Meus amigos, meus inimigos
Leiam, gozem ou achincalhem o Jornal de Ciências Sociais - aqui vai a versão digital. Colaborei com, na seção "racismo em debate". Quem quiser o papel, eu mando.
No site do colegiado, acham-se os números anteriores.
3.8.12
O politicamente correto
Há mais ou menos 7 anos, pouco antes de o heróico Roberto Jefferson anunciar o mensalão, o governo federal brasileiro cometeu um equívoco. Não foi a compra dos parlamentares - operação tão velha e banal como o próprio dinheiro. O equívoco foi a publicação de um Manual do politicamente correto (que só é equivocado se a intenção foi, como parece, eliminar preconceitos/racismos etc. etc. por meio de ideias). A oposição - de partidos políticos a associações ruralistas, passando por setores da imprensa paulista, filósofos blasés, comediantes e blogueiros da Veja - caiu em cima. Resultado: desde então, qualquer atitude que mire algum princípio ético, real ou imaginário, posto no presente ou no futuro, é tachado de "o politicamente correto". Não fosse isso, a publicação teria sido totalmente inútil; mas, na medida em que serviu como objeto de crítica à atividade filosófica de racistas, homofóbicos, militares do alto escalão, conservadores, evangélicos, seguidores do reverendo Moon, diretores de jornalismo da Globo e a classe média do eixo Rio-SP que os assiste - toda essa gente boa - e, ainda mais, por ter se convertido em alvo comum de parlamentares machões e toda a canalhada que navega pelo caldo do capital tardio do sul, incompleto e incompletável, o "politicamente correto" terminou por produzir involuntariamente um bom motivo para mascarar os piores vícios, que, travestidos de liberalidade, insurgem-se furiosamente contra qualquer palavra em nome das regras de boa convivência ou, que vem a dar no mesmo, humanidade.
Desde então, apontar o racismo, armar-se contra a violência, denunciar a injustiça, exigir a verdade dos cadáveres desaparecidos, defender direitos humanos (como o aborto), dar pão a pobre (inda mais, a pobre nortista) - tudo é "a ditadura do politicamente correto", que cerceia a liberdade de ser vil. A reação ao "politicamente correto" é a reação do politicamente errado. É o conservador em barbas revolucionárias, é o atraso elevado à vanguarda, é a moralidade dos imorais, é a sagração dos instintos sujos. Nesta reconversão dos valores, Ali Kamel escreveu que "Não somos racistas": Arnaldo Jabour aplaudiu. E até a Inquisição foi beneficiada, no verbete Isabel I de Castela: "Seu legado também tem um lado mais politicamente incorreto: favoreceu a inquisição espanhola (esta que não era uma instituição da Igreja) e foi responsável pela expulsão dos judeus da Espanha em 1492 (Decreto de Alhambra)" (grifo meu). Nem a Wikipédia escapou do ardil oposicionista. De um lado, o politicamente correto torna-se desprezível e, de outro, o desprezível suaviza-se até o purgatório do "políticamente incorreto". Donde se conclui que a revivescência de valores tipicamente de direita não é privilégio da Europa. Se levada ao extremo tal re-valorização, a revolta contra um parlamentar corrupto não tem mais valor algum: aquela, por ser desprezível; este, por não ser tão desprezível assim.
É singular o caminho do PT. Sob orientação neokantiana, movido a revoltas contra a corrupção, estrela vermelha das CPIs - em defesa da ética nasceu um partido, já glorioso na origem, já operário, já de esquerda, porém renovada, isto é, não marxista. Pra botar ordem na coisa. E perde-se neste labirinto da moral. Há alguma coisa errada neste caminho, que, como o manual, deve ter sido repleto de boas intenções, tanto em gênese como em desenvolvimento, gerando embora produtos tristes e mesquinhos.
7.7.12
3.7.12
A escola
Retrato-me - antes que seja tarde - e nego o que disse.
As bobagens sobre paz e guerra não merecem comentário. As sobre educação sim. O problema aí é outro: está na unidade teoria-prática. Melhor dizendo, na disjunção entre as duas, o que, no limite, resulta na eliminação da primeira, cotidianamente. Com isto, em vez de simplificar as coisas, a grandeza da questão eleva-se a um complexo problemático. Que, se por um lado, dificulta a solução (que agora tem de ser global), por outro não envereda pela pobre estrada das soluções parciais, cujos efeitos tem necessariamente de ser parciais, efêmeros e paliativos. Também, corrige a miopia de se enxergar a escola como ilha sagrada, descolada do restante da sociedade - que é, na realidade, todos os demais indivíduos, igualmente seccionados teórico-praticamente, em maior ou menor grau. Em contrapartida, se ela é parte dos males, também é parte da solução: fica assim reposta a escola como lugar de depósito de esperanças. Desde que não se faça nela a já muito conhecida "educação bancária".
