26.2.08

Despedidas

Eu sentirei falta do Fidel e seus discursos. Pronto. Falei.

19.2.08

Sobre as restrições ao tabaco

Cá na província brasileira, desde fins da década de 80 uma série de medidas restringindo o consumo de cigarro foram adotadas. E como a maioria das leis, não funcionam. Já se obrigou a escrever advertências no maço, já se proibiu propaganda em rádio e tv, já se vetaram os patrocínios a eventos esportivos, já se chocaram pessoas com ilustrações sobre os danos do fumo e, agora, desde a semana passada, São Paulo já tem lei municipal (até justa) contra o fumo em locais que não tenham área reservada para tal prática perniciosa (detalhe: a lei é de junho de 1990). E ainda estuda-se encarecer o produto com impostos. As autoridades paulistanas, porém, não foram tão radicais quanto as francesas, que em 2007 proibiram o fumo em bares, restaurantes, cassinos, discotecas e o diaba-quatro de maneira ampla, geral e irrestrita.

Estas leis podem até ser justas, podem até reduzir o consumo, mas nunca vão eliminá-lo, simplesmente porque os fumantes não são todos iguais. Existem quatro tipos de fumante: os radicais, os moderados, os culpados e os convictos. Os mais perigosos e inconvenientes são os primeiros, que não têm bom-senso, compram marcas falsificadas e fumam quatro maços por dia. Cigarro mais caro talvez vá duplicar esse grupo que fuma os paraguaios. Os moderados, caracterizados pela drogadicção de fim de semana, são os mais sem-vergonhas, porém os menos inconvenientes: estes não devem ligar pra cigarro caro. Os culpados são os mais chatos: ficam a se lamentar do vício a toda hora, e irritam até os próprios parceiros, a quem tentam transferir parte de suas neuroses. Saindo a nova lei, têm uma boa razão pra parar, e isso vai ser bom pra todos, todos mesmo. Os convictos são uns poucos que ainda resistem, ainda rebeldes, mas já cansados, já com dúvidas, já sozinhos, ante a marginalização contínua a que vêm sendo submetidos. Não sei como o cigarro caro afetará esse último grupo, mas, para um bom fumante, creio que o ideal seja uma mescla de convicção e moderação. Às vezes, me dizem, “Nossa, mas v. fuma tão pouco, por que não pára?”, ao que respondo orgulhoso, “Mas não fumo pouco com intenção de parar. Fumo pouco para fumar a vida toda.” Afinal, a humanidade usa droga há séculos e no curto espaço de tempo em que vivemos alguém tem de manter acesa a brasa da rebeldia e da tradição. Ainda que fumar cause infarto e morte, olhar a questão pela perspectiva histórica vai nos mostrar que isto é um nada.

O grande problema é outro: ir pro céu e não ter área pra fumante lá, isto sim é que será o inferno.

11.2.08

Antero de Quental

Antero de Quental, líder da geração de 70, poeta, político, revolucionário, símbolo do realismo português, em 11 de setembro de 1891, em profunda depressão, suicidou-se com um tiro na cabeça, numa praça pública, romanticamente, com toda a ironia que este romantismo represente para um realista. E, coincidentemente, nestes dias de conversas sobre tanatologia, uma amiga me falou sobre o Parnaso de Além-Túmulo, um livro publicado em 1932 por Francisco Cândido Xavier. Melhor, trouxe-me. Recebi com o gesto de desprezo que o meu discreto ateísmo recomendava. E quando abri suas páginas... meu deus! Uma enxurrada de poemas psicografados pelo médium por volta de 1931. De Casimiro de Abreu a Augusto dos Anjos, passando por muitos nomes significativos da poesia luso-brasileira. Fui logo a Antero de Quental, Guerra Junqueiro e a turma toda que, enquanto vivos, viveu descendo o cacete em tudo, sobretudo em Deus. E foi impressionante.

O Remorso

Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.

Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!...
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: –

“Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo?”

Ele riu-se e clamou para meus ais:
“Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!”

