Para um pessimista, a vida é uma contínua sucessão de dores permeada por alguns momentos de alegria. Para um pessimista preguiçoso, a vida é um sem-número de trabalhos ponteado por raros momentos de ócio. A receita da felicidade resume-se a prolongar, de alguma forma, os minutos de ócio. Ou de alegria.
Se sentir alegria causa prazer, e se a leitura é um prazer, o fato é que ler, para o diletante preguiçoso, tem uma dimensão paradoxalmente trabalhosa. A solução é, na tentativa de gozar plenamente o ócio, acumular o máximo de tarefas possíveis num mesmo espaço de tempo, aumentando assim o tempo livre. Algumas tarefas são tarefas vitais. E aí está por que muitas pessoas lêem no banheiro.
Minha importante descoberta ultimamente foi ter entrevisto uma tênue linha a dividir os preguiçosos que lêem no banheiro. Uns lêem rótulos de xampu, bulas de remédio, revistas “veja” velhas. Outros não sentem pudor em levar a alta literatura para a privada. E eis que, descaradamente, confesso ter largado as cerimônias e lido diariamente grandes clássicos. Fiz a experiência caseira, primeiramente, lendo os capítulos finais de Quincas Borba, aventurei-me pela América Latina e reli grande parte de O Amor nos Tempos do Cólera, já mais atrevido agora, tenho adorado os curtos capítulos do grande A menina que roubava livros, de Markus Zusak. E tudo isso sem falar na portentosa leitura de Watchmen (me perdoe o amigo que me confiou os seis números da rara edição de 1989, da editora Abril).
2.9.07
Pessimismo
Eu não sei se as pessoas que têm esperança nas coisas grandes e boas colecionam mais alegrias ou frustrações ao longo da vida; o fato é que eu não tenho. E acho que sou infeliz. Todavia, me considerar feliz seria otimismo, e ser otimista é um erro. De todo modo, não mudo, já estou velho demais pra mudar. Paradoxalmente, posso até dizer que sou feliz sendo infeliz.
Schopenhauer esteve certo o tempo todo. As coisas negativas da vida serão sempre maiores que os aspectos positivos que possam existir, se é que existem. E pode até ser que eu seja meio insensível pra isso, mas perceber o ódio que sentem por mim vem sempre primeiro que o prazer de me descobrir amado. O que não deve ser exclusividade minha: os atos de agressão são sempre mais visíveis; os atos de carinho é que são muito mais raros, porque nós, terráqueos, desenvolvemos mecanismos de defesa que nos fazem esconder aquilo que achamos ser pontos fracos em nós. Se a experiência de ser magoado é horrível, o melhor é não dar margem a surpresas ruins e, assim, as surpresas boas, apesar de poucas, serão suficientes para regar o fio da vida com alguns racionados goles de alegria.
O fato é que, talvez, a receita da felicidade seja esta. Não esperar coisas boas. Descobri que, antes de tomar o sorvete, ter a certeza de que ele vai cair no meu pé, logo nas primeiras lambidas, resulta quase sempre no inusitado de chegar ao fim sem vexames. Acreditar antes que o professor vai dar um nota ruim e ainda me esculachar publicamente me faz avaliar depois que tudo foi muito melhor do que pensei que seria. Acreditar que a infelicidade é inexpugnável é uma dádiva que me mantém resignadamente satisfeito. E sem me importar muito com o fim de tudo, que será definitivamente final, vou andando muito tranqüilamente, sem pressa nenhuma de chegar ao final da estrada. Não deve haver nada de bom no fim dela.
Schopenhauer esteve certo o tempo todo. As coisas negativas da vida serão sempre maiores que os aspectos positivos que possam existir, se é que existem. E pode até ser que eu seja meio insensível pra isso, mas perceber o ódio que sentem por mim vem sempre primeiro que o prazer de me descobrir amado. O que não deve ser exclusividade minha: os atos de agressão são sempre mais visíveis; os atos de carinho é que são muito mais raros, porque nós, terráqueos, desenvolvemos mecanismos de defesa que nos fazem esconder aquilo que achamos ser pontos fracos em nós. Se a experiência de ser magoado é horrível, o melhor é não dar margem a surpresas ruins e, assim, as surpresas boas, apesar de poucas, serão suficientes para regar o fio da vida com alguns racionados goles de alegria.
O fato é que, talvez, a receita da felicidade seja esta. Não esperar coisas boas. Descobri que, antes de tomar o sorvete, ter a certeza de que ele vai cair no meu pé, logo nas primeiras lambidas, resulta quase sempre no inusitado de chegar ao fim sem vexames. Acreditar antes que o professor vai dar um nota ruim e ainda me esculachar publicamente me faz avaliar depois que tudo foi muito melhor do que pensei que seria. Acreditar que a infelicidade é inexpugnável é uma dádiva que me mantém resignadamente satisfeito. E sem me importar muito com o fim de tudo, que será definitivamente final, vou andando muito tranqüilamente, sem pressa nenhuma de chegar ao final da estrada. Não deve haver nada de bom no fim dela.
7.8.07
Suspeitas
“Odeio gente simpática!”. Não sei por que fui me surpreender com a frase dela. Parece absurdo, mas o normal é concordar. E, afinal, os absurdos tornam-se normais com o hábito, mais cedo ou mais tarde.
Será que esse monte de gente que nos aborda à rua oferecendo crédito, deus, bens, produtos e serviços não será parte de uma revolução? Será que ouvindo-os, sempre tão simpáticos, não estaremos subvertendo aquilo que foi uma marca de humanidade, que passará a ser a marca do mercantilismo? Será que isso não causará efeitos desastrosos?
