19.12.07

Luiz Biajoni e o Sexo Anal

Se v. ainda não comprou presente de natal, se gosta de ler e de dividir leituras, se está procurando alguma coisa nova, gostosa, genial até... ora, dê um livro, cara pálida. É verdade que o material livro está cada vez mais desmoralizado, mas haverá sempre alguém escrevendo, e escrevendo bem, como Luiz Biajoni.

O site Os Viralata é quem recomenda sair do óbvio e presentear com literatura independente. E lá está à venda o... best-seller não, que o autor não é desses... mas o maldito Sexo Anal, um romance, ops... uma novela que primeiro foi disponibilizada como e-book, e que agora sai empapelada numa edição comemorativa pelos dez mil down-loads e pelas dezesseis rejeições de editoras. E vale a comemoração. Existem livros raros: livros pra se ler gozando. Sexo Anal é assim. Além dele, lá se encontra Virgínia Berlim, o segundo livro do Biajoni, que traz um cd com a trilha da história, além de outras diferenças mais significativas. Não vou fazer crítica, primeiro porque já fizeram muitas, e bem feitas; segundo, porque agora tenho preguiça. Enfim, leia.

15.12.07

Um soneto de Vicente de Carvalho

Velho Tema

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Gosto desse tipo de poesia velha. Talvez eu seja burro demais pra entender a arte moderna ou a física quântica, mas não sei de onde veio essa idéia de que os parnasianos sejam menores. Deve ter algo a ver com o stablishment. E com a gente otimista que quer ser feliz. Mas, gostem ou não dos pessimistas, a turminha do Olavo Bilac disse muitas verdades.

Uma coisa, por exemplo, é essa busca infindável pelas coisas inacessíveis. E, pior, por caminhos clandestinos. Não tenho nada contra a clandestinidade, até acho bem poética a atmosfera escura e suja dos porões secretos, mas... a clandestinidade tem de ter um propósito concreto. Não o idealismo cego. No entanto, os riscos a que nos submetemos todo dia tentando conquistar sei-lá-o-quê são tão grandes, que nem os vemos, e mal vemos aonde e onde vamos, inda mais quando o que se põe em jogo é a integridade física ou psíquica. Não vou nem falar em moral.

10.12.07

O Brasil é um país, uma nação e um povo. Um país é um território habitado por um conjunto de pessoas com uma história própria. Durante muito tempo se pensou o contrário, mas hoje sabemos que uma nação é um grupo político independente cujos membros não precisam ter, necessariamente, a mesma origem, língua, religião ou suposta raça. É justamente com suas muitas origens, línguas, costumes e tradições que se pode definir o povo brasileiro e sua história. Assim fica boa e bonita esta definição.

Mas.

O país é sempre um futuro, que não vem. A nação é para sempre o produto do passado colonial, a um tempo vergonhoso e glorioso. E o povo é sempre povo. Sempre povo. Sempre marcado do passado. Sempre esperançoso do futuro. Sempre alheio do presente, da política e da História.

4.12.07

Diálogo entre espírito e matéria

– Pois é o que eu digo. Há luz no fim do túnel. Sim, senhora. Há esperança para o mundo. O que vivemos é o retorno a um ciclo de espiritualismo, que está sempre a se alternar com ciclos materialistas ao longo da História. Cai um tempo de fé, levanta-se um tempo de materialidade; cessa um tempo de ações, acende-se um tempo de orações. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

– Pois sigo dizendo que não é assim. Não. Não há esperança. O que vivemos é o início de um ciclo sem precedentes, porque não há, a rigor, alternância de materialismo para espiritualismo: há consubstanciação. O espiritualismo, transformado em produto e, assim, materializado, é mais uma faceta das sociedades de consumo do mundo pós-capitalista. E a luz que o senhor vê, ao fim do túnel, nada mais é que o fogo do inferno! Não lhe faltará combustível. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

1.12.07

E os meus avós vieram passar o natal em casa. E vieram da região oeste de um pequeno estado do nordeste brasileiro. E meu avô, que dos seus 77 anos não gastou nenhum na escola, vez por outra solta uns vocábulos desconhecidos:

– Que que é aribé, vô?
– É um tipo de aguidar.
– Mas que que é aguidar, vô?
– Ora-mas-na-verdade, é um tipo de vasilha! E, home, vamo parar com essa conversa que já tá desenxavida demais.
– Desenxavida?
– Sem graça. E v. fez faculdade, foi, meu neto?

