24.2.09

Adaptações

Eu não entendo essa resistência besta dos escritores em ceder direitos ou aprovar adaptações de suas obras pro cinema. Apesar de não ter gostado de Love in the Time of Cholera, ainda assim quero ver os Cem Anos de Solidão na tela, por que não, Gabriel? Ninguém vai conseguir apagar o brilho de uma obra só porque estragou a versão cinematográfica. É um risco. Mas não mata. Dá vida nova, acende a vontade de reler, de comentar, de comparar. O pior que pode acontecer é alguém ver o filme e ficar com vontade de ler o livro. E quem já leu, tem a chance de ver o que houve de novidade, de inovação, criatividade, que é sempre uma coisa positiva – uma coisa que faltou na versão do livro do Gabriel García Márquez, e sobrou na do Saramago. Mas parece que tudo gira em torno da mesquinharia: não se quer que diretores tenham a chance de fazer um bom trabalho, de criar coisas novas sobre coisas velhas, de receber os louros num universo do qual não são criadores. Talvez por isso apareça toda a confusão antes do lançamento disso:


Ah, dá um tempo, Alan Moore. Do jeito que a coisa vai, essa birra toda fica parecendo ciuminho. Como é que pode afirmar com toda essa certeza que Watchmen não pode ser adaptado pro cinema? Só porque tem coisas que não podem ter vida fora dos quadrinhos? É claro que tem coisas que não saem mesmo dos quadrinhos. Essas ficam de fora, paciência. Em seu lugar, entram coisas que jamais apareceriam no HQ; que só podem existir na tela. Resolvido. Quer dizer, estaria resolvido, se não houvesse esse puritanismo surreal, que quer ver dois Watchmens iguais em suportes diferentes. Sem contar que esse negócio de nem querer assistir o filme mostra uma inflexibilidade típica das ações guiadas pela emoção, o que reforça a tese do ciuminho. A-ham!

Nem viram de verdade, e já foram desancando o filme. Provavelmente os fãs, cegos, indo na onda do criador. Tomara que, quando virem mesmo, todo mundo goste. Pra que a gente não fique dando ouvido a críticas, nem da crítica nem do autor. À primeira vista, pô, parece ser um trabalho legal... e só com isso, eu já ficaria feliz: com um trabalho legal. Imagina agora, sabendo que virá em separado toda aquela parte do universo expandido também?! Yaaaaaaa-hoo-hoo-hoo-hooey!!!

Principalmente pelos Contos do Cargueiro Negro, que, um dia, achei existirem de verdade, fora de Watchmen. Agora, existirão. Navegando noutros mares.

22.2.09

Crime e Castigo

Pode conter spoilers.

Mas, talvez, o melhor de ler os clássicos não seja a novidade. E sim essa sensação de que já os tínhamos lido, de que já estavam dentro de nós, de que era exatamente aquilo diríamos se pudéssemos dizer as palavras certas. Agora, começo a pensar que as aparentes semelhanças de estilo podem ser muito bem diabruras do tradutor – só lendo em russo mesmo pra saber. Mas os links são vários: uma lembrança de García Márquez aqui, uma recordação de Agatha Christie ali (principalmente essa coisa de assassinar a machadadas), um Guy de Maupassant acolá. Sobre este último, um trecho em que personagens discutem a existência de fenômenos sobrenaturais, fantasmas, demônios – poderia muito fazer parte de "O Horla":

– Todos dizem: “o senhor está doente, por consequência o que julga ver é apenas um sonho próprio do delírio”. Isso, porém, não é raciocinar com todo o rigor lógico. Admito que essas visões só aparecem aos doentes, o que prova apenas que é preciso estar doente para observá-las, mas não que elas não existam.

– Com certeza não existem! – replicou vivamente Raskólnikov.

Svidrigáilov fitou-o demoradamente.

– Não existem? É a sua opinião? Mas não se poderá dizer: "As aparições, os espectros, são, por assim dizer, fragmentos, pedaços de outros mundos. Naturalmente, o homem saudável não tem motivo para vê-las, visto que é, sobretudo, um ser terreno, e por consequência deve viver apenas a vida terrestre, em conformidade com a harmonia e a ordem. Mas, desde que adoeça, desde que a ordem normal da terra se altere, ainda que minimamente, em seu organismo, logo se lhe começa a manifestar a possibilidade de um outro mundo; à medida que a doença se agrava, multiplica-se o seu contato com o outro mundo, até que a morte completa lá o faça entrar diretamente”.
(Quarta parte, cap. 1)

Agora, Dostoiévski talvez tenha legado um mau costume irritante, aparentemente copiado por Saramago, que é esse de não nomear os capítulos. E quando a gente quer reler aquela parte, atar as pontas da trama, ressaber de novo quem é aquele personagem, não temos os nomes. E com esse incômodo, que só fui nomear de fato após a metade, resolvi que se coisas anônimas me incomodam o que tenho a fazer é lhes dar nomes, ora. Sendo assim, fica abaixo a minha parte do trabalho. Me mandem o resto, quando possível.

Quarta parte
Cap. 1 - Encontro com Svidrigáilov
Cap. 2 - Adeus casamento
Cap. 3 - Planos de Razumíkhin
Cap. 4 - No quarto de Sônia
Cap. 5 - No comissariado outra vez
Cap. 6 - O surpreendente Nicolai

Quinta parte
Cap. 1 - Lújin encontra Sônia
Cap. 2 - Um banquete fúnebre
Cap. 3 - Crime e castigo
Cap. 4 - A verdade
Cap. 5 - De quanto morre Ekatierina Ivanóvna

Sexta parte
Cap. 1 - Conversa com Razumíkhin
Cap. 2 - Pietrovich e a verdade
Cap. 3 - Encontro com Svidrigáilov
Cap. 4 - O libertino
Cap. 5 - Dúnia, Svidrigáilov e aulas de tiro
Cap. 6 - Svidrigáilov vai à América
Cap. 7 - Raskólnikov se despede outra vez
Cap. 8 - A verdade outra vez


Epílogo
Cap. 1 - Prisão, doença, casamento e morte
Cap. 2 - Mudança

20.2.09

Tableau

Cheguei e abri a porta mecanicamente, como sempre fazia, como toda a família fazia, como toda família faz. E sob a tênue luz que se infiltrava pelas cortinas de um fim de tarde, na penumbra em que jazia a sala, e mesmo com a TV desligada, uma imagem difusa congelou-me os membros e fez caminhar pelas costas um medo cheio de patas nojentas e arrepiantes. Os corpos de mãe e irmão meus achavam-se por sobre o sofá, inertes. Era chocante. Era surreal.

– Por que não estão vendo TV? - gritei, desesperado.
– Porque... uahh... estávamos dormindo... – e bocejou outra vez.
– Ah!

19.2.09

É madrugada...

... e tenho sono, mas não quero dormir. Quero escrever. E talvez escrever não diminua o aperto no peito, nem resolva os problemas do mundo, nem traga alegria, talvez só traga tristeza, certamente só trará isso. Mas sigo ainda escrevendo. Mais uma palavra. Mais uma linha. E fico sofrendo as dores que causo também. Como num grande jogo de espelhos, em que as tintas das minhas ações se refletem no mundo dos meus sentimentos. Não, não era bem isso. Queria dizer que as coisas que eu escrevo podem machucar tanto quanto as coisas que outros me fazem, como faço a outros, com a mesma sensibilidade de rinoceronte. Não, não, não. Em suma, como disse Belchior, sons, palavras são navalhas... Ah! diabo! também não era assim... É melhor ir dormir. Droga.

10.2.09

A câmara em 10 de fevereiro de 2009

O bom e o melhor da política não está mais na arte da organização, direção e administração dos estados e nações, nem tampouco no relacionamento com os outros, a fim de obter os resultados tão melhores quanto possíveis. Já disse uma vez, e digo de novo: política virou circo. Riamos.

E para isso, até que não foi má ideia o povo de Mauá eleger Batoré vereador. Aquele mesmo da praça é nossa. Hoje, declarou em tom solene: 1) que sua cidade teria dado um passo a frente, se tivesse reelegido o prefeito anterior (Leonel Damo - PV) – o que seria muito bom, não fosse estarmos à beira do abismo (veja o inusitado da imagem, leitor); 2) que não aguenta mais a buraqueira das ruas e avenidas: tem buraco tão grande que dá pra cair com as quatro rodas (e de fato não é exagero); 3) que é uma pena não saber onde se está caindo, se é no buraco do Leonel, se é no buraco do Oswaldo [Dias - PT]. Aí já é sacanagem, né, Batoré?

E entre suspeitas de mau uso de recursos do Fundeb, sumiço de livro-caixa, falta de remédios nos hospitais, auditorias nas secretarias por parte da atual gestão, ameaça de abertura de CPI por parte da oposição – neste verdadeiro caos, levanta-se o nobre vereador e ex-prefeito Edgar Grecco para propor lei que multa os donos de animais domésticos que não os vacinarem, encoleirarem, identificarem com placa, recolherem o cocô etc. etc. Nada contra os animais; mas que assunto inoportuno, não? E o discurso foi demorado. Não obstante a longa fala do nobre vereador, o sr. legislador Rogério Santana disse agradecer o colega por seu brilhante discurso. Nosso presidente da câmara é um fanfarrão!

28.1.09

Começou então para Raskólnikov um tempo singular: dir-se-ia que uma densa névoa subitamente tivesse se posto à sua frente, envolvendo-o em uma solidão pesada e inexorável. Ao evocar essa época, muito tempo depois, ele compreendeu que sua consciência estava obscurecida, e que esse estado permaneceu, com breves intervalos, até a catástrofe definitiva. Estava absolutamente convencido de ter se equivocado em muitos pontos, por exemplo, no momento e na duração de certos acontecimentos. Pelo menos, quando mais tarde quis reunir e coordenar as suas reminiscências, foi-lhe necessário recorrer a testemunhos de estranhos, para saber um grande número de particularidades. Confundia os fatos, considerava tal incidente como conseqüência de um outro que não existia senão na sua imaginação.

Crime e castigo. Sexta parte, cap. 1.

Tenho a repentina (e talvez blasfema) impressão de que Dostoiévski andou lendo Gabriel García Márquez. Não me pergunte como nem por quê.

26.1.09

E ela, que parece tão bonita, nem repara onde estou. E eu, que fiquei tão sem lugar, nem sei para onde vou. E as lágrimas, que correm tão docemente, vão salgando minha boca. E meu olhar.

20.1.09

A arte e a literatura dos cadernos de empregos

Eu sinceramente não sei quem é que está mais sem vergonha: esse pessoal do ramo prostitutivo... ou esse pessoal do meio jornalístico, que publica essas coisas (e o Diário, hein?).


