem muito rico. Mas, ora, isso não tem consistência racional alguma. Mas, enfim, é a tal "estética romântica", cuja parte pior é não deixar rolar, nem no filme, muito menos no livro, ato algum de lascívia ou libidinosidade. Nenhum beijinho, nada. Chega a dar raiva.

Em todo caso, se o enredo parece fraco, as personagens não o são. Por isso, vale a pena ver no filme personalidades tão consistentes, como o Sr. Bennet, cuja maior diversão é provocar a mulher; a mulher, Sra. Bennet, cujo ridículo instinto de casar as filhas torna-se irritante: oferece-as aos pretendentes como se fossem putas; a filha, Elisabeth, de personalidade difícil, debochada, subversiva; as outras filhas, que são, de fato, um bando de putas; Sr. Collins, o primo, que é um chato de galochas: vive elogiando todo mundo por onde quer que passe.

Não tem como não dar razão a Elisabeth: "Minha família está claramente competindo para ver quem é mais ridículo." Nem como não dar razão a Jane Austen: era uma mulher à frente do seu tempo. E à frente de muitas pessoas do nosso tempo.

29.5.07

a vida... a vida anda em transportes coletivos

Sim, lá é que há vida.

Mas hoje, enquanto vinha para casa, senti uma sensação esquisita, bem menos engraçada que as habituais. Fui observando as coisas e, sim, eu vi.

Após a jornada de trabalho, o torpor causado pelo stress, as dores criadas pelos cérebros em intensa atividade, as fadigas coletivas nos transportes coletivos, o cochilo roubado ao desconforto, os solavancos imperdoáveis, a garoa pintando de cinza a janela, a janela abrindo às trepidações, a opressão do metal frio às frias mãos, o rosto sonolento em multidão, cinza, frio, opressão – pequenos indícios que nos fazem perguntar: não será tudo um sonho ruim, somente?

27.5.07

Que o autor de Dom Casmurro fosse um chato como pessoa, vá lá. E pouco importa. Escrevendo ele era bem divertido, e ainda conseguiria irritar e agradar, a um tempo, e com uma só anedota, a Proudhon e a Nietzsche, respectivamente.

****

Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, – um triste molambo de mulher, – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.

– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.

– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original, não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me incutisse por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!

Quincas Borba, cap. CXVII

20.5.07

Sobre as causas da violência

As razões da desordem brasileira, ao contrário do que se pensa, não são sociais: são psicológicas. Tudo se pode resolver pela pedagogia. Mas, muito ao contrário do que pensa Gabriel Chalita, que tem um currículo invejável, sim senhor, que é muito bem preparado, sim senhor, que provavelmente nunca entrou em sala de aula, não senhor, não há pedagogia do amor possível. A única pedagogia real é a pedagogia do ódio.

Só se pode incutir valores éticos ou cognitivos mediante uma ação autoritária que resulte em conquista de respeito. Donde se conclui que é melhor ser temido que amado. Aqueles que amam tentarão a todo custo tirar vantagem do objeto amado, ao passo que aqueles que temem servirão o objeto do temor até o limite das forças.

Ora, na educação como na segurança pública, o trabalho é o mesmo. Basta saber que num lado educa-se; no outro, pune-se. E se no primeiro não mais se pune, e se no segundo não mais se educa, é um erro, que somente posso atribuir à decadência dos nossos tempos. Importa agora reconhecer que há crise de autoridade num e noutro lado.

Em São Paulo, com todos os enroscos, ainda se vai razoável nessa matéria, se comparado ao Rio. Que zona se tornou esta cidade! Naquela ao menos não se vê bala perdida a cada dia, gente morrendo o tempo todo, policiais correndo de bandido a cada ação. Parece que a bandidagem paulistana tem ainda algum medo da polícia. No Rio, não. Desafia-se-lhe.