A unidade teórico-prática na escola se dá de maneira bastante difícil atualmente – e falo primeiro do que é, para depois falar do que deve ser. Na verdade, a unidade inexiste. Porque a relação social de ensino-aprendizagem é realizada sob a forma da alienação (no sentido de 'compra-e-venda' de trabalho), ordenada por instituições do Estado ou da iniciativa privada, orientada para vagos princípios morais cada vez mais contraproducentes à realização do humano, porque pautados por valores, leis e órgãos do Estado, sabidamente instituição de classe – num momento em que é flagrante a crise da escola, da família, dos indivíduos, da sociedade em geral, refletindo não mais que as crises do capital e seus produtos. Curiosamente, o sistema se mantém de pé. Mas a situação da escola, como do mundo, é calamitosa. Se estamos pensando numa relação social de ensino-aprendizagem para além destas instituições, a coisa pode mudar de figura. Mas, aqui, restrinjo-me à educação institucionalizada, especialmente a básica-pública. Disse lá atrás que a relação ocorre sob a forma da alienação porque os professores são assalariados, em geral. Portanto, ao ensinar, seu fim último é o salário (e não poderia ser de outra maneira nesta forma social) – dando-se uma unidade prático-teórica das mais mesquinhas e apequenadas (se se considera que o produto da escola não é o mesmo produto da fábrica de automóveis), pois muitas vezes unir prática e teoria verdadeiras na escola é contrapor-se à própria instituição, pondo em risco o pescoço; em suma, a relação social de ensino-aprendizagem vira uma relação social mercantil, onde o fim último não é o aluno, mas outra coisa. Se a coisa se atenua no ensino superior (e deve contribuir para isso a presença ali de subjetividades mais desenvolvidas - mas não acredito numa cisão tão profunda), no ciclo básico ganha feições horrendas. Isto me parece um nó a ser desatado: se não se resolve primeiro, e mesmo que só venha a se desatar por último, todos os primeiros passos devem estar a ele subordinados e tê-lo como guia.
É preciso em primeiro lugar ter claro que – e entramos no que deve ser – a ação humana é teleológica (orientada para um fim). Há em voga estreitas concepções de escola que mandam apenas fornecer mão de obra para o mercado - o que frequentemente põe perguntas como: pra que serve ler poesia? Se a concepção de formação quer ir além disso, não pode ter o professor outro objetivo que não a formação integral, a realização multilateral das potencialidades humanas. Tudo isto já foi inclusive elevado até à forma de lei, diretrizes e discursos escolares. Falta agora realizá-lo no mundo sensível. Depois, tendo em vista a especificidade do material a ser formado, será preciso, para que haja formação integral do aluno, situações de ensino-aprendizagem que lhe permitam agir teleologicamente, unindo palavras e ações. Por falar nisso, será preciso conceder ao aluno a liberdade de falar e agir. Isto eu ainda não vejo posto, e é pressuposto de tudo o mais. Aqui entra uma outra face do problema teoria-prática: o aluno é forçado a estar na escola. Por vezes, resiste ao ambiente, ao aprender e até ao próprio ato de pensar. Isto traz consequências danosas à escola e aos professores. Não é necessário que todos resistam; a atividade de uma pequena parcela pode se propagar em situações como essas, gerando até mesmo resistências passivas nos demais indivíduos. Constantemente, o discurso dos professores orienta-se no sentido de burlar o pensamento do aluno, convencendo-o de que este suposto mal é na verdade um bem - que ele, ignorante, ainda não pode ver - mas vai ver um dia. Nessa hora, costuma aparecer o "mercado de trabalho".
Para conceder ao aluno liberdade de pensar e agir, dentro da imposição da educação universal pelo Estado, impõe-se o pensar estratégias, o colecionar instrumentos e meios para tal fim, no limitado espaço escolar da sala de aula. Para nós, aparece aí a resistência do material real às nossas intenções ideais. Como superá-la? A pesquisa, a leitura, o intercâmbio e a produção teórico-pedagógica vão ajudar muito, mas não bastam, porque se põem num nível muito geral e universal. É preciso conhecer a realidade singular e suas particularidades; eu acredito que o registro dos problemas e obstáculos cotidianos permite tomar consciência deles: a sua escrita no momento em que ocorrem e a sua leitura posterior, já num momento de reflexão, contribuem sobremaneira à unidade prático-teórica. Este ponto é mais simples de resolver; o primeiro é mais difícil, porque professor não tem tempo de ler e efetivamente não lê sobre o que faz e o que é. Este é o pior dos nós, porque é feio. Quando ocorrem as escritas e as leituras, também não se encontra espaço para troca de experiências: não há tempo ou condições subjetivo-objetivas. Permanecendo isolado, nada se altera. Trata-se de outro nó, menos ruim, mas igualmente apertado.
As bobagens sobre paz e guerra não merecem comentário. As sobre educação sim. O problema aí é outro: está na unidade teoria-prática. Melhor dizendo, na disjunção entre as duas, o que, no limite, resulta na eliminação da primeira, cotidianamente. Com isto, em vez de simplificar as coisas, a grandeza da questão eleva-se a um complexo problemático. Que, se por um lado, dificulta a solução (que agora tem de ser global), por outro não envereda pela pobre estrada das soluções parciais, cujos efeitos tem necessariamente de ser parciais, efêmeros e paliativos. Também, corrige a miopia de se enxergar a escola como ilha sagrada, descolada do restante da sociedade - que é, na realidade, todos os demais indivíduos, igualmente seccionados teórico-praticamente, em maior ou menor grau. Em contrapartida, se ela é parte dos males, também é parte da solução: fica assim reposta a escola como lugar de depósito de esperanças. Desde que não se faça nela a já muito conhecida "educação bancária".
