18.2.07

Cá por mim, acho que o Big Brother Brasil na TV Senado é muito mais legal: conflitos, imoralidades, picuinhas, armações, trapaças, farpas trocadas e muito mais milhões envolvidos.

14.2.07

“Neste país de funcionários públicos, apenas dois tipos realmente trabalham: os professores e os policiais.” É o que diz – diz e repete – um certo amigo meu, provocador. E eu, que em criança sempre temi a ambos, hoje entendo melhor os primeiros, e procuro não criticar muuuuito os últimos. Pode até ser corporativismo, desconfio. Mas o fato é que esta semana, que pode parecer a ti, leitor, vulgar, vagabunda e sem graça, com os mesmos sete dias das outras, esta semana me deu, pela primeira vez, uma sala, uma aula e 30 pré-adolescentes, de 10m2 aquela, de 50 minutos esta, de 12 anos estes, de ambos os sexos e muuuuuitos hormônios. E eu adentrei aquela sala: embaixo do braço a Gramática do Bechara, a confiança e minhas mais modernas concepções pedagógicas. E deu tudo errado. Ao fim de seis aulas, andei desnorteado pelas ruas de um meio-dia quente. Passados 100 minutos, cheguei esbaforido ao meu quarto. E durante um mau tempo que o sono levou pra me levar, pensei seriamente em toda minha carreira acadêmica até aqui. E, dormindo, sonhei com bolinhas de papel, tiros, viaturas, carteiras arrastadas, correria, desordem, adrenalina, verbos no imperativo, verbos no imperativo, verbos no imperativo...

12.2.07

Hoje, chove. Tédio.

E ontem praticamente não tive o que fazer. Restou-me o consolo de olhar da minha janela o sol pintando, aqui e ali, um verde, um marrom, um cinza de pardais, um multi-colorido de varais. É que as vizinhas penduram roupa todo dia por ali. E na última vez que fui olhar minha janela, talvez procurando alguma delas semi-nua, havia ainda um restinho de claridade no céu, ainda se enxergava um pouco, mas, abaixo da copa das árvores mais altas, um tom escuro uniformizava tudo. Porque até um menino, sozinho, pequeninho, recolhia as últimas roupas, agora secas. Achei bonito. Mal alcançava o varal, tadinho, e precisava apoiar-se na ponta dos pés para pegá-las. As das extremidades, mais altas, fazia-as deslizar lentamente até a metade do fio, de onde as tirava, um trabalhão. Há quem diga que a inocência é o mais belo nas crianças; cá por mim, acho que é mais que isso: é uma paciência preguiçosamente desinteressada que o adulto vai perdendo. Fiquei olhando, assim, com uma vontade imensa de ajudar e uma preguiça enorme de sair. O empate imobilizou-me. E quem me visse acharia que eu estava contemplando o crepúsculo, imagine... coisa mais sem graça.

11.2.07



escrever... sempre alimenta uma paixão.
mesmo pelo estilo triste.
mesmo com desilusão.
mesmo pelo que inexiste,
uma esperança aí resiste.


mesmo no papel de pão.




6.2.07

O aquecimento global, o nacionalismo, a pobreza e o futuro

De acordo com o tal novo relatório da ONU sobre o clima, recentemente divulgado, a chapa vai esquentar pro nosso lado. Tanto, que tem até gente falando numa elevação climática global de 5ºC em 2100. Países e corporações economicamente relevantes têm outras precupações e, no fundo, no fundo, todo mundo quer mesmo é que se foda o séc. XXII. Até lá as geleiras vão derretendo, o nível dos mares vai subindo, secas aqui, ciclones acolá, inundações ali, e por cá, yesss!, em terras tupiniquins, juntamente com os desmatamentos já foram observados os processos de desertificação que cobrem um terço da Terra. Ou descobrem, melhor dizendo.

A idéia de que por aqui não temos catástrofes naturais, apenas-corrupção-inda-bem, vai começar a esfriar à medida que o XXI for se passando. A ONU diz-que em 2050 a falta d’água talvez já atinja 3 bilhões de pessoas. E não obstante “nosso” imenso manancial hídrico, vou ingenuamente desconfiando que algumas serão brasileiras. A seca já é um problema bem conhecido nosso, se não para o lado rico do país, certamente para a região mais pobre e populosa, o Nordeste. E, no final, quem vai pagar a conta inevitável, a gente já sabe, são os mais pobres. Ou seja, não é todo mundo que vai entrar numa fria, com o aquecimento global.