Este soneto foi atribuído a Quental. Eu não sei o que gente que entende muito de literatura vai achar disso, mas pra mim, de significativo em termos de conteúdo, chamou-me a atenção a referência ao suicídio do autor e ao corvo de Edgar Allan Poe. Quanto à forma, é indiscutível a qualidade do soneto: vocabulário erudito, métrica perfeita, rimas ricas, talvez raras. Indubitavelmente Poesia. Quanto ao conjunto formado pelo livro, só sei de uma coisa: duvido, duvido muito que do alto de seus 21 anos de idade Xavier tivesse bagagem cultural suficiente para criar, sozinho ou com ajuda de amigos, algo tão engenhoso, poemas tão bem acabados e a um tempo tão singulares que nos permitem identificar realmente os traços estilísticos de um Castro Alves, de um Alphonsus de Guimaraens, de um Cruz e Souza. E embora isso não me tenha convertido ainda, confesso-vos que estou besta. Volto ao assunto quando concluir a leitura.

1.2.08

Uma história sobre histórias

O Cemitério São Pedro, situado na Vila Alpina, abriga, entre muitas histórias trágicas, um caso singular. Em 1974 treze corpos foram enterrados lado a lado. Eram parte dos 179 mortos do incêndio ocorrido no dia 1 de fevereiro, no Edifício Joelma. O que diferencia estas treze almas é o fato de que, por terem sido carbonizados, não puderam ser identificadas. Grande parte dos sobreviventes, mais de quatrocentos, escaparam do prédio em chamas graças ao elevador e aos denodados ascensoristas. Mas, após diversas idas e vindas, o sistema dos elevadores foi afetado pelo incêndio, causando a ruptura dos cabos e a posterior carbonização dos seus treze ocupantes.

Fui até lá esta tarde. Encontrei o seu João. Há mais de um ano, seu João, funcionário do cemitério, faz a manutenção do local, que além dos túmulos, conta com uma capela erigida em memória das treze almas. Uma infinidade de faixas, placas de mármore e flores rodeiam os jazigos. Na maior parte, agradecimentos por graças alcançadas. “Quem não acredita, que não caçoe!”, é o que adverte uma das devotas visitantes que encontramos no local. Já alcançou uma graça, tem fé que alcançará uma outra que necessita, e fala com a naturalidade daqueles que vêem a existência das coisas inverossímeis e a certeza de nosso desconhecimento da verdade. Uma outra senhora relembra o dia, quando tinha 17 anos e, trabalhando defronte ao edifício, viu e ouviu as cenas e os gritos de terror. Lá pelas tantas, lembra ao seu João que é importante “regar” os túmulos. Explica o porquê: quem morre carbonizado sente muita sede.
Então seu João percebe como tudo faz sentido. Conta-nos que, ao tempo em que era coveiro, sepultou uma criança cujos pais não tinham dinheiro. Assim, ele por conta própria plantou umas flores e, mal passou o tempo, já lá havia um pequeno jardim sobre a cova. Mas o fato intrigante é que, pouco tempo depois do sepultamento, um menino aproximou-se dele e pediu um copo de água. Seu João deu-lho. Mas era o mesmo menino que havia sido sepultado! Quando os pais finalmente voltam para visita, surpreendem-se com o túmulo tão bem cuidado, e ao descobrirem quem foi o responsável, alegram-se e conversam. E enfim revelam ao coveiro a causa mortis do filho: fogo.

Esta foi uma tarde que precisa ser refeita.

É claro que acredita quem quer. Mas há a lição de Alex Castro sobre uma de nossas prisões: que importa crer ou não crer? Boas ou más, crenças e descrenças sempre limitam as visões. E o que se colhe do contato com as histórias alheias, ou do além, é sempre a beleza da experiência humana, diversa, prodigiosa, incomum. E transcendente. Porque estas histórias estarão sempre acima das idéias e conhecimentos ordinários.

