30.12.09

A história das coisas


O The Story of Stuff Project é um plano de ação baseado em alguns videozinhos produzidos por Annie Leonard, uma ativista norte-americana crítica do consumismo. A primeira animação, The Story of Stuff, é de 2007 e, de lá pra cá, vem causando polêmica nos eua, com críticas favoráveis e contrárias nos jornais. Um agravante do vídeo é o fato de ele ser, digamos... didático demais. A wikipédia diz, por exemplo, que um distrito escolar do estado de Montana decidiu banir o vídeo das salas de aula, por considerá-lo enganoso, preconceituoso e politicamente partidário. Engraçado, não?

O site ganhou uma versão brasileira, de onde se pode baixar o vídeo dublado e outras coisas. Na verdade, como tudo o que existe ou existiu, também está disponível você-sabe-onde. É muito bom.

28.12.09

Pequena história da classe média brasileira

Incrível como em poucas linhas Milton Santos pôde escrever a história da classe média brasileira e seu descontentamento. Conhecendo sua história, fica muito tranquilo entender por que a classe média tem hoje esse pensamento, essa atuação e essa raiva de política, de sociedade, de movimentos sociais.

[...] no Brasil do milagre, e até durante boa parte da década de 1980, a classe média se expande e se desenvolve sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para a melhoria do seu poder aquisitivo e do seu bem-estar material. Todos iam subindo juntos, embora para andares diferentes. [...] A competição foi, na realidade, com os pobres, à medida que estes se multiplicam. Vale lembrar as facilidades para a aquisição da casa própria, mediante programas governamentais com que foram privilegiados, enquanto os brasileiros mais pobres apenas foram incompletamente atendidos nos últimos anos do regime autoritário. A classe média é a grande beneficiária do crescimento econômico, do modelo político e dos projetos urbanísticos adotados. [...] Tratava-se, na realidade, de uma moeda de troca, já que a classe média constituía uma base de apoio às ações do governo.

Forma-se, dessa maneira, uma classe média sequiosa de bens materiais, a começar pela propriedade, e mais apegada ao consumo que à cidadania, sócia despreocupada do crescimento e do poder, com os quais se confundia. Daí a tolerância, senão a cumplicidade, com o regime autoritário. O modelo econômico importava mais que o modelo cívico. Eram essas, aliás, condições objetivas necessárias a um crescimento econômico sem democracia. Quando o regime militar esgota o seu ciclo, a democracia se instala incompletamente na década de 1980, guardando todos esses vícios de origem e sustentando um regime representativo falsificado pela ausência de partidos políticos consequentes. Seguindo essa lógica, as próprias esquerdas são levadas a dar mais espaço às preocupações eleitorais e menos à pedagogia propriamente política. A gênese e as formas de expansão das classes médias brasileiras têm relação direta com a maneira como hoje se desempenham os partidos.

[...] Tal situação tende a mudar, quando a classe média começa a conhecer a experiência da escassez, o que poderá levá-la a uma reinterpretação da sua situação. Nos anos recentes, primeiro de forma lenta ou esporádica e já agora de modo mais sistemático e continuado, a classe média conhece dificuldades que lhe apontam para uma situação existencial bem diferente daquela que conhecera há poucos anos. Tais dificuldades chegam em um tropel: a educação dos filhos, o cuidado com a saúde, a aquisição ou o aluguel da moradia, a possibilidade de pagar pelo lazer, a falta de garantia no emprego, a deterioração dos salários, a poupaça negativa e o crescente endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto ao futuro, tanto o futuro remoto quanto o imediato. Tais incertezas são agravadas pelas novas perspectivas da previdência social e do regime de aposentadorias, da prometida reforma dos seguros privados e da legislação do trabalho. A tudo isso se acrescentam, dentro do próprio lar, a apreensão dos filhos em relação ao futuro profissional e as manifestações cotidianas desse desassossego.

[...] Acostumadas a atribuir aos políticos a solução dos seus problemas, proclamam, agora, seu descontentamento, distanciando-se deles. Elas já não se veem espelhadas nos partidos e por isso se instalam num desencanto mais abrangente quanto à política propriamente dita. Isso é justificado, em parte, pela visão de consumidor desabusado que alimentou durante décadas, agravada com a fragmentação pela mídia, sobretudo televisiva, da informação e da interpretação do processo social. A certeza de não mais influir politicamente é fortalecida nas classes médias, levando-as, não raro, a reagir negativamente, isto é, a desejar menos política e menos participação, quando a reação correta poderia e deveria ser exatamente a oposta.

(Milton Santos, "A metamorfose das classes médias", In: Por uma outra globalização, pp. 135-8)

20.12.09

Verdade

De repente, começo a desconfiar que tem alguma coisa acontecendo, tão nova, que os velhos atores não são capazes de vê-la, nem mesmo de manipulá-la – os instrumentos ultimamente fabricados passam longe de tudo aquilo que estavam acostumados a manejar. Perderam o controle. E poucos percebem o rumo novo que a história tem tomado, se é que alguém já viu exatamente o que é isso que estamos indo a ser. Eu me sinto perdido.

E, de repente, começo a perceber que estive o tempo todo a ignorar, bem sob o meu nariz, o grande poeta que este homem é. Sim, porque até sentisse sua poesia, nunca o poderia considerar um grande poeta; sempre foi, pra mim, um bom fazedor de versos, cuja beleza que os outros viam eu simplesmente não podia entender. Mas ultimamente, parece, tem falado bem junto ao meu pé do ouvido:


VERDADE
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.



Muito foda, não?

E, meio fora de propósito, The Corporation é um grande filme. Incidentalmente, discute sobre o que é a verdade; mas é um incidental martelativo, saca? Baixe por aí.

10.12.09

Physis

Temos sido treinados, educados e acostumados a não enxergar três coisas: a unidade, o movimento e a consciência.

Em vez disso, pensamos que existe apenas diversidade, inércia e pensamento.