E a razão disso tudo é psicológica. Em São Paulo, as cores das viaturas são preta, cinza e vermelha. São cores fortes. No Rio, as viaturinhas são azulzinhas. E que corzinha bonitinha, adoro azul! Mas, cá pra nós, não bota medo em ninguém.

15.5.07


escrevamos:
uma vida só é útil
se gasta em coisas inúteis.

perdendo tempo em coisas úteis
nem percebemos a vida perdida.

e a vida,
ganhada e perdida,
a vida é pra ser percebida:

que a utilidade mais alta da vida
é perceber a vida não ter utilidade.

11.5.07

Das castas

Em tempos de expansão marítima, jesuítas, viajantes e colonos portugueses indistintamente nomeavam “negro” aos índios brasileiros e escravos vindos da África. A denominação, que hoje nos parece esdrúxula, servia para assinalar a diferença branca do conquistador. Naqueles tempos não convinha aceitar pluralidades, e entender diferenças nunca esteve na ordem do dia, em lugar nenhum. Assim era o século XVI.

Em Goa, outra possessão lusa, a heterogeneidade do indiano ofereceu dificuldades ainda maiores ao entendimento ocidental, que, se não se atreveu a uma classificação racial, resolveu o conflito reduzindo ao conceito de “castas” uma realidade cultural muito mais complexa, ignorando aspectos como ascendência, profissão, diversidade religiosa e origem geográfica. Ao europeu, porém, o que se tinha ali era tão-somente uma rígida e imutável divisão social. Assim eram as castas. E, deste modo, o XVI legou aos atuais países emergentes um misto de memória colonial, atraso e incompreensão.

Até hoje o indiano, pelas suas diversidades, causa problemas. Kanavilil Rajagopalan, lingüísta, professor da Unicamp, de origem hindu, conta que, ao fazer nossa carteira nacional de habilitação, apareceu a temida pergunta, “Qual é sua cor?”, ao que ele respondeu, “É marrom”, o que levantou problema para a classificação tradicional. É claro que a atendente não resolveria uma questão secular em tão poucos segundos, mas fez o que era possível: “Qual sua profissão?”, “Sou professor universitário”, “Ah, então o senhor é branco”. E assim é o século XXI. E assim são as castas.

7.5.07

É por isso que odeio as segundas. Hoje acordei com uma vontade terrível de ficar na cama, mas acabei saindo no frio. Nos outros dias, nunca me ocorre pensar nessas besteiras.

2.5.07

Já tive em muitos braços
Alguns laços.
Vários nós.

E quase nenhum eu.

30.4.07

DA REALIDADE

O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! quanta vez a vida nos revela
Que a saudade da amada criatura
É bem melhor do que a presença dela.

Mário Quintana


*********

Bem, podem me xingar, mas, de todas as relações, prefiro as desenlaçadas. Já tenho, cá comigo, muitos nós.

24.4.07

E, ou eu muito me engano, mas acho que tenho cultivado mesmo uma fraqueza em mim. E nem nisso sou forte. E mais e mais acho melhor não ser. Acho que desisti até de morrer. Primeiro, porque sou muito mole pra suicídio. Depois, porque, na verdade, tenho me suicidado sempre: dos trabalhos, dos projetos, e da vida das pessoas. E cada desistência é um luto que enegrece um futuro. E é assim que, faz tempo, o cinza das manhãs chuvosas tem criado a vida nos meus dias.

9.4.07

E, ou eu muito me engano, mas acho que, definitivamente, tenho cultivado bem bonita uma fraqueza em mim. E nem nisso sou forte. E mais e mais acho melhor não ser. Acho que desisti até de morrer. Pros diabos tudo isso! Faz tempo que o cinza das manhãs chuvosas tem criado a grande sonolência dos meus dias.

23.3.07

Do ponto de ônibus
Das minhas manhãs
Vi quando passaram crianças correndo:
seu barulho incomodava os sonâmbulos.

E comecei a ter inveja delas.