Espere, leitor. Talvez v. não tenha penetrado no espírito da coisa. Nós estamos falando especificamente daquele anúncio da Babalú, que, não contente em ser "safada", também é "muito vadia". Este aqui:


Isto é in-crí-vel!!! E depois os professores é que ganham mal...

O mais legal de tudo, neste caderno de "Empregos & oportunidades" do DGABC, é que ele é lido pelos alunos do ensino fundamental da aprazível cidade de São Caetano do Sul! É que, por um convênio entre prefeitura e jornal, todo dia as escolas recebem 20 exemplares, a serem usados pelos professores num projeto denominado "O Jornal na Sala de Aula". Muito bem.

Pergunto eu: o supracitado caderno não é parte integrante do jornal? Creio que sim. Então, que se lasque!, tenho levado pra aula. E, se algum dia, alguma criança de 12 anos perguntar, Professor, o que é um "anal giratório"? Eu, com a cara mais inocente que tiver para o momento, responderei: "Não faço ideia, filho." E mudarei de assunto. Porque toda vez que tento imaginar o que seja essa coisa, sinto, além da vontade de rir, um misto de medo e dor.
Depois de ver À procura da felicidade, pensei em escrever sobre ela. E ia fazê-lo. Mas, pensando bem, o melhor é ler Sartre. Além de muitas coisas, evita-se o trabalho de pensar.

17.1.09

E não é que falar com a bola, o wilson do tom hanks, ou falar consigo mesmo, embora pareça loucura, é apenas um ato de desenlouquecimento?! E pensar que a infância me fez acreditar em tantas coisas, entre as quais: que era louco; que era especial; que o demônio vivia sob a minha cama.

14.1.09

Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma. (...) Se vossos feitos foram romanos, consolai-vos com Catão, que não teve estátua no Capitólio. Vinham os estrangeiros a Roma, viam as estátuas daqueles varões famosos, e perguntavam pela de Catão. Esta pergunta era a maior estátua de todas. Aos outros, pôs-lhe estátua o Senado; a Catão, o mundo.

Pe. Vieira. Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma (Capela Real, ano de 1669).


Eu adoro este padre.
A primeira gripe do ano foi muito legal. Ainda não acabou, e já estou com saudades. Pela primeira vez, trouxe em seu pacote viral insônia, falta de apetite, dor de cabeça, ouvido e dente. Mas deixou intactos o pulmão e a garganta. E, pelo menos, pude fumar.

13.1.09

Quando em férias, bela noite de céu estrelado, caminhando à beira-mar, alguém muito bacana, louco, bêbado, com uns tantos baseados, farinhas, balinhas, sabe-se lá deus o que esses maconheiros andam tomando, coloca pela segunda vez a mão em v., e agora demoradamente, é hora de dizer uma frase ridícula. Ainda assim, v. tenta ser mais prático: "Ei, companheiro, por favor, tire a mão de minha cintura." Para ouvir que: "É, o mundo ocidental tem um complexo em relação ao tato, não?"

Hahaha. O sujeito tinha senso de humor. O que te carrega para as raias do cinismo: "Não! o mundo ocidental é bastante rico em termos de diferenças, na verdade." O que não convence: a frase é inevitável. Então, a gente tenta fazê-la natural, busca pôr em segundo plano, camufla numa subordinada adverbial causal, mas o resultado é o mesmo. E se a mão, incômoda, continua em sua cintura: "É que, veja bem, temos hoje em dia... bem... por exemplo: como eu sou hétero, vejo que..." "...Hahahahahaha". De fato. Ridículo. O bom de tudo é que ninguém mais me agarrou pela cintura.

6.1.09

Meta para 2009

Eu só tenho uma:

- Trabalhar não mais que 4 horas diárias.

Acho difícil alcançar este ano, mas não estou tão longe. Oficialmente trabalho seis. Agora, é arranjar um jeito de cortar as malditas duas horas, a irresponsabilidade financeira, os gastos supérfluos, os charutos cubanos, as prostitutas do interior e as cervejas importadas. É utopia. Mas não é motivo para não querê-la.

22.12.08

Romântica lembrança

A lembrança foi quando, à noite, cansado de correr, parei pra assistir um jogo, um futebol, como tantos que joguei e assisti, nas ruas, nas calçadas, nos campinhos de várzea. E veio a danada da nostalgia a fazer cafunés, a lembrar do gosto doce da liberdade soprando no rosto, da adrenalina inflando os pulmões, da energia sempre renovada, do eterno correr atrás do adversário, da bola, do gol. Dos tênis imundos, rasgados. Da blusa puída, esquecida de lado, preparo pro frio. Do esperar pela próxima partida. Dos cabelos molhados, do suor. Daquele gosto salgado, distante, pequeno, querido... de felicidade. E foi então que me lembrei: na verdade, mais assisti jogos que joguei. Era sempre o último a ser escolhido.

20.12.08

A história contada pelos independentes

Quando Olga Defavari convida para o lançamento de um livro sobre Imprensa alternativa no ABC,


lá v. pode encontrar pessoas hardcore, como o cara que edita este zine bacana:



Mas v. não imagina que encontrará caras com quem conviveu por meses sem nunca dizer que tinham uma publicação de mais de cinco, seis anos. E v. começa a se perguntar por que as pessoas são tão modestas e recatadas.



Abrindo-lhe as páginas, porém, v. entende tudo. Há coisas escritas que não se fala.

19.12.08

Se isto fosse um diário não seria diário. Paciência. Há dias que não merecem ser escritos. Mas estes, que a partir de agora viverei, sim! São as férias. Doces, chegando serenas, prometendo dias de ócio, de festas, de sol, de cervejas, amigos e felicidade. Tomar umas biritas, pegar umas minas, ir para o meio do nada, lutar contra elementos naturais, embriagar-se com cheiro de árvores, brigar com insetos, arriscar a vida ao mar, fatigar o corpo e libertar a alma. Sentir falta de dias eneblinados, cimento, automóveis, eletricidade... E, depois, voltar pra cidade, pras pilhas de papel, pras nuvens de fumaça, e achar tudo isso nossa casa. Nossa rotina, nossa prisão. Em cujas paredes criamos imagens de liberdade.

17.12.08

Sapatadas


É singular o caso da sapatada no Bush, lá no Iraque. Não pela sapatada, mas pelo que ele disse depois: "Tudo que eu sei é que era número 41" (citado de memória). Saiu-se bem. E não me parece ser típico dele esses ditos espirituosos. Mas ditos espirituosos é que são tudo, embora tenham se perdido.

Ao que consta, na corte portuguesa eram muito comuns. Havia lá pessoas especialmente selecionadas, para tirar de cada situação, num relance genial, ao calor do momento, uma frase que fizesse rir ou pensar. Vez ou outra ressurge esta prática.

Conta-se, a respeito de Jânio Quadros, que, num debate, depois de muito ofender seu adversário, foi ele surpreendido pela reação algo inusitada da vítima, que tomando a palavra pôs-se de pé e declarou, em tom de pouco caso: "Pode falar. Fale. Que as suas palavras entram por um ouvido e saem por outro." Ao que Jânio imediatamente demoliu: "Impossível. O som não se propaga no vácuo."

5.12.08

Dias bem conturbados por aqui. Pela primeira vez em muito tempo, hoje, veio-me uma sombra que é mais uma premonição do futuro – fique a redundância –, e trazia um não-sei-quê de arrependimento, esquecimento e solidão. E tive a impressão que andei desperdiçando meu tempo nos últimos anos, ou pior, desperdiçando minha vida na última década. Sem tempo para decisões novas e corretas. Sem luz para essa sombra que tornará tudo realmente, e de fato, perdido.


Enquanto caminhava, pensando nisso, levantei lentamente os olhos num longo suspiro, olhei o céu e vi. Algumas folhas verde-escuras, das árvores mais altas, um céu bem cinza, escuro, de fim de tarde, vi o que queria ver. E, vendo, como um castigo, percorreu-me a nuca a assombração do inferno, uma coisa muito sutil, aqui-invisivelmente-ao-seu-lado, arrepiante, trazendo de volta o som de pessoas, de carros, de realidade. Um estado de prisão voluntária, de algemas invisíveis, de constante autoflagelamento e recriminação, obrigação a coisas indesejáveis, prazer comprado a desprazer, luta por sobrevivência, vontade de chorar, raiva, dúvida, medo e predomínio cego da razão. Ainda me arrepio só de lembrar.

16.11.08

.

Se a verdade um dia se escrevesse
Nas pedras da longuíssima estrada
De tanta solidão e dor, e cada
Desejo de outro mundo, e a angústia desse...


Se toda a gente que triste vivesse
Pudesse caminhar, já conformada,
Nas ruas solitárias, rumo ao nada,
Nas mortas letras tortas que relesse...


Em vez das gargalhadas costumeiras,
Das frases desornadas, desordeiras,
Somente se ouviria o som do frio


Leitor – agricultor que explora, lavra,
Nos indolores campos da palavra,
A distância, o silêncio, o vazio...


.

30.10.08

Novas pedagogias

E hoje a Folha disse que:

Professora é acusada de incitar agressão a criança de 5 anos

Mãe de garoto diz que docente de escola no Distrito Federal segurou os braços do filho e pediu que colegas dessem tapas em seu rosto

Uma briga entre crianças de uma turma de jardim de infância levou ao afastamento de uma professora de educação infantil, ontem, no Distrito Federal. Segundo alunos, após dois meninos se desentenderem na aula, a professora recorreu à violência para punir um dos garotos: chamou um deles à frente, segurou os braços da criança para trás e pediu que os demais colegas dessem tapas no rosto do menino, de cinco anos.

***

O fato positivo é que, finalmente, o agredido agora não é o docente. E, por isso, atitude correta. Boa professora.

27.10.08

Sobre o acordo ortográfico II

Os únicos pontos que, acho, realmente podem oferecer alguma dúvida são:

1. As seqüências consonânticas, descritas na "Base IV", que ora se conservam, ora se eliminam, ora se facultam, o que pode gerar dúvidas exatamente na facultatividade entre "ato" ou "acto". Afinal, para nós brasileiros não há dúvida que a primeira grafia é correta; a dúvida é se podemos corrigir um cabo-verdiano dizendo que a segunda é errada.

2. O hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, descrito na "Base XV", mais precisamente no artigo primeiro, onde se diz que "certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, paraquedas, paraquedista, etc." O problema é que neste ou deste "etc." a gente pode enfiar ou excluir o que quiser.

3. O hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação, da "Base XVI". Esta seção parece bem bonitinha, com exceção de um prefixo: o sub. Antigamente, o uso impunha hífen antes de r ou b. Agora, o acordo elimina totalmente, gerando anomalias fonéticas, como subreptício ou subregião (nada impedirá a leitura deste "bre" como sílaba), ou gráficas, como subbase ou subbosque.