31.1.08

Praia do Sono

No município de Paraty, extremo sul do Rio, há um coletivo que faz o percurso de uma hora do centro da cidade até o condomínio Laranjeiras, com fama de “o mais sofisticado do Brasil”, quiçá da América. Nos meses quentes é para lá que vão Antônio Ermírio de Moraes, os Maluf, os Camargo (da empreiteira Camargo Corrêa), e outros, e vão de helicóptero. Como a gente não tem um, uma vez no Laranjeiras seguimos a pé pela trilha de uma hora que leva à Praia do Sono, nosso destino. Era réveillon.

















Confesso ter me surpreendido com a natureza conservada do lugar, levando em conta a quantidade de gente que o habita (imagino não passar de 200 pessoas). Sem energia elétrica, sem escolas, sem estradas, meio que sem perspectivas, e ainda sofrendo diversas pressões para se retirarem do lugar, os habitantes resistiram e transformaram o terreiro de suas casas em quiosques, cafés, pequenas mercearias, áreas de camping, e sobrevivem do turismo. Pensando em inovação, desenvolvimento sustentável e proteção às matas, achei até um bom exemplo de exploração do potencial ecoturístico brasileiro. Não? Não. Nem todos pensam assim.
A mata atlântica é o bioma mais ameaçado do país e o segundo mais ameaçado do mundo; só perde para as já quase inexistentes florestas de Madagascar, no sudeste da África. Em 2006, após dura luta com a bancada ruralista, foi aprovada a Lei da Mata Atlântica, que regulamenta o uso e a proteção da floresta. A lei é ambígua. É boa, mas deixa a sensação de que veio tarde – não só porque passou quatorze anos em trâmite pelo congresso, mas principalmente porque hoje restam só 8% da configuração original da mata – e a desconfiança de que não será cumprida. Mesmo antes dela, no fim dos anos 80, o dono do Hotel Glória, Eduardo Tapajós, queira-porque-queria construir na região uma mansão em estilo palafitiano, metade na praia metade nas águas do mar. A Marinha vetou o projeto, claro. Mas Tapajós era amigo do Sarney, que ajudou a derrubar o embargo, e o bangalô foi construído. Para leis contrárias, nada como o tráfico de influências.

Esta nova lei diz que “é vedada a supressão de vegetação primária para fins de loteamento e edificação”. Se os condomínios detiverem sua expansão, talvez continuemos a contar com este um décimo de mata para as futuras gerações. No entanto, os moradores da Praia do Sono constantemente se queixam de assédio. Embora a maioria não queira sair, alguns moradores venderam suas propriedades, e o Laranjeiras parece ter ampliado seus limites nos últimos tempos. Agora, pensemos: lá existem trezentos lotes de mil metros quadrados, mas a maioria dos proprietários tem mais de dois lotes; cada lote custa aproximadamente trezentos mil dólares; um terço do IPTU arrecadado pela prefeitura provém do condomínio (embora nos seja leviano afirmar que haja elementos favoráveis ao tráfico de influência); uma diária no Laranjeiras custa mil reais em baixa temporada. Supondo que o negócio esteja rentável, o que um administrador de condomínio de luxo faz: respeita a lei ou amplia lotes para venda? Pelas trilhas, já começam a aparecer algumas placas.

O fato é que o modelo desenvolvido pelos caiçaras não agrada. Parece haver um incômodo muito grande em relação ao público recebido, que fica “perigosamente” próximo de uma elite que quer ter exclusividade na contemplação das últimas belezas naturais do país. Soaria quase ridícula essa suspeita, não fosse haver gente como a ambientalista Adriana Mattoso, que há alguns anos apelidou esse turismo de durismo: “o durista de mochila, miojo e drogas tem que ser redirecionado para bem longe...” A adjetivação marginal vem a calhar para fundamentar a exclusão dos indesejados, só não garante a exclusão dos turistas desejáveis do ilícito grupo consumidor. Talvez o problema mesmo seja a combinação mochila-miojo. Faz sentido capacitar a comunidade, profissionalizar os serviços, recuperar a arquitetura caiçara, implantar trilhas, elevar as tarifas, já que o fim último é receber um turista de altíssimo nível. Porém duvido que essa reestruturação não leve a mais desmatamentos: o turista de alto nível jamais aceitará o nível primário de conforto que os duristas adoram. Em todo caso, para nós, pés-rapados, parece estar chegando a hora de desarmar as barracas.

