28.5.09

Lembrete sobre duas coisas:

1. A cultura da paz é, com certeza, o pior dos valores dos nossos tempos. Capitão Nascimento não é tão irracional quanto nos quer fazer parecer nosso bom senso. Ele tem razão num ponto: a hipocrisia é não só a base da nossa organização social globalizada, mas também a base do que nos constitui como seres humanos modernos. Pregando as vantagens de uma cultura de paz, dias atrás é que me dei conta da contradição que existe nisso. Precisei ouvir de uma quase criança de 12 anos que, na verdade: "v. diz que a violência não é o caminho, porque não pode dizer outra coisa; a gente entende; mas sabe que v. não acredita nisso; porque quem leva um tapa na cara, devolve; todo mundo faz isso." Pior que é verdade. Então, por que diabos continuamos a defender a paz e a justiça. Deveríamos defender sim a justiça e a paz, mas sabendo que justiça e paz não prescindem de violência para se concretizar. Não se chega à paz pela paz; chega-se à paz pela guerra, como diz o velho ditado. Então, se é mesmo isso, para que continuamos a dizer que a violência não é o caminho, quando a violência se alastra de diversas formas pelas famílias, pelas ruas, pelas diferentes classes sociais e principalmente na relação entre estas? Sim, mesmo a nós, que nos consideramos politicamente desalienados, críticos e transformadores, mesmo a nós, invisíveis, vêm ter conosco valores alheios que entranhamos e reproduzimos sem o perceber. A cultura de paz nos chega pelas escolas, pela TV, pelos jornais, pelos livros – em uma palavra, pelo Estado. Estes valores não pertencem aos cidadãos – ao contrário, os pais comumente dizem aos filhos: "não bata; mas se apanhar, não apanhe queito: reaja sempre." Então estes valores só podem pertencer àqueles que, estando no poder, controlam o Estado. É evidente que se fosse incentivada uma cultura de violência contra às injustiças, mais cedo ou mais tarde se veria que a maior delas é uma organização social em forma de pirâmide, que permite a uma pequena parcela dominar a imensa base que a sustenta, com métodos tão ou mais violentos quanto os do passado, disfarçados sob um manto de hipocrisia, que lentamente vai se assentando e se escondendo na névoa polifônica do nosso século – cuja complexidade, porém, permite-nos vislumbrá-lo em toda a sua extensão com uma simples figura geométrica.

2. É uma grande besteira depositar na escola a esperança de melhora do mundo. Enquanto ela não se dispuser a construir uma visão conjunta da realidade, a partir de alguma ciência antiga ou inédita que congregue e rearticule os conhecimentos básicos entre si – a fragmentação do saber em disciplinas inúteis, a separação das pessoas em individualismos nocivos e a divisão da humanidade em classes sociais perdurará indefinidadamente. Dos que possuem formação para atuar no ensino fundamental, só professores de história e geografia parecem dominar mecanismos de entendimento e explicação coerente do estado do mundo. Dos professores de história e geografia que existem, é ingênuo supor que todos tenham vontade ou condições de ativar todo seu aparato técnico na construção de situações reflexivas de aprendizagem de mundo; se excluírmos aqueles que possuem formação ruim, sobra uma parcela insignificante. Dos professores das outras disciplinas, majoritários, pode até haver vontade ou condições efetivas de explicar o mundo; mas, se lhes sobrar vontade (o que já é pra lá de duvidoso), faltar-lhes-á sempre formação específica e aparato técnico. O que em grande parte explica por que nunca vi um professor de matemática usar um triângulo para associá-lo à sociedade ou ao mundo. O que explica também por que grande parte da matemática e a totalidade de muitas outras ciências, como a gramática, a química ou a física, parecem aos alunos não ter aplicação prática alguma. O que mostra como o positivismo, que no XIX fragmentou o conhecimento, serviu aos interesses da elite, criando – mais que uma divisão do saber – divisórias de pensamento, tapumes da visão... antolhos. O positivismo, se Durkheim não se contentar com ser o criador do melhor dos chicotes, é talvez a mais engenhosa das criações humanas. Os seres humanos, quando no ócio, quando desatrelados do fardo que puxam, quando caminhando pelo mundo – já não olham mais para os lados.