A unidade teórico-prática na escola se dá de maneira bastante difícil atualmente – e falo primeiro do que é, para depois falar do que deve ser. Na verdade, a unidade inexiste. Porque a relação social de ensino-aprendizagem é realizada sob a forma da alienação (no sentido de 'compra-e-venda' de trabalho), ordenada por instituições do Estado ou da iniciativa privada, orientada para vagos princípios morais cada vez mais contraproducentes à realização do humano, porque pautados por valores, leis e órgãos do Estado, sabidamente instituição de classe – num momento em que é flagrante a crise da escola, da família, dos indivíduos, da sociedade em geral, refletindo não mais que as crises do capital e seus produtos. Curiosamente, o sistema se mantém de pé. Mas a situação da escola, como do mundo, é calamitosa. Se estamos pensando numa relação social de ensino-aprendizagem para além destas instituições, a coisa pode mudar de figura. Mas, aqui, restrinjo-me à educação institucionalizada, especialmente a básica-pública. Disse lá atrás que a relação ocorre sob a forma da alienação porque os professores são assalariados, em geral. Portanto, ao ensinar, seu fim último é o salário (e não poderia ser de outra maneira nesta forma social) – dando-se uma unidade prático-teórica das mais mesquinhas e apequenadas (se se considera que o produto da escola não é o mesmo produto da fábrica de automóveis), pois muitas vezes unir prática e teoria verdadeiras na escola é contrapor-se à própria instituição, pondo em risco o pescoço; em suma, a relação social de ensino-aprendizagem vira uma relação social mercantil, onde o fim último não é o aluno, mas outra coisa. Se a coisa se atenua no ensino superior (e deve contribuir para isso a presença ali de subjetividades mais desenvolvidas - mas não acredito numa cisão tão profunda), no ciclo básico ganha feições horrendas. Isto me parece um nó a ser desatado: se não se resolve primeiro, e mesmo que só venha a se desatar por último, todos os primeiros passos devem estar a ele subordinados e tê-lo como guia.
É preciso em primeiro lugar ter claro que – e entramos no que deve ser – a ação humana é teleológica (orientada para um fim). Há em voga estreitas concepções de escola que mandam apenas fornecer mão de obra para o mercado - o que frequentemente põe perguntas como: pra que serve ler poesia? Se a concepção de formação quer ir além disso, não pode ter o professor outro objetivo que não a formação integral, a realização multilateral das potencialidades humanas. Tudo isto já foi inclusive elevado até à forma de lei, diretrizes e discursos escolares. Falta agora realizá-lo no mundo sensível. Depois, tendo em vista a especificidade do material a ser formado, será preciso, para que haja formação integral do aluno, situações de ensino-aprendizagem que lhe permitam agir teleologicamente, unindo palavras e ações. Por falar nisso, será preciso conceder ao aluno a liberdade de falar e agir. Isto eu ainda não vejo posto, e é pressuposto de tudo o mais. Aqui entra uma outra face do problema teoria-prática: o aluno é forçado a estar na escola. Por vezes, resiste ao ambiente, ao aprender e até ao próprio ato de pensar. Isto traz consequências danosas à escola e aos professores. Não é necessário que todos resistam; a atividade de uma pequena parcela pode se propagar em situações como essas, gerando até mesmo resistências passivas nos demais indivíduos. Constantemente, o discurso dos professores orienta-se no sentido de burlar o pensamento do aluno, convencendo-o de que este suposto mal é na verdade um bem - que ele, ignorante, ainda não pode ver - mas vai ver um dia. Nessa hora, costuma aparecer o "mercado de trabalho".
Para conceder ao aluno liberdade de pensar e agir, dentro da imposição da educação universal pelo Estado, impõe-se o pensar estratégias, o colecionar instrumentos e meios para tal fim, no limitado espaço escolar da sala de aula. Para nós, aparece aí a resistência do material real às nossas intenções ideais. Como superá-la? A pesquisa, a leitura, o intercâmbio e a produção teórico-pedagógica vão ajudar muito, mas não bastam, porque se põem num nível muito geral e universal. É preciso conhecer a realidade singular e suas particularidades; eu acredito que o registro dos problemas e obstáculos cotidianos permite tomar consciência deles: a sua escrita no momento em que ocorrem e a sua leitura posterior, já num momento de reflexão, contribuem sobremaneira à unidade prático-teórica. Este ponto é mais simples de resolver; o primeiro é mais difícil, porque professor não tem tempo de ler e efetivamente não lê sobre o que faz e o que é. Este é o pior dos nós, porque é feio. Quando ocorrem as escritas e as leituras, também não se encontra espaço para troca de experiências: não há tempo ou condições subjetivo-objetivas. Permanecendo isolado, nada se altera. Trata-se de outro nó, menos ruim, mas igualmente apertado.
