*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.
ingressos, flyers, contracheques, papéis perdidos
Gaveta aberta ao desleixo
14.2.12
Sobre a capetização do marxismo
Sobre isto, pediram-me uma opinião. Embora gratíssimo pela inclusão, não tenho lucidez para discutir isso. O ceticismo tem rondado até o modo como desço as escadas, cumprimento as pessoas ou escovo os dentes. Desconfio de todos os caminhos e propostas, e não tenho nada melhor a propor. A estratificação da classe trabalhadora em infindas gradações e matizes complicou a coisa. Isto deve ter causado a existência de uma infinidade de seitas políticas. O indivíduo é cada vez mais só, livre, autônomo e desligado da classe. O pensamento, acompanhando o movimento geral, parece ter se fragmentado também nas melhores cabeças, e um olhar unificado tornou-se impossível. "Pensar consigo mesmo, se não é inteiramente impossível, exige pelo menos bastante coragem. E os telemóveis, permanentemente ligados, mesmo nas reuniões de amigos, impedem qualquer conversa continuada. Até durante o acto de defecar, tradicionalmente propício à meditação, em que todas as pessoas reproduziam a atitude, e sem dúvida o espírito, do celebérrimo Pensador de Rodin, o livre curso das ideias passou a ser obstruído pela intromissão do telemóvel."* A desordem das ideias determina e é determinada pela "maldita práxis". O estudo ocupa um espaço relativamente infinitesimal em nossas vidas, premidas pela busca da mercadoria essencial, que contém em si todas as outras. Os nossos cacos, que somos, e os cacos de pensamento que temos - eu não digo que signifiquem o fim da espécie, mas bem podem vir a ser o nosso fim, o fim de uma época ou o fim dos ideais elevados que viemos alevantando. Para o momento convém o estoicismo - mas isto é francamente ruim, e vocês logo perceberiam a fraude. Serve tão somente como um plástico entre os ovos.
*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.
*João Bernardo. “Algumas reflexões acerca do livro ‘Democracia Totalitária’ ”. PREC. Põe, Rapa, Empurra, Cai. Nº zero, Nov. 2005. Disponível em: http://grupogetrama.blogspot.com/2009/02/sobre-o-democracia-totalitaria.html Acesso em: 21 nov. 11.
5.1.12
Conversa com os mortos
Maquiavel. Carta a Francesco Vettori (10/12/1513) Apud Chasin. O futuro ausente: para a crítica da política e o resgate da emancipação humana. Ad hominem. N. 1, tomo III – Política. São Paulo: Estudos e Edições Ad Hominem, 2000, pág. 221.
27.12.11
Por que Portugal deu errado?
Nos séculos XIV e XV houve uma crise monetária mundial. Valendo-se da sua marinha e da aliança com a Inglaterra, Portugal partiu em busca de ouro, especiarias e escravos, compensando a sua escassez de dinheiro e gente.
Nesse processo fortaleceu-se uma nobreza que se tornou parasitária. A burguesia mercantil – composta majoritariamente por judeus – foi expulsa ou enfraquecida e não se realizou a passagem ao capitalismo, que fortaleceria a economia interna da nação. Esse sistema não criou raízes estruturais para sustentar a economia em crescimento. Ao se revelar a pequenez de Portugal ante o gigantismo da empresa, sua expansão passou a ser mero inchaço. E se esboroou sem aproveitar – ou sem ter feito sequer – a acumulação de capitais necessária ao desenvolvimento do capitalismo. O descobrimento do Brasil foi o ponto ascendente desse processo. Depois começou o declínio do comércio exterior português, que se tornará deficiente. E Portugal passará a viver da sua colônia, dividindo-a e finalmente perdendo-a para a Inglaterra.
(...)
Portanto, a descoberta do Brasil foi consequência da expansão marítima portuguesa, quando a Europa evoluía do feudalismo ao capitalismo e Portugal não conseguiu encontrar a passagem que estimularia o desenvolvimento do “seu” capitalismo. Por não encontrá-la, foi vítima do processo, transformando-se em um anacronismo que a exploração colonialista não pôde superar – antes complicou, como duzentos anos depois o marquês de Pombal viu com clareza.
CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil. Cap II, "A saga marítima". Cortez. No prelo.
Nesse processo fortaleceu-se uma nobreza que se tornou parasitária. A burguesia mercantil – composta majoritariamente por judeus – foi expulsa ou enfraquecida e não se realizou a passagem ao capitalismo, que fortaleceria a economia interna da nação. Esse sistema não criou raízes estruturais para sustentar a economia em crescimento. Ao se revelar a pequenez de Portugal ante o gigantismo da empresa, sua expansão passou a ser mero inchaço. E se esboroou sem aproveitar – ou sem ter feito sequer – a acumulação de capitais necessária ao desenvolvimento do capitalismo. O descobrimento do Brasil foi o ponto ascendente desse processo. Depois começou o declínio do comércio exterior português, que se tornará deficiente. E Portugal passará a viver da sua colônia, dividindo-a e finalmente perdendo-a para a Inglaterra.
