24.6.12

Arte



Sem título
André Pereira de Oliveira
Aerografia, tinta acrílica
Fafil - Centro Universitário Fundação Santo André (junho/2012)

13.6.12

O bonito e o bom


... e isso, senhoras e senhores, é o que eu tinha a dizer sobre África nesta noite.
– Bem, agora a mesa está aberta a perguntas.
– Eu... eu queria saber o seguinte: e a escravidão? Cê num falou disso.
– Ah, não, mas isso já se falou demais. Agora o que a gente tem de falar da África é o que ela tem de BO-NI-TO: os reis, as civilizações, a cultura, a arte... É tanta coisa, é um universo tão grande, que a gente não precisa ficar repetindo esse passado. O quê que a África tem de bom? Essa é a pergunta.

8.6.12

O preconceito e o autêntico sinal da nossa época

"(...) Esta assim chamada razão dá maior valor, em contraste com a verdadeira, ao sentimento ou pressentimento interior, e desta maneira o subjetivo torna-se a medida do valor, isto é, uma opinião individual como cada qual é capaz de formar. Tal convicção individual não é, portanto, mais do que a opinião, a qual assim se converte na mais alta finalidade para os homens.

(...) Indiscutivelmente, a convicção individual é o fato último e absolutamente essencial que a razão e a sua filosofia, do ponto de vista subjetivo, reclamam para o conhecimento. Existe, porém, diferença entre a convicção baseada em estados subjetivos - isto é, sentimentos, aspirações, intuições, etc. - e a convicção que brota do pensamento e da compreensão do conceito e da natureza do objeto. No primeiro caso, a convicção não passa de mera opinião.

Esta oposição entre opinião e verdade, que se delineou claramente, encontramo-la já na cultura do período socrático-platônico (período de decadência da vida grega), como o antagonismo revelado por Platão entre opinião (dóxa) e ciência (epistéme). Idêntica oposição topamos ao tempo da decadência da vida pública e política romana, no reinado de Augusto e mais tarde quando campeavam triunfantes o epicurismo e a indiferença em matéria filosófica. Neste sentido, quando Cristo disse: Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade, Pilatos responde: Que é a verdade? A resposta é dada com ares de superioridade e significa: sabemos bem o que é essa verdade: uma coisa que conhecemos; mas fomos ainda além: sabemos que se não pode falar de conhecimento da verdade; é ilusão que já vencemos. Quem assim fala passou, de fato, para além da verdade.

(...) Para o homem franco a verdade permanecerá sempre uma palavra de suma importância. No que respeita, portanto, ao asserto de que a verdade não se pode conhecer, (...) se se aceita este pressuposto (...), não se pode compreender por que motivo o homem se ocupa ainda de filosofia (...)."

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. "Introdução à história da filosofia". Abril cultural, p.336-7 (Os pensadores).

A quem trate Hegel como cachorro morto, fica a advertência: ele está cada vez mais vivo.

6.6.12

Índice de valor de uso do livro


... e, por todas estas razões, senhoras e senhores alunos, recomendamos enfaticamente que leiam o livro, com calma e sem pressa, até porque estamos ainda no início de junho, e vocês poderão ler nas férias.
– É um piadista.
– Nas férias eu viajo...
– É obrigado a ler esse livro?
– Por quê que a gente tem que comprar? Tá errado isso daí.
– Pra quê que eu tenho que ler isso?
– Pode sair pro intervalo, sor?

A alienação do signo

Quando a gente é pequeno e lê no ônibus: "FALAR COM O MOTORISTA SÓ O INDISPENSÁVEL", pode pensar que "indispensável" é o nome do cobrador, e que este é o único autorizado a "falar". Ou quando ouve cantar: "O cravo brigou com a rosa / debaixo de uma latada", eu por exemplo pensava: "coitados, além de brigando, alguém ainda vai lá e dá uma latada neles?!" E não era nada disso, mais tarde descobri o significado. Mas, agora, com a gente grande... Querem nos fazer esquecer tudo o que aprendemos? E foi pensando nisso que me vi a mim, tão realista e sério - a devanear entre prateleiras de supermercado, perdido em déjà vu, segurando um alimento da marca carrefour que por alguma razão se chama "pão caseiro". Deve ser a tal arbitrariedade do signo linguístico.