24.6.12
Arte
Sem título
André Pereira de Oliveira
Aerografia, tinta acrílica
Fafil - Centro Universitário Fundação Santo André (junho/2012)
13.6.12
O bonito e o bom
... e isso, senhoras e senhores, é o que eu tinha a dizer sobre África nesta noite.
– Bem, agora a mesa está aberta a perguntas.
– Eu... eu queria saber o seguinte: e a escravidão? Cê num falou disso.
– Ah, não, mas isso já se falou demais. Agora o que a gente tem de falar da África é o que ela tem de BO-NI-TO: os reis, as civilizações, a cultura, a arte... É tanta coisa, é um universo tão grande, que a gente não precisa ficar repetindo esse passado. O quê que a África tem de bom? Essa é a pergunta.
8.6.12
O preconceito e o autêntico sinal da nossa época
"(...) Esta assim chamada razão dá maior valor, em contraste com a verdadeira, ao sentimento ou pressentimento interior, e desta maneira o subjetivo torna-se a medida do valor, isto é, uma opinião individual como cada qual é capaz de formar. Tal convicção individual não é, portanto, mais do que a opinião, a qual assim se converte na mais alta finalidade para os homens.
(...) Indiscutivelmente, a convicção individual é o fato último e absolutamente essencial que a razão e a sua filosofia, do ponto de vista subjetivo, reclamam para o conhecimento. Existe, porém, diferença entre a convicção baseada em estados subjetivos - isto é, sentimentos, aspirações, intuições, etc. - e a convicção que brota do pensamento e da compreensão do conceito e da natureza do objeto. No primeiro caso, a convicção não passa de mera opinião.
Esta oposição entre opinião e verdade, que se delineou claramente, encontramo-la já na cultura do período socrático-platônico (período de decadência da vida grega), como o antagonismo revelado por Platão entre opinião (dóxa) e ciência (epistéme). Idêntica oposição topamos ao tempo da decadência da vida pública e política romana, no reinado de Augusto e mais tarde quando campeavam triunfantes o epicurismo e a indiferença em matéria filosófica. Neste sentido, quando Cristo disse: Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade, Pilatos responde: Que é a verdade? A resposta é dada com ares de superioridade e significa: sabemos bem o que é essa verdade: uma coisa que conhecemos; mas fomos ainda além: sabemos que se não pode falar de conhecimento da verdade; é ilusão que já vencemos. Quem assim fala passou, de fato, para além da verdade.
(...) Para o homem franco a verdade permanecerá sempre uma palavra de suma importância. No que respeita, portanto, ao asserto de que a verdade não se pode conhecer, (...) se se aceita este pressuposto (...), não se pode compreender por que motivo o homem se ocupa ainda de filosofia (...)."
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. "Introdução à história da filosofia". Abril cultural, p.336-7 (Os pensadores).
A quem trate Hegel como cachorro morto, fica a advertência: ele está cada vez mais vivo.
(...) Indiscutivelmente, a convicção individual é o fato último e absolutamente essencial que a razão e a sua filosofia, do ponto de vista subjetivo, reclamam para o conhecimento. Existe, porém, diferença entre a convicção baseada em estados subjetivos - isto é, sentimentos, aspirações, intuições, etc. - e a convicção que brota do pensamento e da compreensão do conceito e da natureza do objeto. No primeiro caso, a convicção não passa de mera opinião.
Esta oposição entre opinião e verdade, que se delineou claramente, encontramo-la já na cultura do período socrático-platônico (período de decadência da vida grega), como o antagonismo revelado por Platão entre opinião (dóxa) e ciência (epistéme). Idêntica oposição topamos ao tempo da decadência da vida pública e política romana, no reinado de Augusto e mais tarde quando campeavam triunfantes o epicurismo e a indiferença em matéria filosófica. Neste sentido, quando Cristo disse: Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade, Pilatos responde: Que é a verdade? A resposta é dada com ares de superioridade e significa: sabemos bem o que é essa verdade: uma coisa que conhecemos; mas fomos ainda além: sabemos que se não pode falar de conhecimento da verdade; é ilusão que já vencemos. Quem assim fala passou, de fato, para além da verdade.
(...) Para o homem franco a verdade permanecerá sempre uma palavra de suma importância. No que respeita, portanto, ao asserto de que a verdade não se pode conhecer, (...) se se aceita este pressuposto (...), não se pode compreender por que motivo o homem se ocupa ainda de filosofia (...)."
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. "Introdução à história da filosofia". Abril cultural, p.336-7 (Os pensadores).
A quem trate Hegel como cachorro morto, fica a advertência: ele está cada vez mais vivo.
6.6.12
Índice de valor de uso do livro
... e, por todas estas razões, senhoras e senhores alunos, recomendamos enfaticamente que leiam o livro, com calma e sem pressa, até porque estamos ainda no início de junho, e vocês poderão ler nas férias.
– É um piadista.
– Nas férias eu viajo...
– É obrigado a ler esse livro?
– Por quê que a gente tem que comprar? Tá errado isso daí.
– Pra quê que eu tenho que ler isso?
– Pode sair pro intervalo, sor?