Agora, uma coisa seja dita: o sr. Carlos Alberto Ribeiro de Xavier tinha razão, e muita razão, ao se irritar. Muitas dúvidas vêm de quem não leu bem o texto do Acordo ou, na pior hipótese, não estudou bem gramática. Os capítulos que tratam da acentuação estão perfeitos. Apesar disso, ainda há quem queira ver pêlo em ovo, como a Folha, que hoje disse:

O acordo diz que perdem o acento os ditongos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "idéia" e "jibóia". No entanto, existe hoje uma regra que determina que paroxítonas terminadas com "r" tenham acento. O que fazer com "destróier", que se encaixa nas duas regras?

Se eu fosse o Xavier, diria: "Gente, eu não vejo dificuldade nisso aqui também não... Se antes "destróier" se encaixava em duas regras, agora vai ser regido só por uma, catapimbas!"

20.10.08

Começou hoje uma Semana que celebra os 150 anos de publicação da mais controversa, polêmica e importante teoria científica de nosso tempo, quiçá de todos. E o tempo não poderia ser melhor; 2008 é por demais significativo: há 400 anos nascia Antônio Vieira, há 200 chegava a Corte Portuguesa ao Brasil, há 100 morria Machado de Assis e também há 100 anos nascia Guimarães Rosa... Mas a Teoria da Evolução é o que continua a nos fazer pensar.

Porque ainda em 2008 chegam-nos rastros da apropriação das idéias darwinianas para solidificar preconceitos e rascismos seculares. E justificar a opressão. Nunca é demais lembrar, dizia hoje um meu professor de literatura, que foi graças a um certo valor positivo, maquiavelicamente agregado ao povo europeu pelo viés darwinista, que se construiu o eurocentrismo, conceito eterno que nunca se derruba.

– A Terra é redonda, naturalmente. Apesar disso, nos acostumamos a ver o mapa sempre pela mesma perspectiva, com a Europa ao centro, acima e sobre a África. O que, embora pareça, não é natural. E ensinamos isso nas escolas. Essa mesma semelhança com a naturalidade permitiu que os europeus repartissem a África a golpes de esquadro sobre o mapa, definindo as fronteiras dos atuais países – Egito vai até aqui, Sudão começa ali, Argélia acaba acolá –, em linhas retas, irreais, feridas da régua. O que, sem Darwin, teria sido feito, sim; mas não com tanta naturalidade.

13.10.08

Sabe se ele é casado?

"O importante em relação a um candidato é o caráter das pessoas. Se ele é solteiro, viúvo, divorciado, casado, se tem filhos ou não, é a vida pessoal de cada um. O importante é a sua capacidade, o seu preparo, sua integridade."
Gilberto Kassab

E quem diria que um dia o PFL diria isso ao PT. E com todo o direito.

10.10.08

Um outro cinco de outubro

E eu pensando que era estranho quase ninguém ter falado na elevada quantidade de brancos/nulos cá pelos lados de Mauá: 25.000, ou 10%. Tá certo que muita gente não sabe votar nessas máquina nova. Muito mais por preguiça de aprender que por falta de inteligência, o que afinal resulta sempre em burrice. Sem contar a prática de escolher candidato selecionando-os do chão próximo aos portões da escola; constatei isso in loco na última eleição. Sim, aqui acontecem burrices de vários tipos e formas.

Mas, quando fui ver, em Santo André é pior: 16% de brancos/nulos, ou seja, 74.000 votos jogados fora. Se a gente junta as abstenções, já lá se vão mais de 150.000 pessoas que decidiram não votar: 32% dos eleitores.

Em São Paulo, perto de dois milhões escolheram a mesma coisa. É pra se pensar em nossa tal democracia.

5.10.08

Cinco de outubro

Já uma semana sem te ver, alfabeto amigo, e me impulsiona ao pé do teclado este bom costume: o de escrever tudo para não dizer nada. Bom costume ou vadiação, o bruxo do Cosme Velho, em seu supracitado romance, dizia taxativo: "Vadiação é bom costume". Cem anos passaram voando, e as palavras do Conselheiro Aires soam novas, revolucionárias, absurdas até. E haverão de rejuvenescer ainda mais, porque dia a dia vai nascendo e criando-se gente neurótica, orcarrólique, exigente, reclamona, insensível, pragmática, perfeccionista, preocupada com prazos e acertos, matando o tempo ocioso e, sem ver, a própria vida.

E sem ver a própria vida. Que, apesar de tudo, segue. Segue a vida. Já não tão gostosa e divertida.

27.9.08

A arte e a literatura dos livros ensebados


No mês do centenário da morte do "mulato sabido", diria Oswald de Andrade, o Memorial de Aires veio a calhar. Uma obra menor se comparada aos clássicos, vá lá. Mas nela está sempre o Machadão, provocando leitor, pena e papel. E dizendo, assim, despretenciosamente, idéias que, mesmo novas, sua caligrafia faz parecer sempre terem existido. Ainda bem que não terei o trabalho de grifá-las desta vez.

Se na compra de livros usados ganhamos algo, superior à mísera economia do vil metal, a substância desse lucro pertence à esfera dos substantivos incontáveis, tal é a beleza que se nos vende por cinco, dez, quinze reais, não mais. Mas, mesmo incontável, é uma beleza peculiar essa, a das histórias das leituras marcadas nas margens. Sempre tive, tenho, terei preguiça de pensar, embora admire o ato. Então, se encontro anotações marginais, fico duplamente satisfeito, pela leitura feita e a interpretação roubada. Sei que a confissão é íntima, teclado, mas quase ninguém nos lê. Além do que, já sabemos: não se perde nada em parecer mau; ganha-se quase tanto como em sê-lo.

15.9.08

O fim das estradas utópicas leva desgraçadamente a becos onde circulam tartarugas. Há quem veja, e é realmente visível, o avanço na questão dos direitos humanos, na legislação, na constituição de 1988. Ainda que pareça absurdo escrever que "toda criança tem direito à vida", o absurdo não está na lei: está na história que faz as leis necessárias. Mas, se há avanços, há recuos: tais direitos já pertenceram a um plano de idéias maior, mais alto, tão alto que transpunha fronteiras nacionais. Agora, consolida-se o pensamento de um Fernando Pessoa, a dizer que não existe idéia mais abstrata que o conceito de humanidade; de concreto mesmo, só a pátria. A segunda desgraça é que nem toda pátria é concreta; é ilusória a visão dos avanços e da conquista de direitos via legislação, se ela não é cumprida, se os transgressores não são punidos. De toda maneira, a chave da sucessão de desgraças do nosso tempo está no momento quando decidimos que exigir o impossível era algo irreal.

Um morimbundo René, n'As invasões bárbaras, diz que conhecer a História vendo como fomos piores é bom para nos acalmar. Só não diz qual remédio para o enjôo que cotidianamente nos consome, levados pelos caminhos lentos da humanidade, limitados pelas horas rápidas da vida, incrédulos das veredas passadas, descrentes das trilhas futuras, chateados pelas cores cinzentas e paradas da paisagem.

6.9.08

Uma nação, um país e um povo

Era para sermos as três coisas, aparentemente sinônimas. Somos, sim, uma mistura de povos que se diz povo; oficialmente, talvez até sejamos um país, se não de fato, pelo menos de direito; mas, com certeza, não somos uma nação.

Sendo assim, não precisamos discutir temas pioritários. Sendo assim, de uns tempos para cá, nos altos poderes que nos dominam – altos, porque inacessíveis – não se fala de outra coisa senão da ilegalidade dos grampos telefônicos pela polícia. E a imprensa, tal como sempre, não diz o que deveria ser dito: que essa reação aos grampos nada mais é que uma extensão da reação ao uso de algemas; que, naturalmente, quando um grupo se sente ameaçado, reage e, mesmo se essa reação é ilegal, buscam-se meios de legalizá-la; mas que, nesse caso, como o grupinho é criminoso e minoritário, não se deveria, em função deles, legalizar nem ilegalizar nada. Mas a gente vai fazer o quê? São eles quem fazem as leis. Eles são a Lei.

É óbvio que o cidadão comum está muito pouco preocupado com grampos telefônicos. Principalmente porque não teme quase nada. O que mais teme o cidadão comum é cair na malha fina. E aqueles que a gente conhece, que conforme o caso caíram na malha ou abraçaram o leão, e são agora obrigados a pagar em multas cinco, dez, dezoito mil, de acordo com sua particular desgraça, a gente não consegue censurar essas pessoas. Como convencer um assalariado de que sonegar imposto faz mal ao país? Não. Não. Não faz. Não, perto do imposto sonegado pela corporação que lhe paga salário; não, perto de formação de quadrilha, tráfico de influência e evasão de divisas; não, perto do constante, diverso e eficaz lobby, que representa democraticamente o interesse de todos, com exceção do povo.

E, assim, os legisladores, a imprensa, o cidadão comum e a gente – cada um a sua maneira, mostramos individualmente como pudemos, em termos éticos, abandonar a idéia de um projeto de nação. Se é que algum dia tivemos um.

27.8.08

Conclusões

Temos duas. A primeira é que essa coisa de ler a trabalho, em busca do erro perdido, acaba causando uma espécie de repulsa por ler. Parece castigo, restando saber onde aconteceu a afronta aos deuses. Pra completar, circulando pela Bienal do Livro, o assédio pelos vendedores de revista era tão grande (graças ao crachazinho de prof.) que, em tempos de telemarketing ativo, a aporrinhação acabou me fazendo perguntar à mocinha insistente se a bienal era de livros ou revistas. E o único balanço sério do evento é que pelo menos a cerveja não estava tão absurdamente cara.

A segunda é que, também lá, assistindo a uma palestra sobre a questão indígena (e, afinal, como ficou o caso da raposa-serra-do-sol?) com Daniel Munduruku e Mércio Gomes, esqueci de pegar o certificado e olharam desconfiado pra mim na escola. Essa coisa de hoje darem diploma até pra curso de noivos, aliada à necessidade de fazer curriculum, acabou gerando um complexo de Rabugento em todo o professorado. Agora, ao se saber de uma palestra, não se pergunta mais qual o tema. A curiosidade sobre a medalha, medalha, medalha vem primeiro.

25.8.08

E eu juro que, nunca mais, enquanto eu viver, haverei de me apaixonar outra vez. Não importa quão belas as linhas dos olhos, da face, das mãos, dos beijos, dos orgasmos, dos cigarros, dos raios primeiros do sol que levemente colore o olhar na estrada que traz dos motéis.