Daí cheguei a uma pergunta terrível: haverá um mercado de palavras?

25.4.12

Propriedades

a Décio Sá (in memoriam)

Eu não tenho casa:
aluguel é 30 dias.
A liberdade é pouca:
acaba onde começa a sua.
A propriedade de meu carro é duvidosa:
a obsolescência programada lhe corrói.
Também não tenho amigos:
ritmos de trabalho, de trânsito, de tráfego
- de informações, mercadorias e serviços -
a intensidade da vida moderna os rouba de mim.
Cada poro do tempo se ocupa e me atravessa.
Meu corpo anda à espera de um tiro.

Eu só tenho a palavra.

18.4.12

Uma tarde

06 de março. 18h. Uma tarde lendo e-mails, respondendo palavras. Sem cigarros. Meu deus, que faço da vida. Essa vontade de fumar. E ler... Viciado? Não, não posso sair agora, é preciso pelo menos concluir uma leitura. Nada que se compare a um leitor de orellhas, mas vou me tornando esse desgraçado leitor de primeiros capítulos. Que, no fim, só escreve relatórios... Crise de abstinência... Ou a bunda amassada? De mais a mais, a cabeça cheia do vazio dos cálculos. A boca sêca, o pulmão pede fumaça, um carpe diem rebrilhante como nome de puteiro luz na mente. É tempo de embriagar-se? 30 anos jogados no lixo. Nem um título, nem um livro, nada. Nenhuma resposta ao que a humanidade deu, ou vendeu. Mesmo a mim, que será do título, do livro, sem mercado de trabalho, feiras, viagens... Não será a ausência de resposta o equivalente da nossa miséria? Não. A pobreza, a virtude, o vício deve ser só meu, como tudo. Ah, se eu soubesse o que fazer...

14.2.12

Sobre a capetização do marxismo

Sobre isto, pediram-me uma opinião. Embora gratíssimo pela inclusão, não tenho lucidez para discutir isso. O ceticismo tem rondado até o modo como desço as escadas, cumprimento as pessoas ou escovo os dentes. Desconfio de todos os caminhos e propostas, e não tenho nada melhor a propor. A estratificação da classe trabalhadora em infindas gradações e matizes complicou a coisa. Isto deve ter causado a existência de uma infinidade de seitas políticas. O indivíduo é cada vez mais só, livre, autônomo e desligado da classe. O pensamento, acompanhando o movimento geral, parece ter se fragmentado também nas melhores cabeças, e um olhar unificado tornou-se impossível. "Pensar consigo mesmo, se não é inteiramente impossível, exige pelo menos bastante coragem. E os telemóveis, permanentemente ligados, mesmo nas reuniões de amigos, impedem qualquer conversa continuada. Até durante o acto de defecar, tradicionalmente propício à meditação, em que todas as pessoas reproduziam a atitude, e sem dúvida o espírito, do celebérrimo Pensador de Rodin, o livre curso das ideias passou a ser obstruído pela intromissão do telemóvel."* A desordem das ideias determina e é determinada pela "maldita práxis". O estudo ocupa um espaço relativamente infinitesimal em nossas vidas, premidas pela busca da mercadoria essencial, que contém em si todas as outras. Os nossos cacos, que somos, e os cacos de pensamento que temos - eu não digo que signifiquem o fim da espécie, mas bem podem vir a ser o nosso fim, o fim de uma época ou o fim dos ideais elevados que viemos alevantando. Para o momento convém o estoicismo - mas isto é francamente ruim, e vocês logo perceberiam a fraude. Serve tão somente como um plástico entre os ovos.

*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.