(...)
Portanto, a descoberta do Brasil foi consequência da expansão marítima portuguesa, quando a Europa evoluía do feudalismo ao capitalismo e Portugal não conseguiu encontrar a passagem que estimularia o desenvolvimento do “seu” capitalismo. Por não encontrá-la, foi vítima do processo, transformando-se em um anacronismo que a exploração colonialista não pôde superar – antes complicou, como duzentos anos depois o marquês de Pombal viu com clareza.
CHIAVENATO, Júlio José. O negro no Brasil. Cap II, "A saga marítima". Cortez. No prelo.
24.12.11
Sobre a bomba do momento
Nenhum político, mesmo os que privatizaram ou pretendem privatizar, recebe de bom grado a fama de privatizador. Mas, nos anos 1990, o que hoje é estigma era então condição inexorável para ser aceito na modernidade. O discurso tucano, hoje omisso quanto ao passado, possuía a arrogância dos donos da verdade. Mas está tudo registrado.
RIBEIRO JR., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: geração editorial, 2011, p.36 (Col. história agora; vol. 5)
O grifo é meu. Embora as privatizações tenham varrido a América Latina, o Brasil entrou na modernidade - e entrou bem. Sem prejuízo das falcatruas e roubos ao patrimônio público - nas quais, conforme o livro, José Serra foi ilustre co-participante -, as privatizações escondem talvez alguma coisa positiva, no caso do Brasil, e extremamente negativa, no caso de Argentina e outros países. Que entraram mal nesse início de século.
RIBEIRO JR., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: geração editorial, 2011, p.36 (Col. história agora; vol. 5)
O grifo é meu. Embora as privatizações tenham varrido a América Latina, o Brasil entrou na modernidade - e entrou bem. Sem prejuízo das falcatruas e roubos ao patrimônio público - nas quais, conforme o livro, José Serra foi ilustre co-participante -, as privatizações escondem talvez alguma coisa positiva, no caso do Brasil, e extremamente negativa, no caso de Argentina e outros países. Que entraram mal nesse início de século.
12.12.11
Brincadeira de deus
escavadeira bagger 288, da empresa Krupp AG (atual ThyssenKrupp)
(...) as terríveis massas de ferro que precisavam ser forjadas, soldadas, cortadas, furadas e moldadas exigiam, por sua vez, máquinas ciclópicas, cuja criação não era possível à construção manufatureira de máquinas.
A grande indústria teve, portanto, de apoderar-se de seu meio característico de produção, a própria máquina, e produzir máquinas por meio de máquinas.
(...) veremos reaparecer o instrumento artesanal, mas em dimensão ciclópica. A parte operante da perfuratriz, por exemplo, é uma broca monstruosa, movida por uma máquina a vapor e sem a qual, por sua vez, não poderiam ser produzidos os cilindros das grandes máquinas a vapor e das prensas hidráulicas. O torno mecânico é o renascimento ciclópico do torno comum de pedal; a máquina de aplainar, um carpinteiro de ferro, que trabalha o ferro com as mesmas ferramentas com que o carpinteiro trabalha a madeira; a ferramenta que, nos estaleiros londrinos, corta as chapas é uma gigantesca navalha de barbear; a ferramenta da tesoura mecânica, que corta ferro como corta pano a tesoura do alfaiate, uma monstruosa tesoura; e o martelo a vapor opera com uma cabeça comum de martelo, mas de peso tal que nem mesmo Thor conseguiria brandi-lo.
(O capital, livro I, tomo II, Cap. XIII - "Maquinaria e grande indústria". Abril (Os economistas), pp.14-17)
6.12.11
...quem precisa de inimigos?
Não tenho nada contra meu mundo. Tenho até muitos amigos e, por ignorar deles qual seja o grande ou o melhor, corro o risco de não ter amigo algum. Contudo, minha companheira me acompanha e me ajuda, sobretudo quando desanimo e caio; sinto que somos grandes amigos. Mas isto se poderia dizer trata-se de amizade especial ou, até, vulgar, uma vez generalizado o casamento. Mas as pessoas me ajudam, às vezes retribuo um sorriso e, descartado o que há de ruim, mais as relações sociais etc. - toda vez que aprendo, ou amo, ou me embriago, sinto orgulho da espécie.