A alienação do signo
Quando a gente é pequeno e lê no ônibus: "FALAR COM O MOTORISTA SÓ O INDISPENSÁVEL", pode pensar que "indispensável" é o nome do cobrador, e que este é o único autorizado a "falar". Ou quando ouve cantar: "O cravo brigou com a rosa / debaixo de uma latada", eu por exemplo pensava: "coitados, além de brigando, alguém ainda vai lá e dá uma latada neles?!" E não era nada disso, mais tarde descobri o significado. Mas, agora, com a gente grande... Querem nos fazer esquecer tudo o que aprendemos? E foi pensando nisso que me vi a mim, tão realista e sério - a devanear entre prateleiras de supermercado, perdido em déjà vu, segurando um alimento da marca carrefour que por alguma razão se chama "pão caseiro". Deve ser a tal arbitrariedade do signo linguístico.
Daí cheguei a uma pergunta terrível: haverá um mercado de palavras?
Daí cheguei a uma pergunta terrível: haverá um mercado de palavras?
25.4.12
Propriedades
a Décio Sá (in memoriam)
Eu não tenho casa:
aluguel é 30 dias.
A liberdade é pouca:
acaba onde começa a sua.
A propriedade de meu carro é duvidosa:
a obsolescência programada lhe corrói.
Também não tenho amigos:
ritmos de trabalho, de trânsito, de tráfego
- de informações, mercadorias e serviços -
a intensidade da vida moderna os rouba de mim.
Cada poro do tempo se ocupa e me atravessa.
Meu corpo anda à espera de um tiro.
Eu só tenho a palavra.
18.4.12
Uma tarde
06 de março. 18h. Uma tarde lendo e-mails, respondendo palavras. Sem cigarros. Meu deus, que faço da vida. Essa vontade de fumar. E ler... Viciado? Não, não posso sair agora, é preciso pelo menos concluir uma leitura. Nada que se compare a um leitor de orellhas, mas vou me tornando esse desgraçado leitor de primeiros capítulos. Que, no fim, só escreve relatórios... Crise de abstinência... Ou a bunda amassada? De mais a mais, a cabeça cheia do vazio dos cálculos. A boca sêca, o pulmão pede fumaça, um carpe diem rebrilhante como nome de puteiro luz na mente. É tempo de embriagar-se? 30 anos jogados no lixo. Nem um título, nem um livro, nada. Nenhuma resposta ao que a humanidade deu, ou vendeu. Mesmo a mim, que será do título, do livro, sem mercado de trabalho, feiras, viagens... Não será a ausência de resposta o equivalente da nossa miséria? Não. A pobreza, a virtude, o vício deve ser só meu, como tudo. Ah, se eu soubesse o que fazer...
14.2.12
Sobre a capetização do marxismo
Sobre isto, pediram-me uma opinião. Embora gratíssimo pela inclusão, não tenho lucidez para discutir isso. O ceticismo tem rondado até o modo como desço as escadas, cumprimento as pessoas ou escovo os dentes. Desconfio de todos os caminhos e propostas, e não tenho nada melhor a propor. A estratificação da classe trabalhadora em infindas gradações e matizes complicou a coisa. Isto deve ter causado a existência de uma infinidade de seitas políticas. O indivíduo é cada vez mais só, livre, autônomo e desligado da classe. O pensamento, acompanhando o movimento geral, parece ter se fragmentado também nas melhores cabeças, e um olhar unificado tornou-se impossível. "Pensar consigo mesmo, se não é inteiramente impossível, exige pelo menos bastante coragem. E os telemóveis, permanentemente ligados, mesmo nas reuniões de amigos, impedem qualquer conversa continuada. Até durante o acto de defecar, tradicionalmente propício à meditação, em que todas as pessoas reproduziam a atitude, e sem dúvida o espírito, do celebérrimo Pensador de Rodin, o livre curso das ideias passou a ser obstruído pela intromissão do telemóvel."* A desordem das ideias determina e é determinada pela "maldita práxis". O estudo ocupa um espaço relativamente infinitesimal em nossas vidas, premidas pela busca da mercadoria essencial, que contém em si todas as outras. Os nossos cacos, que somos, e os cacos de pensamento que temos - eu não digo que signifiquem o fim da espécie, mas bem podem vir a ser o nosso fim, o fim de uma época ou o fim dos ideais elevados que viemos alevantando. Para o momento convém o estoicismo - mas isto é francamente ruim, e vocês logo perceberiam a fraude. Serve tão somente como um plástico entre os ovos.
*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.
*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.
5.1.12
Conversa com os mortos
Maquiavel. Carta a Francesco Vettori (10/12/1513) Apud Chasin. O futuro ausente: para a crítica da política e o resgate da emancipação humana. Ad hominem. N. 1, tomo III – Política. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 2000, pág. 221.
27.12.11
Por que Portugal deu errado?
Nos séculos XIV e XV houve uma crise monetária mundial. Valendo-se da sua marinha e da aliança com a Inglaterra, Portugal partiu em busca de ouro, especiarias e escravos, compensando a sua escassez de dinheiro e gente.