25.11.07

Somente muitos minutos mais tarde é que você, relutante, vai aceitar a existência das coisas fantásticas, quando, guardando cerveja na geladeira, deixa uma delas cair. Milagrosamente, a longuinéque não se quebra. E eis que, ainda a duvidar da normalidade, e mesmo pressentindo a sobrenaturalidade assombrosa das coisas imprevisíveis, segue produzindo diálogos desta natureza:

– Ah, não quebrou, menina, mas isso não é possível – e beija a chapinha de metal –, devia mais era ter quebrado: eu NÃO posso fazer isso com você! – e faz um cafuné no rótulo.

Espero que seja apenas alcoolismo. E não insanidade total e irreversível.

21.11.07

Dúvidas e certezas

Não, dessa vez emaluqueci. Tô aqui, bem, tudo bem, com quase tudo, oxigênio, calor, algum espaço com alguma lama para chafurdar, mas... é estranho. Parece tudo bem, mas tô com aquela tal comichão no cérebro aliada a um apertãozão no peito, fundo, melancólico, de nostalgia, sei lá do quê, de alguma coisa que eu ainda não conheço.

Não é pela morte de ninguém: nunca levei ao cemitério nenhum ente querido. Talvez por isso até acho romântico andar em câmera lenta, por entre catatumbas, em silêncio, ouvindo Atmosphere. Também não é por desilusões amorosas: já estou velho e maduro, e isso é coisa pra adolescente emo. Não é pela solidão nem pela tristeza: conheci que ser feliz é aprender a ouvir a beleza que existe no silêncio. Trauma de infância não pode ser: pobre não tem infância. Não, definitivamente, não é isso. Parece ser alguma coisa que eu ainda não vi.

Talvez seja liberdade.

Estremeço ao pensar nisso. Porque, realmente, é isso. Estou preso. A pensamento e lógica que me faz soar irracional se os contradigo. E, ironicamente, quando digo o que penso a seriedade me abandona, e fico a sós com um cinismo que me marca como louco. Como um louco que diz o contrário do que pensa. E já nem posso acreditar em minhas crenças. Que meu fascínio não é pela vida, é pela morte. Que meu encanto é pelo choro, não pelo riso. Que não vejo nos casamentos a beleza que aspiro nos divórcios. Que meu conceito de amor é uma piada. (Muitas vezes, quando a tarde começa a cair, e sombras de árvores se espalham no chão, e olhos brilham, e suspiros balançam no ar – ama-se tanto, que se vêem coisas visíveis e invisíveis, muito mais no amanhã que no hoje, muito mais no céu que na terra, muito mais cupidos vendando que cupidos vendados, e quando se dá conta se está com febre. Ou ensolação. E a única saída, ou cura, é passar a odiar o objeto do amor. Ser amado então é um perigo no escuro. É por isso que eu amo muito mais as pessoas que me odeiam – porque conheço-as.) Mas estou indo longe demais. Volto.

Volto à razão. Já agora nego a negação que professava.

E sigo acreditando que só há uma crença a seguir, só um norte a buscar: felicidade. É, sim senhor, felicidade. Honestamente, felicidade é a melhor e mais simples coisa do mundo – felicidade é ter um bom espaço de lama para comer, defecar ou chafurdar nas horas quentes do dia. Porque fora do chiqueiro é perigoso, prende-nos a seu interior a corrente da razão. Mas com espaço suficiente para caminharmos em círculos, desenhando à vontade pensamentos altos, livres, no piso enlamaçado da prisão.

20.11.07

Outra vez a tal da arte...

Sabe quando te falam daquele livro, daquele filme, daquela música, que é clááássica, e v. ainda não leu, não viu, não conhece? E ficam dizendo e redizendo sobre a genialidade, o estilo, a belezura que é a obra e o autor? E sabe quando, enfim, v. acaba aceitando, meio sem jeito, uma recomendação, um empréstimo, uma companhia para a tal contemplação da arte? Pois é. E tudo para, ao fim, restar a frustrante sensação de desgosto por não entender como o mundo elevou tão alto algo que te causou unicamente sono.