20.8.08

Diálogos psicodélicos reais do ensino fundamental I

(Intervalo, corredor, fila de aluninhos da segunda série)

Professora – Vamos ficar na fila para receber o lanche!
Aluninhos – Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá.
Professora (em tom mais alto) – Olha a fila para receber o lanche! Não cutuca a coleguinha!
Aluninhos – Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá.
Professora (brava, em tom mais alto) – Espeeeraí, não é pra andar ainda, mocinha!
Aluninhos – Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá.
Professora (irritada) – Paciência, nós já vamos!
Aluninha (desatenta) Prô, nós vamos pra onde?
Professora (suspirando e falando bem devagar) – Olha, nós vamos pra Lua.
Aluninha (maravilhada) – Uuuuuaaauu! (vira pra coleguinha de trás, risonha e saltitante) – Você viu? nós vamos pra Lua!!! Vamos entrar no foguete!!! Êeeebaaa!!!
Coleguinha (desapontada) – Aaahhh, mas eu queria mesmo era ir pra praia...

11.8.08

Educação, comunicação e democracia brasileiras

Está em curso no Brasil, ainda em estágio primitivo, um movimento denominado educomunicação, que aproxima a prática educativa dos meios de comunicação social de massas. Em 1992, na cidade de Nova Olinda, interior do Ceará, surgiu a Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, uma referência aos primeiros habitantes índios. A região é internacionalmente conhecida pela Chapada do Araripe, campo de pesquisas paleontológicas com fósseis de mais de 100 milhões de anos. O objetivo da organização seria promover cursos de formação em programas como Memória, Comunicação, Artes e Turismo.

Aos poucos, crianças e adolescentes tomaram a casa. Na prática, a administração é hoje protagonizada por mais de 70 jovens. A cidade passou a sofrer o impacto das ações. Criou-se uma cooperativa mista dos pais e amigos da casa, a fim de explorar o potencial turístico em pousadas, cantinas, serviços de transportes etc.

A tecnologia de comunicação ali criada resultou em criação de jornal, editora, museu, grupos de teatro, música e uma rádio comunitária FM. De meia em meia hora, o noticiário da cidade é produzido e apresentado pelas crianças. Criou-se também uma TV. Cinco cidades da região passaram a sintonizar o canal local, até que... três semanas depois, a polícia federal bate à porta e indaga quem seria o responsável por "aquilo". Francisco Alemberg de Souza, idealizador da fundação, foi processado pela justiça federal. E, desde 2000, quando a Anatel lacrou o transmissor, tenta conseguir dos órgãos governamentais autorização para pôr no ar a TV comunitária.

30.7.08

Intervalo

– Ei, mocinha, venha já aqui!
– Você... não é minha professora...
– Muito bonito: beliscando o coleguinha menor!
– Você não é minha professora.
– Ah, e ainda por cima é petulante, não?
– E você NÃO é minha professora!

22.7.08

Já respirei melhores ares em Paranapiacaba: havia alguma coisa de amarga naquela neblina de domingo. E o pior de contabilizar o valor das coisas perdidas: quanto mais cresce a paranóia de gozar o bom daquilo que ainda possuo, mais desconfio ser a posse aquilo que tira o valor das coisas.

19.7.08

Dercy no Céu

Dercy loura
Dercy boa
Dercy sempre de bom humor.

Imagino Dercy entrando no céu:
- Abre logo, hein, féla-da-puta!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Dercy. Você não precisa pedir licença.

17.7.08

FAQ – Risco de prisão no Brasil

Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, instado por este blog a esclarecer as curvas e meandros dos caminhos jurídicos brasileiros, aceitou responder, em linguagem de dia de semana, este FAQ, que vai ajudar v., cidadão de bem, a não fazer merda.

1. Se eu encher a cara, dirigir irresponsavelmente, derrubar uma passarela e indiretamente causar uma morte, a polícia pega?

Pega.

2. E se eu contratar lobistas para traficar influências com senadores e deputados federais?

Não pega.

3. Tomar apenas algumas cervejas, ficando pouco acima de seis decigramas por litro de sangue, sem cometer crimes enquanto dirijo?

Pega.

4. Oferecer assessoria jurídica utilizando informações priviligiadas fornecidas por correligionários do alto escalão federal?

Não pega.

5. Voltar para casa, depois de tomar duas taças de vinho, dirigindo tranqüilamente?

Pega.

6. Criar centenas de empresas para despistar crimes contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e tráfico de influência?

Não pega.

7. E, se eu não tiver escrito no vidro traseiro que "há um seqüestrador e um refém neste carro", mesmo que eu seja o refém, a polícia me pega?

No Rio, pega.

8. Subornar um delegado da PF com um milhão de reais para ser excluído de investigação sobre corrupção, evasão de divisas, sonegação fiscal e formação de quadrilha?

Não pega.

9. E se, na defesa do patrimônio público e das divisas nacionais, eu expedir mandado de prisão contra banqueiros, ex-prefeitos, doleiros, lobistas e laranjas?

Pega. Mas, além de eles ganharem instantaneamente habeas corpus, com a ajuda do STF v. vira réu pouco depois.

10. Recusar-me a usar bafômetro?

Pega.

11. Recusar-me a usar algemas?

Não pega.

15.7.08

Confesso ter um problema com raízes. Não as consigo cultivar. Por mais que tente, estou sempre a arrancá-las. Dos projetos, dos trabalhos, da vida das pessoas. Minha vida é um vôo livre. E o ruim das liberdades são as prisões que elas constroem. Perdendo a arte da aterrissagem, aos vizinhos já nem posso dar um oi, sem lembrar do incômodo trazido pela necessidade de repeti-lo amanhã.

4.7.08

Lei Seca causa nojo em toda a sociedade

E a sociedade sabe que bebida e direção não combinam...

"Mas por que, então, dá um certo mal-estar não poder mais tomar duas taças de vinho no jantar e dirigir de volta para casa?"
Sérgio Costa, jornalista.

"A lei é problemática e eu não tenho dúvidas de que o Judiciário vai derrubá-la."
Hédio da Silva Júnior, ex-secretário de Justiça e professor de Direito.

"É demagógica, anti-social, excessivamente draconiana e inconstitucional."
Percival Maricato, diretor Jurídico da Abrasel.

"Uma medida malfeita e que pode ser contestada judicialmente."
Delegado Tabajara Novazzi Pinto, diretor da Academia de Polícia Militar de São Paulo.

"Não há crime sem condução anormal. (...) O direito penal atual é dotado de uma série de garantias, como a ofensividade, que consiste em exigir, em todo crime, uma ofensa concreta ao bem jurídico protegido. (...) A prisão em flagrante de quem dirige normalmente é um abuso patente, que deve ser corrigido pelos juízes. Em síntese, quem está bêbado (com qualquer quantidade de álcool no sangue), mas não chega a perturbar a segurança, não está cometendo crime. Logo, não pode ser preso em flagrante."
Luiz Flávio Gomes, professor doutor em direito penal, ex-promotor e ex-juiz.

"Ô... quélo é beber nezza porra, carai!"
Seu José, bêbado.

27.6.08

Manifesto

Um espectro ronda minha cabeça. O espectro da tal nova lei que manda prender motorista bêbado. Não que eu queira ser um desses. Mas o fato é que não precisava criar uma lei tão rígida para reduzir mortes no trânsito; bastava-se cumprir a antiga. Afinal, duas latas de cerveja não matam, nunca mataram nem jamais vão matar ninguém. Causadores de acidentes estão sempre muito além desse limite. E, por eles, o Estado invade os direitos individuais, proibindo as poucas diversões públicas, tolhendo a liberdade e levando-nos a uma sensação de impotência e frustração. Mais uma.

Quando deveria aparecer o maldito lobby dos comerciantes e industriais, não aparece. E fica a questão: deve-se respeitar uma lei com a qual não se concorda. Ou melhor: essa lei será respeitada, ou será apenas mote para atos generalizados de pequenas e cotidianas corrupções. A tradicional prática do suborno talvez ganhe terreno. A extorsão armará campanha nos arredores das casas noturnas. E, outra vez, tudo terá sido mudado para não mudar nada.

De um modo ou de outro, pra mim fica bem claro que aquele que descumpre leis e busca meios de não ser punido, será um corrupto, se sua transgressão comprovadamente causa males. Porém, será íntegro, se descumpre leis consciente de que tal transgressão não infringe a lei maior chamada Ética. Talvez, para se livrarem da culpa e da pecha infamante de corruptos, muitos precisem virar anarquistas. Mas, pelo menos, conscientes da sua integridade, os corruptores poderão finalmente libertar-se dos grilhões que até então os amarravam à vergonha. Ora, uni-vos.

20.6.08

Crítica às críticas à educação brasileira

Atualmente, poucas coisas me emputecem. Antigamente, muitas coisas me emputeciam. E enquanto não chega o amanhã, vejo o jornal fazendo o jogo sujo do governo, juntando greve, professores, má qualidade da educação e trânsito no mesmo balaio, e sinto raiva.

E sinto raiva dos professores. Porque poderiam fazer greve sem levar o injusto rótulo de causadores de trânsito na avenida paulista. Porque poderiam ser mais criativos. Porque poderiam ser mais unidos. Porque poderiam ser todos bons profissionais, e não são. Porque os bons, dadas as condições de trabalho, só conseguem ser medíocres; e os maus, dado o desleixo do poder público, aproveitam-se de todas as brechas possíveis – inclusive faltas abonadas – para serem nada.

O governo erra (ou acerta), quando: 1) centra na figura do professor o problema da educação; 2) pune os maus e os bons indistintamente. Primeiro, muito antes do professor, a má qualidade do ensino é efeito do fracasso da cultura brasileira, da família e da nação. Criança que não vê pais lendo não vai ler nunca. Família que não acompanha rendimento escolar educa o filho a desvalorizar a escola. País cujas escolas não têm porteiro, nem giz, nem livro, nem carteira, nem limite de alunos por sala, nem salário decente nem profissionais satisfeitos não chega nunca a ser nação. Segundo: a existência de maus professores na rede só mostra a incompetência do Estado e de todos. Do Estado, porque a dificuldade em demitir um professor concursado-porém-inepto não faz dele o culpado do fracasso escolar: o real culpado é o criador ou o mantenedor deste sistema enferrujado. De todos, porque se ineptos chegaram a concursados é porque um amplo arranjo social desencorajou os aptos ao magistério. Por fim, o governo erra, se seu objetivo é o bem-comum. Mas acerta, quando seu objetivo é o bem de uma parcela insignificante, mas poderosa, interessada na manutenção de status quo, dominação política, concentração de renda, ignorância do povo e infelicidade geral da nação.

9.6.08

Eu já ouvi falar em bloqueio para escrever. Mas não para ler. E só depois de muito me aporrinhar, numa série de atos enfadonhos e continuados, é que pude perceber que dos últimos quinze livros que comecei, não terminei nenhum. Parece que perdi uma faísca de interesse pela vida que sempre encontrei dentro das páginas.