Não é de hoje que, quando alguém chega falando manso, a gente instintivamente protege a carteira ou a bolsa. Vendedor, evangélico ou ladrão, o alvo será o mesmo. Se quiser evitar constrangimentos, não diga “por favor”, nem “com licença”, muito menos “senhor” ou “senhora” com simpatia. Use um tom de voz algo parecido com um PM dizendo “Cidadão!” A rusticidade será nossa lei, daqui pra diante.
Será que esse monte de gente que nos aborda à rua oferecendo crédito, deus, bens, produtos e serviços não será parte de uma revolução? Será que ouvindo-os, sempre tão simpáticos, não estaremos subvertendo aquilo que foi uma marca de humanidade, que passará a ser a marca do mercantilismo? Será que isso não causará efeitos desastrosos?
Não é de hoje que, quando alguém chega falando manso, a gente instintivamente protege a carteira ou a bolsa. Vendedor, evangélico ou ladrão, o alvo será o mesmo. Se quiser evitar constrangimentos, não diga “por favor”, nem “com licença”, muito menos “senhor” ou “senhora” com simpatia. Use um tom de voz algo parecido com um PM dizendo “Cidadão!” A rusticidade será nossa lei, daqui pra diante.
5.8.07
Vagabundos!
Fomos, voltamos, iremos, voltaremos, mas vamos e venhamos: a gente nunca mais vai dar certo. Não é questão de ser pessimista, não, a questão é que, na realidade, o nosso ideal de país já acabou há muito tempo. A gente vai-se enganando, claro, fingindo que não é com a gente, porque é melhor não acabar neurótico. Mas, quando nos olhamos no espelho, sabemos, e em silêncio é que admitimos: fracassamos. E essa é a idéia tácita da nação. E essa é a verdade que não queremos ouvir. Nosso povo é analfabeto, nossa mentalidade é provinciana, nossa religião é só fachada, nossos valores são mesquinhos, nossa corrupção é cotidiana, nossa política é politicalha, nossa economia é dependente, nossa riqueza é só de alguns, e o que é nosso, de fato, é muito pouco.
Pra completar, nossas leis são irreais; porque tratam como iguais cidadãos completamente diferentes; porque enquadra nas mesmas regras do jogo participantes com habilidades díspares. Uns roubam carros, são presos, condenados e ficam um bom tempo na cadeia, em companhias piores; outros, queimam pessoas em pontos de ônibus, são presos por pouquíssimo tempo, aos cuidados dos melhores advogados logo são soltos e depois pouco se fala deles. E quando a violência aumenta, e quando aparecem crimes cruéis, vem sempre aquela turma do “agora é a hora!”, o que precisamos é punir com rigor, e vamos começar a pensar em redução da maioridade penal para 14 anos. A certeza da impunidade é o que faz o deliqüente. De outro lado, vem sempre aquela turma do “deixa-disso” dizendo que o que a gente precisa é acabar com as causas, a exclusão, a desigualdade, a falta de perspectiva da nossa pobre juventude. Que o nosso futuro não merece cadeia. E que a nossa cadeia não recupera ninguém.
Sim, o discurso duns e doutros é muito bonito. Mas param por aí. E não fazem mais nada. Fico me perguntando se esses aí acreditam mesmo no discurso que fazem, porque, primeiro, pra agir com rigor e reduzir a maioridade penal, como aqueles dizem, a justiça precisaria ser a mesma para todos e porque, segundo, pra atacar as causas, como estes dizem, só com uma Revolução. E, cá pra nós, nem há vergonha na cara daquelas pessoas para admitir isso, nem vejo estas empunhando armas, nem há nelas a indignação suficiente para a mudança súbita e violenta que o país merece. Então não há condições materiais nem para uma Revolução nem para uma revolução. Pior pra nós.
As medidas paliativas, as políticas assistencialistas, a repressão institucionalizada e, também, um código penal ultrapassado, que condena à mesma pena os mais diversos infratores, não vão mais conter o avanço violento de uma juventude amoral, excluída e marginal. Uma juventude muito pouco inocente: aprenderam que a vida é cruel desde cedo. Sim, eles estão cada vez mais precoces: conhecem o som das balas desde cedo, disparadas por traficantes ou polícias. É, talvez fiquem ainda mais precoces: com a redução da maioridade, talvez meninos de 10 anos passem a ser recrutados para guardar o morro, os pontos de venda de entorpecentes. Há uma guerra civil, neste Brasil. E sabemos que a guerra é entre marginais de diferentes classes sociais. E como no centro estamos nós, os cidadãos comuns, ao fogo cruzado, as nossas baixas são maiores. E nossas dores também. Porque, vez ou outra, quando saímos a manifestar e reclamar, ainda nos chamam “vagabundos”.
Pra completar, nossas leis são irreais; porque tratam como iguais cidadãos completamente diferentes; porque enquadra nas mesmas regras do jogo participantes com habilidades díspares. Uns roubam carros, são presos, condenados e ficam um bom tempo na cadeia, em companhias piores; outros, queimam pessoas em pontos de ônibus, são presos por pouquíssimo tempo, aos cuidados dos melhores advogados logo são soltos e depois pouco se fala deles. E quando a violência aumenta, e quando aparecem crimes cruéis, vem sempre aquela turma do “agora é a hora!”, o que precisamos é punir com rigor, e vamos começar a pensar em redução da maioridade penal para 14 anos. A certeza da impunidade é o que faz o deliqüente. De outro lado, vem sempre aquela turma do “deixa-disso” dizendo que o que a gente precisa é acabar com as causas, a exclusão, a desigualdade, a falta de perspectiva da nossa pobre juventude. Que o nosso futuro não merece cadeia. E que a nossa cadeia não recupera ninguém.