18.2.07

Cá por mim, acho que o Big Brother Brasil na TV Senado é muito mais legal: conflitos, imoralidades, picuinhas, armações, trapaças, farpas trocadas e muito mais milhões envolvidos.

14.2.07

“Neste país de funcionários públicos, apenas dois tipos realmente trabalham: os professores e os policiais.” É o que diz – diz e repete – um certo amigo meu, provocador. E eu, que em criança sempre temi a ambos, hoje entendo melhor os primeiros, e procuro não criticar muuuuito os últimos. Pode até ser corporativismo, desconfio. Mas o fato é que esta semana, que pode parecer a ti, leitor, vulgar, vagabunda e sem graça, com os mesmos sete dias das outras, esta semana me deu, pela primeira vez, uma sala, uma aula e 30 pré-adolescentes, de 10m2 aquela, de 50 minutos esta, de 12 anos estes, de ambos os sexos e muuuuuitos hormônios. E eu adentrei aquela sala: embaixo do braço a Gramática do Bechara, a confiança e minhas mais modernas concepções pedagógicas. E deu tudo errado. Ao fim de seis aulas, andei desnorteado pelas ruas de um meio-dia quente. Passados 100 minutos, cheguei esbaforido ao meu quarto. E durante um mau tempo que o sono levou pra me levar, pensei seriamente em toda minha carreira acadêmica até aqui. E, dormindo, sonhei com bolinhas de papel, tiros, viaturas, carteiras arrastadas, correria, desordem, adrenalina, verbos no imperativo, verbos no imperativo, verbos no imperativo...

12.2.07

Hoje, chove. Tédio.

E ontem praticamente não tive o que fazer. Restou-me o consolo de olhar da minha janela o sol pintando, aqui e ali, um verde, um marrom, um cinza de pardais, um multi-colorido de varais. É que as vizinhas penduram roupa todo dia por ali. E na última vez que fui olhar minha janela, talvez procurando alguma delas semi-nua, havia ainda um restinho de claridade no céu, ainda se enxergava um pouco, mas, abaixo da copa das árvores mais altas, um tom escuro uniformizava tudo. Porque até um menino, sozinho, pequeninho, recolhia as últimas roupas, agora secas. Achei bonito. Mal alcançava o varal, tadinho, e precisava apoiar-se na ponta dos pés para pegá-las. As das extremidades, mais altas, fazia-as deslizar lentamente até a metade do fio, de onde as tirava, um trabalhão. Há quem diga que a inocência é o mais belo nas crianças; cá por mim, acho que é mais que isso: é uma paciência preguiçosamente desinteressada que o adulto vai perdendo. Fiquei olhando, assim, com uma vontade imensa de ajudar e uma preguiça enorme de sair. O empate imobilizou-me. E quem me visse acharia que eu estava contemplando o crepúsculo, imagine... coisa mais sem graça.

11.2.07



escrever... sempre alimenta uma paixão.
mesmo pelo estilo triste.
mesmo com desilusão.
mesmo pelo que inexiste,
uma esperança aí resiste.


mesmo no papel de pão.




6.2.07

O aquecimento global, o nacionalismo, a pobreza e o futuro

De acordo com o tal novo relatório da ONU sobre o clima, recentemente divulgado, a chapa vai esquentar pro nosso lado. Tanto, que tem até gente falando numa elevação climática global de 5ºC em 2100. Países e corporações economicamente relevantes têm outras precupações e, no fundo, no fundo, todo mundo quer mesmo é que se foda o séc. XXII. Até lá as geleiras vão derretendo, o nível dos mares vai subindo, secas aqui, ciclones acolá, inundações ali, e por cá, yesss!, em terras tupiniquins, juntamente com os desmatamentos já foram observados os processos de desertificação que cobrem um terço da Terra. Ou descobrem, melhor dizendo.