Em primeiro lugar, graças a Darwin, hoje podemos afirmar que o ser humano não é tão especial quanto se pensava; é tão animal quanto qualquer outro. A noção de unidade, enquanto a humanidade evoluía, foi sendo lentamente apagada à medida que foi se desenvolvendo a organização do trabalho, a vida social e o pensamento. Este desenvolvimento seguiu numerosas direções. Tanto o pensamento, quanto a sociedade, quanto o trabalho se ramificaram em uma gama assombrosa de variedades, fragmentando-se absurdamente o modo como o homem refletia o mundo em suas estruturas cerebrais, a maneira como as sociedades se organizavam e as formas desiguais e complementares que o trabalho assumia. Quanto mais transformava a natureza pelo trabalho, mais o homem assenhorou-se dela; quanto mais diferenças entre uma e outra cultura, mais um grupo humano estranhou-se a outro; quanto mais diferenças de pensamento entre as pessoas, mais separou-se o indivíduo de seu semelhante. Mas, ao mostrar o longo movimento evolutivo da vida, o naturalista contribuiu para reanimar a ideia de unidade, perdida ainda nos primórdios das sociedades. E reestabeleceu um pedaço da verdade: a única coisa que existe é a unidade. Porém, toda unidade é feita de diversidade, daí que venha a falsa impressão de que todas as coisas do mundo diferem entre si, quando na verdade são uma só e mesma coisa. É natural que não se perceba esta unidade. Ela é uma unidade grande demais. Unidades menores são facilmente percebidas. Por exemplo, ninguém discute que o corpo humano seja uma unidade; porém, esta unidade é formada de uma pequena quantidade de células verdadeiramente humanas, as eucariontes (10 trilhões), em comparação com a imensa e esmagadora maioria de células procariontes, que formam os micro-organismos (90 trilhões). Estes pequenos seres vivos vivem em simbiose com o grande ser humano. Em suma, um ser humano é formado quase que totalmente por outros seres, não humanos, mas nem por isso deixamos de reconhecer a unidade de um ser humano, apesar da diversidade que o compõe. Este foi um passo; há outro a ser dado, de igual tamanho e importância.

Para que pudesse o homem imaginar – ou abstrair – que estava separado da natureza, ele apoiou-se em outra falsa concepção: o imobilismo. Evidentemente, por tudo quanto já se descobriu no campo da física, os mesmos átomos que formam coisas mortas – como a terra, a água, o ar, este teclado ou este monitor – formam também a estrutura corporal de qualquer ser vivo, bactéria, planta, animal ou homem. Mesmo com todo o conhecimento produzido nos últimos séculos, só se poderá observar, porém, esta unidade entre seres vivos e seres mortos, se se considerar o intercâmbio complementar que se dá entre ambos. Mas a unidade entre vivos e mortos só aparece com a cinematografia do tempo; não com a fotografia do espaço. É o tempo que vai mostrar a morte; e, com ela, as substâncias que compõem uma célula animal desmembrarem-se em pedaços menores de matéria morta (proteínas, enzimas, aminoácidos, carbono, hidrogênio etc.), originando um caos de partículas, que poderão outra vez se reordenar no cosmos de outras células, de um animal, de um vegetal, de uma bactéria, do que seja. Ao observar-se o movimento, observa-se a unidade. Quem primeiro viu isso costumamos dizer que foi Heráclito – ao perceber o traço unificador de tudo: a mudança –, mas outras culturas forjaram máximas semelhantes; também o budismo afirma que tudo muda, exceto a própria mudança. Não vejo agora como estender isso à sociedade e aos indivíduos, mas deve haver um jeito simples.

Em terceiro lugar, o pensamento; o significado desta palavra é maroto. Ele parece excluir o sentimento, a dor ou a vontade. E, na verdade, separa mesmo. Quando imaginamos que o cérebro faz apenas pensar, esquecemos que ele também recebe sensações provenientes dos cinco sentidos, processando mais outras coisas inexplicáveis relacionadas à área afetiva. Ora, talvez nossa maior dificuldade em perceber a unidade formada pelo eu e tudo o que me cerca é que sempre usamos a ciência. E a ciência não poderá nunca percebê-la. Porque a ciência é só pensamento. Também precisamos da arte para sentir o mundo; porque a arte é mais completa que a ciência: conjuga razão e emoção. Não somos só pensamento. Somos pensamento e sensação. Daí que o pensamento é fraco para perceber a unidade. Somente a consciência é que permite vivenciá-la. A consciência, tal como a arte, não prescinde de razão; utiliza-a. Mas, diferentemente da razão, que dispensa os sentimentos, a consciência é a soma de tudo o que um ser humano pode ser: razão, emoção, sensibilidade, afetividade, compaixão. Algum acionista cuja corporação causa danos ao meio ambiente ou a pessoas no leste asiático pode saber o que faz; mas não tem consciência. E a arte a que ele foi acostumado a fruir com certeza não é arte, porque não deve lhe mostrar a unidade básica de tudo, a cadeia de causa e consequência que ele movimenta, o próprio movimento econômico de que faz parte.

Então, se a única coisa que permance é a mudança, e isso é mesmo verdade, é também verdadeiro dizer que a única coisa que existe é a unidade. Porque, se mudança é movimento (e só isto permanece, nada mais), devemos lembrar também que "movimento" é uma abstração; ou seja, essa coisa que permanece é uma separação de alguma outra coisa, que não permanece, mas é coisa que existe. O movimento não existe por si só; o movimento é sempre movimento de alguma coisa. E essa coisa que se movimenta é uma unidade multiversa que pode ser chamada de natureza, de universo, de physis, do que for. É uma unidade em movimento, que, em determinado momento, afastou de si uma pequeníssima parte, dotada de certas faculdades, e assim a natureza pôde, enfim, observar-se a si própria; está claro que a physis não quis se dividir em duas partes, uma que vê e uma que é vista. Porque esta parte física, que pensa e vê, tão logo nasce, e enxerga a physis de que faz parte, tão logo morre, e volta a ser physis. Perde o pensamento e a visão; mas, também, o pensamento e a visão, parece, mais confundem do que mostram o que somos. Há talvez menos vantagem em ser homem que em ser physis. Que não vê, nem pensa; simplesmente é.

7.12.09

A necessidade da arte

Ernst Fischer escreveu um livro fabuloso: A necessidade da arte. Sua tese é que a arte tem um papel semelhante ao da ciência: desvendar o mundo. Este desvendamento da realidade é que permite ao ser humano trabalhar sobre ela. Em resumo, nos dois primeiros capítulos, diz que:

A arte, a magia, a ciência e a religião estavam em sua origem intimamente vinculadas. E assim vão permanecer, enquanto ainda estão integradas ao processo de trabalho e enquanto ainda não se percebem nitidamente as relações de causa e conseqüência. A antiguidade do trabalho iguala-se à antiguidade do homem, de modo que os instrumentos de trabalho foram fazendo o homem à medida que o homem produzia instrumentos de trabalho. Pelo trabalho, o homem transforma a natureza, adaptando-a a seus desejos e necessidades.