Sim, o discurso duns e doutros é muito bonito. Mas param por aí. E não fazem mais nada. Fico me perguntando se esses aí acreditam mesmo no discurso que fazem, porque, primeiro, pra agir com rigor e reduzir a maioridade penal, como aqueles dizem, a justiça precisaria ser a mesma para todos e porque, segundo, pra atacar as causas, como estes dizem, só com uma Revolução. E, cá pra nós, nem há vergonha na cara daquelas pessoas para admitir isso, nem vejo estas empunhando armas, nem há nelas a indignação suficiente para a mudança súbita e violenta que o país merece. Então não há condições materiais nem para uma Revolução nem para uma revolução. Pior pra nós.
As medidas paliativas, as políticas assistencialistas, a repressão institucionalizada e, também, um código penal ultrapassado, que condena à mesma pena os mais diversos infratores, não vão mais conter o avanço violento de uma juventude amoral, excluída e marginal. Uma juventude muito pouco inocente: aprenderam que a vida é cruel desde cedo. Sim, eles estão cada vez mais precoces: conhecem o som das balas desde cedo, disparadas por traficantes ou polícias. É, talvez fiquem ainda mais precoces: com a redução da maioridade, talvez meninos de 10 anos passem a ser recrutados para guardar o morro, os pontos de venda de entorpecentes. Há uma guerra civil, neste Brasil. E sabemos que a guerra é entre marginais de diferentes classes sociais. E como no centro estamos nós, os cidadãos comuns, ao fogo cruzado, as nossas baixas são maiores. E nossas dores também. Porque, vez ou outra, quando saímos a manifestar e reclamar, ainda nos chamam “vagabundos”.
1.8.07
16.7.07
Autenticidade
Há três coisas que não se pode agüentar: bêbado; chulé; e gente que fala sem acreditar naquilo que diz. Não tem coisa pior que ouvir alguém dizendo coisas sem paixão. Ou fazendo qualquer coisa sem paixão. Mas de pseudo-palestrante já tá cheio: tem muito. Do tipo que fala sobre os males das drogas (lícitas ou não), recrimina o uso, o usuário, sua casa, a favela, e é visto em casas noturnas tomando black label com marlboro. Esse tipo de gente anda em alta. Foi-se o tempo do valor das palavras. E da palavra. Bem lembrado pela lulu, a tendência é piorar: cada vez mais a tecnologia, o bate-papo on-line, a conversa instantânea faz diminuir o senso de responsabilidade dos adolescentes de nossos dias. O que se disse há alguns minutos, como scraps velhos de orkut, fica para trás, não tem mais importância. Nem valor.
Perde-se. Perdem-se os princípios. Perde-se um modelo de gente que é hoje raro. Ainda há alguns, é claro. Tempos atrás um amigo me contava sobre um diálogo entre aluno e uma velha diretora, já bem antiga, tradicional, nestes tempos de escola nova, e novas pedagogias. O aluno não gostou da cor do uniforme que a escola tinha dado e reclamava: "Pôxa, mas é obrigado a usar isso?". E a diretora já impaciente: "Não. Obrigado não é. Mas sem ele v. não entra na escola." "Ah, mas a gente tinha que poder escolher... a gente não vive numa democracia?" "Ô, menino, v. nem sabe o que é democracia nem o que é ditadura: eu que já vivi tudo isso não sei bem o que é. Tanta gente passando fome, e você reclamando dum uniforme? V. tá ganhando isso aí de graça, procure o que fazer, menino, xô." Não dá pra não gostar dessas coisas. Ou de gente assim, que sentenciava tempos atrás, sobre um aluno, digamos... complicado, de seu estabelecimento de ensino: "Deve ser hiperativo. Só pode. Que hoje em dia não tem mais esse negócio de indisciplina..." Rude, antigo, mas autêntico.
Foi o mesmo amigo a me lembrar a imagem autêntica, inegável da nossa polícia, ou, melhor, de um setor dela, a Ronda Ostensiva Tobias Aguiar. Inegável até por eles mesmos. Houve um tempo mais sombrio em que um misto de audácia e humor negro até lhes permitia fixar no vidro das viaturas o adesivo: "Deus cria. A Rota mata". Mas o caso mais espantoso foi o de uma entrevista que, segundo consta, após um massacre, o repórter ousou entrevistar os homens. "Que é que vocês têm a declarar sobre essa... sobre esse...massacre? essa chacina? esse monte de bandido morto?" Ao que um deles, sem parar, sem olhar pro lado, semblante fechado, boina a cair sobre a testa, respondeu, sem culpa: "Eles riem da lei. Não da gente". Era a pura verdade. Rude. Dura. Autêntica.
Perde-se. Perdem-se os princípios. Perde-se um modelo de gente que é hoje raro. Ainda há alguns, é claro. Tempos atrás um amigo me contava sobre um diálogo entre aluno e uma velha diretora, já bem antiga, tradicional, nestes tempos de escola nova, e novas pedagogias. O aluno não gostou da cor do uniforme que a escola tinha dado e reclamava: "Pôxa, mas é obrigado a usar isso?". E a diretora já impaciente: "Não. Obrigado não é. Mas sem ele v. não entra na escola." "Ah, mas a gente tinha que poder escolher... a gente não vive numa democracia?" "Ô, menino, v. nem sabe o que é democracia nem o que é ditadura: eu que já vivi tudo isso não sei bem o que é. Tanta gente passando fome, e você reclamando dum uniforme? V. tá ganhando isso aí de graça, procure o que fazer, menino, xô." Não dá pra não gostar dessas coisas. Ou de gente assim, que sentenciava tempos atrás, sobre um aluno, digamos... complicado, de seu estabelecimento de ensino: "Deve ser hiperativo. Só pode. Que hoje em dia não tem mais esse negócio de indisciplina..." Rude, antigo, mas autêntico.