Daí hoje se acreditar, principalmente no Brasil, que direita e esquerda não existe.

E quando olham para o amanhã, para a frente, para o futuro – já nem veem a natureza da ordem que o progresso exige. Ficam obviamente excluídos dessa cegueira nova os que naturalmente já não viam pelas doenças antigas (não há muita diferença entre um camponês medieval e as contemporâneas classes D e E): os cegos antigos (que sofrem o presente) culpam os malefícios do progresso, e vivem a reviver no presente o passado; a maior parte das pessoas que veem, como já se disse, não vive mais no presente: escolheu pensar no futuro. E isso é que é assustador. Porque, se se pensar bem, passado e futuro, na realidade, não existem; são só abstrações.

2.5.09

Em um episódio dos Simpsons, após presenciar uma catástrofe cinematográfica, causada pelas mais inesperadamente vis motivações, o diretor Seymour Skinner, com um riso a um tempo discreto e saboroso, sentenciava lentamente:

– Essa humanidade...

De tempos em tempos me vêm à mente esta cena.


16.4.09

Igreja

Eu não tinha dado muita bola pras críticas do Joseph Ratzinger ao Nietzsche, mas de tanto falarem acabei indo lá ler a notícia no Estadão, de 10 passado. E até por ser Nietzsche um filósofo que cria instabilidades para os valores, perigoso, portanto, para a religião, continuava não vendo ali nada de anormal ou inesperado por parte da Santa Madre Igreja. Até que duas pessoas especialmente, e reproduzo a seguir ideias delas, me alertaram para o fato de que o discurso do Bento é uma puta de uma gafe, e por dois motivos: a) criticar Nietzsche objetiva, na verdade, exortar os fiéis a não o lerem, o que, no fim das contas, é um tiro pela culatra – proibir é estimular; b) esta proibição é anacrônica, medieval e, epa!, lembramos que Bento XVI antes de ser papa era prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, um nome moderno para a Santa Inquisição.

E aqui no Brasil sabe-se que a expulsão de Leonardo Boff da Igreja tem um agente: o atual papa. Sua Igreja continua a mesma Igreja. E sobrevivem em nosso XXI os mesmos preconceitos, fantasmas, obscurantismos, misticismos e autoritarismos contra os quais se rebelaram os iluministas no XVIII. Deveríamos reviver Voltaire para vê-lo de novo dizer, Não concordo com nada... Ou não. Talvez nem precise. Porque essa coisa toda, de ouvir o outro lado, já criou raízes tão profundas em nosso modo de pensar, que mesmo entre os crentes há com certeza uma parcela que desobedecerá o interdito.

15.4.09

Estado

Se o Estado é tão somente uma máquina destinada a amortecer conflitos, a manter a ordem, a mediar interesses antagônicos, a minimizar os efeitos da desigualdade social, a possibilitar a dominação de um grupo de pessoas por outro grupo de pessoas, não é surpresa nenhuma que Protógenes Queiroz seja afastado de suas funções. A polícia federal, como parte de uma força especial armada com os impostos saqueados pelo Estado junto aos súditos, não foi criada para reprimir o grupo dominante. Esta anomalia está completamente fora de suas atribuições e, embora não pareça, isto é sério. A valer este raciocínio, Fausto Martin de Sanctis e Rodrigo de Grandis são os próximos.

11.4.09

Adriano

José Geraldo Couto mandou bem. Não é todo dia que caderno de esportes faz a gente pensar. Sobre o Adriano, imperador e tudo, ter decidido parar de jogar futebol e ganhar milhões de euros, chocando-nos a todos com tão grande e dupla perda (se bem que, pra mim, a perda maior é dos milhões mesmo; o Adriano é que nem aquele Luizão que vestiu a camisa dos quatro grandes de Sampa: faz gol, e ponto.), ele escreveu hoje na Fôia que:

Pululam as explicações fáceis, as respostas automáticas: é dor de corno, depressão, muita droga, birita, falta de estrutura, burrice pura e simples. Seja qual for a explicação mais convincente, Adriano criou um fato.

Tomou uma atitude inesperada num mundo de reações tão programadas e previsíveis. Foi na contramão da corrente hegemônica, desafinou o coro dos contentes. Seu gesto inquieta e perturba porque, na sua aparente irracionalidade, nos faz questionar a lógica absurda que comanda nossas vidas.