5.1.12

Conversa com os mortos

 “Chegando a noite, de volta à casa, entro no meu escritório: e na porta dispo as minhas roupas cotidianas, sujas de barro e de lama, e visto as roupas de corte ou de cerimônia, e, vestido decentemente, penetro na antiga convivência dos grandes homens do passado; por eles acolhido com bondade, nutro-me daquele alimento que é o único que me é apropriado e para o qual nasci. Não me envergonho de falar com eles, e lhes pergunto da razão das suas ações, e eles humanamente me respondem; e não sinto durante quatro horas aborrecimento algum, esqueço todos os desgostos, não temo a pobreza, não me perturba a morte: transfundo-me neles por completo.”

Maquiavel. Carta a Francesco Vettori (10/12/1513) Apud Chasin. O futuro ausente: para a crítica da política e o resgate da emancipação humana. Ad hominem. N. 1, tomo III – Política. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 2000, pág. 221.

27.12.11

Por que Portugal deu errado?

Nos séculos XIV e XV houve uma crise monetária mundial. Valendo-se da sua marinha e da aliança com a Inglaterra, Portugal partiu em busca de ouro, especiarias e escravos, compensando a sua escassez de dinheiro e gente.

Nesse processo fortaleceu-se uma nobreza que se tornou parasitária. A burguesia mercantil – composta majoritariamente por judeus – foi expulsa ou enfraquecida e não se realizou a passagem ao capitalismo, que fortaleceria a economia interna da nação. Esse sistema não criou raízes estruturais para sustentar a economia em crescimento. Ao se revelar a pequenez de Portugal ante o gigantismo da empresa, sua expansão passou a ser mero inchaço. E se esboroou sem aproveitar – ou sem ter feito sequer – a acumulação de capitais necessária ao desenvolvimento do capitalismo. O descobrimento do Brasil foi o ponto ascendente desse processo. Depois começou o declínio do comércio exterior português, que se tornará deficiente. E Portugal passará a viver da sua colônia, dividindo-a e finalmente perdendo-a para a Inglaterra.

(...)
Portanto, a descoberta do Brasil foi consequência da expansão marítima portuguesa, quando a Europa evoluía do feudalismo ao capitalismo e Portugal não conseguiu encontrar a passagem que estimularia o desenvolvimento do “seu” capitalismo. Por não encontrá-la, foi vítima do processo, transformando-se em um anacronismo que a exploração colonialista não pôde superar – antes complicou, como duzentos anos depois o marquês de Pombal viu com clareza.

CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil. Cap II, "A saga marítima". Cortez. No prelo.

24.12.11

Sobre a bomba do momento

Nenhum político, mesmo os que privatizaram ou pretendem privatizar, recebe de bom grado a fama de privatizador. Mas, nos anos 1990, o que hoje é estigma era então condição inexorável para ser aceito na modernidade. O discurso tucano, hoje omisso quanto ao passado, possuía a arrogância dos donos da verdade. Mas está tudo registrado.


RIBEIRO JR., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: geração editorial, 2011, p.36 (Col. história agora; vol. 5)

O grifo é meu. Embora as privatizações tenham varrido a América Latina, o Brasil entrou na modernidade - e entrou bem. Sem prejuízo das falcatruas e roubos ao patrimônio público - nas quais, conforme o livro, José Serra foi ilustre co-participante -, as privatizações escondem talvez alguma coisa positiva, no caso do Brasil, e extremamente negativa, no caso de Argentina e outros países. Que entraram mal nesse início de século.

12.12.11

Brincadeira de deus


















escavadeira bagger 288, da empresa Krupp AG (atual ThyssenKrupp)




(...) as terríveis massas de ferro que precisavam ser forjadas, soldadas, cortadas, furadas e moldadas exigiam, por sua vez, máquinas ciclópicas, cuja criação não era possível à construção manufatureira de máquinas.

A grande indústria teve, portanto, de apoderar-se de seu meio característico de produção, a própria máquina, e produzir máquinas por meio de máquinas.