Foi o mesmo amigo a me lembrar a imagem autêntica, inegável da nossa polícia, ou, melhor, de um setor dela, a Ronda Ostensiva Tobias Aguiar. Inegável até por eles mesmos. Houve um tempo mais sombrio em que um misto de audácia e humor negro até lhes permitia fixar no vidro das viaturas o adesivo: "Deus cria. A Rota mata". Mas o caso mais espantoso foi o de uma entrevista que, segundo consta, após um massacre, o repórter ousou entrevistar os homens. "Que é que vocês têm a declarar sobre essa... sobre esse...massacre? essa chacina? esse monte de bandido morto?" Ao que um deles, sem parar, sem olhar pro lado, semblante fechado, boina a cair sobre a testa, respondeu, sem culpa: "Eles riem da lei. Não da gente". Era a pura verdade. Rude. Dura. Autêntica.
6.7.07
Para umas memórias
Afinal, percebi que o meu lugar tinha todo o tipo de frutas: manga, caju, banana, ameixa, melancia, laranja, limão e até pinha (vulgarmente conhecida por fruta-do-conde). Lembro-me particularmente das romãs. Eram vermelhas, e doces, e boas. Lembro-me de uma avó boa dizendo que comer romã fazia bem pra garganta. E eu, que sofria dores de garganta, achava aquilo o máximo. Devia ter uns cinco ou seis anos.
As mangas sempre tinham cheiro de aventura. Ainda verde, uma manga no alto da mangueira era motivo de escalar, abraçar caules, andar sobre o equilíbrio dos galhos arriscados. Uma manga na mão era logo garapa escorrendo nos dedos, no rosto, no queixo, no peito. Fiapo no dente, por fim. Mangueiras davam mangas, paz e sombras. Eram ensolarados os anos 80 na mesorregião do oeste potiguar.
Algumas informações nutricionais:
a) a manga tem mais ou menos 15% de açúcar, até 1% de proteína e consideráveis quantidades de mineirais e vitaminas A, B e C; faz bem às pessoas com anemia e às mulheres grávidas, porque tem muita concentração de ferro. A ciência diz também que pessoas com cãibras, estresse e problemas cardíacos devem comer manga, por conter potássio e magnésio. A religião, na Índia, de onde a manga é fruta nativa e quase sagrada (como as vacas, o que serve para desconstruir a crendice de que leite com manga faz mal), diz que faz bem ao cérebro, estanca hemorragia e faz bem ao coração (note, perspicaz leitor, que aqui ciência e religião concordam). E, last but not least, a sabedoria popular diz que manga "solta intestino preso". Tem apenas uma semente, também chamada de "caroço".
b) a romã era para os gregos símbolo do amor e da fecundidade, razão por que consagraram-na à deusa Afrodite. Para os romanos, era, além disso, símbolo de ordem e riqueza. Conta-nos outra vez a sabedoria popular que se você carrega três sementes de romã na carteira, não lhe faltará nunca o vil metal. Como a manga, a romã veio da Ásia. Ao contrário da manga, tem muitas sementes, e sementes especiais, pois têm polpa comestível. O suco de romã contém mais anti-oxidantes do que qualquer outro.
Mas, mesmo assim, faltava-me conhecer os doces frutos dos climas frios. Um dia, num entardecer, quase noite, chegou alguém, de muito longe, com fala esquisita, diferente. Nunca o tinha visto, mas logo gostei dele. Vinha do Sul. Trouxe alegria e muitas malas, e numa delas uma fruta desconhecida: maçã. Ainda não tinha visto uma. Quando recebi a minha, reconheci que não era qualquer fruta: tinha pele fina, era delicada, era rara, e era vermelha. Tinha um aroma delicioso, inominável, que nunca mais senti (até hoje me pergunto se maçã tem aroma, de fato). Mordi devagar, mastiguei com cuidado e cada pedaço foi a reiteração de um sabor novo e apaixonante. Foi minha primeira vez.
Nunca mais comi aquela maçã. A lembrança que tenho daquela noite foi ficando na memória. E cada vez que a olho, como para sentir outra vez um prazer antigo, parece que a encontro modificada. E logo me aborreço com a idéia de que alguém mexeu nas minhas coisas. Bobagem, não há nada nem ninguém entre eu e minhas lembranças, a não ser o tempo. E cada vez que as renovo, modifico-as, daí a sensação de estranhamento. E quanto mais as revivo, mais me afasto da realidade que vivi, que queria reviver e que somente reconstruo, à minha maneira. E é assim que as memórias têm sido, por excelência, minhas primeiras ficções, editadas em momentos ociosos, estilizadas pela beleza das coisas envelhecidas, emolduradas pela augusta cor sem-cor do esquecimento.
As mangas sempre tinham cheiro de aventura. Ainda verde, uma manga no alto da mangueira era motivo de escalar, abraçar caules, andar sobre o equilíbrio dos galhos arriscados. Uma manga na mão era logo garapa escorrendo nos dedos, no rosto, no queixo, no peito. Fiapo no dente, por fim. Mangueiras davam mangas, paz e sombras. Eram ensolarados os anos 80 na mesorregião do oeste potiguar.