O leitor que acompanha ou suporta esta coluna sabe o quanto valorizo o lance que destoa: a furada, o frango, o erro. Deslizes que iluminam, que sobressaltam, que acordam. João Cabral de Melo Neto dizia que, em sua poesia, evitava "embalar" o leitor numa música que o fizesse deslizar como quem roda por uma estrada bem asfaltada. Preferia construir um caminho de pedras que, com seus solavancos, levasse o leitor a despertar.

Mal comparando, uma atitude como a de Adriano equivale a uma canelada, um tropeção, uma pedra com que se topa no meio do caminho. Quem quiser que se defenda do susto respondendo com as frases feitas citadas lá em cima. E quem tiver coragem que encare o Adriano que traz dentro de si.

3.4.09

O dilema das casas blindadas no Rio de Janeiro

"Es el eterno dilema: adaptarse ante la realidad de la violencia cotidiana, blindando a las favelas con muros y construcciones búnker o luchar sin cuartel para expulsar de ellas a los narcos que han creado en ese mundo marginal su imperio, sus leyes y su poder."

Juan Arias deve estar brincando. Achando que o dilema se reduz a isso, ou não conhece o Brasil ou não conhece o mundo.

31.3.09

Rachas

Certa vez, ao encontrar um amigo petista com quem há muito não falava, lá pelas tantas perguntei assombrado:
– Mas você ainda está no PT?
Isso foi mais ou menos na época em que o partido expulsou algumas pessoas, e alguns novos partidos foram criados. Ele respondeu que estava. E que não sairia. E não saiu. Sair para quê? Fundar um novo partido?

Pensando bem, hoje eu não faria a mesma pergunta. E tomei convicção disso depois de ver um cartaz de um certo movimento chamado "A plenos pulmões". A primeira vista parecia um movimento político em prol do esporte ou do bem-estar físico, etc. Mas não. É um movimento genuinamente político, ou seja, em prol de causas sociais. Depois descobri o que o originou. O caminho, segundo me disseram, é mais ou menos o seguinte:











Não sei ao certo o que ocasionou todo esse tortuoso caminho. O certo é que: 1) os trotskistas têm acumulado uma vasta experiência em parar e voltar à estaca zero; 2) quem é petista deve estar ainda no PT. Puto da vida, mas ainda lá. Ainda atuando. Ainda a caminho. O que nos faz pensar a quem faz bem aqueles rachas todos.

O que nos leva à pergunta inevitável: havendo um novo racha, conseguirá o organismo sobreviver com apenas um pulmão?

4.3.09

Eaosa

Por causa disto, resolvi contar também algumas histórias que li, vi e ouvi. Não são poucos os causos sobre as empresas de ônibus do ABC. Neste fórum, Rodalvesdepaula conta, por exemplo, que:

"um representante do governo estadual foi notificar uma empresa de ônibus da região por causa dos maus serviços e ameaçou com a cassação da permissão; assim, o dono da empresa pegou um revólver na sua mesa e disse para o fiscal, mostrando a arma: Quero ver quem vai tirar as minhas linhas!"

Para ouvir, de um outro usuário, a pertinente indagação:

"Não foi por uma destas que o Celso Daniel saiu da prefeitura para virar nome de estação de trem?"

O fato é que não só as lendas tem muito de base real, como também a morte de Celso Daniel ficou envolta em mistérios demais. E não é mistério o coronelismo na região do ABC. Mal de origem, na região que até meados do século XX abrigava vastas fazendas, não se pode estranhar que atualmente haja ainda tantos coronéis.

Eles modernizaram-se, instruíram-se, enveredaram por outros ramos, outros empreendimentos, outros negócios, que seguem administrando à moda de fazendas. O serviço de ônibus é um destes latifúndios modernos. Ontem, terça, aqui, Adamo Bazani publicou esta foto:

E apresentou a ficha do primeiro homem, o de gravata, que para estar completa deveria vir assim: dono de 3 mil ônibus, participação em 20 viações, já investigado pela PF por evasão de divisas e sonegação fiscal, presidente da AETC/ABC (Associação das Empresas de Transporte Coletivo do Grande ABC) – Baltazar José de Souza tem 62 anos. Aqui no ABC, é proprietário das viações Eaosa, São Camilo, Ribeirão Pires, Barão de Mauá, Januária e mais o que não se sabe. Segundo reportagem da Folha (só achei aqui), em 2005 a Viação São Camilo acumulava R$ 52 milhões em dívidas no INSS, enquanto suas irmãs, Ribeirão Pires e Barão de Mauá, R$ 17 e R$ 11 milhões respectivamente. De origem humilde, o ex-cobrador possui hoje um império que se espraia por vários estados, incluindo o longínquo Amazonas.