(...) veremos reaparecer o instrumento artesanal, mas em dimensão ciclópica. A parte operante da perfuratriz, por exemplo, é uma broca monstruosa, movida por uma máquina a vapor e sem a qual, por sua vez, não poderiam ser produzidos os cilindros das grandes máquinas a vapor e das prensas hidráulicas. O torno mecânico é o renascimento ciclópico do torno comum de pedal; a máquina de aplainar, um carpinteiro de ferro, que trabalha o ferro com as mesmas ferramentas com que o carpinteiro trabalha a madeira; a ferramenta que, nos estaleiros londrinos, corta as chapas é uma gigantesca navalha de barbear; a ferramenta da tesoura mecânica, que corta ferro como corta pano a tesoura do alfaiate, uma monstruosa tesoura; e o martelo a vapor opera com uma cabeça comum de martelo, mas de peso tal que nem mesmo Thor conseguiria brandi-lo.

(O capital, livro I, tomo II, Cap. XIII - "Maquinaria e grande indústria". Abril (Os economistas), pp.14-17)

6.12.11

...quem precisa de inimigos?

Não tenho nada contra meu mundo. Tenho até muitos amigos e, por ignorar deles qual seja o grande ou o melhor, corro o risco de não ter amigo algum. Contudo, minha companheira me acompanha e me ajuda, sobretudo quando desanimo e caio; sinto que somos grandes amigos. Mas isto se poderia dizer trata-se de amizade especial ou, até, vulgar, uma vez generalizado o casamento. Mas as pessoas me ajudam, às vezes retribuo um sorriso e, descartado o que há de ruim, mais as relações sociais etc. - toda vez que aprendo, ou amo, ou me embriago, sinto orgulho da espécie.

Com os avanços medicinais, incrementos de higiene, dietas de proteína, crescimento do mercado interno, lulismo e aumento na longevidade do brasileiro -, a única coisa que incomoda é ter tudo isso pra viver e todo esse trabalho em ficar vivo; e tão pouco tempo para desfrutar disso, deles, dela. Porque, ainda que eu trabalhe menos, e sempre mais, para escândalo de minhas colegas de trabalho - que temem ver-me reduzido à penúria -, não obrigo nem posso orientar meus amigos a semelhante resolução. Não me admira fracassar nesta empresa megalomaníaca.

O que me admira e constrange e deprime é sequer convencê-los de que não é saudável trabalhar em mais de um lugar, todos os dias, sacrificando em nome do transporte seu horário de almoço. Se é que é saudável falar quando se come, mesmo aí a reunião é prejudicada - e tanto pior pra mim, que, versado só em letras, tinha muito a dividir com um amigo matemático. Mas hoje ele não pode comer. É preciso correr. E se, no trânsito, outro vem e pára, e bebe comigo após tanto tempo, e me diz que devo desistir do homem, que o egoísmo é inato, que a natureza humana é imutável - eu não tenho nada a dizer. Seria inútil reviver a poesia de John Donne, já lembrada pelo Hemingway: no man is an island. Porque vamos mesmo sendo ilhas - no salgado oceano do trabalho, do consumo e da desilusão.

O que não me impede de gritar, emputecido e gasto, que se roubam meus amigos, sou duplamente agredido e náufrago; que a miséria deles é a minha miséria elevada à constelação das potências.

25.11.11

Sonho

E vago num mundo estranho,
De movimento e som, e cores novas e gosto alegre.
Mas estou triste:
alma sem corpo,
vontade nua,
jangada sem remo,
levado pelo rio caudaloso do medo, angústia, raiva e dor.
Às vezes paro e escuto arrepiado o trovoar da cachoeira,
aonde vou,
pequeno,
e só.

De repente, atravesso o espelho d'água da vida
e acordo em sobressalto:
ônibus e caminhões escoam da janela
- o contínuo curso do rio de aço.
E olho minhas mãos
- estranhas garras nuas -
que abro e fecho e giro e torço.
Meu Deus...
Para que servem?