Algumas informações nutricionais:
a) a manga tem mais ou menos 15% de açúcar, até 1% de proteína e consideráveis quantidades de mineirais e vitaminas A, B e C; faz bem às pessoas com anemia e às mulheres grávidas, porque tem muita concentração de ferro. A ciência diz também que pessoas com cãibras, estresse e problemas cardíacos devem comer manga, por conter potássio e magnésio. A religião, na Índia, de onde a manga é fruta nativa e quase sagrada (como as vacas, o que serve para desconstruir a crendice de que leite com manga faz mal), diz que faz bem ao cérebro, estanca hemorragia e faz bem ao coração (note, perspicaz leitor, que aqui ciência e religião concordam). E, last but not least, a sabedoria popular diz que manga "solta intestino preso". Tem apenas uma semente, também chamada de "caroço".
b) a romã era para os gregos símbolo do amor e da fecundidade, razão por que consagraram-na à deusa Afrodite. Para os romanos, era, além disso, símbolo de ordem e riqueza. Conta-nos outra vez a sabedoria popular que se você carrega três sementes de romã na carteira, não lhe faltará nunca o vil metal. Como a manga, a romã veio da Ásia. Ao contrário da manga, tem muitas sementes, e sementes especiais, pois têm polpa comestível. O suco de romã contém mais anti-oxidantes do que qualquer outro.
Mas, mesmo assim, faltava-me conhecer os doces frutos dos climas frios. Um dia, num entardecer, quase noite, chegou alguém, de muito longe, com fala esquisita, diferente. Nunca o tinha visto, mas logo gostei dele. Vinha do Sul. Trouxe alegria e muitas malas, e numa delas uma fruta desconhecida: maçã. Ainda não tinha visto uma. Quando recebi a minha, reconheci que não era qualquer fruta: tinha pele fina, era delicada, era rara, e era vermelha. Tinha um aroma delicioso, inominável, que nunca mais senti (até hoje me pergunto se maçã tem aroma, de fato). Mordi devagar, mastiguei com cuidado e cada pedaço foi a reiteração de um sabor novo e apaixonante. Foi minha primeira vez.
Nunca mais comi aquela maçã. A lembrança que tenho daquela noite foi ficando na memória. E cada vez que a olho, como para sentir outra vez um prazer antigo, parece que a encontro modificada. E logo me aborreço com a idéia de que alguém mexeu nas minhas coisas. Bobagem, não há nada nem ninguém entre eu e minhas lembranças, a não ser o tempo. E cada vez que as renovo, modifico-as, daí a sensação de estranhamento. E quanto mais as revivo, mais me afasto da realidade que vivi, que queria reviver e que somente reconstruo, à minha maneira. E é assim que as memórias têm sido, por excelência, minhas primeiras ficções, editadas em momentos ociosos, estilizadas pela beleza das coisas envelhecidas, emolduradas pela augusta cor sem-cor do esquecimento.
16.6.07
Disgrafia
Descobri que sou disléxico.
O dicionário diz que a dislexia é a perturbarção da leitura causada pela dificuldade em reconhecer a correspondência entre sinais gráficos e fonemas. Isso explica algumas coisas que me aconteceram. Mas talvez eu tenha um tipo de dislexia ainda não catalogado.
Tudo começou quando a coordenadora foi examinar meus diários de classe e percebeu excesso de corretivo. Até aí tudo bem: organização nunca foi meu forte; caligrafia boa, nunca a tive; e erros em preenchimento de diário são bem comuns a neófitos. O principal é que, mesmo com as tais "rasuras", não deixei passar nada; elas eram a prova de que corrigi todos os erros. E, assim, continuei feliz.
Se até ali esse primeiro sinal não me havia causado impressão, outros dois incidentes vieram como reforço. Postar bobagens pelo orkut é um problema: ainda quando brincamos, percebem o quanto não conhecemos da nossa materna língua. E escrevi, sei-lá-por-que, "expremer" com "x". Por sorte, minha interlocutora era uma gramática, e fui admoestado sem complacência alguma. Ainda tentei argumentar que era um absurdo nossa ortografia fixar a forma "espremer" com "s", se na origem, em latim, se escrevia "exprimere". Mas o que fazia era apenas tergiversar num mundo virtual; na realidade, estava com a pulga atrás da orelha.
Eis que, então, numa sexta-feira quente, quando pensava em pós-graduação em literaturas lusófonas, quando revia velhos amigos de faculdade, quando me inscrevia para o curso do próximo semestre, notei que estava a errar demais no preenchimento da ficha. Ia me inscrever para apenas duas disciplinas e já havia consumido mais de quatro fichas. Ao fim da quinta tentativa, resignei-me. “Isso é dislexia, ou déficit de atenção”, explicou-me uma amiga. Compreendi, não sem alguma perplexidade, que meus erros não são produto do descaso, mas antes efeito de uma perturbação mental. “Mas é uma perturbação especial”, conformei-me.
Leio bem: apenas não escrevo. Pensei então em forjar o termo “disgrafia”, para significar ‘a arte de escrever incorretamente, motivada por distúrbios cerebrais que anulam a formação, a escolaridade e o conhecimento gramatical do indivíduo’. Frustrado, descobri, entretanto, que o termo já existe desde a primeira metade do século XX. E destarte, num só dia, vi que a ortografia e o nelogismo me negavam. Apesar disso, está clara a especialidade que o termo “disgrafia” tem para mim.
Tenho razoável conhecimento ortográfico e, portanto, quando escrevo incorretamente, logo percebo o erro. Mas perceber o erro a posteriori resulta em problemas: para diários de classe, que não podem ter corretivo; para scraps no orkut, que, além de não ser o território da correção gramatical, é o reino do ócio; e para fichas de inscrição, que são sempre extensas e cansativas, gente! De modo que, leitor, perdoe o texto ruim: é obra da disgrafia.
E na ficha de inscrição o país onde nasci ficou assim grafado: “Brazil”.
O dicionário diz que a dislexia é a perturbarção da leitura causada pela dificuldade em reconhecer a correspondência entre sinais gráficos e fonemas. Isso explica algumas coisas que me aconteceram. Mas talvez eu tenha um tipo de dislexia ainda não catalogado.
