Se o universo é feito de música e, se, como você afirma, as pessoas são mesmo poemas, me mostre: o que é a poesia?
24.6.09
1.6.09
Felicidade
Agora, ultimamente, tem me aparecido uma sensação vaga de tranqulidade e calma, que se confunde com felicidade, mas que não resiste muito. É aparecer e me incomodar, o que me faz perguntar de onde essa sensação vem, e isso eu sei bem, mas não sei o que ela é. Porque é sempre franzir o cenho, como quem enxota um cão intruso, e perceber que essas sensações boas só derivam de eu estar vivo, e relativamente livre (porque relativamente só), e somente. De resto, é o mesmo inferno que sempre foi.
Preciso trocar de emprego. Odeio adolescentes, definitivamente (ou pessoas, o que dá no mesmo). As contas estão sempre fechando o mês vermelhas – consumismo filhadaputa e inútil. Não ganho na megasena. Não declarei ainda o imposto de renda. Não leio mais meus livros queridos. Não tenho tempo nem saco de ler pras aulas de sociologia e política. Não tenho tempo de apagar emeiols. Não tenho tempo de pensar. E, pra completar, errei a declamação de um poema ontem, sábado, numa feira do livro: quis morrer. Que merda! Que poema filhadaputa do Drummond! Desaparecer assim da memória, com todo mundo olhando...
Também não jogo mais essa porcaria da megasena. E nunca mais declamo poemas. Idéia besta.
Agora só falta o problema das pessoas, das contas, dos impostos e das insuficientes 24 horas do dia. Ora, quem disser que é difícil viver ou ser feliz, simplesmente não nomeou direito seus problemas.
28.5.09
Lembrete sobre duas coisas:
1. A cultura da paz é, com certeza, o pior dos valores dos nossos tempos. Capitão Nascimento não é tão irracional quanto nos quer fazer parecer nosso bom senso. Ele tem razão num ponto: a hipocrisia é não só a base da nossa organização social globalizada, mas também a base do que nos constitui como seres humanos modernos. Pregando as vantagens de uma cultura de paz, dias atrás é que me dei conta da contradição que existe nisso. Precisei ouvir de uma quase criança de 12 anos que, na verdade: "v. diz que a violência não é o caminho, porque não pode dizer outra coisa; a gente entende; mas sabe que v. não acredita nisso; porque quem leva um tapa na cara, devolve; todo mundo faz isso." Pior que é verdade. Então, por que diabos continuamos a defender a paz e a justiça. Deveríamos defender sim a justiça e a paz, mas sabendo que justiça e paz não prescindem de violência para se concretizar. Não se chega à paz pela paz; chega-se à paz pela guerra, como diz o velho ditado. Então, se é mesmo isso, para que continuamos a dizer que a violência não é o caminho, quando a violência se alastra de diversas formas pelas famílias, pelas ruas, pelas diferentes classes sociais e principalmente na relação entre estas? Sim, mesmo a nós, que nos consideramos politicamente desalienados, críticos e transformadores, mesmo a nós, invisíveis, vêm ter conosco valores alheios que entranhamos e reproduzimos sem o perceber. A cultura de paz nos chega pelas escolas, pela TV, pelos jornais, pelos livros – em uma palavra, pelo Estado. Estes valores não pertencem aos cidadãos – ao contrário, os pais comumente dizem aos filhos: "não bata; mas se apanhar, não apanhe queito: reaja sempre." Então estes valores só podem pertencer àqueles que, estando no poder, controlam o Estado. É evidente que se fosse incentivada uma cultura de violência contra às injustiças, mais cedo ou mais tarde se veria que a maior delas é uma organização social em forma de pirâmide, que permite a uma pequena parcela dominar a imensa base que a sustenta, com métodos tão ou mais violentos quanto os do passado, disfarçados sob um manto de hipocrisia, que lentamente vai se assentando e se escondendo na névoa polifônica do nosso século – cuja complexidade, porém, permite-nos vislumbrá-lo em toda a sua extensão com uma simples figura geométrica.
2. É uma grande besteira depositar na escola a esperança de melhora do mundo. Enquanto ela não se dispuser a construir uma visão conjunta da realidade, a partir de alguma ciência antiga ou inédita que congregue e rearticule os conhecimentos básicos entre si – a fragmentação do saber em disciplinas inúteis, a separação das pessoas em individualismos nocivos e a divisão da humanidade em classes sociais perdurará indefinidadamente. Dos que possuem formação para atuar no ensino fundamental, só professores de história e geografia parecem dominar mecanismos de entendimento e explicação coerente do estado do mundo. Dos professores de história e geografia que existem, é ingênuo supor que todos tenham vontade ou condições de ativar todo seu aparato técnico na construção de situações reflexivas de aprendizagem de mundo; se excluírmos aqueles que possuem formação ruim, sobra uma parcela insignificante. Dos professores das outras disciplinas, majoritários, pode até haver vontade ou condições efetivas de explicar o mundo; mas, se lhes sobrar vontade (o que já é pra lá de duvidoso), faltar-lhes-á sempre formação específica e aparato técnico. O que em grande parte explica por que nunca vi um professor de matemática usar um triângulo para associá-lo à sociedade ou ao mundo. O que explica também por que grande parte da matemática e a totalidade de muitas outras ciências, como a gramática, a química ou a física, parecem aos alunos não ter aplicação prática alguma. O que mostra como o positivismo, que no XIX fragmentou o conhecimento, serviu aos interesses da elite, criando – mais que uma divisão do saber – divisórias de pensamento, tapumes da visão... antolhos. O positivismo, se Durkheim não se contentar com ser o criador do melhor dos chicotes, é talvez a mais engenhosa das criações humanas. Os seres humanos, quando no ócio, quando desatrelados do fardo que puxam, quando caminhando pelo mundo – já não olham mais para os lados.