14.1.08

Isadora Ribeiro de Alcântara

Isadora Ribeiro de Alcântara, 32 anos, dentista, tinha uma angústia, uma aflição, um diabo dum negócio que apertava a garganta. Daí que hoje, chegando em casa, não guardou compras, não tirou sapatos, não checou emeiols, não alimentou a calopsita, não tomou banho, não deu aquela cagada, não nada. Caiu-se no sofá, e foi pensando naquelas indecentes marcas de batom encontradas ontem à noite na cueca do marido. Que obviamente não eram dela, ora. Tinha tanto horror a sexo oral, que não facilitava, e ia mantendo seus lábios sempre acima da terceira vértebra lombar. Alegava motivos religiosos, mas a desconfiança do marido, e minha também, é que assim ganhava terreno na defesa de seu próprio cóccix. Quando ele finalmente chegou da faculdade (era professor), pudera!, estranhou aquele desmazelo: “Amor, tá tudo bem?”, “Hein!”, e levantou-se sobressaltada, baixando a saia que subira até a cintura, “Sim, cochilei”, foi o que respondeu, e mais não disse, foi levando pra cozinha as porcarias congeladas que tinha trazido. O marido que preparasse a janta, ele adorava cozinhar, isso todos sabiam. Jantaram em silêncio. Dormiram.

No dia seguinte, que seria amanhã, mas como chegou agora fica sendo hoje, Isadora acumulou funções, obturando dentes e planejando uma vingança cheia de inteligência, cálculo e acessórios digitais, no que resultou em algumas gengivas cortadas e na obturação de um dente que não precisava. Quando despediu-se do último cliente, que sentia estar com a boca torta (e estava mesmo), o telefone tocou, e era ele avisando que precisavam conversar em tal lugar, mais para ali, entrando à esquerda depois daquele motel, fazendo um gato pra pegar o retorno e outras infrações que ninguém multa, nem mata ninguém. Foi. E lá ele confessou ter um caso e querer o divórcio. Era só o que faltava. E Isadora passou anos a se perguntar de onde teriam vindo as marcas de batom, já que, como depois veio a saber, ele tinha mais era ido morar com um aluno por quem se apaixonara, menos pelas idéias brilhantes do que pelo corpo adolescente e os ideais de ateísmo e revolução social. Tão românticos e belos.

8.1.08

Para esquecer

Ontem acordei com pé esquerdo, outra vez. Inacreditável: furtaram-me um livro enquanto sacava grana no caixa. Pra ser exato, um livro, uma agenda novinha e os três números da versão tupiniquim de Ex Machina. Mas o pior é o livro: a leitura pela metade, meu deus. Uma mistura de angústia crescendo pelo peito, queimando as fossas nasais, olhos que se umedecem, vontade de chorar, e uma raiva dos diabos. Porra, roubar livro, a que ponto chegamos! Inda bem que hoje já foi melhorzinho.

Mas... o que ninguém me tira da cabeça é que podiam ter me roubado a carteira, ah bem que podiam, sim senhor. Mas não. Já não querem nossas carteiras; agora, querem nossas almas.

4.1.08

Microconto roubado da página 73 da História do Cerco de Lisboa

Fizeram-no passar para a sala de espera da direcção e ali o deixaram ficar mais de um quarto de hora, o que serve para demonstrar a vanidade de temores que pouco têm de pontuais.

3.1.08

Micros

Difícil levantar: acordou, sentiu o sol, até ouviu automóveis, mas não conseguia ver nada. Aí lembrou: morto. Cemitério da Consolação.

2.1.08

A cretinice, os internautas e o problema em se ter amigos

Eu tenho que falar. Há um grupo de pessoas que são, decididamente, imbecis. Sua incapacidade não se deve a uma perturbação do desenvolvimento físico, considerando a quantidade de emeiols cretinos que elas conseguem enviar por dia, nem tampouco intelectual, já que sabem exatamente o que estão fazendo. Sua idiotice é, antes, uma consciente escolha, uma decisão, e é por isso que são decididamente imbecis.