Tudo começou quando a coordenadora foi examinar meus diários de classe e percebeu excesso de corretivo. Até aí tudo bem: organização nunca foi meu forte; caligrafia boa, nunca a tive; e erros em preenchimento de diário são bem comuns a neófitos. O principal é que, mesmo com as tais "rasuras", não deixei passar nada; elas eram a prova de que corrigi todos os erros. E, assim, continuei feliz.
Se até ali esse primeiro sinal não me havia causado impressão, outros dois incidentes vieram como reforço. Postar bobagens pelo orkut é um problema: ainda quando brincamos, percebem o quanto não conhecemos da nossa materna língua. E escrevi, sei-lá-por-que, "expremer" com "x". Por sorte, minha interlocutora era uma gramática, e fui admoestado sem complacência alguma. Ainda tentei argumentar que era um absurdo nossa ortografia fixar a forma "espremer" com "s", se na origem, em latim, se escrevia "exprimere". Mas o que fazia era apenas tergiversar num mundo virtual; na realidade, estava com a pulga atrás da orelha.
Eis que, então, numa sexta-feira quente, quando pensava em pós-graduação em literaturas lusófonas, quando revia velhos amigos de faculdade, quando me inscrevia para o curso do próximo semestre, notei que estava a errar demais no preenchimento da ficha. Ia me inscrever para apenas duas disciplinas e já havia consumido mais de quatro fichas. Ao fim da quinta tentativa, resignei-me. “Isso é dislexia, ou déficit de atenção”, explicou-me uma amiga. Compreendi, não sem alguma perplexidade, que meus erros não são produto do descaso, mas antes efeito de uma perturbação mental. “Mas é uma perturbação especial”, conformei-me.
Leio bem: apenas não escrevo. Pensei então em forjar o termo “disgrafia”, para significar ‘a arte de escrever incorretamente, motivada por distúrbios cerebrais que anulam a formação, a escolaridade e o conhecimento gramatical do indivíduo’. Frustrado, descobri, entretanto, que o termo já existe desde a primeira metade do século XX. E destarte, num só dia, vi que a ortografia e o nelogismo me negavam. Apesar disso, está clara a especialidade que o termo “disgrafia” tem para mim.
Tenho razoável conhecimento ortográfico e, portanto, quando escrevo incorretamente, logo percebo o erro. Mas perceber o erro a posteriori resulta em problemas: para diários de classe, que não podem ter corretivo; para scraps no orkut, que, além de não ser o território da correção gramatical, é o reino do ócio; e para fichas de inscrição, que são sempre extensas e cansativas, gente! De modo que, leitor, perdoe o texto ruim: é obra da disgrafia.
E na ficha de inscrição o país onde nasci ficou assim grafado: “Brazil”.
9.6.07
Orgulho e Preconceito
Da leitura de Orgulho e Preconceito (1813), de Jane Austen (1775-1817), ficou-me: afinal, o preconceito é de Elisabeth e o orgulho é de Darcy, ou vice-versa. Orgulhosos os dois são. Fiquei apenas tentando encontrar o preconceito em Darcy, sem chegar a resultados. Aí, outro dia, esbarrei com o filme nas estantes. Fui ver.
Um bom filme, sim senhor, ambientado no XVIII, figurino muito bem feito (e apesar da bela atuação da bela Keira Knightley, talvez o figurino merecesse mais o Oscar 2006 do que a atriz), perfeita reconstrução de cenários, luxo, pompa, circunstâncias e todas as frescuras mais a que tinham direito. As imagens são bem fiéis ao livro, sobretudo as externas, recriando toda a riqueza em jogo, castelos, mansões, laguinhos cristalinos, extensos campos verdes etc. Os diálogos, ácidos, também lá estão, em sintaxe rebuscada, associação veloz de idéias, lambuzados em ironia o tempo todo.
É claro que a história toda tem um ponto fraco: é romântica. O enredo é irreal. É inverossímel alguém como a personagem principal contrapor-se à sociedade de seu tempo, enfrentá-la, desafiá-la e, ainda assim, casar-se, como se nada fosse, ou como se não fosse aquilo que ela, Elisabeth, mais critica. É claro que ela se casa em condições especiais; casa-se por amor. E, só pra mostrar que o amor vence tudo, exatamente por não buscar isso, casa-se com um homem muito rico. Mas, ora, isso não tem consistência racional alguma. Mas, enfim, é a tal "estética romântica", cuja parte pior é não deixar rolar, nem no filme, muito menos no livro, ato algum de lascívia ou libidinosidade. Nenhum beijinho, nada. Chega a dar raiva.
Em todo caso, se o enredo parece fraco, as personagens não o são. Por isso, vale a pena ver no filme personalidades tão consistentes, como o Sr. Bennet, cuja maior diversão é provocar a mulher; a mulher, Sra. Bennet, cujo ridículo instinto de casar as filhas torna-se irritante: oferece-as aos pretendentes como se fossem putas; a filha, Elisabeth, de personalidade difícil, debochada, subversiva; as outras filhas, que são, de fato, um bando de putas; Sr. Collins, o primo, que é um chato de galochas: vive elogiando todo mundo por onde quer que passe.
Não tem como não dar razão a Elisabeth: "Minha família está claramente competindo para ver quem é mais ridículo." Nem como não dar razão a Jane Austen: era uma mulher à frente do seu tempo. E à frente de muitas pessoas do nosso tempo.