Daí hoje se acreditar, principalmente no Brasil, que direita e esquerda não existe.
E quando olham para o amanhã, para a frente, para o futuro – já nem veem a natureza da ordem que o progresso exige. Ficam obviamente excluídos dessa cegueira nova os que naturalmente já não viam pelas doenças antigas (não há muita diferença entre um camponês medieval e as contemporâneas classes D e E): os cegos antigos (que sofrem o presente) culpam os malefícios do progresso, e vivem a reviver no presente o passado; a maior parte das pessoas que veem, como já se disse, não vive mais no presente: escolheu pensar no futuro. E isso é que é assustador. Porque, se se pensar bem, passado e futuro, na realidade, não existem; são só abstrações.
2.5.09
16.4.09
Igreja
Eu não tinha dado muita bola pras críticas do Joseph Ratzinger ao Nietzsche, mas de tanto falarem acabei indo lá ler a notícia no Estadão, de 10 passado. E até por ser Nietzsche um filósofo que cria instabilidades para os valores, perigoso, portanto, para a religião, continuava não vendo ali nada de anormal ou inesperado por parte da Santa Madre Igreja. Até que duas pessoas especialmente, e reproduzo a seguir ideias delas, me alertaram para o fato de que o discurso do Bento é uma puta de uma gafe, e por dois motivos: a) criticar Nietzsche objetiva, na verdade, exortar os fiéis a não o lerem, o que, no fim das contas, é um tiro pela culatra – proibir é estimular; b) esta proibição é anacrônica, medieval e, epa!, lembramos que Bento XVI antes de ser papa era prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, um nome moderno para a Santa Inquisição.
E aqui no Brasil sabe-se que a expulsão de Leonardo Boff da Igreja tem um agente: o atual papa. Sua Igreja continua a mesma Igreja. E sobrevivem em nosso XXI os mesmos preconceitos, fantasmas, obscurantismos, misticismos e autoritarismos contra os quais se rebelaram os iluministas no XVIII. Deveríamos reviver Voltaire para vê-lo de novo dizer, Não concordo com nada... Ou não. Talvez nem precise. Porque essa coisa toda, de ouvir o outro lado, já criou raízes tão profundas em nosso modo de pensar, que mesmo entre os crentes há com certeza uma parcela que desobedecerá o interdito.
15.4.09
Estado
Se o Estado é tão somente uma máquina destinada a amortecer conflitos, a manter a ordem, a mediar interesses antagônicos, a minimizar os efeitos da desigualdade social, a possibilitar a dominação de um grupo de pessoas por outro grupo de pessoas, não é surpresa nenhuma que Protógenes Queiroz seja afastado de suas funções. A polícia federal, como parte de uma força especial armada com os impostos saqueados pelo Estado junto aos súditos, não foi criada para reprimir o grupo dominante. Esta anomalia está completamente fora de suas atribuições e, embora não pareça, isto é sério. A valer este raciocínio, Fausto Martin de Sanctis e Rodrigo de Grandis são os próximos.
11.4.09
Adriano
José Geraldo Couto mandou bem. Não é todo dia que caderno de esportes faz a gente pensar. Sobre o Adriano, imperador e tudo, ter decidido parar de jogar futebol e ganhar milhões de euros, chocando-nos a todos com tão grande e dupla perda (se bem que, pra mim, a perda maior é dos milhões mesmo; o Adriano é que nem aquele Luizão que vestiu a camisa dos quatro grandes de Sampa: faz gol, e ponto.), ele escreveu hoje na Fôia que:
Pululam as explicações fáceis, as respostas automáticas: é dor de corno, depressão, muita droga, birita, falta de estrutura, burrice pura e simples. Seja qual for a explicação mais convincente, Adriano criou um fato.
Tomou uma atitude inesperada num mundo de reações tão programadas e previsíveis. Foi na contramão da corrente hegemônica, desafinou o coro dos contentes. Seu gesto inquieta e perturba porque, na sua aparente irracionalidade, nos faz questionar a lógica absurda que comanda nossas vidas.
O leitor que acompanha ou suporta esta coluna sabe o quanto valorizo o lance que destoa: a furada, o frango, o erro. Deslizes que iluminam, que sobressaltam, que acordam. João Cabral de Melo Neto dizia que, em sua poesia, evitava "embalar" o leitor numa música que o fizesse deslizar como quem roda por uma estrada bem asfaltada. Preferia construir um caminho de pedras que, com seus solavancos, levasse o leitor a despertar.
Mal comparando, uma atitude como a de Adriano equivale a uma canelada, um tropeção, uma pedra com que se topa no meio do caminho. Quem quiser que se defenda do susto respondendo com as frases feitas citadas lá em cima. E quem tiver coragem que encare o Adriano que traz dentro de si.