Foi mais ou menos assim que li todos os meus Shakespeares: Lear, Macbeth, Hamlet etc. E já que acontenceu isso, achei bom criar alguns mecanismos de defesa: 1) nunca dizer nada a ninguém; 2) caso diga, anexar alguma desculpa. Exemplos: a) li em um mau momento da vida; b) traumas de infância me bloqueram; c) não curto este gênero artístico etc. Pro caso do Shakespeare, dava sempre a última, e ainda atribuía culpa a Chico Buarque e Paulo Pontes, que escreveram em 1975 Gota d’Água, primeiro item de uma enfadonha série dramática que vim a ler por obrigações curriculares.

O diabo é que passeando pelo Rio num feriadão chuvoso e frio, sem muita opção, acabei assistindo-a, encenada ali na Glória, do ladinho do hotel homônimo. E não é que foi uma beleza? Inspirado no drama grego Medéia, de Eurípedes, e adaptado à experiência capitalista que em mãos militares aprofundou a concentração de renda no Brasil, o musical é de fazer rir e chorar: o empobrecimento da maioria financiou o milagre econômico e possibilitou o desenvolvimento da classe média. Mas faz pensar. Porque a obra não credita o estrago social unicamente à ditadura militar. O foco está no processo de cooptação dos melhores quadros, dentre os proletários, para servir ao jogo econômico do tupiniquim burguês.

Sempre que um cara menos bichado
surge aqui, pagam seu peso em ouro
pra levá-lo embora. Resultado:
mais negro fica este sumidouro
mais brilhante fica o outro lado
e o seu carnaval, mais duradouro

E a verdade esteve sempre aí, explicando como os opressores foram enfraquecendo os oprimidos e ganhando a guerra (que, aliás, tem um espólio nulo, porque resultou em miséria e exclusão de uns, intranqüilidade e neurastenia de outros, e num caos social comum). Ingresso: 25 réis (e pra meia entrada não pedem carteirinha em momento algum). O filho da “Medéia” cometeu dois erros: desafinou cantando a música do pai; deixou ver que continuava respirando depois de morto. E, segundo um amigo gramático, o excesso de ênclises em algumas bocas ficou irreal. Enfim, nem tudo são flores, mas gostei.

O que me preocupa é que agora minha desculpa foi por água abaixo. É melhor não dizer mais nada sobre o bardo inglês. Falarei somente de dramaturgos caboclos daqui pra frente.

8.11.07

Coisas de que desconfio

Desconfio que a ética não se perdeu somente na esfera estatal brasileira. O universo das empresas privadas é alimentado por um fluxo de lama onde chafurdam os mais irritantes, cínicos e mesquinhos interesses. Como se não bastasse a má qualidade dos serviços, as dificuldades com conexão, o congestionamento das centrais de atendimento, as orientações contraditórias, a ausência de uma agência reguladora, características relativas a qualquer provedor de internet, o meu aperfeiçoou seu nível de imbecilidade. Ao ligar, além de admitir que suas linhas estão muuuuito ocupadas, eles chamam-nos deliberadamente de trouxas: Caro internauta, estamos com um grande volume de ligações. Entre em contato conosco via chat ou pelo emeiol suporte@... Porra! Quem liga para o provedor, liga para resolver algum problema ligado à conexão com internet. Então, como acessar chat ou emeiol? Isso é quase loucura. Mas desconfio que a loucura maior seja a gente ir tacitamente permitindo que o fim único e exclusivo das empresas seja, de fato, o lucro. E assim elas vão-se isentando de coisas como o respeito ao consumidor, a responsabilidade social e o dever de gerar empregos para o progresso da nação.

24.10.07

O Senado Federal em 24 de outubro de 2007

Realmente, o cenário político brasileiro está desolador. Já nem mais pela corrupção, já nem pela inépcia, já nem pela descrença generalizada. Refalar o mesmo é o pior. No entanto, o que se vê dia a dia é a mesma lenga-lenga do governo, que nunca na história desta república fez tanto como fala que fez. A oposição não fica atrás, e é a mesma lenga-lenga de que o governo atual só vem mantendo as bases e programas do governo FHC.

Ainda bem que ainda restam os políticos folclóricos. Mão Santa (PMDB-PI) é um espécime em extinção. E dá gosto vê-lo, seja no plenário, seja na presidência do Senado. Hoje fez três coisas dignas de nota: a) citou Fernando Pessoa como o nariz, dizendo que "só não vale a pena, se a alma é pequena"; b) alertou o petista Eduardo Suplicy sobre o risco de cair numa "emboscada tucana", quando este em meio ao discurso cedia a palavra aos senadores Arthur virgílio e Flexa Ribeiro (e era mesmo uma cilada); c) depois de tanta falação destes últimos, renomeou os "tucanos" de "papagaios", para alegria do plenário.