Um bom filme, sim senhor, ambientado no XVIII, figurino muito bem feito (e apesar da bela atuação da bela Keira Knightley, talvez o figurino merecesse mais o Oscar 2006 do que a atriz), perfeita reconstrução de cenários, luxo, pompa, circunstâncias e todas as frescuras mais a que tinham direito. As imagens são bem fiéis ao livro, sobretudo as externas, recriando toda a riqueza em jogo, castelos, mansões, laguinhos cristalinos, extensos campos verdes etc. Os diálogos, ácidos, também lá estão, em sintaxe rebuscada, associação veloz de idéias, lambuzados em ironia o tempo todo.
É claro que a história toda tem um ponto fraco: é romântica. O enredo é irreal. É inverossímel alguém como a personagem principal contrapor-se à sociedade de seu tempo, enfrentá-la, desafiá-la e, ainda assim, casar-se, como se nada fosse, ou como se não fosse aquilo que ela, Elisabeth, mais critica. É claro que ela se casa em condições especiais; casa-se por amor. E, só pra mostrar que o amor vence tudo, exatamente por não buscar isso, casa-se com um homem muito rico. Mas, ora, isso não tem consistência racional alguma. Mas, enfim, é a tal "estética romântica", cuja parte pior é não deixar rolar, nem no filme, muito menos no livro, ato algum de lascívia ou libidinosidade. Nenhum beijinho, nada. Chega a dar raiva.
Em todo caso, se o enredo parece fraco, as personagens não o são. Por isso, vale a pena ver no filme personalidades tão consistentes, como o Sr. Bennet, cuja maior diversão é provocar a mulher; a mulher, Sra. Bennet, cujo ridículo instinto de casar as filhas torna-se irritante: oferece-as aos pretendentes como se fossem putas; a filha, Elisabeth, de personalidade difícil, debochada, subversiva; as outras filhas, que são, de fato, um bando de putas; Sr. Collins, o primo, que é um chato de galochas: vive elogiando todo mundo por onde quer que passe.
Não tem como não dar razão a Elisabeth: "Minha família está claramente competindo para ver quem é mais ridículo." Nem como não dar razão a Jane Austen: era uma mulher à frente do seu tempo. E à frente de muitas pessoas do nosso tempo.
29.5.07
a vida... a vida anda em transportes coletivos
Sim, lá é que há vida.
Mas hoje, enquanto vinha para casa, senti uma sensação esquisita, bem menos engraçada que as habituais. Fui observando as coisas e, sim, eu vi.
Após a jornada de trabalho, o torpor causado pelo stress, as dores criadas pelos cérebros em intensa atividade, as fadigas coletivas nos transportes coletivos, o cochilo roubado ao desconforto, os solavancos imperdoáveis, a garoa pintando de cinza a janela, a janela abrindo às trepidações, a opressão do metal frio às frias mãos, o rosto sonolento em multidão, cinza, frio, opressão – pequenos indícios que nos fazem perguntar: não será tudo um sonho ruim, somente?
Mas hoje, enquanto vinha para casa, senti uma sensação esquisita, bem menos engraçada que as habituais. Fui observando as coisas e, sim, eu vi.
Após a jornada de trabalho, o torpor causado pelo stress, as dores criadas pelos cérebros em intensa atividade, as fadigas coletivas nos transportes coletivos, o cochilo roubado ao desconforto, os solavancos imperdoáveis, a garoa pintando de cinza a janela, a janela abrindo às trepidações, a opressão do metal frio às frias mãos, o rosto sonolento em multidão, cinza, frio, opressão – pequenos indícios que nos fazem perguntar: não será tudo um sonho ruim, somente?
27.5.07
Que o autor de Dom Casmurro fosse um chato como pessoa, vá lá. E pouco importa. Escrevendo ele era bem divertido, e ainda conseguiria irritar e agradar, a um tempo, e com uma só anedota, a Proudhon e a Nietzsche, respectivamente.
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Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, – um triste molambo de mulher, – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original, não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me incutisse por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!
Quincas Borba, cap. CXVII
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Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, – um triste molambo de mulher, – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
– É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.
– Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original, não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas! – Chamava-se Chagas. – Padre mais que bom, que assim me incutisse por muitos anos essa idéia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas!
Quincas Borba, cap. CXVII
20.5.07
Sobre as causas da violência
As razões da desordem brasileira, ao contrário do que se pensa, não são sociais: são psicológicas. Tudo se pode resolver pela pedagogia. Mas, muito ao contrário do que pensa Gabriel Chalita, que tem um currículo invejável, sim senhor, que é muito bem preparado, sim senhor, que provavelmente nunca entrou em sala de aula, não senhor, não há pedagogia do amor possível. A única pedagogia real é a pedagogia do ódio.
Só se pode incutir valores éticos ou cognitivos mediante uma ação autoritária que resulte em conquista de respeito. Donde se conclui que é melhor ser temido que amado. Aqueles que amam tentarão a todo custo tirar vantagem do objeto amado, ao passo que aqueles que temem servirão o objeto do temor até o limite das forças.
Ora, na educação como na segurança pública, o trabalho é o mesmo. Basta saber que num lado educa-se; no outro, pune-se. E se no primeiro não mais se pune, e se no segundo não mais se educa, é um erro, que somente posso atribuir à decadência dos nossos tempos. Importa agora reconhecer que há crise de autoridade num e noutro lado.
Em São Paulo, com todos os enroscos, ainda se vai razoável nessa matéria, se comparado ao Rio. Que zona se tornou esta cidade! Naquela ao menos não se vê bala perdida a cada dia, gente morrendo o tempo todo, policiais correndo de bandido a cada ação. Parece que a bandidagem paulistana tem ainda algum medo da polícia. No Rio, não. Desafia-se-lhe.
E a razão disso tudo é psicológica. Em São Paulo, as cores das viaturas são preta, cinza e vermelha. São cores fortes. No Rio, as viaturinhas são azulzinhas. E que corzinha bonitinha, adoro azul! Mas, cá pra nós, não bota medo em ninguém.