A foto acima é mais recente, e nela Baltazar está ao meio, entre os dois homens, segundo este lugar aqui. Nela não se vê mais a origem humilde nem a pobreza. Mas nos ônibus de suas empresas a história é outra. De uma forma geral, os ônibus do ABC são um lixo.

Um entrevistado de Adamo Bazani, aqui, afirma que contribuiu muito para a decadência dos serviços de transporte duas coisas: os frustrados planos econômicos da era Sarney-Collor e a guerra fiscal dos anos 90. A inflação, a fuga das grandes fábricas para outros estados e o consequente desemprego atingiram em cheio as empresas. Os galpões abandonados da região afetaram duramente as linhas de ônibus que transportavam seus empregados. A consequência disso é que:

"começou a se fabricar ônibus no Brasil, pensando em manutenção mais barata e muitas vezes o conforto era minimizado. Os bancos estofados davam lugar aos duros de fibra. Os motores traseiros, mais silenciosos, voltavam a dar a vez para os dianteiros, mais baratos. A manutenção era reduzida. Tinha empresário que esperava o ônibus quebrar, pois valia mais a pena."

A correção é que tem empresário que continuou fazendo isso até hoje. Em 2008, uma reportagem do Diário do Grande ABC acompanhou um usuário em seu trajeto trabalho-casa e:

"Constatou atrasos, superlotação, falta de conforto, carona para passageiros de outros ônibus da empresa que quebraram no caminho e muitas goteiras no veículo."

A EMTU avaliou 51 empresas da região e criou um ranking, baseado em quatro aspectos: qualidade, frota, situação econômica e opinião dos usuários. O resultado é que em 2004 a Eaosa foi considerada a pior viação de transporte intermunicipal. Como manda o manual, o repórter Gabriel Batista foi ouvir o outro lado. E ouviu que: " 'Uma empresa tem de ser a última do ranking. Dessa vez foi a Eaosa', justifica Baltazar Souza. Ele também é proprietário da viação Imigrantes, a penúltima colocada." É o fim da picada.

Ainda neste mesmo fórum (parece coisa de busólogo), lipe andreense diz que, aqui no ABC, a qualidade dos ônibus é tão ruim que poucas são as empresas com ônibus realmente novos:

"A Viação São Camilo também tem alguns poucos ônibus "novos" (que vieram usados de Manaus, mas são mais novos que as carroças que estavam antes)."

Estes ônibus mudaram de lugar, mas não de dono. Baltazar era dono das extintas empresas Cidade Manaus, Soltur, Viman e Urbana, que operavam no norte do Brasil, segundo informa Jerry Araújo.

O homem que tem tantas empresas tem uma história no mínimo curiosa. Conforme as lendas, era cobrador, passou a motorista e, assim que pôde, adquiriu o primeiro ônibus, a primeira empresa e, daí, forjou um império, sabe-se lá deus como. Em seus ônibus, não é raro ver funcionários portadores de deficiência, mormente cobradores. É que, explicam, ele tem um filho deficiente. Em volta dos ônibus, das catracas, das garagens, também não é raro ver indivíduos mal-encarados, exibindo revólveres na cintura, tatuagens de cadeia e participação no PCC. Isso pouca gente explica. Mas não precisa pensar muito pra concluir que se trata dos novos jagunços, que fazem a guarda do sinhô.

26.2.09

Às cinco

Hora malvada,
Hora maldita...
Eu não te vivo.
Eu te vendo.