O engraçado é que ninguém se ofende. E isso porque o PMDB pertence ao bloco governista. Outro dia o senador do Rio Grande do Norte José Agripino Maia mostrou-se ofendidíssimo só porque Lula referiu-se aos integrantes do partido dele, os democratas, como "demos". "Não são demos! São os democratas!" Ora, se não é o Mão Santa já nem se pode mais brincar em Brasília.

20.10.07

Duas coisas sobre Tropa de Elite

1 - O filme é bom. A gente sempre resiste bobamente às coisas que se popularizam. Mas o que Amarante diz sobre isso e o sucesso é a verdade.

2 - Já estava na hora de alguém pôr o dedo na ferida da classe média. No trabalho de Kátia Lund e João Moreira Salles, que é claramente a base do filme, aparece a queixa da polícia: "Eles vão e consomem drogas, financiam a compra de armamentos pelos traficantes e depois reclamam da violência." Não dá pra não entender a vontade de descer o cacete em todos os hipócritas que depois vão participar de passeatas pela paz.

16.10.07

até quando seguiremos
bebendo essa bebedeira,
e dizendo essas besteiras
em que não acreditamos?

até quando, até quando,
sorriremos estes dentes,
ficaremos firmes, crentes
no futuro, ou no melhor...

onde está a alegria,
essa mesma, passageira,
que cada vez é mais rara...

onde está a poesia...
onde estão as velhas caras...

pra que tanto trabalhar?
pra ter títulos reluzentes?
eu só quero em dias quentes
ter cerveja pra tomar

beber em praias distantes
rir para os dias chuvosos
tocar sons melodiosos
enrolar para acordar
nada ver: somente olhar...
divagar em pensamento
andar lento, e com preguiça...

e não marchar a calçada
das ruas que vão pra nada

7.10.07

Watchmen

Há cinqüenta anos o Sputnik era lançado pelos soviéticos e a Guerra Fria tinha um de seus mais quentes capítulos. Estava marcado o início da Era Espacial. Depois, chegou-se à Lua, e diferentemente do que ocorreu nas Grandes Navegações, nenhum Camões cantou a viagem de Neil Armstrong. Por que esse descaso? É certo que não dá pra comparar os objetos. Mas parece que algo maior mudou em nossa visão. É verdade que não há mais o interesse econômico das viagens do século XVI, mas talvez a gente é que tenha ficado meio blasé mesmo. Se Júlio Verne ainda fosse vivo talvez se frustrasse com o que vieram a se tornar as viagens espaciais. Como a pena do francês nos deu em 1865 a viagem Da Terra à Lua, antes de termos, de facto, viajado, parece que as viagens na realidade não vieram a ter a mesma graça que imaginamos na ficção. Posteriomente criada, uma das mais geniais obras que retratam o período ignoram-nas: Watchmen.

Watchmen é fantástico. Lançado nos EUA entre 1986 e 1987 pela DC Comics, com arte de Dave Gibbons e argumento de Alan Moore, é a prova de que, mais cedo ou mais tarde, o gênero HQ deverá ser reconhecido como uma das mais importantes formas de arte da nossa cultura, vencendo os preconceitos iniciais, como o cinema também venceu. Em seu enredo, passado entre as décadas de 50 e 80, o terror da Guerra Fria assola o mundo e a figura do herói é posta em cheque. Afinal, o que se pode fazer quando a luta contra o mal se revela um conceito limitado, como é limitado todo maniqueísmo?

A sensação de realidade criada pela obra tem um efeito tão grandioso, que muito se aproxima à sensação que se tem da realidade absurdamente real dos heterônimos de um Fernando Pessoa. Do ponto de vista formal, é digna de todos os aplausos. Os significados multiplicam-se à medida que narrativas paralelas de diversos gêneros entrecruzam-se: trechos de diários, capítulos de livros, artigos jornalísticos e acadêmicos, relatórios policiais, entre outros. As páginas do diário de Roscharch, que aparecem logo no início, nos aproximam tão intimamente deste personagem, um tanto fascista, que enfim simpatizamos com ele. Reproduzidos meio que desinteressadamente, como para ocupar espaço (mas “com autorização do autor”), alguns capítulos da autobiografia de Hollis Mason, Sob a Máscara, revelam os bastidores da vida dos heróis pela visão do herói então aposentado. Mas a mais forte narrativa paralela são os “Contos do Cargueiro Negro”.