4.8.11

Eu vou

Eu vou vestir a camisa dos pelados:
Sairei nu pelas ruas a afrontar velhinhas mulheres grávidas crianças e bebês de poucos dias
Desacatarei a ordem pública
Cuspirei nas leis vigentes
E desarmarei os preconceitos vulgares com jatos quentes da porra
do amor

E comerei a carne dos cadáveres cujas ideias me alimentam:
Destruirei monumentos, falsos templos, velhas máquinas
Ordens desordenadas da desordem da ordem
Comungarei deste cálice, deste pão
Até limpar os pés no manto sagrado que cobria meus olhos
Ou os queria em horizontes invisíveis

Um dia, eu vou fazer tudo que eu quiser.
Eu vou beber com demônios:
Cairão vertiginosos e inclementes temporais de suplícios agudos e cortantes de solidão desnecessária e vergonha diante do espelho blindado
Eu vou fazer o diabo.
Eu
vou fazer poesia.

25.5.11

Sobre causas e efeitos

Sobre a Marcha da Maconha, condenada pela Justiça e reprimida pela Polícia Militar, alguém tem de dizer em algum lugar que o problema é menos da polícia (ela não foi feita pra outra coisa, senão reprimir) que do Juiz que julgou o negócio ilegal. Nenhuma barbaridade cometida pela polícia deveria ser surpresa - ainda que façamos a denúncia.

Mas a decisão do juiz... O tal do desembargador Teodomiro Mendez (que ao que dizem já espancou reús, torturou, encostou cano de arma na cabeça de ladrões de galinha) escreveu: "o evento que se quer coibir não trata de um debate de ideias, apenas, mas de uma manifestação de uso público coletivo de maconha, presentes indícios de práticas delitivas no ato questionado, especialmente porque, por fim, favorecem a fomentação do tráfico ilícito de drogas."


Não há debate de ideias? Uso público coletivo de maconha? Fomentação do tráfico ilícito de drogas?

Dá pra acreditar nisso? Até um secundarista perceberia a falha de raciocínio. Toda manifestação coletiva traz em si um debate de ideias na base; e o próprio debate não acontece se não há manifestações coletivas - um é condição do outro. Ademais, ninguém precisa de publicidade e coletividade pra fumar maconha. E nem o tráfico precisa de fomento maior que o dinheiro. Pelo contrário, o tráfico deve é se incomodar com alguém falando em legalização: isto sim é que é uma ameaça ao lucro.

A primeira coisa a se fazer é julgar o juiz; depois chegamos a polícia. Se é que estamos interessados em combater causas, não efeitos.

28.3.11

Pós-modernidade

Um dia acaba cessando o encanto pelas cores do plástico, das luzes, da cidade à noite, da fumaça dos cigarros levada no ar, das conversas pelas ruas com goles de pinga - tudo passa a ser um tanto pequeno e monótono, em sua eterna reprodução do mesmo. É que a vida se amesquinha quando crescemos. Fugindo do trabalho, do consumo e das massas, sair com os amigos já não tem aquele sabor. Ouvir as pessoas já não é tão significativo. Também, a maior parte dos seres que atravessam o caminho, dia a dia, não é livre; está presa ao trabalho. Vendendo corpos por salário, aí estão em catracas de ônibus, caixas de supermercado, bombas de gasolina, apartamentos em faróis, sono de trens da manhã e calores de ônibus nas tardes; e ainda mais, dão agora humanamente a inteligência, a voz, a face.

E não tenho a menor vontade de lhes dirigir a palavra. Pode ser o efeito colateral de um outro processo, igualmente chato. Ao longo do dia é inevitável passar por lugares, máquinas, gente - que maquinalmente lhe dá bom dia, obrigado por ter vindo, agradecemos muito pela confiança, esperamos te ver de volta -, e todos sorriem-nos, com seus caninos demasiadamente brancos e metálicos. Porque até as máquinas tem dentes. Entre robôs-humanos e humanos-máquina, tem aparecido atrevidamente a pergunta e a raiva: Obrigado pelo quê? E como esperam me ver de volta? Nunca olharam para mim, quanto menos ver. E quanto mais falam, menos dizem coisas. E por que sorriem, meu deus!, não sabemos todos que nossos interesses comuns estão sempre amputados por este interesse particular que nos obriga a sorrir?