Surgiram no Brasil na segunda metade da década de 90. Primeiro, por emeiols, espalharam sua estupidez em correntes, burrice lúdica que consiste em gastar o tempo fútil dos néscios. Contudo, sua maior contribuição foi, paradoxalmente, filosófica, quando, num atentado à religião, suscitaram dúvidas metafísicas tais como “Terá acesso a emeiol a Virgem Maria, para me castigar, caso eu não repasse essa mensagem?”

A palurdice não se restringiu a superstições fundadas em espiritualidades toscas. Não tardou assomar às caixas de entrada emeiols com eslaides anexos, marcados por algumas dezenas de encaminhamentos. A literatura e pintura kitsch nunca tiveram tanta força. Ilustrando paisagens bucólicas, mensagens bestiagas, ababosadas, extraídas de livros de auto-ajuda, principiaram a atoleimar a rede mundial. E as pessoas iam lendo aquelas porcarias sobre o amor e cultivando o ódio por aquelas planícies, cachoeiras, naturezas-mortas.

A canalhice era evidente. Logo ficou claro que aquilo que vinha nos anexos, de autoria duvidosa, em nada correspondia à sinceridade do remetente. Muito poucas vezes havia algo de sua autoria expresso nestes emeiols. E quando havia, restringia-se a algo como “Muito legal!”, apenas. A superficialidade de tudo é que é ainda mais flagrante. Somente o sentimentalismo débil justificaria a reunião artificial de diversos destinatários num mesmo emeiol expressando os mais altos votos de urbanidade, a cada dia, a cada semana, a cada mês. De resto, uma tontice.

Depois, na década primeira do século XXI, quando descobriram o orkut, a toda sexta-feira alguém deixa um scrapt: “Bom final-de-semana!”. Que é pra começar a estragá-lo. É claro que eu não vou dizer tudo isso aos meus amigos que gostam de receber e encaminhar emeiols, porque, embora não pareça, eu gosto dos meus amigos. Mas daqui pra frente, quando eu estiver puto com eles, venho aqui e desabafo. É isso.

Agora, pensando bem, eu também acho que, se tenho amigos assim, o problema talvez seja só meu. Lembrete: rever os critérios para aquisição de amigos.

19.12.07

Luiz Biajoni e o Sexo Anal

Se v. ainda não comprou presente de natal, se gosta de ler e de dividir leituras, se está procurando alguma coisa nova, gostosa, genial até... ora, dê um livro, cara pálida. É verdade que o material livro está cada vez mais desmoralizado, mas haverá sempre alguém escrevendo, e escrevendo bem, como Luiz Biajoni.

O site Os Viralata é quem recomenda sair do óbvio e presentear com literatura independente. E lá está à venda o... best-seller não, que o autor não é desses... mas o maldito Sexo Anal, um romance, ops... uma novela que primeiro foi disponibilizada como e-book, e que agora sai empapelada numa edição comemorativa pelos dez mil down-loads e pelas dezesseis rejeições de editoras. E vale a comemoração. Existem livros raros: livros pra se ler gozando. Sexo Anal é assim. Além dele, lá se encontra Virgínia Berlim, o segundo livro do Biajoni, que traz um cd com a trilha da história, além de outras diferenças mais significativas. Não vou fazer crítica, primeiro porque já fizeram muitas, e bem feitas; segundo, porque agora tenho preguiça. Enfim, leia.

15.12.07

Um soneto de Vicente de Carvalho

Velho Tema

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Gosto desse tipo de poesia velha. Talvez eu seja burro demais pra entender a arte moderna ou a física quântica, mas não sei de onde veio essa idéia de que os parnasianos sejam menores. Deve ter algo a ver com o stablishment. E com a gente otimista que quer ser feliz. Mas, gostem ou não dos pessimistas, a turminha do Olavo Bilac disse muitas verdades.