Citando diversas fontes, uma matéria jornalística, aparentemente sem ligação alguma com o enredo, posta entre o quinto e sexto capítulo, dizia que: “Em maio de 1960, surgia a primeira edição de um novo e extrardinário título da National Comics, atual D.C. Chamava-se CONTOS DO CARGUEIRO NEGRO.” E acrescenta que tinha por tema a pirataria e por personagens os aventureiros do mar de origem européia que infestavam o Caribe. Na história, um náufrago faz com os cadáveres dos próprios companheiros uma jangada para a salvação. O surpreendente é que já desde o terceiro capítulo vínhamos acompanhando, em metaliguagem, por sobre o ombro de um personagem secundário, leitor de quadrinhos, não só o texto mas também as ilustrações. Aos poucos, a história passa a ganhar mais espaço, preenchendo “toda a tela”, até que já não sabemos em que narrativa estamos. E faz até sentido falar em preencher “toda a tela”: é flagrante a influência do dinamismo do cinema na arte de Gibbons. Por incontáveis vezes, os quadrinhos se integram para dar uma visão geral do ambiente, embora em cada um deles a ação transcorra de maneira independente. Muito bom!

Fiquei tão impressionado com a originalidade da história do cargueiro negro que procurei sem sucesso encontrar alguma edição desse gibi, até que um respeitável conhecedor de HQ me declarou não conhecê-lo. E ficou a pergunta no ar: “Você já parou pra pensar que os contos do cargueiro negro na realidade talvez não existam?” Não. Não tinha pensado. Parece que caí como um pato na armadilha ficcional. O que não é nenhuma novidade. Sempre que leio as críticas feitas por Álvaro de Campos a Fernando Pessoa, Ricardo Reis e António Mora, nas “Notas para recordação do meu mestre Caeiro”, acho absurdo imaginá-los somente como uma criação.

19.9.07

Para uma arte de ler no banheiro

Para um pessimista, a vida é uma contínua sucessão de dores permeada por alguns momentos de alegria. Para um pessimista preguiçoso, a vida é um sem-número de trabalhos ponteado por raros momentos de ócio. A receita da felicidade resume-se a prolongar, de alguma forma, os minutos de ócio. Ou de alegria.

Se sentir alegria causa prazer, e se a leitura é um prazer, o fato é que ler, para o diletante preguiçoso, tem uma dimensão paradoxalmente trabalhosa. A solução é, na tentativa de gozar plenamente o ócio, acumular o máximo de tarefas possíveis num mesmo espaço de tempo, aumentando assim o tempo livre. Algumas tarefas são tarefas vitais. E aí está por que muitas pessoas lêem no banheiro.

Minha importante descoberta ultimamente foi ter entrevisto uma tênue linha a dividir os preguiçosos que lêem no banheiro. Uns lêem rótulos de xampu, bulas de remédio, revistas “veja” velhas. Outros não sentem pudor em levar a alta literatura para a privada. E eis que, descaradamente, confesso ter largado as cerimônias e lido diariamente grandes clássicos. Fiz a experiência caseira, primeiramente, lendo os capítulos finais de Quincas Borba, aventurei-me pela América Latina e reli grande parte de O Amor nos Tempos do Cólera, já mais atrevido agora, tenho adorado os curtos capítulos do grande A menina que roubava livros, de Markus Zusak. E tudo isso sem falar na portentosa leitura de Watchmen (me perdoe o amigo que me confiou os seis números da rara edição de 1989, da editora Abril).

2.9.07

Pessimismo

Eu não sei se as pessoas que têm esperança nas coisas grandes e boas colecionam mais alegrias ou frustrações ao longo da vida; o fato é que eu não tenho. E acho que sou infeliz. Todavia, me considerar feliz seria otimismo, e ser otimista é um erro. De todo modo, não mudo, já estou velho demais pra mudar. Paradoxalmente, posso até dizer que sou feliz sendo infeliz.