Vou comprar um Nintendo Wii.

28.5.08

A ingratidão reina. O celular demitiu-se. E levou consigo a agenda. E todo mundo se foi. Outra vez. Outra vez forçado a ligar pra todos esses que não ligam pra mim.

17.5.08

Sobre o acordo ortográfico

Cresci profissionalmente (hahaha!) ouvindo de colegas um profundo desprezo para com os puxas. E, sempre que podia, fazia coro, fustigando-os com as chicotadas da desaprovação. Mas o tempo vai mostrando que talvez os tenha julgado mal, afinal, nada se perde ao agradar as pessoas com quem se trabalha.

E como me permitiram faltar ao trabalho, na última quarta fui assistir a uma palestra da Câmara Brasileira do Livro, que, preocupada com suas editoras, promoveu um encontro sobre o novo Acordo Ortográfico. Que é uma óbvia manobra para ampliar o mercado editorial, e não muito mais além do lucro. Sem prejuízo de ser isso o principal, convenci-me de que também resolverá outras coisas, a saber, delicados incidentes diplomáticos (como escrever ao fim de cada reunião uma "ata" e uma "acta") e educacionais (como os que ocorrem em Timor-Leste, onde a concorrência de professores portugueses e brasileiros nas escolas, utilizando simultaneamente uma e outra grafias, tem confundido bem a cabecinha dos timorenses).

O tal Carlos Alberto Ribeiro de Xavier começou a palestra desculpando-se por ser economista, não ser gramático e não poder tirar dúvidas especificamente ortográficas. Estava ali apenas para traçar um panorama mais geral, apontar justificativas, falar sobre aspectos jurídicos e programáticos etc. Lá pela metade da palestra, quando aconteceu a quinta pergunta inconveniente e gramatical, o sujeito irritou-se: pegou o calhamaço com as novas regras e foi dizendo "Gente, eu não vejo dificuldade nisso aqui não...", e foi passando as páginas, apontando o que parecia óbvio. Donde se conclui que também não é bom desagradar quem está trabalhando.

12.5.08

Um poema de Joaquim Pessoa

Hoje, pela manhã, parei um poucadinho olhando a falta de significado de tudo. A boa notícia é que notei que continuamos indo: caminhando. E cantando. E, se houvesse uma canção, certamente a seguiríamos. Porque adoramos seguir canções.

Agora, o que eu particularmente não gosto é esta coisa de cantar "sem ter nada na goela". Ô coisa chata. E eis como chegamos ao poema temperamental de Joaquim Pessoa (que não é mais um heterônimo do Fernando, com eu pensei no início).


Poema Temperamental
(Joaquim Pessoa)

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heróicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!
Ó caralho!

30.4.08

Se o Ronaldo queria experimentar um travestizinho, ou três, ninguém tem nada com isso, afinal. Agora, dizer que confundiu com mulher é que são outros quinhentos.

27.4.08

Hoje pela manhã, no páteo do colégio, num sol de rachar, uma banda independente fez um barulho tão ruim que lembrou um tremor de terra, e um geólogo pôs-se a lamentar o azar que teve por estar na Mooca durante o terremoto, que, segundo me disse, foi causado por uma acomodação de placas tectônicas, uma coisa sublime, conforme lhe parece. E explicou que a Mooca, por estar no centro da bacia geológica, não sofreu os efeitos sentidos nas demais zonas periféricas. E ficou esse gosto de azar pra ele.

Senti-me culpado por ter me tornado alguém insensível: em vez de gozar o momento, imaginei que as estranhas vibrações que me balançavam a mesa fossem obra de espíritos, e, não obstante, segui trabalhando despreocupadamente.

21.4.08

Apostas para a sucessão municipal

Faltam nomes para apostar nestas eleições. À prefeitura de Mauá concorrem nomes de peso, todos com muitas chances e muitos problemas. O atual prefeito, Leonel Damo (PV), se aposenta e, curiosamente, não apóia sua natural sucessora, Vanessa Damo. A filha é deputada estadual pelo mesmo partido e não escondeu o descontentamento, ao ser preterida por Leonel, que resolveu apoiar Francisco Carneiro, mais conhecido como Chiquinho do Zaíra (PSB). Carneiro foi durante muito tempo o homem-forte da gestão Damo. Mas o descontentamento de Vanessa pode ser puro teatro.

Além de Carneiro, existem ainda as candidaturas do PSDB e do PT: Diniz Lopes e Oswaldo Dias, respectivamente. Carneiro conta com o apoio do atual prefeito. Lopes tem a seu favor o saldo político de uma gestão interina em 2005, quando, como presidente da câmara, assumiu o executivo enquanto a Justiça não definia o resultado das eleições. Dias possui um legado de 8 anos de mandato, entre 1997 e 2004, quando o PT obteve aprovação popular significativa.

Problemas: o primeiro tem reprovadas pelo TCE as contas relativas a 2005, quando esteve à frente da Sama, autarquia municipal responsável pelo saneamento básico; o segundo também tem rejeitadas as contas da Câmara referentes a 2006, quando voltou a comandar o Legislativo; o terceiro tem reprovadas as contas da prefeitura pelo mesmo órgão.

Em conversa recente com um vereador petista, ouvi uma queixa mais ou menos assim: “o problema do PT, e mais urgente, do Oswaldo, é que nós temos formado muitos militantes, muitos intelectuais, muitos administradores e legisladores. Mas não formamos quadros para atuar no Judiciário; seria bom que não houvesse uma brecha de representação em tão importante espaço; não para que, com isso, o PT fosse favorecido, mas sim para que não fosse injustiçado.” E falou dos diversos casos de promotores e juízes que só querem saber de ferrar o PT.

É fato que Leonel Damo tem muita influência no Poder Judiciário. A cassação em 2004 da candidatura de Márcio Chaves (PT), seu principal concorrente, e a posterior batalha judicial provam isso. Um ano depois, Márcio Chaves enfiava o rabo entre as pernas, esgotados todos os recursos, e Leonel Damo era diplomado, ganhando tranqüilamente a prefeitura mesmo sem ter tido a maioria absoluta dos votos. Um escândalo que a população mauense não quis ou não pôde perceber.

A considerar isso, Vanessa Damo, se herdou a habilidade política do pai, incluindo a arte de trocar favores e traficar influências, conseguiu por meios judiciais derrubar todos os seus adversários, criando assim um grande vácuo político. Resta saber o que o pai deve a Francisco Carneiro para enganá-lo de tal forma, apoiando-o publicamente e, nos bastidores, derrubando-o.

7.4.08

A escola como instrumento de inibição do pensar

É um fato freqüentemente observado e comentado em relação a crianças pequenas, quando estas iniciam sua educação formal no jardim de infância, que elas são ativas, curiosas, imaginativas e inquisitivas. Durante um certo tempo elas preservam estas características maravilhosas. Mas gradualmente, então, ocorre um declínio destes fatores e tornam-se passivas. Para muitas crianças, o aspecto social da escola é seu único atrativo. O aspecto educacional é uma provação pavorosa.

(Matthew Lipman. O pensar na educação. Petrópolis, Vozes, 1995, p. 22, apud: Evandro Ghedin. Ensino de Filosofia no Ensino Médio. São Paulo, Cortez, 2008, p. 68)

Ainda que pensemos que este declínio é próprio da adolescência, fase caracterizada pelo não-pensamento, não-imaginação e desinteligência, ainda assim... não dá pra não sentir vergonha da escola. E pena das crianças que passarão por ela.

30.3.08

Sonhos

Não que eu tenha dotes surrealistas, mas acordei bem esquisito trás-dontonte: não sabia se me preocupava ou ria. O sonho foi o seguinte: vou fazer uma conversão à esquerda, nada aparece no retrovisor, viro, e um motoboy surge do nada, e eu, já furioso com a brusca aparição, antes mesmo que ele pudesse acionar a maldita buzina, atropelo-o violentamente. O desgraçado tem tanto azar que ao cair faz como a protagonista do Menina de ouro, com a diferença de que sua cabeça não bateu num banco, bateu foi numa vergonhosa ondulação do asfalto (existentes mesmo em ano de eleição, vá lá entender), e também que não ficou tetraplégico, entregou foi a alma a deus ali mesmo. "Fudeu", pensei, esperando a polícia chegar e torcendo pra não ter tomado cerveja.

Horas mais tarde, já passada toda a sorte de curiosos, já passada a ambulância, já removido o cadáver, chega a polícia. E eu lá, na boa, esperando. Vem três pm's, um mais velho atrás, e à frente dois mais novos, incuindo uma pm. É ela quem fala comigo primeiro, "Sua carta, cidadão", o bastante para causar no mais velho um ataque. "Você me mata de vergonha! Quantas vezes já falei pra pedir a CARTEIRA DE HA-BI-LI-TA-ÇÃO! Carta é o caralho!" A moça ouve submissa, e tenta outra vez mudando comigo o linguajar. Enquanto entrego os documentos, o mais velho vira-se para o lado e desta vez quer explodir. "Que diabos v. está fazendo aí??!!" E só então percebi que o mais novo estava a escrever no meu capô uma carta, contendo meus direitos, e já chegava à parte em que tudo o que eu disser poderá e será usado contra mim.

E acordei pensando esquisito no que quereria dizer meu sonho, na dúvida entre tomar mais cuidado com motoboys, não beber antes de dirigir, ou voltar a escrever cartas, que há tempos não mando nem ganho. Fazer um post talvez seja a melhor escolha, afinal, das tarefas, a menos trabalhosa.

18.3.08

Fernando Sabino

Desconfio que 11 de outubro de 2004, data da morte de Fernando Tavares Sabino, foi um dia ruim. Lendo-o pela primeira vez, em O grande mentecapto, veio a emoção meio culposa de quando a gente acha algo tão saboroso que nos faz perguntar o motivo de não ter provado antes. Há tempos um livro não me fazia rir um riso que não fosse feito de sarcasmo. E o ruim de tudo é que não tenho mais a chance de mandar uma cartinha agradecendo o autor.

Mas o pior de tudo mesmo é pensar que naquele dia pouco se falou dele. Todo mundo só falava da morte do Christopher Reeve.

13.3.08

Pra mim chega. Eu desisto. Nunca vou aprender a tomar as grandes decisões. Não as certas. Meu deus, eu não consigo aprender! Mas, enfim, nem tudo são espinhos. Se a vida é realmente uma só, então o que a gente vai construindo não pode mesmo ser nada além de uma grande coleção de arrependimentos.

9.3.08

Consumo

Naquele dia era já a segunda vez que da janela do navegador contemplava o notebook. Talvez porque vermelho, não conseguia deixar de desejá-lo. Tela de LCD, um potente HD, 2 GB de memória, câmera e microfone integrados... ficava a se imaginar atraindo olhares onde quer que fosse, fazendo videoconferências em qualquer lugar...