Não se pode impor limites à loucura - esta tremenda falta de bom-senso. Mas a distância que a linguagem tomou da realidade atingiu aqui um patamar incomum. Sócrates perdoaria aos sofistas o atrevimento destes homens que, pela primeira vez, descolaram o pensamento do mundo, fazendo a lógica funcionar apenas em conformidade a si mesma e apagando as verdadeiras conexões com o mundo. Porque, naquele tempo, o que ensinavam estes professores particulares, mestres pioneiros da retórica, era que se podia, muito bem, defender interesses privados encobrindo-os com o manto do interesse comum; daí até o questionamento de que uma verdade absoluta era inacessível, foi só um passo. Hoje, porém, foi-se muito além. Sequer sabe-se qual é o interesse comum, qual é o particular; e a verdade, palavra maldita, foi para sempre banida do vocabulário, do pensamento e da linguagem.

21.2.11

Contos velhos (parte II de II)

.


Aula de voo



Um dia, um amigo deu a letra: “olha, a gente tem que voar – uma vez na vida, no sonho... Então, quando v. sonhar e perceber que é sonho, nem pensa: pula a janela”. E dá pra gente perceber que é sonho? Dá. Dá?! Dáááá, há sempre coisas bizarras nele, é só ficar ligado enquanto dorme. Firmeza. Aí ela se lembrou da irmã contando que uma vez, sonhando, foi à padaria, pediu qualquer coisa, e o padeiro, incontinênti, tirou os sapatos, as meias, e lhas entregou: ela as recebeu com toda a ternura de mãos plácidas, acomodou-as ao peito e saiu, feliz. Coisa de sonho. Então, a gente pode voar! Um dia, afinal, sonhou que estava num avião e lembrou de voar. Foi pular. Mas havia um homem na porta: “Rg, cpf, cnh, passaporte.” “Puxa, mas tudo isso?! Ah, pensei que era mais fácil voar...” E, frustrada, voltou pro assento. Uma noite, sonhou de novo. Estava no viaduto do Chá. E quando ia pular, veio um PM e “Cidadã, seu atestado de antecedentes criminais!” “Pôôôôôxa, mas por que vocês não pedem tudo na primeira vez?! Aaah!” E sempre pediam mais alguma coisa. E nunca voava. E sempre acordava puta. Ficou sôfrega. Sonhou com aviões, pontes, desfiladeiros, banguidjampins, corcovados, picos da neblina, prédios de cem andares, janelas, janelas, janelas... Certa vez, abriu um jornal. E viu partidos políticos, corrupção no judiciário, filosofia da desconstrução do sujeito, provas da existência divina, ciência da inconsciência, previsões de extinção da vida, nem pôde pensar tocou o telefone: era uma oportunidade única de emprego. Foi. E disseram que ela ia ganhar um salário absurdo, tantas horas semanais mais pausa pro café etc., a única coisa que viu foi a janela e enquanto ia foi detida pelo entrevistador, Ei trouxe os documentos?, Sim trouxe, agora ela tinha tudo, Rg?, Sim, Cpf?, Sim, Ctps? Sim, Antecendentes criminais?, Siiiim caralio!, não adiantava: ela tinha um brilho nos olhos, Ei, e as fotos?, Siiiim!, e mais não disse: entregou a papelada – yeah! agora eu vou, e pulou do décimo quinto andar é pulo sim e pulou feliz sim!: o vento em meus cabelos e sentiu cafunés por todo o corpo ah! nunca mais vou acordar achou o sonho lindo sim sim é lindo embora lhe parecesse muito rápido é mas eu não paro

7.2.11

Contos velhos (parte I de II)

.


ZZZ...