Schopenhauer esteve certo o tempo todo. As coisas negativas da vida serão sempre maiores que os aspectos positivos que possam existir, se é que existem. E pode até ser que eu seja meio insensível pra isso, mas perceber o ódio que sentem por mim vem sempre primeiro que o prazer de me descobrir amado. O que não deve ser exclusividade minha: os atos de agressão são sempre mais visíveis; os atos de carinho é que são muito mais raros, porque nós, terráqueos, desenvolvemos mecanismos de defesa que nos fazem esconder aquilo que achamos ser pontos fracos em nós. Se a experiência de ser magoado é horrível, o melhor é não dar margem a surpresas ruins e, assim, as surpresas boas, apesar de poucas, serão suficientes para regar o fio da vida com alguns racionados goles de alegria.

O fato é que, talvez, a receita da felicidade seja esta. Não esperar coisas boas. Descobri que, antes de tomar o sorvete, ter a certeza de que ele vai cair no meu pé, logo nas primeiras lambidas, resulta quase sempre no inusitado de chegar ao fim sem vexames. Acreditar antes que o professor vai dar um nota ruim e ainda me esculachar publicamente me faz avaliar depois que tudo foi muito melhor do que pensei que seria. Acreditar que a infelicidade é inexpugnável é uma dádiva que me mantém resignadamente satisfeito. E sem me importar muito com o fim de tudo, que será definitivamente final, vou andando muito tranqüilamente, sem pressa nenhuma de chegar ao final da estrada. Não deve haver nada de bom no fim dela.

7.8.07

Suspeitas

“Odeio gente simpática!”. Não sei por que fui me surpreender com a frase dela. Parece absurdo, mas o normal é concordar. E, afinal, os absurdos tornam-se normais com o hábito, mais cedo ou mais tarde.

Será que esse monte de gente que nos aborda à rua oferecendo crédito, deus, bens, produtos e serviços não será parte de uma revolução? Será que ouvindo-os, sempre tão simpáticos, não estaremos subvertendo aquilo que foi uma marca de humanidade, que passará a ser a marca do mercantilismo? Será que isso não causará efeitos desastrosos?

Não é de hoje que, quando alguém chega falando manso, a gente instintivamente protege a carteira ou a bolsa. Vendedor, evangélico ou ladrão, o alvo será o mesmo. Se quiser evitar constrangimentos, não diga “por favor”, nem “com licença”, muito menos “senhor” ou “senhora” com simpatia. Use um tom de voz algo parecido com um PM dizendo “Cidadão!” A rusticidade será nossa lei, daqui pra diante.

5.8.07

Vagabundos!

Fomos, voltamos, iremos, voltaremos, mas vamos e venhamos: a gente nunca mais vai dar certo. Não é questão de ser pessimista, não, a questão é que, na realidade, o nosso ideal de país já acabou há muito tempo. A gente vai-se enganando, claro, fingindo que não é com a gente, porque é melhor não acabar neurótico. Mas, quando nos olhamos no espelho, sabemos, e em silêncio é que admitimos: fracassamos. E essa é a idéia tácita da nação. E essa é a verdade que não queremos ouvir. Nosso povo é analfabeto, nossa mentalidade é provinciana, nossa religião é só fachada, nossos valores são mesquinhos, nossa corrupção é cotidiana, nossa política é politicalha, nossa economia é dependente, nossa riqueza é só de alguns, e o que é nosso, de fato, é muito pouco.

Pra completar, nossas leis são irreais; porque tratam como iguais cidadãos completamente diferentes; porque enquadra nas mesmas regras do jogo participantes com habilidades díspares. Uns roubam carros, são presos, condenados e ficam um bom tempo na cadeia, em companhias piores; outros, queimam pessoas em pontos de ônibus, são presos por pouquíssimo tempo, aos cuidados dos melhores advogados logo são soltos e depois pouco se fala deles. E quando a violência aumenta, e quando aparecem crimes cruéis, vem sempre aquela turma do “agora é a hora!”, o que precisamos é punir com rigor, e vamos começar a pensar em redução da maioridade penal para 14 anos. A certeza da impunidade é o que faz o deliqüente. De outro lado, vem sempre aquela turma do “deixa-disso” dizendo que o que a gente precisa é acabar com as causas, a exclusão, a desigualdade, a falta de perspectiva da nossa pobre juventude. Que o nosso futuro não merece cadeia. E que a nossa cadeia não recupera ninguém.