Uma coisa, por exemplo, é essa busca infindável pelas coisas inacessíveis. E, pior, por caminhos clandestinos. Não tenho nada contra a clandestinidade, até acho bem poética a atmosfera escura e suja dos porões secretos, mas... a clandestinidade tem de ter um propósito concreto. Não o idealismo cego. No entanto, os riscos a que nos submetemos todo dia tentando conquistar sei-lá-o-quê são tão grandes, que nem os vemos, e mal vemos aonde e onde vamos, inda mais quando o que se põe em jogo é a integridade física ou psíquica. Não vou nem falar em moral.

10.12.07

O Brasil é um país, uma nação e um povo. Um país é um território habitado por um conjunto de pessoas com uma história própria. Durante muito tempo se pensou o contrário, mas hoje sabemos que uma nação é um grupo político independente cujos membros não precisam ter, necessariamente, a mesma origem, língua, religião ou suposta raça. É justamente com suas muitas origens, línguas, costumes e tradições que se pode definir o povo brasileiro e sua história. Assim fica boa e bonita esta definição.

Mas.

O país é sempre um futuro, que não vem. A nação é para sempre o produto do passado colonial, a um tempo vergonhoso e glorioso. E o povo é sempre povo. Sempre povo. Sempre marcado do passado. Sempre esperançoso do futuro. Sempre alheio do presente, da política e da História.

4.12.07

Diálogo entre espírito e matéria

– Pois é o que eu digo. Há luz no fim do túnel. Sim, senhora. Há esperança para o mundo. O que vivemos é o retorno a um ciclo de espiritualismo, que está sempre a se alternar com ciclos materialistas ao longo da História. Cai um tempo de fé, levanta-se um tempo de materialidade; cessa um tempo de ações, acende-se um tempo de orações. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

– Pois sigo dizendo que não é assim. Não. Não há esperança. O que vivemos é o início de um ciclo sem precedentes, porque não há, a rigor, alternância de materialismo para espiritualismo: há consubstanciação. O espiritualismo, transformado em produto e, assim, materializado, é mais uma faceta das sociedades de consumo do mundo pós-capitalista. E a luz que o senhor vê, ao fim do túnel, nada mais é que o fogo do inferno! Não lhe faltará combustível. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

1.12.07

E os meus avós vieram passar o natal em casa. E vieram da região oeste de um pequeno estado do nordeste brasileiro. E meu avô, que dos seus 77 anos não gastou nenhum na escola, vez por outra solta uns vocábulos desconhecidos:

– Que que é aribé, vô?
– É um tipo de aguidar.
– Mas que que é aguidar, vô?
– Ora-mas-na-verdade, é um tipo de vasilha! E, home, vamo parar com essa conversa que já tá desenxavida demais.
Desenxavida?
– Sem graça. E v. fez faculdade, foi, meu neto?

25.11.07

Somente muitos minutos mais tarde é que você, relutante, vai aceitar a existência das coisas fantásticas, quando, guardando cerveja na geladeira, deixa uma delas cair. Milagrosamente, a longuinéque não se quebra. E eis que, ainda a duvidar da normalidade, e mesmo pressentindo a sobrenaturalidade assombrosa das coisas imprevisíveis, segue produzindo diálogos desta natureza:

– Ah, não quebrou, menina, mas isso não é possível – e beija a chapinha de metal –, devia mais era ter quebrado: eu NÃO posso fazer isso com você! – e faz um cafuné no rótulo.

Espero que seja apenas alcoolismo. E não insanidade total e irreversível.

21.11.07

Dúvidas e certezas

Não, dessa vez emaluqueci. Tô aqui, bem, tudo bem, com quase tudo, oxigênio, calor, algum espaço com alguma lama para chafurdar, mas... é estranho. Parece tudo bem, mas tô com aquela tal comichão no cérebro aliada a um apertãozão no peito, fundo, melancólico, de nostalgia, sei lá do quê, de alguma coisa que eu ainda não conheço.