Os mais fortes terão reservado seu lugar ao sol, protetor de pele e água mineral gelada. Se tiver, como diz Gilberto Kassab, algum vagabundo na praia, é só chamar a polícia e liberar a areia. Se aparecer muito pobre enchendo o saco, basta comprar, cercar tudo e fazer um condomínio fechado. É assim que faz Antônio Ermírio de Moraes, que, patriótico, ainda afirma ser um exagero dizer que nosso país é um dos que mais devastam a natureza (“O mundo e o meio ambiente”, Folha, 04/02/07). Pode até ter razão nisso, resta saber se o país é mesmo “nosso”. E mesmo que tenha razão, num momento em que países deveriam se unir para enfrentar a degradação ambiental, sua atitude reflete hoje em dia o que mais se vê mundo afora: o nacionalismo ou a defesa de interesses particulares.

É mais ou menos por aí, como Moraes, que os EUA raciocinam quando não dão bola alguma ao Protocolo de Kyoto: “Que temos a perder? Somos a mais desenvolvida nação do planeta, os aliados estão agora espalhados por todo o mundo, temos um invejável arsenal bélico... Ora, controlem vocês suas emissões de CO2!” E, no fim das contas, se faltar alguma coisa aos ianques, água ou petróleo, já têm um bom motivo para pelo menos uma guerrinha de conquista da Amazônia: Hugo Chávez. E a Venezuela que se cuide.

Quem bloqueia o caminho das grandes corporações capitalistas – e elas não são só americanas – tem grande chance de ser eliminado. A maior preocupação destas organizações não é o bem-estar das pessoas, não é a construção do bem comum e nem tampouco a preservação dos mais diversos ecossistemas do planeta. Seu caminho não é feito por príncipios, os seus passos se baseiam na trapaça, a artimanha é condição para vitória e o lucro é quase individual. É com este espírito que o grupo petrolífero ExxonMobil ofereceu dinheiro a cientistas para que escrevessem artigos colocando em dúvida as conclusões do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change)1. Isso não serve apenas para mostrar até onde vai a irresponsabilidade dos executivos; alerta também que se os relatórios da ONU não servirem para mudar a retórica beligerante das grandes corporações2 e, principalmente, dos EUA, o maior poluidor, não vão servir pra nada, nem pra ninguém. E o planeta que se cuide.

E eu não sei quanto a vocês, mas acho que esta é mais uma boa razão para não ter filhos. O que vimos até agora aponta que esse mundão vai ficar um lugarzinho bem ruinzinho pra viver no futuro. E, como disse Brás Cubas, se os tivermos, aos filhos, será apenas para transmitir “o legado da nossa miséria”. E o disse muito bem, porque esta, sim, é “nossa”.

Notas:

1. O fato, matéria do jornal britânico Guardian em 02/02, convenientemente abordado no mesmo dia pelo reverso, causou a reação de cientistas: “Climate scientists described the move yesterday as an attempt to cast doubt over the ‘overwhelming scientific evidence’ on global warming. ‘It's a desperate attempt by an organisation who wants to distort science for their own political aims,’ said David Viner of the Climatic Research Unit at the University of East Anglia.”

2. Não é de hoje que a Exxon tenta sabotar o trabalho do IPCC. Veja-se a reportagem da Folha de 02/09/02.

4.2.07

Dos jornais

“Entre os partidos, o PSDB saiu arranhado das disputas. No Senado, suspeita-se de que os tucanos foram responsáveis pela votação minguada em José Agripino (PFL-RN), que teve menos votos (28) do que o número de tucanos e pefelistas (30). Na Câmara, o PSDB ficou com fama de ter dado a Chinaglia os votos que precisava para vencer no segundo turno. Em suma, os tucanos são de oposição, ajudaram o governo e saíram rachados.

(...)

O PFL, a outra sigla de oposição, também saiu esfacelada. Foi humilhada no Senado. Na Câmara, apoiou um comunista. Nada deu certo. Como se não bastasse, os pefelistas se digladiam para escolher os novos líderes do partido.”