Como muitas outras espécies animais, aquela que viria a ser homem utilizava ferramentas. As ferramentas, porém, ocupavam um lugar diferente das que hoje utilizamos. Para cada ferramenta que possuímos, temos associada a ela uma função. Mas nem sempre foi assim. Somente após uma madura compreensão das relações de causa e conseqüência é que isso vai se tornar possível. A atividade cerebral primitiva permitia relacionar sensações, como a fome, à imagem de coisas que poderiam solucioná-las, como uma fruta. A utilização de um instrumento qualquer, como um pedaço de madeira, ajuda na obtenção do alimento, que está muito longe do chão, no alto da árvore espinhosa. O processo poderia ser esquematizado numa seqüência: sentir fome – ver a fruta – usar um instrumento. Vê-se que o instrumento aparece por último. A repetição deste processo, porém, deve ter levado a uma inversão, quando, ao ter o instrumento, houve a percepção de que ele tinha uma função: servia para colher uma fruta. Agora, o instrumento não aparecerá mais por último; é o início de um processo que tem agora um propósito; e a fruta e a fome poderão vir agora por último. A partir desta inversão, começa uma atividade consciente de transformação da natureza, denominada trabalho. As atividades terão um propósito pré-definido, associado a um instrumento com uma função específica.

Este instrumento de trabalho pode agora ser melhor escolhido ou até corrigido, a fim de se tornar mais eficiente. Outros materiais podem ser adaptados à condição de instrumentos, seguindo um modelo encontrado na natureza. Não é necessário esperar que eles apareçam: pode-se fabricá-los, imitando modelos já conhecidos. Um galho de árvore pode ser desbastado, a fim de se tornar semelhante a uma vara. Este processo chama-se imitação.

O homem passou assim a observar que certas características dos instrumentos, como uma vara maior ou menor, uma pedra mais ou menos afiada, podiam produzir resultados mais ou menos adequados a seus propósitos. Descobriu com isso as relações de causa e conseqüência e, por saber disso, passou a dominar conscientemente a natureza. Esta sua capacidade mágica de produzir instrumentos lhe dava poder sobre a realidade. Outra capacidade foi sendo ampliada também: a linguagem. O processo mágico de dar nome às coisas deu ao homem domínio sobre elas. Pela linguagem, podia comandar melhor suas ações, marcar lugares, árvores, rios, coisas. A ampliação da linguagem e o aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho permitiu um controle maior da natureza. E, em certo sentido, sua vontade, mediada pelos instrumentos que produzia, transformava o mundo, pelo trabalho.

A descoberta destas relações de causa e efeito, por muito incipientes que fossem, levaram, contudo, a conclusões erradas. O homem deste estágio imaginou que a natureza também podia ser transformada com o uso de outros instrumentos, mágicos; viu em sua vontade uma força extraordinária. Estendeu sua capacidade mágica ao limite. Buscou facilitar sua vida, usando a pintura, a dança, o canto, a fim de conseguir certos propósitos e, fazendo isso, criou a arte. Sua pintura nas cavernas, representando animais mortos, não pretendia, portanto, a mera representação; não tinha efeito estético; não se relacionava com a beleza; buscava apenas produzir um animal morto, com o qual poderia saciar sua fome. Mais uma vez, imitando a natureza, recriando-a, buscava atingir seus propósitos, explorando relações de causa e conseqüência que ainda não entendia bem. Assim, a magia e a arte permanecem vinculadas entre si e ao processo de trabalho, à medida que o homem acredita serem meios efetivos de dominação da natureza.

Isto é, com poucos acréscimos, o que ele diz. Esta linha de pensamento sobre a arte, porém, penso eu, vai trazer alguns esclarecimentos também para a ciência. Ora, o autor adverte que não seria nada inteligente que nós ríssemos das pretensões destes homens, pré-históricos, que usavam instrumentos inadequados, como figuras em paredes, para com elas conseguir alimento – e é isto que me interessou bastante. A pintura rupestre tanto podia ser uma tentativa de produção de um animal para consumo, como também uma espécie de ritual mágico que permitiria, pela figuração, facilitar a morte do animal quando estivesse o homem efetivamente a caçá-lo – na antropologia, não se sabe qual das duas possibilidades é mais verdadeira. O fato é que estes homens só estavam começando a conhecer o mundo. Para rirmos deles, teríamos que acreditar em duas coisas: primeiro, que já conhecemos completamente a realidade; segundo, que já não usamos instrumentos inadequados para adequar a realidade a nossos desejos. Tanto uma quanto outra crença seriam completamente falsas. Quantas vezes, hoje em dia, não vemos pessoas a pedir que Deus ajude nisso ou naquilo, como, por exemplo, arranjar um emprego? Todo aquele que faz isso não compreende bem como funciona o sistema de trabalho atual; e são muitos os que assim são. Se conhecesse, compreenderia que a atividade humana é, como todo fenômeno natural, regido por leis naturais; e que a oferta de emprego digno para todos depende menos de Deus que dos homens.

Uma contradição que Ernst Fischer aborda, porém, é a seguinte: os instrumentos, mesmo inadequados, acabam tendo um efeito prático, ainda que indireto. O homem que pintava adquiria mais poder sobre o animal que ia matar; a tribo que dançava conseguia acumular mais poder sobre a tribo inimigo com a qual ia lutar; o guerreiro ao entoar seu canto realmente assustava o inimigo. Conseguia efetivar melhor suas ações, porque acreditava que estava sendo ajudado. Até hoje isto continua. Os homens, porque não acreditam em si mesmos, precisam acreditar o tempo todo em outra coisa que eles não são para, só então, executarem as coisas que tão-somente a eles compete fazer.

Isto revela a ampla medida do nosso primitivismo. Há, porém, um elemento que piora tudo. A ciência durante muito tempo esteve a cumprir o papel de desvendar a realidade, bem como a arte. Hoje, de um modo geral, não fazem mais isso. Todo investimento em pesquisa é feito não com a intenção de produzir conhecimento, mas, sobretudo, com a intenção de produzir conhecimento que ofereça possibilidades lucrativas. Toda política estatal é diretamente influenciada pelas políticas das grandes corporações. Com isso, toda vez que algum ramo científico sai da linha e confronta o stablishment, e em vez de oferecer lucro questiona mesmo a existência do lucro, é automaticamente descartado, quando não perseguido. Não é à toa que muitas das relações de causa e consequência hoje precisam ser apagadas, ou intocadas. Hoje, de um modo geral, é baixíssima a produção de ciência. Isto explica também a baixíssima qualidade da arte pós-moderna. Em termos quantitativos, a imensa maioria daquilo que hoje se chama arte é, em essência, medíocre.

1.12.09

César Benjamim

Sobre o "Filhos do Brasil", do César Benjamim, de 27/11/09, a Folha quis continuar investigando até que chegou, na edição de hoje, ao suposto "menino da MEP" – João Batista dos Santos –, possivelmente molestado por Lula na prisão. O interessante foi uma fala de um outro companheiro de cela que diz:

O que deve ter acontecido é que Benjamin não sabe ou não entendeu que são comuns, entre os operários, brincadeiras assim, que podem soar de mau gosto. Não acredito que tenha inventado a conversa, mas o assédio, isso nunca aconteceu" disse José Maria de Almeida.