Nesse processo fortaleceu-se uma nobreza que se tornou parasitária. A burguesia mercantil – composta majoritariamente por judeus – foi expulsa ou enfraquecida e não se realizou a passagem ao capitalismo, que fortaleceria a economia interna da nação. Esse sistema não criou raízes estruturais para sustentar a economia em crescimento. Ao se revelar a pequenez de Portugal ante o gigantismo da empresa, sua expansão passou a ser mero inchaço. E se esboroou sem aproveitar – ou sem ter feito sequer – a acumulação de capitais necessária ao desenvolvimento do capitalismo. O descobrimento do Brasil foi o ponto ascendente desse processo. Depois começou o declínio do comércio exterior português, que se tornará deficiente. E Portugal passará a viver da sua colônia, dividindo-a e finalmente perdendo-a para a Inglaterra.
(...)
Portanto, a descoberta do Brasil foi consequência da expansão marítima portuguesa, quando a Europa evoluía do feudalismo ao capitalismo e Portugal não conseguiu encontrar a passagem que estimularia o desenvolvimento do “seu” capitalismo. Por não encontrá-la, foi vítima do processo, transformando-se em um anacronismo que a exploração colonialista não pôde superar – antes complicou, como duzentos anos depois o marquês de Pombal viu com clareza.
CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil. Cap II, "A saga marítima". Cortez. No prelo.
Nesse processo fortaleceu-se uma nobreza que se tornou parasitária. A burguesia mercantil – composta majoritariamente por judeus – foi expulsa ou enfraquecida e não se realizou a passagem ao capitalismo, que fortaleceria a economia interna da nação. Esse sistema não criou raízes estruturais para sustentar a economia em crescimento. Ao se revelar a pequenez de Portugal ante o gigantismo da empresa, sua expansão passou a ser mero inchaço. E se esboroou sem aproveitar – ou sem ter feito sequer – a acumulação de capitais necessária ao desenvolvimento do capitalismo. O descobrimento do Brasil foi o ponto ascendente desse processo. Depois começou o declínio do comércio exterior português, que se tornará deficiente. E Portugal passará a viver da sua colônia, dividindo-a e finalmente perdendo-a para a Inglaterra.
(...)
Portanto, a descoberta do Brasil foi consequência da expansão marítima portuguesa, quando a Europa evoluía do feudalismo ao capitalismo e Portugal não conseguiu encontrar a passagem que estimularia o desenvolvimento do “seu” capitalismo. Por não encontrá-la, foi vítima do processo, transformando-se em um anacronismo que a exploração colonialista não pôde superar – antes complicou, como duzentos anos depois o marquês de Pombal viu com clareza.
CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil. Cap II, "A saga marítima". Cortez. No prelo.
24.12.11
Sobre a bomba do momento
Nenhum político, mesmo os que privatizaram ou pretendem privatizar, recebe de bom grado a fama de privatizador. Mas, nos anos 1990, o que hoje é estigma era então condição inexorável para ser aceito na modernidade. O discurso tucano, hoje omisso quanto ao passado, possuía a arrogância dos donos da verdade. Mas está tudo registrado.
RIBEIRO JR., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: geração editorial, 2011, p.36 (Col. história agora; vol. 5)
O grifo é meu. Embora as privatizações tenham varrido a América Latina, o Brasil entrou na modernidade - e entrou bem. Sem prejuízo das falcatruas e roubos ao patrimônio público - nas quais, conforme o livro, José Serra foi ilustre co-participante -, as privatizações escondem talvez alguma coisa positiva, no caso do Brasil, e extremamente negativa, no caso de Argentina e outros países. Que entraram mal nesse início de século.
RIBEIRO JR., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: geração editorial, 2011, p.36 (Col. história agora; vol. 5)
O grifo é meu. Embora as privatizações tenham varrido a América Latina, o Brasil entrou na modernidade - e entrou bem. Sem prejuízo das falcatruas e roubos ao patrimônio público - nas quais, conforme o livro, José Serra foi ilustre co-participante -, as privatizações escondem talvez alguma coisa positiva, no caso do Brasil, e extremamente negativa, no caso de Argentina e outros países. Que entraram mal nesse início de século.
12.12.11
Brincadeira de deus
escavadeira bagger 288, da empresa Krupp AG (atual ThyssenKrupp)
(...) as terríveis massas de ferro que precisavam ser forjadas, soldadas, cortadas, furadas e moldadas exigiam, por sua vez, máquinas ciclópicas, cuja criação não era possível à construção manufatureira de máquinas.
A grande indústria teve, portanto, de apoderar-se de seu meio característico de produção, a própria máquina, e produzir máquinas por meio de máquinas.
(...) veremos reaparecer o instrumento artesanal, mas em dimensão ciclópica. A parte operante da perfuratriz, por exemplo, é uma broca monstruosa, movida por uma máquina a vapor e sem a qual, por sua vez, não poderiam ser produzidos os cilindros das grandes máquinas a vapor e das prensas hidráulicas. O torno mecânico é o renascimento ciclópico do torno comum de pedal; a máquina de aplainar, um carpinteiro de ferro, que trabalha o ferro com as mesmas ferramentas com que o carpinteiro trabalha a madeira; a ferramenta que, nos estaleiros londrinos, corta as chapas é uma gigantesca navalha de barbear; a ferramenta da tesoura mecânica, que corta ferro como corta pano a tesoura do alfaiate, uma monstruosa tesoura; e o martelo a vapor opera com uma cabeça comum de martelo, mas de peso tal que nem mesmo Thor conseguiria brandi-lo.