Fernando Rodrigues, “PT paulista triunfa; PSDB sai arranhado”, Folha, 02/02/07.

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“O maior foco de atenções no Senado ontem foi Fernando Collor de Mello (PRTB-AL), que tomou posse 14 anos após ser afastado da Presidência da República por um processo de impeachment.”

FERNANDA KRAKOVICS e FELIPE SELIGMAN, “Gafe de presidente reeleito e retorno de Collor marcam a posse no Senado”, Folha, 02/02/07.

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"O que é isso?
O que são essas siglas?"

CLODOVIL HERNANDES
deputado (PTC-SP), ao ser perguntado se votaria para aprovar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)

Folha, 02/02/07

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"Espero que a imprensa continue investigativa, livre, com compromisso com a ética."
PAULO MALUF
deputado (PP-SP)

Folha, 02/02/07

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Convenhamos. A política brasileira é um dos espetáculos mais gozados da face da terra. Onde teríamos tantas boas piadas juntas, e num só dia?

3.2.07

De como a direita não se torna esquerda na velhice

Vez ou outra encontra-se alguém que, cuspindo desprezo, costuma dizer: “Felizmente, os esquerdistas viram direitistas quando velhos.” É bem verdade que isso acontece e disso há exemplos vários, embora não seja a regra. Porque houve e há também muitos velhinhos de esquerda, como, lembrei agora dele, Apolônio de Carvalho. O curioso é que não haverá jamais o inverso: direitistas que se tornem esquerdistas com o tempo. Com todas as críticas, com todos os erros, com tudo o que a História imputar como fracasso à atuação da esquerda, há de se admitir pelo menos que segui-la é dizer o tempo todo “não” ao establishment, o que não é pouco. Dizer “não” é das coisas mais difíceis do mundo, em muitas culturas.

Uma vez o moçambicano Mia Couto dizia dessa inadaptação do ser humano em negar. É quase uma falta de educação. E, lá em África, em sua vida de biólogo, chegando a um determinado ponto marítimo que precisava atravessar, perguntou a um morador algo assim: “A maré está a descer?” Responderam: “Sim, está a descer.” Porém completaram: “Mas já começou a subir há meia hora atrás”. Em suma, se der pra concordar, pra que discordar?

Negar a ordem política, econômica, legal e ideológica continuamente deve a longo prazo produzir sérias conseqüências. Uma delas talvez venha por volta dos 40 anos, acabada a juventude, quando se perguntará: “Que sentido há nisso tudo?” E este é o ponto onde vão se separar os apolônios dos luís-inácios. Uns acham respostas; outros não. E depois de uma tal crise de identidade, perdoam-se eventuais incoerências. É óbvio que a vida de alguém que palmilhou sempre a macia estrada da direita jamais terá perturbações desse tipo. Nem crises. Nem vontades de dizer “não”. E eis por que direitistas não se tornam esquerdistas quando velhos.

2.2.07

– Alô?

– Boa tarde, senhor, com quem estou falando?

– Aqui é o Raimundo, com quem quer falar?

– Ah, é com o senhor mesmo, o titular da linha, estamos oferecendo o serviço detecta, sendo o aparelho totalmente gratuito, que o senhor vai estar recebendo em casa!

– Hum...

– Com ele o senhor vai poder estar identificando chamadas feitas e recebidas, e estará evitando trotes, além de poder estar retornando ligações etc. etc. blá-blá-blá...

– Tá bom, eu quero.

– Por favor, queira estar aguardando um momento, enquanto estamos confirmando seus dados...

....................................................................................

– Amor, a Telesp ligou aí, e eu aceitei aquele negócio do detecta, lá...

– O quê?? Raimundo Lima de Albuquerque, não tínhamos já conversado sobre isso? não tínhamos já decidido que não era preciso? não foi? hein, hein?

– Bem, sim, mas... me pareceu tão barato... apenas 10 reais de mensalidade, 23 de habilitação, e o aparelho de graça...

- Idiota! Idiota! Idiota! Eu me casei com um idiota! V. não percebe que o valor do aparelho já está embutido nesse absurdo de habilitação? Eu não acredito, eu não acredito... sou uma desgraçada...

– A gente pode cancelar depois...