Não é pela morte de ninguém: nunca levei ao cemitério nenhum ente querido. Talvez por isso até acho romântico andar em câmera lenta, por entre catatumbas, em silêncio, ouvindo Atmosphere. Também não é por desilusões amorosas: já estou velho e maduro, e isso é coisa pra adolescente emo. Não é pela solidão nem pela tristeza: conheci que ser feliz é aprender a ouvir a beleza que existe no silêncio. Trauma de infância não pode ser: pobre não tem infância. Não, definitivamente, não é isso. Parece ser alguma coisa que eu ainda não vi.

Talvez seja liberdade.

Estremeço ao pensar nisso. Porque, realmente, é isso. Estou preso. A pensamento e lógica que me faz soar irracional se os contradigo. E, ironicamente, quando digo o que penso a seriedade me abandona, e fico a sós com um cinismo que me marca como louco. Como um louco que diz o contrário do que pensa. E já nem posso acreditar em minhas crenças. Que meu fascínio não é pela vida, é pela morte. Que meu encanto é pelo choro, não pelo riso. Que não vejo nos casamentos a beleza que aspiro nos divórcios. Que meu conceito de amor é uma piada. (Muitas vezes, quando a tarde começa a cair, e sombras de árvores se espalham no chão, e olhos brilham, e suspiros balançam no ar – ama-se tanto, que se vêem coisas visíveis e invisíveis, muito mais no amanhã que no hoje, muito mais no céu que na terra, muito mais cupidos vendando que cupidos vendados, e quando se dá conta se está com febre. Ou ensolação. E a única saída, ou cura, é passar a odiar o objeto do amor. Ser amado então é um perigo no escuro. É por isso que eu amo muito mais as pessoas que me odeiam – porque conheço-as.) Mas estou indo longe demais. Volto.

Volto à razão. Já agora nego a negação que professava.

E sigo acreditando que só há uma crença a seguir, só um norte a buscar: felicidade. É, sim senhor, felicidade. Honestamente, felicidade é a melhor e mais simples coisa do mundo – felicidade é ter um bom espaço de lama para comer, defecar ou chafurdar nas horas quentes do dia. Porque fora do chiqueiro é perigoso, prende-nos a seu interior a corrente da razão. Mas com espaço suficiente para caminharmos em círculos, desenhando à vontade pensamentos altos, livres, no piso enlamaçado da prisão.

20.11.07

Outra vez a tal da arte...

Sabe quando te falam daquele livro, daquele filme, daquela música, que é clááássica, e v. ainda não leu, não viu, não conhece? E ficam dizendo e redizendo sobre a genialidade, o estilo, a belezura que é a obra e o autor? E sabe quando, enfim, v. acaba aceitando, meio sem jeito, uma recomendação, um empréstimo, uma companhia para a tal contemplação da arte? Pois é. E tudo para, ao fim, restar a frustrante sensação de desgosto por não entender como o mundo elevou tão alto algo que te causou unicamente sono.

Foi mais ou menos assim que li todos os meus Shakespeares: Lear, Macbeth, Hamlet etc. E já que acontenceu isso, achei bom criar alguns mecanismos de defesa: 1) nunca dizer nada a ninguém; 2) caso diga, anexar alguma desculpa. Exemplos: a) li em um mau momento da vida; b) traumas de infância me bloqueram; c) não curto este gênero artístico etc. Pro caso do Shakespeare, dava sempre a última, e ainda atribuía culpa a Chico Buarque e Paulo Pontes, que escreveram em 1975 Gota d’Água, primeiro item de uma enfadonha série dramática que vim a ler por obrigações curriculares.

O diabo é que passeando pelo Rio num feriadão chuvoso e frio, sem muita opção, acabei assistindo-a, encenada ali na Glória, do ladinho do hotel homônimo. E não é que foi uma beleza? Inspirado no drama grego Medéia, de Eurípedes, e adaptado à experiência capitalista que em mãos militares aprofundou a concentração de renda no Brasil, o musical é de fazer rir e chorar: o empobrecimento da maioria financiou o milagre econômico e possibilitou o desenvolvimento da classe média. Mas faz pensar. Porque a obra não credita o estrago social unicamente à ditadura militar. O foco está no processo de cooptação dos melhores quadros, dentre os proletários, para servir ao jogo econômico do tupiniquim burguês.