Segunda-feira + despertador tocando: Ismael acordou dorminhoquíssimo, tronchinho, esbarrando nas coisas, lutando preguiçoso com vontade de dormir. Era um roubo! Era já segunda e num é que ela resolveu secundar inda de manhã: um trupicão na garrafa que ninguém nem num tinha visto na porta do quarto abriu a aporrinhação do dia que nascia. Resultado: dedão do pé direito esfolado. Paciência. Ia ter que trabalhar mesmo, isso era bobagice. E foi tomar café jurando nunca jamais misturar domingo e vinho, quê diz-que fica brigando com cerveja logo no pior lugar, que é a segunda. E o dia foi ficando bom.

Alhures, D. Helena, 73 anos, viúva, solicitava a primeira visita técnica para reparo em sua linha telefônica, que apresentava um estranho defeito. Era tocar o telefone e o cachorro latir.

Terça: o dia seguinte chegou soprando bafo gelado na janela d'Ismael: chuva fininha molhamolhando. Pôs o nariz fora da toca, farejou umidade, armou-se de coragem, e saiu pra lutar e vencer ou morrer. Foi indo, saltitando, fugindo da chuva, corre-que-corre pela rua, chapinhando sem-querer na ponta dos pés, sentindo frio, danado de esquecer sempre de comprar calçado impermeável ou bota-sete-légua, nem num terminou de pensamentear vem um carro passa n’água Ismael abraça, geladinha, que nem a cerveja do bar da Maria Júlia, lá na esquina.

Levou uma bronca-guaçu do chefe! Primeiro porque safadamente ontem, que era na segunda, Ismael todo displicente tinha ignorado a reclamação da D. Helena só porque ela era esdrúxula: “o meu cachorro late sempre quando toca o telefone”. Vai, Ismael viu, pegou, achou graça, riu, gozou bem e fez que num viu. E escreveu lá por cima burocraticamente-despachado: "Reclamação improcedente/esdrúxula". E segundo porque, agora hoje na terça, trabalhando molhado dia inteiro Ismael fez uma lamaceira no escritório que era um despotismo de sujeira, gente! além de transmitir gripe aos colegas. O dia foi sendo assim: diz-que às oito D. Helena, educadíssima, estudou em Coimbra, reclamava segunda vez, às nove Ismael começou ficando ruim, às onze já tinha enlameado os três banheiro acabando o papel, ao mei-dia principiava a limpar no braço o nariz tão mazelento, que às três hora metade do escritório da JR Paulista, que era a empresa de manutenção de linhas telefônicas, estava todo mundo espirrando. Resultado: o despacho do dia seguinte ficou todo atrapalhado, quê quem num era bobo faltou.

Quarta:

Quinta: eu nunca sube jamais quê que Ismael fez na quarta, sendo que nem de casa saiu; deve ter ficado assistindo desenho, que ele gostava muito.

Mas na quinta, que é hoje bem cedinho, D. Helena, esperando por uma hora a musiquinha pau do atendimento telefônico, depois de ter sido atrouxalhada três vezes, arriscou a quarta, espera-que-mais-espera acaba musiquinha começa outra, vai, atenderam, e ela foi filha-da-puteando cada um que falava com ela, atendentes monitores supervisores trapaceiros enroladores, todos esses mal-criados. E foi uma gostosura.

Também cedinho Ismael principiou a correr: dez segundo escovando dente, duas hora encochado em transporte coletivo, vinte minuto explicando da falta pro chefe, sete hora e dez minuto trabalhando que nem cavalo, trinta minuto no banheiro enrolando corretíssimo, uma hora enlatado num trem, duas hora na faculdade duas no bar (fazia Sistemas de informação = só bebendo), mais uma de tróilus, casa, banho, janta, cama e dormiu tão gostoso!