– Ah, é? Depois? Depois de gastar 30 reais inutilmente? V. não está desempregado? Não sou eu que pago as contas? Sou ou não sou? E v. sai comprando coisas que eu vou ter de pagar, sim, porque v. não tem dó de mim, v. não pensa nas contas dessa casa...

....................................................................................

– Alô, eu quero cancelar um serviço.

– Senhor, qual serviço vamos estar cancelando hoje?

– Um identificador de chamadas...

– Aaaaah, vamos estar cancelando, aqui está, mas o senhor acabou de o solicitar, há pouco mais de 30 minutos...

– Eu quero cancelar.

– Mas, o senhor vai poder estar recebendo inteiramente gratuito o aparelho, com o qual vai poder estar evitando trooootes...

– ...eu sei, eu sei, quero cancelar!

– Mas fique sabendo o senhor que, mesmo cancelando, vai poder ter de estar pagando a adesão ao serviço, de 23 reais.

– Ok, cancele!

– Tudo bem, tudo bem, senhor, estamos cancelando.

– (...)

– Talvez fosse melhor o senhor estar reconsiderando, estar usando um primeiro mês e só aí então estar fazendo o tal cancelamento, nãããããão?

– Cancele agora, porra!

– Senhor, a nossa ligação está sendo gravada e...

– ...foda-se, caralho, cancela essa porra!

– Tudo bem, senhor, estamos cancelando.

– (...)

– Senhor, estamos concluindo o cancelamento, porém, o envio do aparelho não vai poder estar sendo cancelado. O senhor vai ter de estar devolvendo-o aqui, na sede da Telesp, R Sete de Abril... Não é melhor o senhor ir pensando em reconsideraaaaaar?

– Não, cancele. Eu mando pelo correio.

– Mas, pensando nas vantagens que o senhor estará tendo, contratando ao menos temporariamente este serviço que...

– Eu não quero essa porra, cancele....

– Senhor, estou vendo aqui nos protocolos e não sê-lo-á possível ao senhor estar enviando o aparelho pelo correio, pelo que o senhor estará tendo de vir pessoalmente...

– Mas por quê? é pra vocês ver a minha cara de trouxa?

– (hahahaha! ai, ai...) Sem comentários, senhor.

– Tudo bem, porra, eu vou pessoalmente, mas cancele logo isso!

– O senhor pode estar anotando o número do protocolo, senhor?

– Pegar a caneta...

– (...)

– Pode falar.

– um-sete-um...

– ...ããh.

– um-sete-um...

– ?

– um-sete-um...

– !

30.1.07

Lembrança

Batia o frio soprando gelado na branca janela
Quando ela chegou,
e tomamos café com bolachas.

Falou-me do tempo frio de antes
Dos chãos que pisaram seus pés infantis
Do clima que muda sempre constante
Do quente que morre nas coisas que ficam...

Lembrou cousas há muito esquecidas
Teve saudades do que nunca foi
E confundiram-se-lhe os livros e a vida...

Já te vais, perguntei
Já me vou, adeus...

E não lembramos mais.

27.1.07

Lapa

João do Rio, Rosinha, Villa Lobos, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Madame Satã, Portinari, Di Cavalcanti

Rio. Não a cidade das ensolaradas praias copacanas, das toscas novelas da classe medíocre. Mais... Os dias de Glória. A Fundição Progresso. A antiga rua de Mata-cavalos. O aqueduto. As rodas boêmias. Numa parede pintados Manuel Bandeira, Noel Rosa, João do Rio, Di Cavalcanti, Portinari, Madame Satã... Resta saber como os reuniram, se o segundo tinha só onze anos quando morreu o terceiro, mas, ora, está-se a ver que é liberdade artística, e basta pensar que as ruas são alternativas... e as noites, da Lapa. Aos pés dos arcos entrecruzam-se histórias, tempos, cores, classes, línguas, músicas... As rodas de samba na rua. Aqui, a igreja cuja torre levou um estrondo de canhão, à esquerda uma parede exibe, talvez, uma releitura de Debret, ali uma rua-território de muitas tribos, vamos indo nela, lá estão mendigos, e as meninas mais belas, lá estão as rodas de samba, já se sente cheiro de maconha, adiante queda-se, imóvel, a polícia, sofrendo o calor em seus uniformes, aclimatada à carioca vida, hipnotizada por um vai-e-vem, de malandros, de meninas, de crianças pobres, de turistas vários nas estreitas ruas, acolá se vê a Joaquim Silva, vamos indo pela Manoel Carneiro, vê-se bem destes degraus azulejados, aquele casal alemão adentra o Restaurante Ximenes, observam, não entendem a língua do menu, pedem quatro cervejas (pensando em longnecks), ok, lá vem o garçom intrépido, abridor à mão, quatro garrafas de 550ml, ploc, ploc, ploc, ploc... entreolham-se admirados com a fartura tupiniquim os filhos de Oropa (sobre lâmpada antiqüíssima há ainda uma goteira, cai agora uma água de torneira surreal, presa ao teto, as gotas faíscam no ar), por aquele beco vê-se ainda ao longe a beleza das construções, das janelas em paredes de trompe l’oeil, finda 17 de novembro de 2006, não esperaremos muito, não tarda a hora de ir ao Circo Voador. Rio. Rio. Rio...