– ... ainda mais com essa nova tecnologia Sound Reality, que proporciona sons muito mais nítidos e profundos! – dizia a seus colegas de trabalho.

Passou os dias seguintes vigiando o produto, navegando de loja em loja virtual, comparando preços, atento a promoções-relâmpago... Duas semanas depois foi encontrado em frente ao computador dando gritos histéricos e arrancando os cabelos:

– Já diminuiu 1.000 reais! Em uma semana! 1.000 reais! E continua baixando... há dias o preço está em queda! Eu vou esperar... eu espero... posso esperar... um dia vou tê-lo, se vou! O que vocês querem é que eu compre logo, agora, já, mas não... Vocês pensam que eu tenho necessidade, que é essencial pra mim, que preciso dele, mas não: eu NÃO preciso! Posso esperar dias, meses, anos... a vida toda!

E seguiu atento à desvalorização do produto.

6.3.08

– ... e, portanto, esta unidade escolar desaconselha veementemente a cópia xerox de livros, pelas razões supracitadas, pelo respeito à legislação deste país e por entendermos que o direito autoral é importante, é necessário e é justo, na medida em que o valor das idéias merece nosso reconhecimento, algo inviável quando se faz uma cópia não-autorizada. Além do mais, reflitam, srs. alunos, no que está por trás deste seu discurso, ao dizer que "livro-de-vinte-reais-é-muito-caro" e, no entanto, acharem natural e barato pagar um lanche de mais de 10 reais no mcdonalds. Pensem no valor que nós, brasileiros, em nossa subdesenvolvida ignorância, NÃO damos ao livro!

Após um curto silêncio, um aluno, de 12 anos, de olhar curioso, de testa duvidosa, de pele negra, sentado na primeira fila, levanta timidamente o braço e pergunta com hesitação:

– Então, professor... se eu for pego tirando xerox de livro... eu... posso ser preso e ir pra Febem?

3.3.08

O Haikai
.
Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.
.
(Guilherme de Almeida)
.
Com a felicidade deve de ser assim também. O diabo é que esse negócio de mineração, além de fazer um mal danado ao meio ambiente, dá um trabalho...

26.2.08

Despedidas

Eu sentirei falta do Fidel e seus discursos. Pronto. Falei.

19.2.08

Sobre as restrições ao tabaco

Cá na província brasileira, desde fins da década de 80 uma série de medidas restringindo o consumo de cigarro foram adotadas. E como a maioria das leis, não funcionam. Já se obrigou a escrever advertências no maço, já se proibiu propaganda em rádio e tv, já se vetaram os patrocínios a eventos esportivos, já se chocaram pessoas com ilustrações sobre os danos do fumo e, agora, desde a semana passada, São Paulo já tem lei municipal (até justa) contra o fumo em locais que não tenham área reservada para tal prática perniciosa (detalhe: a lei é de junho de 1990). E ainda estuda-se encarecer o produto com impostos. As autoridades paulistanas, porém, não foram tão radicais quanto as francesas, que em 2007 proibiram o fumo em bares, restaurantes, cassinos, discotecas e o diaba-quatro de maneira ampla, geral e irrestrita.

Estas leis podem até ser justas, podem até reduzir o consumo, mas nunca vão eliminá-lo, simplesmente porque os fumantes não são todos iguais. Existem quatro tipos de fumante: os radicais, os moderados, os culpados e os convictos. Os mais perigosos e inconvenientes são os primeiros, que não têm bom-senso, compram marcas falsificadas e fumam quatro maços por dia. Cigarro mais caro talvez vá duplicar esse grupo que fuma os paraguaios. Os moderados, caracterizados pela drogadicção de fim de semana, são os mais sem-vergonhas, porém os menos inconvenientes: estes não devem ligar pra cigarro caro. Os culpados são os mais chatos: ficam a se lamentar do vício a toda hora, e irritam até os próprios parceiros, a quem tentam transferir parte de suas neuroses. Saindo a nova lei, têm uma boa razão pra parar, e isso vai ser bom pra todos, todos mesmo. Os convictos são uns poucos que ainda resistem, ainda rebeldes, mas já cansados, já com dúvidas, já sozinhos, ante a marginalização contínua a que vêm sendo submetidos. Não sei como o cigarro caro afetará esse último grupo, mas, para um bom fumante, creio que o ideal seja uma mescla de convicção e moderação. Às vezes, me dizem, “Nossa, mas v. fuma tão pouco, por que não pára?”, ao que respondo orgulhoso, “Mas não fumo pouco com intenção de parar. Fumo pouco para fumar a vida toda.” Afinal, a humanidade usa droga há séculos e no curto espaço de tempo em que vivemos alguém tem de manter acesa a brasa da rebeldia e da tradição. Ainda que fumar cause infarto e morte, olhar a questão pela perspectiva histórica vai nos mostrar que isto é um nada.

O grande problema é outro: ir pro céu e não ter área pra fumante lá, isto sim é que será o inferno.

11.2.08

Antero de Quental

Antero de Quental, líder da geração de 70, poeta, político, revolucionário, símbolo do realismo português, em 11 de setembro de 1891, em profunda depressão, suicidou-se com um tiro na cabeça, numa praça pública, romanticamente, com toda a ironia que este romantismo represente para um realista. E, coincidentemente, nestes dias de conversas sobre tanatologia, uma amiga me falou sobre o Parnaso de Além-Túmulo, um livro publicado em 1932 por Francisco Cândido Xavier. Melhor, trouxe-me. Recebi com o gesto de desprezo que o meu discreto ateísmo recomendava. E quando abri suas páginas... meu deus! Uma enxurrada de poemas psicografados pelo médium por volta de 1931. De Casimiro de Abreu a Augusto dos Anjos, passando por muitos nomes significativos da poesia luso-brasileira. Fui logo a Antero de Quental, Guerra Junqueiro e a turma toda que, enquanto vivos, viveu descendo o cacete em tudo, sobretudo em Deus. E foi impressionante.

O Remorso

Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.

Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!...
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: –

“Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo?”

Ele riu-se e clamou para meus ais:
“Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!”

Este soneto foi atribuído a Quental. Eu não sei o que gente que entende muito de literatura vai achar disso, mas pra mim, de significativo em termos de conteúdo, chamou-me a atenção a referência ao suicídio do autor e ao corvo de Edgar Allan Poe. Quanto à forma, é indiscutível a qualidade do soneto: vocabulário erudito, métrica perfeita, rimas ricas, talvez raras. Indubitavelmente Poesia. Quanto ao conjunto formado pelo livro, só sei de uma coisa: duvido, duvido muito que do alto de seus 21 anos de idade Xavier tivesse bagagem cultural suficiente para criar, sozinho ou com ajuda de amigos, algo tão engenhoso, poemas tão bem acabados e a um tempo tão singulares que nos permitem identificar realmente os traços estilísticos de um Castro Alves, de um Alphonsus de Guimaraens, de um Cruz e Souza. E embora isso não me tenha convertido ainda, confesso-vos que estou besta. Volto ao assunto quando concluir a leitura.

1.2.08

Uma história sobre histórias

O Cemitério São Pedro, situado na Vila Alpina, abriga, entre muitas histórias trágicas, um caso singular. Em 1974 treze corpos foram enterrados lado a lado. Eram parte dos 179 mortos do incêndio ocorrido no dia 1 de fevereiro, no Edifício Joelma. O que diferencia estas treze almas é o fato de que, por terem sido carbonizados, não puderam ser identificadas. Grande parte dos sobreviventes, mais de quatrocentos, escaparam do prédio em chamas graças ao elevador e aos denodados ascensoristas. Mas, após diversas idas e vindas, o sistema dos elevadores foi afetado pelo incêndio, causando a ruptura dos cabos e a posterior carbonização dos seus treze ocupantes.

Fui até lá esta tarde. Encontrei o seu João. Há mais de um ano, seu João, funcionário do cemitério, faz a manutenção do local, que além dos túmulos, conta com uma capela erigida em memória das treze almas. Uma infinidade de faixas, placas de mármore e flores rodeiam os jazigos. Na maior parte, agradecimentos por graças alcançadas. “Quem não acredita, que não caçoe!”, é o que adverte uma das devotas visitantes que encontramos no local. Já alcançou uma graça, tem fé que alcançará uma outra que necessita, e fala com a naturalidade daqueles que vêem a existência das coisas inverossímeis e a certeza de nosso desconhecimento da verdade. Uma outra senhora relembra o dia, quando tinha 17 anos e, trabalhando defronte ao edifício, viu e ouviu as cenas e os gritos de terror. Lá pelas tantas, lembra ao seu João que é importante “regar” os túmulos. Explica o porquê: quem morre carbonizado sente muita sede.
Então seu João percebe como tudo faz sentido. Conta-nos que, ao tempo em que era coveiro, sepultou uma criança cujos pais não tinham dinheiro. Assim, ele por conta própria plantou umas flores e, mal passou o tempo, já lá havia um pequeno jardim sobre a cova. Mas o fato intrigante é que, pouco tempo depois do sepultamento, um menino aproximou-se dele e pediu um copo de água. Seu João deu-lho. Mas era o mesmo menino que havia sido sepultado! Quando os pais finalmente voltam para visita, surpreendem-se com o túmulo tão bem cuidado, e ao descobrirem quem foi o responsável, alegram-se e conversam. E enfim revelam ao coveiro a causa mortis do filho: fogo.

Esta foi uma tarde que precisa ser refeita.

É claro que acredita quem quer. Mas há a lição de Alex Castro sobre uma de nossas prisões: que importa crer ou não crer? Boas ou más, crenças e descrenças sempre limitam as visões. E o que se colhe do contato com as histórias alheias, ou do além, é sempre a beleza da experiência humana, diversa, prodigiosa, incomum. E transcendente. Porque estas histórias estarão sempre acima das idéias e conhecimentos ordinários.

31.1.08

Praia do Sono

No município de Paraty, extremo sul do Rio, há um coletivo que faz o percurso de uma hora do centro da cidade até o condomínio Laranjeiras, com fama de “o mais sofisticado do Brasil”, quiçá da América. Nos meses quentes é para lá que vão Antônio Ermírio de Moraes, os Maluf, os Camargo (da empreiteira Camargo Corrêa), e outros, e vão de helicóptero. Como a gente não tem um, uma vez no Laranjeiras seguimos a pé pela trilha de uma hora que leva à Praia do Sono, nosso destino. Era réveillon.

