Sim, o discurso duns e doutros é muito bonito. Mas param por aí. E não fazem mais nada. Fico me perguntando se esses aí acreditam mesmo no discurso que fazem, porque, primeiro, pra agir com rigor e reduzir a maioridade penal, como aqueles dizem, a justiça precisaria ser a mesma para todos e porque, segundo, pra atacar as causas, como estes dizem, só com uma Revolução. E, cá pra nós, nem há vergonha na cara daquelas pessoas para admitir isso, nem vejo estas empunhando armas, nem há nelas a indignação suficiente para a mudança súbita e violenta que o país merece. Então não há condições materiais nem para uma Revolução nem para uma revolução. Pior pra nós.

As medidas paliativas, as políticas assistencialistas, a repressão institucionalizada e, também, um código penal ultrapassado, que condena à mesma pena os mais diversos infratores, não vão mais conter o avanço violento de uma juventude amoral, excluída e marginal. Uma juventude muito pouco inocente: aprenderam que a vida é cruel desde cedo. Sim, eles estão cada vez mais precoces: conhecem o som das balas desde cedo, disparadas por traficantes ou polícias. É, talvez fiquem ainda mais precoces: com a redução da maioridade, talvez meninos de 10 anos passem a ser recrutados para guardar o morro, os pontos de venda de entorpecentes. Há uma guerra civil, neste Brasil. E sabemos que a guerra é entre marginais de diferentes classes sociais. E como no centro estamos nós, os cidadãos comuns, ao fogo cruzado, as nossas baixas são maiores. E nossas dores também. Porque, vez ou outra, quando saímos a manifestar e reclamar, ainda nos chamam “vagabundos”.

1.8.07

Loser

E na ficha de inscrição o país onde nasci ficou assim grafado: “Brazil”.

E o resultado é que não fui aceito em nenhuma disciplina.

16.7.07

Autenticidade

Há três coisas que não se pode agüentar: bêbado; chulé; e gente que fala sem acreditar naquilo que diz. Não tem coisa pior que ouvir alguém dizendo coisas sem paixão. Ou fazendo qualquer coisa sem paixão. Mas de pseudo-palestrante já tá cheio: tem muito. Do tipo que fala sobre os males das drogas (lícitas ou não), recrimina o uso, o usuário, sua casa, a favela, e é visto em casas noturnas tomando black label com marlboro. Esse tipo de gente anda em alta. Foi-se o tempo do valor das palavras. E da palavra. Bem lembrado pela lulu, a tendência é piorar: cada vez mais a tecnologia, o bate-papo on-line, a conversa instantânea faz diminuir o senso de responsabilidade dos adolescentes de nossos dias. O que se disse há alguns minutos, como scraps velhos de orkut, fica para trás, não tem mais importância. Nem valor.

Perde-se. Perdem-se os princípios. Perde-se um modelo de gente que é hoje raro. Ainda há alguns, é claro. Tempos atrás um amigo me contava sobre um diálogo entre aluno e uma velha diretora, já bem antiga, tradicional, nestes tempos de escola nova, e novas pedagogias. O aluno não gostou da cor do uniforme que a escola tinha dado e reclamava: "Pôxa, mas é obrigado a usar isso?". E a diretora já impaciente: "Não. Obrigado não é. Mas sem ele v. não entra na escola." "Ah, mas a gente tinha que poder escolher... a gente não vive numa democracia?" "Ô, menino, v. nem sabe o que é democracia nem o que é ditadura: eu que já vivi tudo isso não sei bem o que é. Tanta gente passando fome, e você reclamando dum uniforme? V. tá ganhando isso aí de graça, procure o que fazer, menino, xô." Não dá pra não gostar dessas coisas. Ou de gente assim, que sentenciava tempos atrás, sobre um aluno, digamos... complicado, de seu estabelecimento de ensino: "Deve ser hiperativo. Só pode. Que hoje em dia não tem mais esse negócio de indisciplina..." Rude, antigo, mas autêntico.