A idéia de que por aqui não temos catástrofes naturais, apenas-corrupção-inda-bem, vai começar a esfriar à medida que o XXI for se passando. A ONU diz-que em 2050 a falta d’água talvez já atinja 3 bilhões de pessoas. E não obstante “nosso” imenso manancial hídrico, vou ingenuamente desconfiando que algumas serão brasileiras. A seca já é um problema bem conhecido nosso, se não para o lado rico do país, certamente para a região mais pobre e populosa, o Nordeste. E, no final, quem vai pagar a conta inevitável, a gente já sabe, são os mais pobres. Ou seja, não é todo mundo que vai entrar numa fria, com o aquecimento global.

Os mais fortes terão reservado seu lugar ao sol, protetor de pele e água mineral gelada. Se tiver, como diz Gilberto Kassab, algum vagabundo na praia, é só chamar a polícia e liberar a areia. Se aparecer muito pobre enchendo o saco, basta comprar, cercar tudo e fazer um condomínio fechado. É assim que faz Antônio Ermírio de Moraes, que, patriótico, ainda afirma ser um exagero dizer que nosso país é um dos que mais devastam a natureza (“O mundo e o meio ambiente”, Folha, 04/02/07). Pode até ter razão nisso, resta saber se o país é mesmo “nosso”. E mesmo que tenha razão, num momento em que países deveriam se unir para enfrentar a degradação ambiental, sua atitude reflete hoje em dia o que mais se vê mundo afora: o nacionalismo ou a defesa de interesses particulares.

É mais ou menos por aí, como Moraes, que os EUA raciocinam quando não dão bola alguma ao Protocolo de Kyoto: “Que temos a perder? Somos a mais desenvolvida nação do planeta, os aliados estão agora espalhados por todo o mundo, temos um invejável arsenal bélico... Ora, controlem vocês suas emissões de CO2!” E, no fim das contas, se faltar alguma coisa aos ianques, água ou petróleo, já têm um bom motivo para pelo menos uma guerrinha de conquista da Amazônia: Hugo Chávez. E a Venezuela que se cuide.

Quem bloqueia o caminho das grandes corporações capitalistas – e elas não são só americanas – tem grande chance de ser eliminado. A maior preocupação destas organizações não é o bem-estar das pessoas, não é a construção do bem comum e nem tampouco a preservação dos mais diversos ecossistemas do planeta. Seu caminho não é feito por príncipios, os seus passos se baseiam na trapaça, a artimanha é condição para vitória e o lucro é quase individual. É com este espírito que o grupo petrolífero ExxonMobil ofereceu dinheiro a cientistas para que escrevessem artigos colocando em dúvida as conclusões do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change)1. Isso não serve apenas para mostrar até onde vai a irresponsabilidade dos executivos; alerta também que se os relatórios da ONU não servirem para mudar a retórica beligerante das grandes corporações2 e, principalmente, dos EUA, o maior poluidor, não vão servir pra nada, nem pra ninguém. E o planeta que se cuide.

E eu não sei quanto a vocês, mas acho que esta é mais uma boa razão para não ter filhos. O que vimos até agora aponta que esse mundão vai ficar um lugarzinho bem ruinzinho pra viver no futuro. E, como disse Brás Cubas, se os tivermos, aos filhos, será apenas para transmitir “o legado da nossa miséria”. E o disse muito bem, porque esta, sim, é “nossa”.

Notas:

1. O fato, matéria do jornal britânico Guardian em 02/02, convenientemente abordado no mesmo dia pelo reverso, causou a reação de cientistas: “Climate scientists described the move yesterday as an attempt to cast doubt over the ‘overwhelming scientific evidence’ on global warming. ‘It's a desperate attempt by an organisation who wants to distort science for their own political aims,’ said David Viner of the Climatic Research Unit at the University of East Anglia.”

2. Não é de hoje que a Exxon tenta sabotar o trabalho do IPCC. Veja-se a reportagem da Folha de 02/09/02.