Sempre que um cara menos bichado
surge aqui, pagam seu peso em ouro
pra levá-lo embora. Resultado:
mais negro fica este sumidouro
mais brilhante fica o outro lado
e o seu carnaval, mais duradouro

E a verdade esteve sempre aí, explicando como os opressores foram enfraquecendo os oprimidos e ganhando a guerra (que, aliás, tem um espólio nulo, porque resultou em miséria e exclusão de uns, intranqüilidade e neurastenia de outros, e num caos social comum). Ingresso: 25 réis (e pra meia entrada não pedem carteirinha em momento algum). O filho da “Medéia” cometeu dois erros: desafinou cantando a música do pai; deixou ver que continuava respirando depois de morto. E, segundo um amigo gramático, o excesso de ênclises em algumas bocas ficou irreal. Enfim, nem tudo são flores, mas gostei.

O que me preocupa é que agora minha desculpa foi por água abaixo. É melhor não dizer mais nada sobre o bardo inglês. Falarei somente de dramaturgos caboclos daqui pra frente.

8.11.07

Coisas de que desconfio

Desconfio que a ética não se perdeu somente na esfera estatal brasileira. O universo das empresas privadas é alimentado por um fluxo de lama onde chafurdam os mais irritantes, cínicos e mesquinhos interesses. Como se não bastasse a má qualidade dos serviços, as dificuldades com conexão, o congestionamento das centrais de atendimento, as orientações contraditórias, a ausência de uma agência reguladora, características relativas a qualquer provedor de internet, o meu aperfeiçoou seu nível de imbecilidade. Ao ligar, além de admitir que suas linhas estão muuuuito ocupadas, eles chamam-nos deliberadamente de trouxas: Caro internauta, estamos com um grande volume de ligações. Entre em contato conosco via chat ou pelo emeiol suporte@... Porra! Quem liga para o provedor, liga para resolver algum problema ligado à conexão com internet. Então, como acessar chat ou emeiol? Isso é quase loucura. Mas desconfio que a loucura maior seja a gente ir tacitamente permitindo que o fim único e exclusivo das empresas seja, de fato, o lucro. E assim elas vão-se isentando de coisas como o respeito ao consumidor, a responsabilidade social e o dever de gerar empregos para o progresso da nação.

24.10.07

O Senado Federal em 24 de outubro de 2007

Realmente, o cenário político brasileiro está desolador. Já nem mais pela corrupção, já nem pela inépcia, já nem pela descrença generalizada. Refalar o mesmo é o pior. No entanto, o que se vê dia a dia é a mesma lenga-lenga do governo, que nunca na história desta república fez tanto como fala que fez. A oposição não fica atrás, e é a mesma lenga-lenga de que o governo atual só vem mantendo as bases e programas do governo FHC.

Ainda bem que ainda restam os políticos folclóricos. Mão Santa (PMDB-PI) é um espécime em extinção. E dá gosto vê-lo, seja no plenário, seja na presidência do Senado. Hoje fez três coisas dignas de nota: a) citou Fernando Pessoa como o nariz, dizendo que "só não vale a pena, se a alma é pequena"; b) alertou o petista Eduardo Suplicy sobre o risco de cair numa "emboscada tucana", quando este em meio ao discurso cedia a palavra aos senadores Arthur virgílio e Flexa Ribeiro (e era mesmo uma cilada); c) depois de tanta falação destes últimos, renomeou os "tucanos" de "papagaios", para alegria do plenário.

O engraçado é que ninguém se ofende. E isso porque o PMDB pertence ao bloco governista. Outro dia o senador do Rio Grande do Norte José Agripino Maia mostrou-se ofendidíssimo só porque Lula referiu-se aos integrantes do partido dele, os democratas, como "demos". "Não são demos! São os democratas!" Ora, se não é o Mão Santa já nem se pode mais brincar em Brasília.