É a explicação mais racional, mas duvido que o Benjamim seja assim tão inocente. De qualquer maneira – memórias da ditadura, ardis políticos e mídia golpista a parte –, o texto não tem pé nem cabeça. É cada uma que aparece.

26.11.09

Terrorismo, filmes, músicas e livros

Hoje (ou ontem) a tevê passou o Munique, do Spielberg. Bom filme. Que deixou mais uma dúvida: que é um terrorista? O terrorista faz o mal ou um mal? Porque um terrorista pode parecer um insensível (porque mata ou se mata sem culpa nem reflexão) apenas quando esquecemos que nós vamos vivendo nossas vidas normalmente, em nossas casas, em nossos trabalhos, em nosso lazer, sem muita culpa nem muito o que pensar sobre a fome de milhões de pessoas, dentre as quais estão seres humanos comendo depois de porcos – uma cena do Ilha das Flores que já não sensibiliza mais ninguém: todo mundo é uma ilha, a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar. Nesta terra de gigantes, que não só trocam vidas por diamantes, como também julgam ser a imaginação, a curiosidade e as Viagens de Gulliver coisa para gente pequena, que ainda não tem muito que fazer da vida.

Isso vai se estender para outras coisas. Que é fazer o bem? O ruim dessas coisas peremptórias é que elas só existem se existirem algo contrário (o que torna tudo assustador, parece mesmo que andamos em código binário); de modo que, parece, só se pode dizer que alguém faz o bem, quando sabemos o seu contrário, isto é, quando alguém faz o mal. Se um cara que detona explosivos faz o mal, precisamos pensar no que é fazer o bem. É simplesmente não detonar explosivos? Parece tudo simples demais. Nomes simples para uma realidade complexa. Mas talvez Heráclito não estivesse errado; talvez tudo o que existe tenha mesmo o seu contrário. A questão é que seu pensamento não pode ser mutilado, afinal, disse ele também que tudo está em movimento. E, muitas vezes, o contrário não se enxerga ao longo do espaço, mas no decorrer do tempo. De fato, luz e sombra coexistem no espaço; não no tempo.

É possível, e isto por enquanto é só hipótese, que o 11 de setembro venha a ser visto no futuro não como obra de gente insana e terrorista. Talvez este número nem tenha tanta importância perto de outros números piores, ainda mais desumanos e pelos quais, direta ou indiretamente, todos nós somos responsáveis. É preciso pensar sempre nas causas e nas consequências dos nossos atos – e não o fazemos. Não por nossa culpa, talvez; nem a escola nos ensinou assim, nem o trabalho nos permite hoje. Mas, afinal, de quem é a culpa dos atentados terroristas? Apenas daqueles que detonam bombas ou também se estende aos que as fabricam e vendem? Há uma fábrica da CBC ao lado da minha casa, na divisa entre Mauá e Ribeirão Pires; será que sabem para onde vão suas balas?

Sempre poderão dizer que não dá para saber ao certo para qual fim serão usadas as armas ou as bombas que produzimos. Ou então poderão dizer que numa arma produzida ou vendida não há mal nem bem – só se poderá conhecer isso com seu uso. O que não se poderá dizer nunca – e que, de fato, nunca dirão – é que muitas vezes preferimos não saber nem conhecer nada. Da mesma forma, é aceitável que não se veja as relações entre as coisas; mas ignorar que elas existam, e, mais, que se dividem em diretas e indiretas, isso é que é inaceitável.

18.11.09

Erros de alunos e professores

Sempre li, ri, gostei de ler aqueles emeiols enviados por professores com neologismos esdrúxulos ou loucuras de alunos em provas, mas ultimamente tenho acabado sempre com um gosto amargo na ponta do riso. Afinal, quando é que vão mandar coisa inteligente? Ou os alunos são todos estúpidos?

A verdade é que aluno, de um modo geral, é muito maltratado. Hoje, enquanto aplicava prova do Saresp, circulava entre as carteiras, vendo se eles preenchiam direito os quadradinhos etc., e fiscais do Estado passeavam pelo corredor, também vigilantes. E fique quieto; e não vire pro lado; e não converse; e obedeça. Por um momento, tive uma vertigem e em lugar de alunos vi prisioneiros. A escola comete maldades muito piores que as da polícia. Se a polícia faz de vivos mortos, a escola cria mortos-vivos.

Um belo dia, aparece em minha escola um concurso de redação, promovida por aparelhos burocráticos superiores, com a seguinte proposta. "Redija um texto, cujo tema seja: ‘Água: a vida do planeta’." E duas pessoas do sétimo ano – num ano ótimo, que trouxe até aulas aos sábados como brinde – pareciam estar num péssimo dia. Uma delas escreveu:

Gastar água é bom!

Agua, agua, àgua, porque tudo é sempre sobre
àgua?? Todo mundo já entendeu que a àgua está
acabando. Quer saber a real do que eu acho,
dane-se que a água está acabando, a hora
que acabar acabou e pronto. Eu não vou ser
a otária de ficar correndo no banho e lavando
louça com a torneira fexada, lava o meu carro
com balde. Se ninguém faiz isso porque eu tenho
que fazer, porque eu vou economizar se outros
gastam por mim. Quer saber, vou gastar também.

Vou tomar meu banho bem demorado, vou
deixar a torneira pingar, meu já era a água já
foi gasta não tem como recuperar agora. Com
tanta gente que não ta nem ai porque eu
estaria?

A àgua foi feita pra gastar, se não fosse,
não teria nem sentido ter àgua potavel no
mundo.

Essa é a minha opinião.


Quase dei um zero pra menina. Mas antes achei que seria bom saber quanto gastamos realmente com água, ver os números. Pra esfregar na cara dela, que fez um texto que mais parece um absurdo. E que, como muitas coisas que parecem, na verdade não é. Resultado da pesquisinha: indústria e agricultura gastam mais que as pessoas. Lógico, tinham que gastar mesmo. A questão é outra. É que nós, pessoas comuns, que gastamos menos, temos menos força e meios, nós é que estamos preocupados com o futuro, com o planeta e com a humanidade; eles, que gastam mais, que podem mais, só se preocupam com uma coisa: lucro. Tá, e daí?

Daí que, com relação ao problema da água, podemos até criticar os hábitos do povo; mas a crítica, se quiser ser justa, deve também se estender à economia, e com força proporcional à irresponsabilidade daqueles que a sustentam. E, se quisermos ser exatos, até a propaganda do governo federal, que vê nos biocombustíveis a salvação do mundo. Uma piada.

Vejamos por quê.





A tabela veio daqui.