24.2.09

Adaptações

Eu não entendo essa resistência besta dos escritores em ceder direitos ou aprovar adaptações de suas obras pro cinema. Apesar de não ter gostado de Love in the Time of Cholera, ainda assim quero ver os Cem Anos de Solidão na tela, por que não, Gabriel? Ninguém vai conseguir apagar o brilho de uma obra só porque estragou a versão cinematográfica. É um risco. Mas não mata. Dá vida nova, acende a vontade de reler, de comentar, de comparar. O pior que pode acontecer é alguém ver o filme e ficar com vontade de ler o livro. E quem já leu, tem a chance de ver o que houve de novidade, de inovação, criatividade, que é sempre uma coisa positiva – uma coisa que faltou na versão do livro do Gabriel García Márquez, e sobrou na do Saramago. Mas parece que tudo gira em torno da mesquinharia: não se quer que diretores tenham a chance de fazer um bom trabalho, de criar coisas novas sobre coisas velhas, de receber os louros num universo do qual não são criadores. Talvez por isso apareça toda a confusão antes do lançamento disso:


Ah, dá um tempo, Alan Moore. Do jeito que a coisa vai, essa birra toda fica parecendo ciuminho. Como é que pode afirmar com toda essa certeza que Watchmen não pode ser adaptado pro cinema? Só porque tem coisas que não podem ter vida fora dos quadrinhos? É claro que tem coisas que não saem mesmo dos quadrinhos. Essas ficam de fora, paciência. Em seu lugar, entram coisas que jamais apareceriam no HQ; que só podem existir na tela. Resolvido. Quer dizer, estaria resolvido, se não houvesse esse puritanismo surreal, que quer ver dois Watchmens iguais em suportes diferentes. Sem contar que esse negócio de nem querer assistir o filme mostra uma inflexibilidade típica das ações guiadas pela emoção, o que reforça a tese do ciuminho. A-ham!

Nem viram de verdade, e já foram desancando o filme. Provavelmente os fãs, cegos, indo na onda do criador. Tomara que, quando virem mesmo, todo mundo goste. Pra que a gente não fique dando ouvido a críticas, nem da crítica nem do autor. À primeira vista, pô, parece ser um trabalho legal... e só com isso, eu já ficaria feliz: com um trabalho legal. Imagina agora, sabendo que virá em separado toda aquela parte do universo expandido também?! Yaaaaaaa-hoo-hoo-hoo-hooey!!!

Principalmente pelos Contos do Cargueiro Negro, que, um dia, achei existirem de verdade, fora de Watchmen. Agora, existirão. Navegando noutros mares.

22.2.09

Crime e Castigo

Pode conter spoilers.

Mas, talvez, o melhor de ler os clássicos não seja a novidade. E sim essa sensação de que já os tínhamos lido, de que já estavam dentro de nós, de que era exatamente aquilo diríamos se pudéssemos dizer as palavras certas. Agora, começo a pensar que as aparentes semelhanças de estilo podem ser muito bem diabruras do tradutor – só lendo em russo mesmo pra saber. Mas os links são vários: uma lembrança de García Márquez aqui, uma recordação de Agatha Christie ali (principalmente essa coisa de assassinar a machadadas), um Guy de Maupassant acolá. Sobre este último, um trecho em que personagens discutem a existência de fenômenos sobrenaturais, fantasmas, demônios – poderia muito fazer parte de "O Horla":

– Todos dizem: “o senhor está doente, por consequência o que julga ver é apenas um sonho próprio do delírio”. Isso, porém, não é raciocinar com todo o rigor lógico. Admito que essas visões só aparecem aos doentes, o que prova apenas que é preciso estar doente para observá-las, mas não que elas não existam.

– Com certeza não existem! – replicou vivamente Raskólnikov.

Svidrigáilov fitou-o demoradamente.

– Não existem? É a sua opinião? Mas não se poderá dizer: "As aparições, os espectros, são, por assim dizer, fragmentos, pedaços de outros mundos. Naturalmente, o homem saudável não tem motivo para vê-las, visto que é, sobretudo, um ser terreno, e por consequência deve viver apenas a vida terrestre, em conformidade com a harmonia e a ordem. Mas, desde que adoeça, desde que a ordem normal da terra se altere, ainda que minimamente, em seu organismo, logo se lhe começa a manifestar a possibilidade de um outro mundo; à medida que a doença se agrava, multiplica-se o seu contato com o outro mundo, até que a morte completa lá o faça entrar diretamente”.
(Quarta parte, cap. 1)

Agora, Dostoiévski talvez tenha legado um mau costume irritante, aparentemente copiado por Saramago, que é esse de não nomear os capítulos. E quando a gente quer reler aquela parte, atar as pontas da trama, ressaber de novo quem é aquele personagem, não temos os nomes. E com esse incômodo, que só fui nomear de fato após a metade, resolvi que se coisas anônimas me incomodam o que tenho a fazer é lhes dar nomes, ora. Sendo assim, fica abaixo a minha parte do trabalho. Me mandem o resto, quando possível.