(O capital, livro I, tomo II, Cap. XIII - "Maquinaria e grande indústria". Abril (Os economistas), pp.14-17)
6.12.11
...quem precisa de inimigos?
Não tenho nada contra meu mundo. Tenho até muitos amigos e, por ignorar deles qual seja o grande ou o melhor, corro o risco de não ter amigo algum. Contudo, minha companheira me acompanha e me ajuda, sobretudo quando desanimo e caio; sinto que somos grandes amigos. Mas isto se poderia dizer trata-se de amizade especial ou, até, vulgar, uma vez generalizado o casamento. Mas as pessoas me ajudam, às vezes retribuo um sorriso e, descartado o que há de ruim, mais as relações sociais etc. - toda vez que aprendo, ou amo, ou me embriago, sinto orgulho da espécie.
Com os avanços medicinais, incrementos de higiene, dietas de proteína, crescimento do mercado interno, lulismo e aumento na longevidade do brasileiro -, a única coisa que incomoda é ter tudo isso pra viver e todo esse trabalho em ficar vivo; e tão pouco tempo para desfrutar disso, deles, dela. Porque, ainda que eu trabalhe menos, e sempre mais, para escândalo de minhas colegas de trabalho - que temem ver-me reduzido à penúria -, não obrigo nem posso orientar meus amigos a semelhante resolução. Não me admira fracassar nesta empresa megalomaníaca.
O que me admira e constrange e deprime é sequer convencê-los de que não é saudável trabalhar em mais de um lugar, todos os dias, sacrificando em nome do transporte seu horário de almoço. Se é que é saudável falar quando se come, mesmo aí a reunião é prejudicada - e tanto pior pra mim, que, versado só em letras, tinha muito a dividir com um amigo matemático. Mas hoje ele não pode comer. É preciso correr. E se, no trânsito, outro vem e pára, e bebe comigo após tanto tempo, e me diz que devo desistir do homem, que o egoísmo é inato, que a natureza humana é imutável - eu não tenho nada a dizer. Seria inútil reviver a poesia de John Donne, já lembrada pelo Hemingway: no man is an island. Porque vamos mesmo sendo ilhas - no salgado oceano do trabalho, do consumo e da desilusão.
O que não me impede de gritar, emputecido e gasto, que se roubam meus amigos, sou duplamente agredido e náufrago; que a miséria deles é a minha miséria elevada à constelação das potências.
Com os avanços medicinais, incrementos de higiene, dietas de proteína, crescimento do mercado interno, lulismo e aumento na longevidade do brasileiro -, a única coisa que incomoda é ter tudo isso pra viver e todo esse trabalho em ficar vivo; e tão pouco tempo para desfrutar disso, deles, dela. Porque, ainda que eu trabalhe menos, e sempre mais, para escândalo de minhas colegas de trabalho - que temem ver-me reduzido à penúria -, não obrigo nem posso orientar meus amigos a semelhante resolução. Não me admira fracassar nesta empresa megalomaníaca.
O que me admira e constrange e deprime é sequer convencê-los de que não é saudável trabalhar em mais de um lugar, todos os dias, sacrificando em nome do transporte seu horário de almoço. Se é que é saudável falar quando se come, mesmo aí a reunião é prejudicada - e tanto pior pra mim, que, versado só em letras, tinha muito a dividir com um amigo matemático. Mas hoje ele não pode comer. É preciso correr. E se, no trânsito, outro vem e pára, e bebe comigo após tanto tempo, e me diz que devo desistir do homem, que o egoísmo é inato, que a natureza humana é imutável - eu não tenho nada a dizer. Seria inútil reviver a poesia de John Donne, já lembrada pelo Hemingway: no man is an island. Porque vamos mesmo sendo ilhas - no salgado oceano do trabalho, do consumo e da desilusão.
O que não me impede de gritar, emputecido e gasto, que se roubam meus amigos, sou duplamente agredido e náufrago; que a miséria deles é a minha miséria elevada à constelação das potências.
25.11.11
Sonho
E vago num mundo estranho,
De movimento e som, e cores novas e gosto alegre.
Mas estou triste:
alma sem corpo,
vontade nua,
jangada sem remo,
levado pelo rio caudaloso do medo, angústia, raiva e dor.
Às vezes paro e escuto arrepiado o trovoar da cachoeira,
aonde vou,
pequeno,
e só.
De repente, atravesso o espelho d'água da vida
e acordo em sobressalto:
ônibus e caminhões escoam da janela
- o contínuo curso do rio de aço.
E olho minhas mãos
- estranhas garras nuas -
que abro e fecho e giro e torço.
Meu Deus...
Para que servem?
De movimento e som, e cores novas e gosto alegre.