Em suma, em termos mundiais, a agricultura gasta 69% da água. Indústria gira em torno de 23%. Os gastos domésticos, algo entre 8 e 10%. Os dados são da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, que tem como lema “Por um mundo livre de fome”).

Um belo lema, um belo trabalho da FAO. Mas a FAO tem problemas e os números também. Qual o problema da primeira? Muita ingenuidade e nenhuma coragem. Fazem este belo trabalho de pesquisa e depois dizem: “Bom, gente, agora vamos fazer uma greve de fome, pra sensibilizar o mundo”. Se as autoridades fossem sensíveis às greves de fome e se greve de fome resolvesse alguma coisa, a transposição do rio São Francisco já tinha sido cancelada. Também, que eu saiba, não vi nenhum presidente da GM em falência fazer em maio passado greve de fome pro Obama salvá-la com 20 bilhões, criados da noite pro dia. Qual o problema dos números?

É que por mais preocupante que seja a situação do abastecimento de água no planeta, não se atenta para o óbvio. Quem está acabando com água não são as pessoas; são as corporações; é principalmente o agronegócio. Aí é que entra a covardia deles; deviam dizer alto e claro o nome do mal: “sistema econômico”. E pra quê a agricultura precisa de tanta água? Pra matar a fome da humanidade? Claro que não. É a mesma ONU quem nos diz que neste mundo, produtor de mais alimentos do que consome, um bilhão de pessoas passa fome. E com a atual crise econômica, entre 55 e 90 milhões de pessoas, segundo o Banco Mundial e o FMI (órgãos filantrópicos preocupadíssimos), estão a caminho do grupinho.

Conclusão: o agronegócio, além de não matar a fome, vai ajudar na sede.

Uma página da Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal, um país cuja agricultura consome 87% da água, confirma que o agronegócio só faz aumentar a fome no mundo. Porque o milho, a cana de açúcar, a soja e outros vegetais deixaram de ser alimentos e viraram álcool; viraram biocombustíveis. E como é mais lucrativo fazer milho virar etanol, que virar pamonha, mais empresários deixaram de produzir alimentos, houve o encarecimento de vários produtos, resultando numa crise alimentar que, entre 2007 e 2008, fez 100 milhões de pessoas passarem da pobreza pra miséria. O mesmo texto chega a dizer algo que quase soa absurdo: em grande medida, o petróleo é melhor que qualquer combustível que tenha “bio” na frente.


Peraí, vamos pensar bem: há projeções que indicam que, com a expansão dos agrocombustíveis, o consumo mundial de água pela agricultura chegará em 2025 a 90%. Muito bom. E tudo isso para atender às necessidades de apenas 12% da humanidade, o pessoal que tem carro flex. Muito bom. Enquanto isso, calcula-se que os agrocombustíveis causaram um impacto de 75% na crise alimentar de 2007-08. Excelente. Que fazer?

Trocar de novo o álcool pela gasolina não resolve nada a longo prazo. O que resolveria seria investir em transporte coletivo. Ah, mas isso já põe em xeque a nossa sagrada economia que, apesar de entrar em crise de 10 em 10 anos, é a única que gera “lucros”, protege a propriedade privada e a FAO não critica. E todos os jornais, tevês, rádios e Sabesp resolvem continuar a culpar a população pelo tempo que ficam no chuveiro. Vamos ver até quando isso vai. Desde fins da Idade Média o lucro vem movendo a humanidade, a tal velocidade que esgotou os recursos naturais que podia e que não podia. Eu não sei quanto a vocês, mas pra mim está cada vez mais emocionante acompanhar até onde vai a aventura histórica dessa gente que comanda a humanidade (outro dia, um amigo me censurou por ainda usar o termo “burguesia”, que, segundo seus cálculos, não existe mais). Enfim, eu é que não estou no comando.

E quando a gente volta à pergunta da aluna: “Com tanta gente que não ta nem ai porque eu estaria?”, a gente percebe que ela tem mais razão do que pensa ter. Dentro deste “tanta gente” cabe muita gente mesmo, e graúda. Gente que não pensa em outra coisa senão em si.

No Brasil, 60% da água vai para a agricultura, 15% para a indústria e o restante distribui-se entre comércio e residências. E a menina acabou ganhando nota dois. Era o máximo.

12.11.09

Quando eu tinha uns cinco anos, morava no sertão, e via meu avô levantar-se, enxada ao ombro, lidar no roçado. Era agricultor, pequeno, mas tinha lá umas covas de feijão, arroz em inverno bom, milho em tempo ruim, algodão em tempos duvidosos, melancias às vezes espalhavam-se pelo chão. Era um homem da terra. Todos nós. Um dia, pela manhã, alcancei uma enxada pelos terreiros, ganhei os mundos, atravessei os matos e, num terreno escondido, bem antes de nascer o sol deixei enterradas algumas sementes de feijão. Uma dúzia, disposta em duas filas de seis covas. Era tudo o que eu tinha. Não me lembro se cheguei a regá-las, talvez tenha feito. O que lembro é ter passado por lá todos os dias, bem cedo, a inspecioná-los – ainda não me haviam posto numa escola. Não semeei copos plásticos com algodão.

O fato é que, alguns dias depois, quando limpava o solo, calculei mal uma enxadada, e a lâmina afundou-se na terra perigosamente próxima à raiz do primeiro pé da fileira da esquerda. Não dei importância. Mas, no outro dia, notei a cor mais clara em suas folhas. Fiquei preocupado. Os dias seguintes foram mostrando por quantas muitas gradações pode passar um verde em caminhar ao cinza. Em cada novo matiz, um novo corte separava um único pé de feijão de outros onze – e isso eu via, ferido cotidianamente por um único golpe que havia desferido. Descobria, pela primeira vez, o sabor de chorar, sem testemunhas, diariamente, por uma coisa misteriosa que não entendia bem, mas compreendia perfeitamente.

Não voltei a pensar nisso. E quase ia me esquecendo.

10.11.09

Um dia acordei com uma coisa por dentro, e a vida não tem mais o gosto de sempre, e as cores das roupas de festa não são belas, e som dos motores roncando não emociona, e os números das conquistas esportivas reduzem-se a números, e as novidades dos telejornais não tocam a consciência, e a travessia coletiva da cidade é movimento para o nada, e a multidão de homens vira peças em amontoado, e as conversas informais são códigos pré-programados, e as informações não informam, e a comédia faz chorar, e a piada não diverte, e as imagens não seduzem, e o comercial não vende, e as escolas não ensinam, hospitais resistem em salvar, e o ritmo do trabalho coletivo de todas as manhãs perdeu seu ritmo, a realidade fez-se única e eterna, e um sono sem sonhos tomou conta do dia, um mundo de cabeça pra baixo. Um dia acordei para a inexistência da humanidade.