Só se pode incutir valores éticos ou cognitivos mediante uma ação autoritária que resulte em conquista de respeito. Donde se conclui que é melhor ser temido que amado. Aqueles que amam tentarão a todo custo tirar vantagem do objeto amado, ao passo que aqueles que temem servirão o objeto do temor até o limite das forças.
Ora, na educação como na segurança pública, o trabalho é o mesmo. Basta saber que num lado educa-se; no outro, pune-se. E se no primeiro não mais se pune, e se no segundo não mais se educa, é um erro, que somente posso atribuir à decadência dos nossos tempos. Importa agora reconhecer que há crise de autoridade num e noutro lado.
Em São Paulo, com todos os enroscos, ainda se vai razoável nessa matéria, se comparado ao Rio. Que zona se tornou esta cidade! Naquela ao menos não se vê bala perdida a cada dia, gente morrendo o tempo todo, policiais correndo de bandido a cada ação. Parece que a bandidagem paulistana tem ainda algum medo da polícia. No Rio, não. Desafia-se-lhe.
E a razão disso tudo é psicológica. Em São Paulo, as cores das viaturas são preta, cinza e vermelha. São cores fortes. No Rio, as viaturinhas são azulzinhas. E que corzinha bonitinha, adoro azul! Mas, cá pra nós, não bota medo em ninguém.
11.5.07
Das castas
Em tempos de expansão marítima, jesuítas, viajantes e colonos portugueses indistintamente nomeavam “negro” aos índios brasileiros e escravos vindos da África. A denominação, que hoje nos parece esdrúxula, servia para assinalar a diferença branca do conquistador. Naqueles tempos não convinha aceitar pluralidades, e entender diferenças nunca esteve na ordem do dia, em lugar nenhum. Assim era o século XVI.
Em Goa, outra possessão lusa, a heterogeneidade do indiano ofereceu dificuldades ainda maiores ao entendimento ocidental, que, se não se atreveu a uma classificação racial, resolveu o conflito reduzindo ao conceito de “castas” uma realidade cultural muito mais complexa, ignorando aspectos como ascendência, profissão, diversidade religiosa e origem geográfica. Ao europeu, porém, o que se tinha ali era tão-somente uma rígida e imutável divisão social. Assim eram as castas. E, deste modo, o XVI legou aos atuais países emergentes um misto de memória colonial, atraso e incompreensão.
Até hoje o indiano, pelas suas diversidades, causa problemas. Kanavilil Rajagopalan, lingüísta, professor da Unicamp, de origem hindu, conta que, ao fazer nossa carteira nacional de habilitação, apareceu a temida pergunta, “Qual é sua cor?”, ao que ele respondeu, “É marrom”, o que levantou problema para a classificação tradicional. É claro que a atendente não resolveria uma questão secular em tão poucos segundos, mas fez o que era possível: “Qual sua profissão?”, “Sou professor universitário”, “Ah, então o senhor é branco”. E assim é o século XXI. E assim são as castas.
Em Goa, outra possessão lusa, a heterogeneidade do indiano ofereceu dificuldades ainda maiores ao entendimento ocidental, que, se não se atreveu a uma classificação racial, resolveu o conflito reduzindo ao conceito de “castas” uma realidade cultural muito mais complexa, ignorando aspectos como ascendência, profissão, diversidade religiosa e origem geográfica. Ao europeu, porém, o que se tinha ali era tão-somente uma rígida e imutável divisão social. Assim eram as castas. E, deste modo, o XVI legou aos atuais países emergentes um misto de memória colonial, atraso e incompreensão.
Até hoje o indiano, pelas suas diversidades, causa problemas. Kanavilil Rajagopalan, lingüísta, professor da Unicamp, de origem hindu, conta que, ao fazer nossa carteira nacional de habilitação, apareceu a temida pergunta, “Qual é sua cor?”, ao que ele respondeu, “É marrom”, o que levantou problema para a classificação tradicional. É claro que a atendente não resolveria uma questão secular em tão poucos segundos, mas fez o que era possível: “Qual sua profissão?”, “Sou professor universitário”, “Ah, então o senhor é branco”. E assim é o século XXI. E assim são as castas.
7.5.07
2.5.07
30.4.07
DA REALIDADE
O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! quanta vez a vida nos revela
Que a saudade da amada criatura
É bem melhor do que a presença dela.
Mário Quintana
*********
Bem, podem me xingar, mas, de todas as relações, prefiro as desenlaçadas. Já tenho, cá comigo, muitos nós.
Ah! quanta vez a vida nos revela
Que a saudade da amada criatura
É bem melhor do que a presença dela.
Mário Quintana
*********
Bem, podem me xingar, mas, de todas as relações, prefiro as desenlaçadas. Já tenho, cá comigo, muitos nós.
24.4.07
E, ou eu muito me engano, mas acho que tenho cultivado mesmo uma fraqueza em mim. E nem nisso sou forte. E mais e mais acho melhor não ser. Acho que desisti até de morrer. Primeiro, porque sou muito mole pra suicídio. Depois, porque, na verdade, tenho me suicidado sempre: dos trabalhos, dos projetos, e da vida das pessoas. E cada desistência é um luto que enegrece um futuro. E é assim que, faz tempo, o cinza das manhãs chuvosas tem criado a vida nos meus dias.
9.4.07
E, ou eu muito me engano, mas acho que, definitivamente, tenho cultivado bem bonita uma fraqueza em mim. E nem nisso sou forte. E mais e mais acho melhor não ser. Acho que desisti até de morrer. Pros diabos tudo isso! Faz tempo que o cinza das manhãs chuvosas tem criado a grande sonolência dos meus dias.
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