Mas estou triste:
alma sem corpo,
vontade nua,
jangada sem remo,
levado pelo rio caudaloso do medo, angústia, raiva e dor.
Às vezes paro e escuto arrepiado o trovoar da cachoeira,
aonde vou,
pequeno,
e só.
De repente, atravesso o espelho d'água da vida
e acordo em sobressalto:
ônibus e caminhões escoam da janela
- o contínuo curso do rio de aço.
E olho minhas mãos
- estranhas garras nuas -
que abro e fecho e giro e torço.
Meu Deus...
Para que servem?
4.8.11
Eu vou
Eu vou vestir a camisa dos pelados:
Sairei nu pelas ruas a afrontar velhinhas mulheres grávidas crianças e bebês de poucos dias
Desacatarei a ordem pública
Cuspirei nas leis vigentes
E desarmarei os preconceitos vulgares com jatos quentes da porra
do amor
E comerei a carne dos cadáveres cujas ideias me alimentam:
Destruirei monumentos, falsos templos, velhas máquinas
Ordens desordenadas da desordem da ordem
Comungarei deste cálice, deste pão
Até limpar os pés no manto sagrado que cobria meus olhos
Ou os queria em horizontes invisíveis
Um dia, eu vou fazer tudo que eu quiser.
Eu vou beber com demônios:
Cairão vertiginosos e inclementes temporais de suplícios agudos e cortantes de solidão desnecessária e vergonha diante do espelho blindado
Eu vou fazer o diabo.
Eu
vou fazer poesia.
Sairei nu pelas ruas a afrontar velhinhas mulheres grávidas crianças e bebês de poucos dias
Desacatarei a ordem pública
Cuspirei nas leis vigentes
E desarmarei os preconceitos vulgares com jatos quentes da porra
do amor
E comerei a carne dos cadáveres cujas ideias me alimentam:
Destruirei monumentos, falsos templos, velhas máquinas
Ordens desordenadas da desordem da ordem
Comungarei deste cálice, deste pão
Até limpar os pés no manto sagrado que cobria meus olhos
Ou os queria em horizontes invisíveis
Um dia, eu vou fazer tudo que eu quiser.
Eu vou beber com demônios:
Cairão vertiginosos e inclementes temporais de suplícios agudos e cortantes de solidão desnecessária e vergonha diante do espelho blindado
Eu vou fazer o diabo.
Eu
vou fazer poesia.
25.5.11
Sobre causas e efeitos
Sobre a Marcha da Maconha, condenada pela Justiça e reprimida pela Polícia Militar, alguém tem de dizer em algum lugar que o problema é menos da polícia (ela não foi feita pra outra coisa, senão reprimir) que do Juiz que julgou o negócio ilegal. Nenhuma barbaridade cometida pela polícia deveria ser surpresa - ainda que façamos a denúncia.
Mas a decisão do juiz... O tal do desembargador Teodomiro Mendez (que ao que dizem já espancou reús, torturou, encostou cano de arma na cabeça de ladrões de galinha) escreveu: "o evento que se quer coibir não trata de um debate de ideias, apenas, mas de uma manifestação de uso público coletivo de maconha, presentes indícios de práticas delitivas no ato questionado, especialmente porque, por fim, favorecem a fomentação do tráfico ilícito de drogas."
Não há debate de ideias? Uso público coletivo de maconha? Fomentação do tráfico ilícito de drogas?
Dá pra acreditar nisso? Até um secundarista perceberia a falha de raciocínio. Toda manifestação coletiva traz em si um debate de ideias na base; e o próprio debate não acontece se não há manifestações coletivas - um é condição do outro. Ademais, ninguém precisa de publicidade e coletividade pra fumar maconha. E nem o tráfico precisa de fomento maior que o dinheiro. Pelo contrário, o tráfico deve é se incomodar com alguém falando em legalização: isto sim é que é uma ameaça ao lucro.
A primeira coisa a se fazer é julgar o juiz; depois chegamos a polícia. Se é que estamos interessados em combater causas, não efeitos.
Mas a decisão do juiz... O tal do desembargador Teodomiro Mendez (que ao que dizem já espancou reús, torturou, encostou cano de arma na cabeça de ladrões de galinha) escreveu: "o evento que se quer coibir não trata de um debate de ideias, apenas, mas de uma manifestação de uso público coletivo de maconha, presentes indícios de práticas delitivas no ato questionado, especialmente porque, por fim, favorecem a fomentação do tráfico ilícito de drogas."
Não há debate de ideias? Uso público coletivo de maconha? Fomentação do tráfico ilícito de drogas?
Dá pra acreditar nisso? Até um secundarista perceberia a falha de raciocínio. Toda manifestação coletiva traz em si um debate de ideias na base; e o próprio debate não acontece se não há manifestações coletivas - um é condição do outro. Ademais, ninguém precisa de publicidade e coletividade pra fumar maconha. E nem o tráfico precisa de fomento maior que o dinheiro. Pelo contrário, o tráfico deve é se incomodar com alguém falando em legalização: isto sim é que é uma ameaça ao lucro.
A primeira coisa a se fazer é julgar o juiz; depois chegamos a polícia. Se é que estamos interessados em combater causas, não efeitos.
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