9.11.09

Quando ela desceu, esperou que abrisse o portão e entrasse. Com a violência de hoje, nunca é demais esperar que as pessoas estejam em segurança, para então lhes dizermos tchau e ir andando. Inda mais quando também a pessoa é amada, ou com quem a gente faz sexo. Inda mais quando em frente à casa dela tem uma pracinha onde fica um monte de maconheiros do caralho. E ia indo a vida. Mas aconteceu. Mal ela tocava a maçaneta, mal ele seguia andando pelas ruas, apareceu. Um cara vinha correndo, uma faca na mão, um baseado na boca. Na hora que ele cismou de reagir, o cara foi logo dizendo, se você deixar cortar um pedaço desse queijo aí, eu deixo você dar um peguinha no baseado. Beleza, e todo mundo ficou fumando, bebendo vinho e comendo queijo, sob a luz da lua, num céu absurdamente limpo, sem nuvens nem fumaça, na praça.

26.10.09

Sobre a escola

Eu fui enganado. Ou melhor, enganei-me. Pensei que a escola podia ser uma coisa que não pode ser. Desconfio que ajuda mais a manter as coisas como estão do que a transformá-las. Falo da minha, é claro, mas com alguma perspectiva de generalização. O principal está nas contradições: muitos professores têm claro seu papel no sentido de melhora do mundo, o que passa por formar uma cidadão crítico. Isto está em todos os objetivos de quaisquer programas, projetos ou currículos. Muitas vezes está até em algumas atividades desenvolvidas com alunos. Porém, não se colocam eles, ou melhor, não nos colocamos nós como sujeitos disso; em uma palavra, nós não somos críticos. O resultado é que muitas coisas importantes não são bem explicadas. Quantas vezes ouvi de alunos perguntas do tipo: professor, pra que isso é importante? De fato, muito do currículo não tem importância nenhuma. Talvez até tenha, mas eu não vejo – e isto não é pouco, afinal, sou 'especialista' no assunto. Donde decorrem duas conclusões mutuamente excludentes: a) eu e muitos colegas não temos boa formação, pelo menos suficiente para responder bem a esta pergunta da importância; ou b) temos boa formação, o problema é que metade do currículo não tem importância alguma. Se desconsiderarmos o mercado de trabalho, talvez dois terços do currículo deixem de fazer sentido.

Na melhor das hipóteses, quando sei a resposta da pergunta – que às vezes vem formulada assim: "por que estou aqui à força?" –, lembro ter somente 50 minutos de aula. Responder a perguntas realmente importantes, como essa, para um número razoável de alunos, torna-se inviável – e o peso do currículo aparece aí também. E o pior: como ensinar alunos a lutarem por seus direitos, quando nós não lutamos pelos nossos, quando vemos dia a dia serem cortadas até nossas faltas abonadas. Fico imaginando que influências não se transmitirão, meio que subliminarmente, mais pelos exemplos que pelas palavras. É uma coisa que se vê na simples e usadíssima resposta a perguntas tão desafiadoras quanto aquelas: "Não sei". O que faz pensar: pode haver crítica na ignorância. E, de fato, muitas coisas, como mudar a prova da primeira para a segunda aula, não nos são explicadas. Isso quando temos a coragem de admitir que não sabemos. Quando não enrolamos e respondemos qualquer coisa. Quando damos uma resposta sucinta (o tempo manda), que pouco explica. Tudo acaba se resumindo num dar conteúdos. Num contato que mais parece entre coisas que entre pessoas. Rápido. Mecânico. Insípido. Alienante.

21.10.09

Chegada da força

Assim narra Euclides a chegada da primeira força militar a conseguir alcançar Canudos, para de lá sair, afinal, derrotada, somando-se aos dois anteriores fracassos que ficaram pelo caminho. O trecho é saboroso.

Chegaram primeiro a vanguarda do 7º e a artilharia, repulsando violento ataque pela direita, enquanto o resto da infantaria galgava as últimas ladeiras. Mal atentaram para o arraial. Os canhões alinharam-se em batalha, ao tempo que chegavam os primeiros pelotões embaralhados e arfando – e abriram o canhoneio disparando todos a um tempo, em tiros mergulhantes.

Não havia errar o alvo desmedido. Viram-se os efeitos das primeiras balas em vários pontos; explodindo dentro dos casebres e estraçoando-os, e enterroando-os; atirando pelos ares tetos de argilas e vigamentos em estilhas; pulverizando as paredes de adobes; ateando os primeiros incêndios...

Em breve sobre a casaria fulminada se enovelou e se adensou, compacta, uma nuvem de poeira e de fumo, cobrindo-a.

[...]

À parte ligeiro ataque de flanco, feito por alguns guerrilheiros contra a artilharia, nenhuma resistência tinham oposto os sertanejos. As forças desenvolveram-se pelo espigão aladeirado, sem que uma só descarga perturbasse o desdobramento; e a fuzilaria principiou, em descargas rolantes e nutridas, sem pontarias. Oitocentas espingardas arrebentando, inclinadas, tiros rasantes, pelo tombador do morro...

Alguns apareciam em fuga, ao longe, no extremo do arraial, pervagantes na orla das caatingas, desaparecendo no descair das colinas. Outros aparentavam incrível traquilidade, atravessando a passo tardo a praça, alheios ao tumulto e às balas respingadas da montanha.

Toda uma companhia do 7º, naquele momento, fez fogo, por alguns minutos, sobre um jagunço, que vinha pela estrada de Uauá. E o sertanejo não apressava o andar. Parava às vezes. Via-se o vulto impassível aprumar-se ao longe considerando a força por instantes, e prosseguir depois, tranquilamente. Era um desafio irritante. Surpreendidos, os soldados atiravam nervosamente sobre o ser excepcional, que parecia comprazer-se em ser alvo de um exército. Em dado momento ele sentou-se à beira do caminho e pareceu bater o isqueiro, acendendo o cachimbo. Os soldados riram. O vulto levantou-se e encobriu-se, lento e lento, entre as primeiras casas.

[Os sertões. 27ª ed. Rio: Francisco Alves, 1968, p. 248.]