25.1.07

Ritual

À meia-noite duma noite quente, lia numa antiga Seleções o registro de uma tradição oral pré-colombiana que havia sido recolhida por Mário de Andrade, na Amazônia peruana. A matéria trazia fotos de pés pintados que, afirmava-se, eram de Macunaíma. Fui lendo interessado, pois não sabia que eles tinham passado por outros países sul-americanos, e quando notei fui alucinogenamente inserto no ritual descrito pela lenda. Invocava a deusa Inanna e dançava pedindo fartura na colheita:

Eh, terra de Inanna

Eh, eh, terra onde corre leite e mel

Eh, eh, eh, adoçai minha boca, minha terra

Fiquei meio desconfiado. Mas fui seguindo fielmente as instruções, dizia-se que era preciso repetir a dança três vezes, cantando, sob uma palmeira-anã. Fui dizendo aquele mantra, e o curioso é que comecei a acreditar naquilo de repente e de repente: choveu torrencialmente sobre minha cabeça, do alto da copa da palmeira, leite, mel e abelhas. As abelhas eram mansas e não picavam. Fiquei assim, entre incrédulo e melado, e fui repetindo novamente o ritual, porque ainda não havia chegado à terceira vez e tive medo de desagradar aos deuses e abelhas, e vacas eventuais:

Eh, terra de Inanna

Eh, eh, terra onde corre leite e mel

Eh, eh, eh, adoçai minha boca, minha terra

E antes mesmo que pudesse chegar ao último verso, fui violentamente trazido para o meu quarto e tudo que vi foi a escuridão da noite. Ri aquele riso safado, zombando da credulidade dos nativos e camponeses amazonenses que preservaram oralmente esse ritual. E ainda ri do Mário, que foi escrever. Ham! E, quando ia caminhando à cozinha, pouco antes da porta, fui tragado pelo solo, agarrei-me desesperadamente ao criado-mudo e assim fiquei, enterrado ao chão até o peito, e só a muito custo pude soerguer-me. Fui acender a luz. Escuro. Fui pra sala. Escuro. Nenhuma lâmpada funcionava. Tive calafrios e comecei a pressentir a ocorrência sobrenatural do incompreensível. Resolvi sair do apartamento. Abri a porta e, assombrado, tive a visão translúcida de uma realidade nova: a parede, ao lado esquerdo dos umbrais, exactamente onde o sulco da fechadura encerrava minha segurança, abria-se e ia, formando duas retas semi-paralelas que se afastavam gradualmente e deixavam-me entrever, entre elas, um abismo, um espaço inexplorado nas minhas cotidianas passagens e, dentro, lá estava a mesma escuridão do quarto. Fui falar com o síndico: expus minhas desconfianças e ele disse que faria uma reunião em caráter de urgência. Achei esquisito. Era já madrugada: duas horas. Vieram mulheres evangélicas. Vieram céticos. Vieram espíritas. Vieram materialistas. Veio a desgraçada da dona Hermínia, do 98. Conversamos. E ficamos toda aquela madrugada tomando café e descascando feijão, contando histórias, rindo, naquela sala ampla do térreo, onde ocorriam as reuniões. O feijão havia sido doado ao condomínio, mas não estava descascado, não sei por que, desconfio de negócios mais escusos que esse nesta gestão. “Cavalo dado não se olha os dentes”, foi a desculpa. Então, fizemos uma roda em volta dum lençol sobre o qual pusemos as vagens, e cada um puxava um pouco para si, junto à borda. Era fácil descascar feijão com os vizinhos, contar histórias e tomar café, e por um minuto a desconfiança riu sarcástica para minha alma, até que um reincidente calafrio caminhou lentamente nalgumas frações de segundo por minha espinha, e senti carnalmente que já havia vivido, falado, recordado, sentido e comemorado tudo aquilo antes. Déjà-vu. E só-deus-sabe como tardou o amanhecer.