Quarta parte
Cap. 1 - Encontro com Svidrigáilov
Cap. 2 - Adeus casamento
Cap. 3 - Planos de Razumíkhin
Cap. 4 - No quarto de Sônia
Cap. 5 - No comissariado outra vez
Cap. 6 - O surpreendente Nicolai

Quinta parte
Cap. 1 - Lújin encontra Sônia
Cap. 2 - Um banquete fúnebre
Cap. 3 - Crime e castigo
Cap. 4 - A verdade
Cap. 5 - De quanto morre Ekatierina Ivanóvna

Sexta parte
Cap. 1 - Conversa com Razumíkhin
Cap. 2 - Pietrovich e a verdade
Cap. 3 - Encontro com Svidrigáilov
Cap. 4 - O libertino
Cap. 5 - Dúnia, Svidrigáilov e aulas de tiro
Cap. 6 - Svidrigáilov vai à América
Cap. 7 - Raskólnikov se despede outra vez
Cap. 8 - A verdade outra vez


Epílogo
Cap. 1 - Prisão, doença, casamento e morte
Cap. 2 - Mudança

20.2.09

Tableau

Cheguei e abri a porta mecanicamente, como sempre fazia, como toda a família fazia, como toda família faz. E sob a tênue luz que se infiltrava pelas cortinas de um fim de tarde, na penumbra em que jazia a sala, e mesmo com a TV desligada, uma imagem difusa congelou-me os membros e fez caminhar pelas costas um medo cheio de patas nojentas e arrepiantes. Os corpos de mãe e irmão meus achavam-se por sobre o sofá, inertes. Era chocante. Era surreal.

– Por que não estão vendo TV? - gritei, desesperado.
– Porque... uahh... estávamos dormindo... – e bocejou outra vez.
– Ah!

19.2.09

É madrugada...

... e tenho sono, mas não quero dormir. Quero escrever. E talvez escrever não diminua o aperto no peito, nem resolva os problemas do mundo, nem traga alegria, talvez só traga tristeza, certamente só trará isso. Mas sigo ainda escrevendo. Mais uma palavra. Mais uma linha. E fico sofrendo as dores que causo também. Como num grande jogo de espelhos, em que as tintas das minhas ações se refletem no mundo dos meus sentimentos. Não, não era bem isso. Queria dizer que as coisas que eu escrevo podem machucar tanto quanto as coisas que outros me fazem, como faço a outros, com a mesma sensibilidade de rinoceronte. Não, não, não. Em suma, como disse Belchior, sons, palavras são navalhas... Ah! diabo! também não era assim... É melhor ir dormir. Droga.

10.2.09

A câmara em 10 de fevereiro de 2009

O bom e o melhor da política não está mais na arte da organização, direção e administração dos estados e nações, nem tampouco no relacionamento com os outros, a fim de obter os resultados tão melhores quanto possíveis. Já disse uma vez, e digo de novo: política virou circo. Riamos.

E para isso, até que não foi má ideia o povo de Mauá eleger Batoré vereador. Aquele mesmo da praça é nossa. Hoje, declarou em tom solene: 1) que sua cidade teria dado um passo a frente, se tivesse reelegido o prefeito anterior (Leonel Damo - PV) – o que seria muito bom, não fosse estarmos à beira do abismo (veja o inusitado da imagem, leitor); 2) que não aguenta mais a buraqueira das ruas e avenidas: tem buraco tão grande que dá pra cair com as quatro rodas (e de fato não é exagero); 3) que é uma pena não saber onde se está caindo, se é no buraco do Leonel, se é no buraco do Oswaldo [Dias - PT]. Aí já é sacanagem, né, Batoré?