20.10.09

Desastres aéreos têm propriedade excepcional de comover a opinião pública – esta é a sentença cortante de Jânio de Freitas hoje na Folha. Eu gosto dele. Derrubar um helicóptero no Rio é algo para se chocar, depois do que fez o PCC em São Paulo há três anos? O Estado brasileiro não tem mais controle algum da marginalidade. E isto porque vamos entrando já numa segunda quadra de boa expansão econômica. Vamos ver o que não serão os tempos de crise.

p.s. Então, eu não sei se há laços entre a bandidagem e o Estado: vejo sempre eles em confronto (e vamos considerar que desviar verbas, fraudar licitações, nomear parentes, sonegar imposto – todo crime do colarinho branco nunca fez de ninguém "bandido", logo, o Estado está a anos-luz da bandidagem). O que nos obriga a pensar que talvez os traficantes não sejam tão mais violentos ou imorais quanto o resto da sociedade que os excluiu (e continuará a excluir, afinal, como se ensina nas escolas o tempo todo – e como já me surpreendi a mim mesmo dizendo a alunos do ensino fundamental –, "a coisa está feia, não há espaço para todos, só os mais fortes sobrevivem"). Como diz alguém naquele documentário Notícias de uma guerra particular, o Estado só sobe o morro na forma de camburão. Talvez a bandidagem, no geral, faça mal ao Estado, não sei. Mas ela existe, atua, ganha força de tempos em tempos. Então, ela faz bem a alguém. Ainda no mesmo documentário, o chefe da polícia civil carioca se pergunta: "Pra que se produz atualmente um fuzil com 750 tiros por minuto?" Não é para fazer bem a nenhum Estado, nem a nenhum povo; como beneficiário só sobra o capital. O geógrafo inglês David Harvey, num livro de 2004, O novo imperialismo, faz bem uma distinção entre a lógica do Estado e das corporações empresariais. A bandidagem pode fazer mal ao Estado, e mesmo a certos setores capitalistas, como nos assaltos a bancos; e, a um tempo, fazer bem ao movimento do capital, num plano mais geral. Convenhamos que, se vivermos num mundo sem assaltantes/ladrões/homicidas, empresas de cadeados, de seguros de automóveis, de segurança etc. – vão todas à falência. Para não falar nessa indústria das armas, que existe em cooperação com a indústria das drogas ilícitas. O Estado pode até estar interessado em legalizar as drogas e cortar o financiamento do chamado "Estado paralelo". Por que não fazer isso? Resta saber se gente realmente importante, como nossos empresários, apoiariam isso, porque, se não quiserem apoiar, podem sempre se esconder sob quantas falsas bandeiras existam, a da moral, a da família, a da saúde, a da religião. Bandeiras que desaparecem quando a bancada da bala resolve, por exemplo, à época de um plebiscito sobre o desarmamento, convencer a população de que todos têm direito a uma arma. Pode ser um exagero reduzir tudo à questão econômica, mas é igualmente ingênuo desconsiderá-la. Depois, ficamos abismados ante a ingenuidade do povo africano, cujas centenas de conflitos entre as suas muitas etnias no mais das vezes são provocadas por brancos estrangeiros, que depois vendem armas a todos os lados em disputa. Coisa parecida acontece por aqui. Para não falar da nossa ingenuidade em acreditar que não se sabe como resolver nossos graves problemas sociais. É a mesma que considera uma lástima não termos conseguido ainda uns difíceis dois ou três bilhões de dólares para erradicar a fome do mundo, ou, pelo menos, da África, o que já não seria mau, sem atentar para a facilidade com que se conseguem 20 bilhões para salvar a GM da falência, instantaneamente, da noite para o dia.

16.10.09

Preferências artísticas

No movimento da humanidade, desde a antiguidade ágrafa até hoje, aparece um grande esforço construtivo, um movimento de permanente construção e autoconstrução dos homens, com grande vantagem para nós, que vemos este progresso do topo – e com grande destaque para a arte, em todo este processo. Mas tenho percebido que toda vez que se esboça uma definição de arte baseada em perspectivas histórica ou social, aparece uma condenação: esse ponto de vista é limitado. Isto é intrigante. Pode uma obra de arte estar desvinculada da sociedade que a produz? De outra maneira, se a perspectiva histórica é limitada, qual a seria a mais abrangente das perspectivas? Eu não sei. O que sei é que quando vejo que nos meus autores preferidos aparece muito forte o peso da crítica social, uma coisa me perturba. Não pela repetição da mesma crítica; dificilmente poderia haver retrato artístico da atual sociedade sem crítica, para haver um mínimo de honestidade intelectual. O que incomoda é a ideia de que "meus gostos" não são meus, mas produto do meu tempo – essa é talvez a coisa incômoda na história. Se o que me particulariza, aquilo que me faz singular, são as minhas preferências, os meus gostos, saber que são eles, em grande parte, fabricados por uma teia industrial sem a qual eu não poderia tê-los – isto não agrada a ninguém. E, a pensar assim, teríamos que repensar também que como indivíduos nada temos de inato; tudo o que temos/somos se fez a partir de relações sociais, de amizades, de trabalho, de estudos, de compra e de venda, que não poderiam haver de jeito algum há míseros 400 anos atrás. E aí fica a subjetividade reduzida a um mero produto da história. Se isto por um lado reafirma a determinação histórica da arte, da espécie humana e de tudo, por outro lado cria um problema: posso gostar de ler romances do XIX, mas detestaria ter de abrir mão dos do XX. Quanto à música, igualmente, se ouvisse só pianos e violoncelos certamente que não seria o eu que agora sou. O que, numa perspectiva futura, leva a perguntar: o que acharão desta nossa arte, desta nossa vida, destes nossos gostos, daqui a cem anos? Com certeza, terão outros "gostos", talvez que ainda gostem dos nossos, mas, tendo outros, serão também outros. E, assim, essa coisa do movimento mostra também um lado destrutivo, com prejuízo para isso que agora somos.

7.10.09

Fichamento

Cansei de perder minhas fichas. Isto aqui começa a virar espaço realmente útil.

[...] há no romance dois ângulos principais que definem a visão do autor e condicionam sua “arte de escrever”: a investigação da realidade como algo subordinado à consciência (esta alçada ao primeiro plano) ou a consciência sendo posta a serviço de uma realidade existente fora dela. Levando em conta tais ângulos de subjetivismo e objetividade, combinados nas mais variadas formas, [Antonio] Candido considera que “as obras mais completas são em geral as que manifestam simultaneamente os dois aspectos da realidade – o interior e o exterior – tratados, porém, como se o romancista houvesse estabelecido com o seu material uma relação de sujeito e objeto”. [...] os escritores em geral alcançam a plenitude quando conseguem passar do subjetivismo adolescente (“que faz da realidade um conjunto de impressões e emoções”) para a análise objetiva (que “reconhece a existência própria do mundo onde o sujeito se insere”), como seria o caso de José Lins do Rego.

[...]