Confesso ter me surpreendido com a natureza conservada do lugar, levando em conta a quantidade de gente que o habita (imagino não passar de 200 pessoas). Sem energia elétrica, sem escolas, sem estradas, meio que sem perspectivas, e ainda sofrendo diversas pressões para se retirarem do lugar, os habitantes resistiram e transformaram o terreiro de suas casas em quiosques, cafés, pequenas mercearias, áreas de camping, e sobrevivem do turismo. Pensando em inovação, desenvolvimento sustentável e proteção às matas, achei até um bom exemplo de exploração do potencial ecoturístico brasileiro. Não? Não. Nem todos pensam assim.
A mata atlântica é o bioma mais ameaçado do país e o segundo mais ameaçado do mundo; só perde para as já quase inexistentes florestas de Madagascar, no sudeste da África. Em 2006, após dura luta com a bancada ruralista, foi aprovada a Lei da Mata Atlântica, que regulamenta o uso e a proteção da floresta. A lei é ambígua. É boa, mas deixa a sensação de que veio tarde – não só porque passou quatorze anos em trâmite pelo congresso, mas principalmente porque hoje restam só 8% da configuração original da mata – e a desconfiança de que não será cumprida. Mesmo antes dela, no fim dos anos 80, o dono do Hotel Glória, Eduardo Tapajós, queira-porque-queria construir na região uma mansão em estilo palafitiano, metade na praia metade nas águas do mar. A Marinha vetou o projeto, claro. Mas Tapajós era amigo do Sarney, que ajudou a derrubar o embargo, e o bangalô foi construído. Para leis contrárias, nada como o tráfico de influências.

Esta nova lei diz que “é vedada a supressão de vegetação primária para fins de loteamento e edificação”. Se os condomínios detiverem sua expansão, talvez continuemos a contar com este um décimo de mata para as futuras gerações. No entanto, os moradores da Praia do Sono constantemente se queixam de assédio. Embora a maioria não queira sair, alguns moradores venderam suas propriedades, e o Laranjeiras parece ter ampliado seus limites nos últimos tempos. Agora, pensemos: lá existem trezentos lotes de mil metros quadrados, mas a maioria dos proprietários tem mais de dois lotes; cada lote custa aproximadamente trezentos mil dólares; um terço do IPTU arrecadado pela prefeitura provém do condomínio (embora nos seja leviano afirmar que haja elementos favoráveis ao tráfico de influência); uma diária no Laranjeiras custa mil reais em baixa temporada. Supondo que o negócio esteja rentável, o que um administrador de condomínio de luxo faz: respeita a lei ou amplia lotes para venda? Pelas trilhas, já começam a aparecer algumas placas.

O fato é que o modelo desenvolvido pelos caiçaras não agrada. Parece haver um incômodo muito grande em relação ao público recebido, que fica “perigosamente” próximo de uma elite que quer ter exclusividade na contemplação das últimas belezas naturais do país. Soaria quase ridícula essa suspeita, não fosse haver gente como a ambientalista Adriana Mattoso, que há alguns anos apelidou esse turismo de durismo: “o durista de mochila, miojo e drogas tem que ser redirecionado para bem longe...” A adjetivação marginal vem a calhar para fundamentar a exclusão dos indesejados, só não garante a exclusão dos turistas desejáveis do ilícito grupo consumidor. Talvez o problema mesmo seja a combinação mochila-miojo. Faz sentido capacitar a comunidade, profissionalizar os serviços, recuperar a arquitetura caiçara, implantar trilhas, elevar as tarifas, já que o fim último é receber um turista de altíssimo nível. Porém duvido que essa reestruturação não leve a mais desmatamentos: o turista de alto nível jamais aceitará o nível primário de conforto que os duristas adoram. Em todo caso, para nós, pés-rapados, parece estar chegando a hora de desarmar as barracas.

14.1.08

Isadora Ribeiro de Alcântara

Isadora Ribeiro de Alcântara, 32 anos, dentista, tinha uma angústia, uma aflição, um diabo dum negócio que apertava a garganta. Daí que hoje, chegando em casa, não guardou compras, não tirou sapatos, não checou emeiols, não alimentou a calopsita, não tomou banho, não deu aquela cagada, não nada. Caiu-se no sofá, e foi pensando naquelas indecentes marcas de batom encontradas ontem à noite na cueca do marido. Que obviamente não eram dela, ora. Tinha tanto horror a sexo oral, que não facilitava, e ia mantendo seus lábios sempre acima da terceira vértebra lombar. Alegava motivos religiosos, mas a desconfiança do marido, e minha também, é que assim ganhava terreno na defesa de seu próprio cóccix. Quando ele finalmente chegou da faculdade (era professor), pudera!, estranhou aquele desmazelo: “Amor, tá tudo bem?”, “Hein!”, e levantou-se sobressaltada, baixando a saia que subira até a cintura, “Sim, cochilei”, foi o que respondeu, e mais não disse, foi levando pra cozinha as porcarias congeladas que tinha trazido. O marido que preparasse a janta, ele adorava cozinhar, isso todos sabiam. Jantaram em silêncio. Dormiram.

No dia seguinte, que seria amanhã, mas como chegou agora fica sendo hoje, Isadora acumulou funções, obturando dentes e planejando uma vingança cheia de inteligência, cálculo e acessórios digitais, no que resultou em algumas gengivas cortadas e na obturação de um dente que não precisava. Quando despediu-se do último cliente, que sentia estar com a boca torta (e estava mesmo), o telefone tocou, e era ele avisando que precisavam conversar em tal lugar, mais para ali, entrando à esquerda depois daquele motel, fazendo um gato pra pegar o retorno e outras infrações que ninguém multa, nem mata ninguém. Foi. E lá ele confessou ter um caso e querer o divórcio. Era só o que faltava. E Isadora passou anos a se perguntar de onde teriam vindo as marcas de batom, já que, como depois veio a saber, ele tinha mais era ido morar com um aluno por quem se apaixonara, menos pelas idéias brilhantes do que pelo corpo adolescente e os ideais de ateísmo e revolução social. Tão românticos e belos.

8.1.08

Para esquecer

Ontem acordei com pé esquerdo, outra vez. Inacreditável: furtaram-me um livro enquanto sacava grana no caixa. Pra ser exato, um livro, uma agenda novinha e os três números da versão tupiniquim de Ex Machina. Mas o pior é o livro: a leitura pela metade, meu deus. Uma mistura de angústia crescendo pelo peito, queimando as fossas nasais, olhos que se umedecem, vontade de chorar, e uma raiva dos diabos. Porra, roubar livro, a que ponto chegamos! Inda bem que hoje já foi melhorzinho.

Mas... o que ninguém me tira da cabeça é que podiam ter me roubado a carteira, ah bem que podiam, sim senhor. Mas não. Já não querem nossas carteiras; agora, querem nossas almas.

4.1.08

Microconto roubado da página 73 da História do Cerco de Lisboa

Fizeram-no passar para a sala de espera da direcção e ali o deixaram ficar mais de um quarto de hora, o que serve para demonstrar a vanidade de temores que pouco têm de pontuais.

3.1.08

Micros

Difícil levantar: acordou, sentiu o sol, até ouviu automóveis, mas não conseguia ver nada. Aí lembrou: morto. Cemitério da Consolação.

2.1.08

A cretinice, os internautas e o problema em se ter amigos

Eu tenho que falar. Há um grupo de pessoas que são, decididamente, imbecis. Sua incapacidade não se deve a uma perturbação do desenvolvimento físico, considerando a quantidade de emeiols cretinos que elas conseguem enviar por dia, nem tampouco intelectual, já que sabem exatamente o que estão fazendo. Sua idiotice é, antes, uma consciente escolha, uma decisão, e é por isso que são decididamente imbecis.

Surgiram no Brasil na segunda metade da década de 90. Primeiro, por emeiols, espalharam sua estupidez em correntes, burrice lúdica que consiste em gastar o tempo fútil dos néscios. Contudo, sua maior contribuição foi, paradoxalmente, filosófica, quando, num atentado à religião, suscitaram dúvidas metafísicas tais como “Terá acesso a emeiol a Virgem Maria, para me castigar, caso eu não repasse essa mensagem?”

A palurdice não se restringiu a superstições fundadas em espiritualidades toscas. Não tardou assomar às caixas de entrada emeiols com eslaides anexos, marcados por algumas dezenas de encaminhamentos. A literatura e pintura kitsch nunca tiveram tanta força. Ilustrando paisagens bucólicas, mensagens bestiagas, ababosadas, extraídas de livros de auto-ajuda, principiaram a atoleimar a rede mundial. E as pessoas iam lendo aquelas porcarias sobre o amor e cultivando o ódio por aquelas planícies, cachoeiras, naturezas-mortas.

A canalhice era evidente. Logo ficou claro que aquilo que vinha nos anexos, de autoria duvidosa, em nada correspondia à sinceridade do remetente. Muito poucas vezes havia algo de sua autoria expresso nestes emeiols. E quando havia, restringia-se a algo como “Muito legal!”, apenas. A superficialidade de tudo é que é ainda mais flagrante. Somente o sentimentalismo débil justificaria a reunião artificial de diversos destinatários num mesmo emeiol expressando os mais altos votos de urbanidade, a cada dia, a cada semana, a cada mês. De resto, uma tontice.

Depois, na década primeira do século XXI, quando descobriram o orkut, a toda sexta-feira alguém deixa um scrapt: “Bom final-de-semana!”. Que é pra começar a estragá-lo. É claro que eu não vou dizer tudo isso aos meus amigos que gostam de receber e encaminhar emeiols, porque, embora não pareça, eu gosto dos meus amigos. Mas daqui pra frente, quando eu estiver puto com eles, venho aqui e desabafo. É isso.

Agora, pensando bem, eu também acho que, se tenho amigos assim, o problema talvez seja só meu. Lembrete: rever os critérios para aquisição de amigos.

19.12.07

Luiz Biajoni e o Sexo Anal

Se v. ainda não comprou presente de natal, se gosta de ler e de dividir leituras, se está procurando alguma coisa nova, gostosa, genial até... ora, dê um livro, cara pálida. É verdade que o material livro está cada vez mais desmoralizado, mas haverá sempre alguém escrevendo, e escrevendo bem, como Luiz Biajoni.

O site Os Viralata é quem recomenda sair do óbvio e presentear com literatura independente. E lá está à venda o... best-seller não, que o autor não é desses... mas o maldito Sexo Anal, um romance, ops... uma novela que primeiro foi disponibilizada como e-book, e que agora sai empapelada numa edição comemorativa pelos dez mil down-loads e pelas dezesseis rejeições de editoras. E vale a comemoração. Existem livros raros: livros pra se ler gozando. Sexo Anal é assim. Além dele, lá se encontra Virgínia Berlim, o segundo livro do Biajoni, que traz um cd com a trilha da história, além de outras diferenças mais significativas. Não vou fazer crítica, primeiro porque já fizeram muitas, e bem feitas; segundo, porque agora tenho preguiça. Enfim, leia.