24.1.07

Khaled Hosseini e O caçador de pipas

“Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975.”

A verdade é que torci o nariz quando ouvi falar dele. Imaginei que era qualquer best sellerzinho como O Código Da Vinci etc., o qual nem li nem tenho vontade. Sei lá por quê. Ou sei. É besteira, mas é sempre o pensamento de que tudo o que é sucesso de vendas não presta, o que, sendo ou não verdadeiro, não deixa de ser uma visão pretensamente elitista. Em todo caso, continuo olhando torto o Dan Brown.

Já não é mais o caso de Khaled. Tanto torci o nariz, que, talvez pra sacanear, me deram de natal, com dedicatória e tudo, e “caraleo! agora vou ter que ler”, e fui começando, embirrado. Mas devorei em uma semana as 360 páginas: a história é boa. Agora vem uma apropriação de idéias: Outro dia, na Folha, Contardo Calligaris escreveu que “a leitura nos faz conhecer particularidades do Afeganistão, mas o que torna o romance irresistível é a história singular de Amir, o protagonista.” Sim, a história de Amir contribui para o romance, e isso é também pelo interesse que geram as biografias profundamente afetadas pelo curso da História, sempre cheia de guerras. Aliás, o romance, que tem como cenários Afeganistão, Paquistão e EUA, lugares que Khaled conhece bem, é, em certo sentido, autobiográfico. Mas é bom dizer que a leitura nos faz conhecer muuuuuuintas particularidades do Afeganistão, e isso não pode ser relegado a segundo plano.

Uma delas é exatamente o idioma, ou os idiomas. Do árabe, pashtu, farsi, urdu, tadjique, sei lá, uma série de palavras vão aparecendo ao longo do livro, sem nota de rodapé, sem tradução, nem nada: noor, baba, naan, laaf, namaz... O leitor é que tem de intuir o significado, e a maioria dá pra fazer tranqüilamente pelo contexto. As outras, mais difíceis, o autor ajuda traduzindo logo à frente. E algumas, que ele esqueceu, a gente fica sem saber, que também já é querer saber demais. O engraçado é que a tradicional saudação muçulmana salaam alaykum, ‘a paz esteja contigo’, repete-se regularmente, e cada vez que eu a lia era como se já a conhecesse, soava muito familiar. Fui olhar no dicionário, claro. E o bom e novo Houaiss registra o aportuguesamento salamaleque, que, gozado, também significa ‘cumprimento exagerado, polidez afetada’. Mas continuei na mesma. Até que de repente, zás, num nostálgico recuo temporal me vi a mim de novo, infantil, vendo tv, ouvindo uma mulher que usava véu, contava histórias e ia embora num tapete voador, logo após dizer salaam alaykum. A mulher devia ser Sherazade e o programa, Rá Tim Bum. Lembrando isso, amaldiçoei o tempo que passa, idealizei a infância, condenei a programação infantil atual etc.

E é isso. O romance, do ponto de vista formal, parece que não traz mais nenhuma novidade. Estilo simples, narrativa predominantemente linear, continuidade, contextualização, idéias claras, nada dessas viageiras da pós-modernidade a que estamos nos acostumando. A desconstrução dos valores estéticos tradicionais deve ter um limite. E isso deve ser o que pensa Khaled: com a primeira frase do livro, que é aquela epígrafe, ele anuncia os dois pontos de tensão da história: os bons tempos, no passado; e as lembranças, no presente. E, com muito cuidado, faz Amir caminhar nesta ponte temporal, mas tem tanto cuidado, que a linearidade é o que vai predominar, apesar das idas e vindas. O fato é que a simplicidade do seu estilo, que muitas vezes traça retratos bem crus, é uma coisa muito boa: reserva sempre o espaço pruma piadinha prosaica e o momento bom para a expressão poética, dois extremos que agradam todo tipo de leitor. E tudo acaba ficando no seu lugar, com cara de casa simples da roça, chapéu na parede, panela no fogo, fumaça na chaminé. Em suma, é um livro sem salamaleques.