Escreve Suassuna: “[...] eu tenho uma visão particular sobre História. Veja bem, não sou historiador, sou fundamentalmente escritor. Fui muito marcado por Leonardo Mota e por um outro escritor, tido como um autor menor, mas do qual gosto muito, Alexandre Dumas. O Conde de Monte Cristo, que muita gente vê como uma obra de diversão, para mim tem um grande sentido mítico, algo que me toca muito. Vejo o personagem do Abade Faria como Mefistóteles de Fausto, pois ele transforma um jovem e inocente marinheiro no sombrio Conde. Mas o caso aqui é outro livro, Os Três Mosqueteiros. Acontece que os historiadores modernos começaram a fazer uma História baseada em documentos. Tudo bem, eles são importantíssimos, sim. Mas, com essa ênfase nos registros, os historiadores deixam de lado algo muito importante que é o personagem. Só que para isso tem que ser escritor. O grande historiador tem que ter a precisão, a documentação, o estudo, o esforço do cientista, e também a chama do escritor. Sem isso, ele não coloca a pessoa diante do personagem. Por conta de Dumas, eu nunca vi o Cardeal Richelieu como um homem cinzento e abstrato igual aos outros personagens nos livros de História. O escritor tornara o personagem vivo para mim. Estudar História foi fascinante porque eu não a via friamente” (2004; grifo nosso [vermelho meu]).

(Ortega et al. A Literatura no caminho da História e da Geografia. Cortez, 23-25)

5.10.09

Aposta

E um amigo diz que a BR Foods existirá ad eternum. Eu não dou cinco anos para uma nova fusão.

4.10.09

Por um voto nulo

"[...]a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações."

Toda vez que alguém diz que vai votar nulo, aparece alguém dizendo que votar nulo é ruim. Que se as pessoas todas que têm alguma consciência deixarem de votar, o resultado vai ser é muito pior. O primeiro, que desistiu do voto, vira assim um cidadão nulo; o último, que segue acreditando nas urnas, segue também norteando o curso da política.

A imagem parece real, mas só pode ser falsa. Primeiro, porque o voto nulo não transmite nulidade à pessoa que vota nulo. É uma inversão: não somos cidadãos porque votamos; votamos (ou não votamos) porque somos cidadãos, oras. E toda vez que o cara conversa com alguém, escreve um comentário, emite uma opinião, faz projetos, escreve livros, produz arte, movimenta ideias, sai às ruas ou, no limite, impede a circulação do trânsito, das pessoas ou das rotinas institucionais, para descontentamento de reacionários, motoristas e empresas prestadoras de serviços, está norteando o curso da política, talvez mais que pelo voto, além de incomodar as pessoas, o que não deixa de ser bom. Porque o grande mau são as pessoas acomodadas, isso é fato. Segundo, porque o voto válido no mais das vezes não norteia nada, desde que o número de pessoas que vota conscientemente é sempre reduzido. Para não falar que escolher entre três ou quatro candidatos (já escolhidos antes sabe-se Deus por quem) não significa escolher entre projetos diferentes. Eles fazem questão de ressaltar as diferenças e quando elas não existem, mudam-se as palavras (sem mudar seu conteúdo); mas no essencial são sempre iguais. Plínio Sampaio diz coisa parecida nesta entrevista, aliás, uma concessão rara de espaço a esse pessoal radical, que é tudo maluco, né gente?

Este ano foi bom; a avaliação antecipada não deve mudar nestes três meses restantes. Quando achei que não havia mais nenhum campo de ação nem de visão, para aqueles que gostam de fazer e olhar o que estão fazendo, vi novas janelas se abrindo e conheci uma ciência nova, que nunca achei pudesse ser isso que é: a geografia. No Encontro com Milton Santos, de Silvio Tendler, aparece uma fala de José Saramago sobre a democracia. E parecem até ásperas as palavras do português, mas no decorrer do filme (na íntegra, aqui) vai-se além: "[...]a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações", diz o geógrafo brasileiro. Não é só a democracia. É isso em que se tornou toda a nossa vida: uma grande fábula.

Falta ainda um ano para as eleições, pode ser que mude de ideia até lá, mas, por enquanto, por tudo isso, só posso dizer que não acredito mais nesta política das urnas. Mas ainda acredito na vida, ainda bem. Pensando bem, só posso continuar acreditando na vida porque escolhi não acreditar mais neste joguinho sem-vergonha que é a política, que premia nossas melhores esperanças com as maiores frustrações. Eu estou fora.

29.9.09

Das obviedades

Perder o emprego nunca matou ninguém. Morre-se por não achar um.

15.9.09

Morte

Estes tempos de pandemia, gripe etc. tornaram a gente um pouco mais neuróticos. É todo mundo lavando a mãozinha, passando álcool, lendo precauções – que morrer ninguém quer. Ficam duas semanas sem aparecer nas escolas, preservando a vida, e mal as coisas se equilibram, vai todo mundo gastar essa mesma vida em inúmeros sábados de trabalho repositivo e sei lá quantas mais horas ordinárias na linha de produção, cujo limite único são as vinte e quatro horas do dia.

Hoje, senti-me meio mal, nariz escorrendo, enjoo-quase-vômito, febrinha... é a tal gripe, pensei. Vou para casa. E abandonei uma aula de política pela metade, precisava descansar, o corpo doía. Daí, fico até agora pensando no ridículo que é pensar em morrer. Mas gosto da brincadeira, e como também sinto medo, vou brincando a sério, já me convenço de que não passo de amanhã, morte vindo a cavalo, e já que é assim, passo uma última vez pelo supermercado, faço bem em me preparar; se o consumismo é um mal, também sei que pecado não é, e nem compro muita coisa, só o bastante para um moribundo de hábitos simples. É, por exemplo, pegar somente um suco preferido, que é de manga, uma fruta boa com gosto de coisa antiga, que é maçã, e afinal uma bolacha, uns pães, uma escova de dentes. Este último item é que não se explica muito bem, afinal, a escova que tinha em casa estava lá com algumas cerdas meio espandongadas, é verdade, mas se estava só meio ruim, também estava obrigatoriamente meio boa – aguentaria ainda alguns dias, sem contar que morimbundos não costumam enxergar muito longe, nem chegam a pensar em dias, pensam quando muito em minutos, sendo na maior parte das vezes um "ajeite aqui este travesseiro, que me incomoda", "dê-me ali aquele remédio, que me dói", "não me venham com jazigo feio".

E fico assim perdido com a escova na mão, frente à gôndola, que fornece escovas de todos os tipos e bolsos, para tornar os dentes mais brancos e lisos, e talvez ignore que a terra de onde vêm seus componentes não faz questão de dentes fortes ou cariados, devora-os a todos com a mesma voracidade, sem distinção de cor ou tecnologia. Resolvo pela mais barata, não há cerda que não limpe nem se estrague. Saio, chego na casa vazia, sinto-me só, e desgraçadamente feliz. Talvez devesse pensar mais em morte, sem precisão de noticiários.