Sexta: de primeiro D. Helena demorava bem pra reclamar, mas ninguém resolvia o problema dela não, gente!, então hoje ela resolveu logo de manhãzinha dar nome à mãe de todo mundo, porque essa falta de num sei mais nem o quê já era uma paiaçada, e já era a quinta vez, e com a gerência da empresa sabendo (com isso num se brinca não!): Ismael pôs as barbas de molho. E mandou logo o melhor homem que tinha, o Seu Flávio, recomendando cuidado com cachorro e com a velha, que tava uma fera, e que resolvesse a coisa de vez, nem que tivesse de ficar lá todo o dia. Seu Flávio enrolou o dia inteiro tão honestamente, que à tarde Ismael ficou sarapantado de saber que na hora da campainha tocando a corrente elétrica do telefone de fraquinha sobe pra noventa volts, gente! Resultado: diz-que a fiação era mais velha que a dona, descascada, entrando fora de padrão pelo quintal da muié, passando embaixo da casinha do cãochorro, conduzia um choque brabo pra corrente do pescoço dele, tadinho! Pelejando, pensapensando, Seu Flávio resolveu tudo, o cãozinho ficou supersatisfeito, mas a dona continuava safada. Paciência.

Sábado: Ismael passou bebendo e fumando. De noite, subiu na laje, encostou na caixa-d’água, acendeu um, olhou pra estrela brilhando bonita, fumou, viu borboleta voando tão linda, ficou triste de esquecer às vezes da beleza pequena dessas coisinhas, e chorou, mas dormiu bem, porque foi bom.

Domingo: esse dia Ismael começou indo na missa: cantou, rezou, confessou, comungou; depois bebeu fumou cheirou, foi uma delícia. De noite pegou da namoradinha e foi passear: comeu jabá, viu cinemarks, disputou vaga nas filas de motéis. Brincaram muito por lá. Agorinha estavam se rindo um pro outro. Agora dormem.

Tem mais não.
 
 
 
...
Epigrama, n. 1 [Informativo discente de Letras do Cufsa], Santo André, 2006. (Revisto)

10.12.10

O mistério e a banalidade

A tecnologia aparece como um mistério e uma banalidade – diz Milton Santos no que foi seu último livro. Reflexo da decadência do homem pós-moderno, subordinado à dinâmica alienante do just in time, surge na era da informação uma contradição do conhecimento. À repugnância pela filosofia, especialmente a filosofia racionalista – aversão dominante nos meios acadêmicos e midiáticos com toda a sua cientificidade –, corresponde um certo tipo de irracionalismo, presente na vida do cidadão comum. Como pode algo ser, simultaneamente, misterioso e banal? Um mistério é o que fascina, e encanta, e seduz (no sentido próprio de conduzir para si), despertando o desejo de conhecer e decodificar e atribuir sentido. Mas não.

As maravilhas que a indústria dia a dia põe a caminho do mercado inundam a vida de jovens que pouco sabem da vida. De celulares a notebooks, de câmeras digitais a videogames via internet, um amontoado de chips e baterias é manipulado e descartado todos os dias, por um lado como a mais vulgar das operações vitais. Por outro lado, como funcionam essas coisas por dentro, de onde vêm, quem as produz, como se fabricam, qual seu significado, em que interferem noutros campos de saber, de quais esferas (inorgânica, biológica, social?) sofrem determinações – são segredos para os quais não há mais investigação. À razão que indaga sucede uma razão que manipula. Talvez por isso em muitas universidades o baricentro vital seja o diploma, não o saber.

Diversos autores têm destacado esta viragem qualitativa da espécie humana, do racionalismo para a razão manipulatória. O ápice do pensamento humano, cuja floração mais evidente é o iluminismo, que frutifica generosamente ainda pelo século XIX, tem hoje seus desdobramentos caracterizados (por livre-docentes escravos das ideologias) como seita anticientífica. E a razão ganha, nesta visão distorcida do mundo, ares de religiosidade. Ciência passa a ser apenas aquela metodologia que não dá respostas universais nem, principalmente, faz perguntas. O abandono da universalidade para a mesquinha visão particularista, bem ao gosto do liberalismo econômico, passa agora a ser a etapa superior da reflexão. Operam-se computadores todos os dias, a toda hora, em todo o mundo que abre e fecha seus windows para o globo, sem que se saiba minimamente o que é isto.

É que o mundo já não interessa. As pessoas são sempre iguais. Porque a vida, também, fez-se o mais banal dos mistérios - para o qual não há explicações, nem perguntas, nem paixões.