23.1.07

a vida... a vida anda em transportes coletivos

A minha vida é bem normalzinha, um porre. Mas de vez em quando acontecem umas coisas bizarras, que até vale a pena vivê-la.

Dias atrás estava num assento de corredor, pouco depois da metade, já próximo à porta traseira. E entrou uma família, mãe, duas filhas, o pai vinha atrás. Sentaram-se num dos primeiros bancos a mãe e uma das meninas: a outra olhava-me insistentemente. Quatro anos? olhos negros, pequenos dentes, branquinhos, cabelo ao ombro. E, do nada, começou a chorar e, chorando, caminhou pelo corredor e, caminhando, falava comigo. Trazia aquele brilho nos olhos que não é feito apenas de lágrimas. Era um sofrimento, uma dor, uma saudade, sei lá, eu senti, e senti aquela mão que me tocou o braço e aquele rosto triste e aquela voz clara e infantil, pai, pai, pai. A mãe ficou envergonhada. Eu fiquei paralisado (nem quis ver a cara da mãe!). O pai ficou sem graça. Éramos parecidos. A cor morena. O cabelo curto. A mesma camisa vermelha. Pegou a criança e sentaram-se a minha frente. Ela, chorava. Percurso infeliz. Durante toda a viagem, a curtos intervalos, a pequena voltava-se, confusa, mostrando-me o rosto ainda molhado, ainda soluços, um olhar tão triste, era como se dissesse, porque não me abraça, não fala comigo, não diz, filha, minha filha. O pai estava tão incomodado, que, lá pelas tantas, inda teve a indelicadeza de perguntar à mãe: “Você teve algum caso?” Desci aterrado.

E ainda me pergunto: será?

“Há ordens a que obedecemos com prazer”

– ?

– Vai ou não?

– Mas eu tento-que-tento e num consigo entender esse negócio de pronome relativo, prô?

– Se você estudasse mais...

– Ai, prô, mas eu tento, eu tento, Deus tá vendo...

– Olha, é mais ou menos o seguinte: a palavra “ordens” já tem um compromisso: é complemento, objeto direto de “haver”, na primeira oração. É como um casamento deles. Mas aí, acontece o seguinte: essa palavra é muito danadinha, muito cheiinha de fogo, quer-porque-quer pular a cerca, ir pra outra oração, completar o sentido de “obedecer”, e isso é praticamente uma traição. Diriam os religiosos Estevam e Sônia Hernandes: “isso é um sacrilégio!”. Mas dá-se um jeito, ela vai, num tem conversa não, quando mulher quer dar, num tem marido que segure. E como você sabe, o verbo “obedecer” é transitivo indireto , e está lá na segunda oração, bonito, solteiro, com a sua “preposiçãozinha” preparada, doidinho pra pegar o complemento verbal do vizinho, chifrando-o, por assim dizer. Mas há um problema: o vizinho, “haver”, não pode descobrir nada. Então, “ordens” vai, se disfarça de “que”, se traveste, se entrega como complemento ao verbo “obedecer”, vira “objeto indireto” dele, usando o laranja do pronome relativo, e ninguém nem num percebe nada. Só a gente, que é gramático, tá vendo essa senvergonhice toda, claro. O resto das pessoas comuns (médicos, engenheiros, donas-de-casa) nem vê nada. Apenas falam a língua, usando essas estruturas pecaminosas do pronome relativo. E sabemos todos, inconscientemente, que a palavra “ordens” tanto completa o sentido de “há” como o sentido de “obedecemos”, mas nem se imagina os estratagemas de que ela usa pra estar nos dois lugares ao mesmo tempo e consumar sua traição, conspurcando os nossos valores cristãos. Isso é um absurdo!

– Aaaaaaahhh! Com sacanagem eu entendi.
Fazer o quê. Caí neste mundo.

Mas é por pouco tempo. É só até juntar um dinheiro, comprar uma casa, publicar um livro, ir ao Programa do Jô escandalizá-los a todos com a minha vida, e aí, sim, largo-a. No auge.