Foi o mesmo amigo a me lembrar a imagem autêntica, inegável da nossa polícia, ou, melhor, de um setor dela, a Ronda Ostensiva Tobias Aguiar. Inegável até por eles mesmos. Houve um tempo mais sombrio em que um misto de audácia e humor negro até lhes permitia fixar no vidro das viaturas o adesivo: "Deus cria. A Rota mata". Mas o caso mais espantoso foi o de uma entrevista que, segundo consta, após um massacre, o repórter ousou entrevistar os homens. "Que é que vocês têm a declarar sobre essa... sobre esse...massacre? essa chacina? esse monte de bandido morto?" Ao que um deles, sem parar, sem olhar pro lado, semblante fechado, boina a cair sobre a testa, respondeu, sem culpa: "Eles riem da lei. Não da gente". Era a pura verdade. Rude. Dura. Autêntica.

6.7.07

Para umas memórias

Afinal, percebi que o meu lugar tinha todo o tipo de frutas: manga, caju, banana, ameixa, melancia, laranja, limão e até pinha (vulgarmente conhecida por fruta-do-conde). Lembro-me particularmente das romãs. Eram vermelhas, e doces, e boas. Lembro-me de uma avó boa dizendo que comer romã fazia bem pra garganta. E eu, que sofria dores de garganta, achava aquilo o máximo. Devia ter uns cinco ou seis anos.

As mangas sempre tinham cheiro de aventura. Ainda verde, uma manga no alto da mangueira era motivo de escalar, abraçar caules, andar sobre o equilíbrio dos galhos arriscados. Uma manga na mão era logo garapa escorrendo nos dedos, no rosto, no queixo, no peito. Fiapo no dente, por fim. Mangueiras davam mangas, paz e sombras. Eram ensolarados os anos 80 na mesorregião do oeste potiguar.

Algumas informações nutricionais:

a) a manga tem mais ou menos 15% de açúcar, até 1% de proteína e consideráveis quantidades de mineirais e vitaminas A, B e C; faz bem às pessoas com anemia e às mulheres grávidas, porque tem muita concentração de ferro. A ciência diz também que pessoas com cãibras, estresse e problemas cardíacos devem comer manga, por conter potássio e magnésio. A religião, na Índia, de onde a manga é fruta nativa e quase sagrada (como as vacas, o que serve para desconstruir a crendice de que leite com manga faz mal), diz que faz bem ao cérebro, estanca hemorragia e faz bem ao coração (note, perspicaz leitor, que aqui ciência e religião concordam). E, last but not least, a sabedoria popular diz que manga "solta intestino preso". Tem apenas uma semente, também chamada de "caroço".

b) a romã era para os gregos símbolo do amor e da fecundidade, razão por que consagraram-na à deusa Afrodite. Para os romanos, era, além disso, símbolo de ordem e riqueza. Conta-nos outra vez a sabedoria popular que se você carrega três sementes de romã na carteira, não lhe faltará nunca o vil metal. Como a manga, a romã veio da Ásia. Ao contrário da manga, tem muitas sementes, e sementes especiais, pois têm polpa comestível. O suco de romã contém mais anti-oxidantes do que qualquer outro.

Mas, mesmo assim, faltava-me conhecer os doces frutos dos climas frios. Um dia, num entardecer, quase noite, chegou alguém, de muito longe, com fala esquisita, diferente. Nunca o tinha visto, mas logo gostei dele. Vinha do Sul. Trouxe alegria e muitas malas, e numa delas uma fruta desconhecida: maçã. Ainda não tinha visto uma. Quando recebi a minha, reconheci que não era qualquer fruta: tinha pele fina, era delicada, era rara, e era vermelha. Tinha um aroma delicioso, inominável, que nunca mais senti (até hoje me pergunto se maçã tem aroma, de fato). Mordi devagar, mastiguei com cuidado e cada pedaço foi a reiteração de um sabor novo e apaixonante. Foi minha primeira vez.

Nunca mais comi aquela maçã. A lembrança que tenho daquela noite foi ficando na memória. E cada vez que a olho, como para sentir outra vez um prazer antigo, parece que a encontro modificada. E logo me aborreço com a idéia de que alguém mexeu nas minhas coisas. Bobagem, não há nada nem ninguém entre eu e minhas lembranças, a não ser o tempo. E cada vez que as renovo, modifico-as, daí a sensação de estranhamento. E quanto mais as revivo, mais me afasto da realidade que vivi, que queria reviver e que somente reconstruo, à minha maneira. E é assim que as memórias têm sido, por excelência, minhas primeiras ficções, editadas em momentos ociosos, estilizadas pela beleza das coisas envelhecidas, emolduradas pela augusta cor sem-cor do esquecimento.