E entre suspeitas de mau uso de recursos do Fundeb, sumiço de livro-caixa, falta de remédios nos hospitais, auditorias nas secretarias por parte da atual gestão, ameaça de abertura de CPI por parte da oposição – neste verdadeiro caos, levanta-se o nobre vereador e ex-prefeito Edgar Grecco para propor lei que multa os donos de animais domésticos que não os vacinarem, encoleirarem, identificarem com placa, recolherem o cocô etc. etc. Nada contra os animais; mas que assunto inoportuno, não? E o discurso foi demorado. Não obstante a longa fala do nobre vereador, o sr. legislador Rogério Santana disse agradecer o colega por seu brilhante discurso. Nosso presidente da câmara é um fanfarrão!

28.1.09

Começou então para Raskólnikov um tempo singular: dir-se-ia que uma densa névoa subitamente tivesse se posto à sua frente, envolvendo-o em uma solidão pesada e inexorável. Ao evocar essa época, muito tempo depois, ele compreendeu que sua consciência estava obscurecida, e que esse estado permaneceu, com breves intervalos, até a catástrofe definitiva. Estava absolutamente convencido de ter se equivocado em muitos pontos, por exemplo, no momento e na duração de certos acontecimentos. Pelo menos, quando mais tarde quis reunir e coordenar as suas reminiscências, foi-lhe necessário recorrer a testemunhos de estranhos, para saber um grande número de particularidades. Confundia os fatos, considerava tal incidente como conseqüência de um outro que não existia senão na sua imaginação.

Crime e castigo. Sexta parte, cap. 1.

Tenho a repentina (e talvez blasfema) impressão de que Dostoiévski andou lendo Gabriel García Márquez. Não me pergunte como nem por quê.

26.1.09

E ela, que parece tão bonita, nem repara onde estou. E eu, que fiquei tão sem lugar, nem sei para onde vou. E as lágrimas, que correm tão docemente, vão salgando minha boca. E meu olhar.

20.1.09

A arte e a literatura dos cadernos de empregos

Eu sinceramente não sei quem é que está mais sem vergonha: esse pessoal do ramo prostitutivo... ou esse pessoal do meio jornalístico, que publica essas coisas (e o Diário, hein?).


Espere, leitor. Talvez v. não tenha penetrado no espírito da coisa. Nós estamos falando especificamente daquele anúncio da Babalú, que, não contente em ser "safada", também é "muito vadia". Este aqui:


Isto é in-crí-vel!!! E depois os professores é que ganham mal...

O mais legal de tudo, neste caderno de "Empregos & oportunidades" do DGABC, é que ele é lido pelos alunos do ensino fundamental da aprazível cidade de São Caetano do Sul! É que, por um convênio entre prefeitura e jornal, todo dia as escolas recebem 20 exemplares, a serem usados pelos professores num projeto denominado "O Jornal na Sala de Aula". Muito bem.

Pergunto eu: o supracitado caderno não é parte integrante do jornal? Creio que sim. Então, que se lasque!, tenho levado pra aula. E, se algum dia, alguma criança de 12 anos perguntar, Professor, o que é um "anal giratório"? Eu, com a cara mais inocente que tiver para o momento, responderei: "Não faço ideia, filho." E mudarei de assunto. Porque toda vez que tento imaginar o que seja essa coisa, sinto, além da vontade de rir, um misto de medo e dor.
Depois de ver À procura da felicidade, pensei em escrever sobre ela. E ia fazê-lo. Mas, pensando bem, o melhor é ler Sartre. Além de muitas coisas, evita-se o trabalho de pensar.

17.1.09

E não é que falar com a bola, o wilson do tom hanks, ou falar consigo mesmo, embora pareça loucura, é apenas um ato de desenlouquecimento?! E pensar que a infância me fez acreditar em tantas coisas, entre as quais: que era louco; que era especial; que o demônio vivia sob a minha cama.

14.1.09

Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma. (...) Se vossos feitos foram romanos, consolai-vos com Catão, que não teve estátua no Capitólio. Vinham os estrangeiros a Roma, viam as estátuas daqueles varões famosos, e perguntavam pela de Catão. Esta pergunta era a maior estátua de todas. Aos outros, pôs-lhe estátua o Senado; a Catão, o mundo.

Pe. Vieira. Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma (Capela Real, ano de 1669).


Eu adoro este padre.