15.12.07

Um soneto de Vicente de Carvalho

Velho Tema

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Gosto desse tipo de poesia velha. Talvez eu seja burro demais pra entender a arte moderna ou a física quântica, mas não sei de onde veio essa idéia de que os parnasianos sejam menores. Deve ter algo a ver com o stablishment. E com a gente otimista que quer ser feliz. Mas, gostem ou não dos pessimistas, a turminha do Olavo Bilac disse muitas verdades.

Uma coisa, por exemplo, é essa busca infindável pelas coisas inacessíveis. E, pior, por caminhos clandestinos. Não tenho nada contra a clandestinidade, até acho bem poética a atmosfera escura e suja dos porões secretos, mas... a clandestinidade tem de ter um propósito concreto. Não o idealismo cego. No entanto, os riscos a que nos submetemos todo dia tentando conquistar sei-lá-o-quê são tão grandes, que nem os vemos, e mal vemos aonde e onde vamos, inda mais quando o que se põe em jogo é a integridade física ou psíquica. Não vou nem falar em moral.

10.12.07

O Brasil é um país, uma nação e um povo. Um país é um território habitado por um conjunto de pessoas com uma história própria. Durante muito tempo se pensou o contrário, mas hoje sabemos que uma nação é um grupo político independente cujos membros não precisam ter, necessariamente, a mesma origem, língua, religião ou suposta raça. É justamente com suas muitas origens, línguas, costumes e tradições que se pode definir o povo brasileiro e sua história. Assim fica boa e bonita esta definição.

Mas.

O país é sempre um futuro, que não vem. A nação é para sempre o produto do passado colonial, a um tempo vergonhoso e glorioso. E o povo é sempre povo. Sempre povo. Sempre marcado do passado. Sempre esperançoso do futuro. Sempre alheio do presente, da política e da História.

4.12.07

Diálogo entre espírito e matéria

– Pois é o que eu digo. Há luz no fim do túnel. Sim, senhora. Há esperança para o mundo. O que vivemos é o retorno a um ciclo de espiritualismo, que está sempre a se alternar com ciclos materialistas ao longo da História. Cai um tempo de fé, levanta-se um tempo de materialidade; cessa um tempo de ações, acende-se um tempo de orações. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

– Pois sigo dizendo que não é assim. Não. Não há esperança. O que vivemos é o início de um ciclo sem precedentes, porque não há, a rigor, alternância de materialismo para espiritualismo: há consubstanciação. O espiritualismo, transformado em produto e, assim, materializado, é mais uma faceta das sociedades de consumo do mundo pós-capitalista. E a luz que o senhor vê, ao fim do túnel, nada mais é que o fogo do inferno! Não lhe faltará combustível. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

1.12.07

E os meus avós vieram passar o natal em casa. E vieram da região oeste de um pequeno estado do nordeste brasileiro. E meu avô, que dos seus 77 anos não gastou nenhum na escola, vez por outra solta uns vocábulos desconhecidos:

– Que que é aribé, vô?
– É um tipo de aguidar.
– Mas que que é aguidar, vô?
– Ora-mas-na-verdade, é um tipo de vasilha! E, home, vamo parar com essa conversa que já tá desenxavida demais.
Desenxavida?
– Sem graça. E v. fez faculdade, foi, meu neto?

25.11.07

Somente muitos minutos mais tarde é que você, relutante, vai aceitar a existência das coisas fantásticas, quando, guardando cerveja na geladeira, deixa uma delas cair. Milagrosamente, a longuinéque não se quebra. E eis que, ainda a duvidar da normalidade, e mesmo pressentindo a sobrenaturalidade assombrosa das coisas imprevisíveis, segue produzindo diálogos desta natureza:

– Ah, não quebrou, menina, mas isso não é possível – e beija a chapinha de metal –, devia mais era ter quebrado: eu NÃO posso fazer isso com você! – e faz um cafuné no rótulo.

Espero que seja apenas alcoolismo. E não insanidade total e irreversível.

21.11.07

Dúvidas e certezas

Não, dessa vez emaluqueci. Tô aqui, bem, tudo bem, com quase tudo, oxigênio, calor, algum espaço com alguma lama para chafurdar, mas... é estranho. Parece tudo bem, mas tô com aquela tal comichão no cérebro aliada a um apertãozão no peito, fundo, melancólico, de nostalgia, sei lá do quê, de alguma coisa que eu ainda não conheço.

Não é pela morte de ninguém: nunca levei ao cemitério nenhum ente querido. Talvez por isso até acho romântico andar em câmera lenta, por entre catatumbas, em silêncio, ouvindo Atmosphere. Também não é por desilusões amorosas: já estou velho e maduro, e isso é coisa pra adolescente emo. Não é pela solidão nem pela tristeza: conheci que ser feliz é aprender a ouvir a beleza que existe no silêncio. Trauma de infância não pode ser: pobre não tem infância. Não, definitivamente, não é isso. Parece ser alguma coisa que eu ainda não vi.

Talvez seja liberdade.

Estremeço ao pensar nisso. Porque, realmente, é isso. Estou preso. A pensamento e lógica que me faz soar irracional se os contradigo. E, ironicamente, quando digo o que penso a seriedade me abandona, e fico a sós com um cinismo que me marca como louco. Como um louco que diz o contrário do que pensa. E já nem posso acreditar em minhas crenças. Que meu fascínio não é pela vida, é pela morte. Que meu encanto é pelo choro, não pelo riso. Que não vejo nos casamentos a beleza que aspiro nos divórcios. Que meu conceito de amor é uma piada. (Muitas vezes, quando a tarde começa a cair, e sombras de árvores se espalham no chão, e olhos brilham, e suspiros balançam no ar – ama-se tanto, que se vêem coisas visíveis e invisíveis, muito mais no amanhã que no hoje, muito mais no céu que na terra, muito mais cupidos vendando que cupidos vendados, e quando se dá conta se está com febre. Ou ensolação. E a única saída, ou cura, é passar a odiar o objeto do amor. Ser amado então é um perigo no escuro. É por isso que eu amo muito mais as pessoas que me odeiam – porque conheço-as.) Mas estou indo longe demais. Volto.

Volto à razão. Já agora nego a negação que professava.

E sigo acreditando que só há uma crença a seguir, só um norte a buscar: felicidade. É, sim senhor, felicidade. Honestamente, felicidade é a melhor e mais simples coisa do mundo – felicidade é ter um bom espaço de lama para comer, defecar ou chafurdar nas horas quentes do dia. Porque fora do chiqueiro é perigoso, prende-nos a seu interior a corrente da razão. Mas com espaço suficiente para caminharmos em círculos, desenhando à vontade pensamentos altos, livres, no piso enlamaçado da prisão.

20.11.07

Outra vez a tal da arte...

Sabe quando te falam daquele livro, daquele filme, daquela música, que é clááássica, e v. ainda não leu, não viu, não conhece? E ficam dizendo e redizendo sobre a genialidade, o estilo, a belezura que é a obra e o autor? E sabe quando, enfim, v. acaba aceitando, meio sem jeito, uma recomendação, um empréstimo, uma companhia para a tal contemplação da arte? Pois é. E tudo para, ao fim, restar a frustrante sensação de desgosto por não entender como o mundo elevou tão alto algo que te causou unicamente sono.

Foi mais ou menos assim que li todos os meus Shakespeares: Lear, Macbeth, Hamlet etc. E já que acontenceu isso, achei bom criar alguns mecanismos de defesa: 1) nunca dizer nada a ninguém; 2) caso diga, anexar alguma desculpa. Exemplos: a) li em um mau momento da vida; b) traumas de infância me bloqueram; c) não curto este gênero artístico etc. Pro caso do Shakespeare, dava sempre a última, e ainda atribuía culpa a Chico Buarque e Paulo Pontes, que escreveram em 1975 Gota d’Água, primeiro item de uma enfadonha série dramática que vim a ler por obrigações curriculares.

O diabo é que passeando pelo Rio num feriadão chuvoso e frio, sem muita opção, acabei assistindo-a, encenada ali na Glória, do ladinho do hotel homônimo. E não é que foi uma beleza? Inspirado no drama grego Medéia, de Eurípedes, e adaptado à experiência capitalista que em mãos militares aprofundou a concentração de renda no Brasil, o musical é de fazer rir e chorar: o empobrecimento da maioria financiou o milagre econômico e possibilitou o desenvolvimento da classe média. Mas faz pensar. Porque a obra não credita o estrago social unicamente à ditadura militar. O foco está no processo de cooptação dos melhores quadros, dentre os proletários, para servir ao jogo econômico do tupiniquim burguês.

Sempre que um cara menos bichado
surge aqui, pagam seu peso em ouro
pra levá-lo embora. Resultado:
mais negro fica este sumidouro
mais brilhante fica o outro lado
e o seu carnaval, mais duradouro

E a verdade esteve sempre aí, explicando como os opressores foram enfraquecendo os oprimidos e ganhando a guerra (que, aliás, tem um espólio nulo, porque resultou em miséria e exclusão de uns, intranqüilidade e neurastenia de outros, e num caos social comum). Ingresso: 25 réis (e pra meia entrada não pedem carteirinha em momento algum). O filho da “Medéia” cometeu dois erros: desafinou cantando a música do pai; deixou ver que continuava respirando depois de morto. E, segundo um amigo gramático, o excesso de ênclises em algumas bocas ficou irreal. Enfim, nem tudo são flores, mas gostei.

O que me preocupa é que agora minha desculpa foi por água abaixo. É melhor não dizer mais nada sobre o bardo inglês. Falarei somente de dramaturgos caboclos daqui pra frente.

8.11.07

Coisas de que desconfio

Desconfio que a ética não se perdeu somente na esfera estatal brasileira. O universo das empresas privadas é alimentado por um fluxo de lama onde chafurdam os mais irritantes, cínicos e mesquinhos interesses. Como se não bastasse a má qualidade dos serviços, as dificuldades com conexão, o congestionamento das centrais de atendimento, as orientações contraditórias, a ausência de uma agência reguladora, características relativas a qualquer provedor de internet, o meu aperfeiçoou seu nível de imbecilidade. Ao ligar, além de admitir que suas linhas estão muuuuito ocupadas, eles chamam-nos deliberadamente de trouxas: Caro internauta, estamos com um grande volume de ligações. Entre em contato conosco via chat ou pelo emeiol suporte@... Porra! Quem liga para o provedor, liga para resolver algum problema ligado à conexão com internet. Então, como acessar chat ou emeiol? Isso é quase loucura. Mas desconfio que a loucura maior seja a gente ir tacitamente permitindo que o fim único e exclusivo das empresas seja, de fato, o lucro. E assim elas vão-se isentando de coisas como o respeito ao consumidor, a responsabilidade social e o dever de gerar empregos para o progresso da nação.