Com os avanços medicinais, incrementos de higiene, dietas de proteína, crescimento do mercado interno, lulismo e aumento na longevidade do brasileiro -, a única coisa que incomoda é ter tudo isso pra viver e todo esse trabalho em ficar vivo; e tão pouco tempo para desfrutar disso, deles, dela. Porque, ainda que eu trabalhe menos, e sempre mais, para escândalo de minhas colegas de trabalho - que, em vez de Sílvio Santos, temem ver-me reduzido à penúria -, não obrigo nem posso orientar meus amigos a semelhante resolução. Não me admira fracassar nesta empresa megalomaníaca.
O que me admira e constrange e deprime é sequer convencê-los de que não é saudável trabalhar em mais de um lugar, todos os dias, sacrificando em nome do transporte seu horário de almoço. Se é que é saudável falar quando se come, mesmo aí a reunião é prejudicada - e tanto pior pra mim, que, versado só em letras, tinha muito a dividir com um amigo matemático. Mas hoje ele não pode comer. É preciso correr. E se, no trânsito, outro vem e pára, e bebe comigo após tanto tempo, e me diz que devo desistir do homem, que o egoísmo é inato, que a natureza humana é imutável - eu não tenho nada a dizer. Seria inútil reviver a poesia de John Donne, já lembrada pelo Hemingway: no man is an island. Porque vamos mesmo sendo ilhas - no salgado oceano do trabalho, do consumo e da desilusão.
O que não me impede de gritar, emputecido e gasto, que se roubam meus amigos, sou duplamente agredido e náufrago; que a miséria deles é a minha miséria elevada à constelação das potências.
Com os avanços medicinais, incrementos de higiene, dietas de proteína, crescimento do mercado interno, lulismo e aumento na longevidade do brasileiro -, a única coisa que incomoda é ter tudo isso pra viver e todo esse trabalho em ficar vivo; e tão pouco tempo para desfrutar disso, deles, dela. Porque, ainda que eu trabalhe menos, e sempre mais, para escândalo de minhas colegas de trabalho - que, em vez de Sílvio Santos, temem ver-me reduzido à penúria -, não obrigo nem posso orientar meus amigos a semelhante resolução. Não me admira fracassar nesta empresa megalomaníaca.
O que me admira e constrange e deprime é sequer convencê-los de que não é saudável trabalhar em mais de um lugar, todos os dias, sacrificando em nome do transporte seu horário de almoço. Se é que é saudável falar quando se come, mesmo aí a reunião é prejudicada - e tanto pior pra mim, que, versado só em letras, tinha muito a dividir com um amigo matemático. Mas hoje ele não pode comer. É preciso correr. E se, no trânsito, outro vem e pára, e bebe comigo após tanto tempo, e me diz que devo desistir do homem, que o egoísmo é inato, que a natureza humana é imutável - eu não tenho nada a dizer. Seria inútil reviver a poesia de John Donne, já lembrada pelo Hemingway: no man is an island. Porque vamos mesmo sendo ilhas - no salgado oceano do trabalho, do consumo e da desilusão.
O que não me impede de gritar, emputecido e gasto, que se roubam meus amigos, sou duplamente agredido e náufrago; que a miséria deles é a minha miséria elevada à constelação das potências.
5.12.11
Conteúdo e forma, escrita e leitura, governo Lula e marxismo
Texto perfeito (pensando bem, é mais justo dizer interessante, pois quanto a seu conteúdo guardo reservas - e estou mais inclinado a pensar com o Chico de Oliveira, mesmo com as advertências de André Singer), pelo menos no que tange ao aspecto formal: pequeno em tamanho, objetivo no sentido e simples na linguagem. O que mostra que é possível dizer grandes coisas em apenas três páginas.
O leitor de "orelha de livro" ou, no meu caso, de "primeiros capítulos", deve ser, em dado grau e medida, culpa também dos escritores prolixos.
----------------------- Page 1-----------------------
Nota sobre o conceito de “pequena burguesia política”
Mauro Luis Iasi
Precisamos aprofundar entre nós a discussão sobre a caracterização do governo e suas determinações de classe. Tenho trabalhado com a categoria de pequena burguesia política e explico porque. Vários autores, como o Chico de Oliveira, trabalha com a idéia de que se formou uma nova classe, ou mais precisamente, um novo setor da burguesia financeira baseado na administração dos fundos de pensão. Não concordo com esta apreciação por dois motivos fundamentais: a) estamos em um grau de desenvolvimento monopolista e imperialista e, portanto, não há vagas na burguesia monopolista no atual grau de concentração e centralização dos meios de produção; b) esta caracterização desloca o sistema financeiro para a centralidade do sistema e despreza a propriedade real dos meios de produção monopolizados dando autonomia a um setor que ele de fato não tem.
Outros ainda, numa outra visão, vêm o governo como sendo uma frente de centro esquerda atribuindo ao PT e ao governo Lula um caráter de aliança entre os trabalhadores (representados pelo PT) e setores da burguesia progressista contrária ao eixo neoliberal. Ora, acredito que houve um descolamento da representação em relação à classe que um dia se viu representada por esta alternativa partidária. Este descolamento produziu uma burocracia, extremamente forte politicamente e mesmo com certo grau de controle de recursos econômicos, mas que não faz dela um setor de classe da burguesia, mas exatamente isso, uma burocracia partidária e sindical que ocupa posições de poder na ordem institucional, inclusive na máquina governamental.
Como caracterizá-la? Descolou-se politicamente da classe trabalhadora (classe que é a origem pessoal de várias das figuras centrais do governo inclusive do presidente) sem que tenha composto a burguesia como um setor específico. Seu campo de ação e suas bases de poder (político, social e econômico) advém do controle de espaços políticos de representação passiva (sindicatos, centrais, partidos, mandatos e cargos administrativos), por isso o termo "pequena burguesia política".
A base teórica para esta caracterização esta no 18 Brumário de Marx. Vejam:
"Contra a burguesia coligada fora formada uma coalizão de pequenos burgueses e operários, o chamado partido socialdemocrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois das jornadas de junho de 1848, que seus interesses materiais corriam perigo e que as garantias democráticas que deviam assegurar a efetivação desses interesses estavam sendo questionadas pela contra-revolução. Em vista disto aliara-se aos operários (...). Quebrou-se o aspecto revolucionário das reivindicações sociais do proletariado e deu-se a elas uma feição democrática; despiu-se a forma puramente política das reivindicações democráticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgia a socialdemocracia. (...) O caráter peculiar da socialdemocracia resume-se no fato de exigir instituições democrático-republicanas como meio não de acabar com os dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transformá-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcançar esse objetivo, por mais que sejam enfeitadas com concepções mais ou menos revolucionárias, o conteúdo permanece o mesmo. Esse conteúdo é a transformação da sociedade por um processo democrático, porém uma transformação dentro dos limites da pequena burguesia." (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 226-227)
----------------------- Page 2-----------------------
Marx alerta, ainda, que não devemos confundir a pequena burguesia com os “lojistas” (shopkeepers), pois boa parte deles está longe “como o céu da terra” dos pequenos comerciantes. Isso quer dizer que não devemos confundir a caracterização política da pequena burguesia e seu comportamento com o extrato de classe pequeno burgues (altos assalariados ou pequenos proprietários de pequenos negócios que são chamados de classes médias. Numa genial demonstração de que a classe não se define apenas por sua posição econômica no interior de uma divisão social do trabalho, Marx alega que o que torna certas pessoas “representantes da pequena burguesia é o fato de que sua mentalidade não ultrapassa os limites que esta não ultrapassa na vida” (idem, ibidem).
Por seu caráter de termo “médio”, nas palavras de Marx “uma classe de transição”, a pequena burguesia apresenta um projeto e uma atitude política que a identificam em qualquer época ou situação. Deixemos que Marx nos descreva este caráter:
"(...) o democrata, por representar a pequena burguesia, ou seja, uma classe de transição, na qual os interesses de duas classes perdem simultaneamente suas arestas, imagina estar acima dos antagonismos de classes em geral. Os democratas admitem que se defrontam com uma classe privilegiada, mas eles, com todo o resto da nação, constituem opovo . O que eles representam é o direito do povo; o que interessa a eles é o interesse do povo. Por isso, quando um conflito está iminente, não precisam analisar os interesses e as posições das diferentes classes. Não precisam pesar seus próprios recursos de maneira demasiadamente crítica. Têm apenas que dar o sinal e opovo , com todos os seus inexauríveis recursos, cairá sobre os opressores" (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 229).
O essencial na caracterização das forças políticas que atuam em uma conjuntura é o desmascarar dos interesses de classe que estão por trás desta ou daquela manifestação política. O governo Lula e o PT se apresentam como se fossem setores da classe trabalhadora que pela correlação de forças são obrigados a uma composição de “centro-esquerda” que evita a hegemonia da direita, entendida como “neo-liberal” ou
mesmo, exageradamente, “fascista”. Ora, o caráter de uma política não pode ser julgado pela origem de classe de seus atores, mas pela natureza dos interesses que representam. Nesse sentido, apesar da origem de classe de alguns mandatários ou representantes, a lógica política que se impõe é a da conciliação de classe, do interesse na “nação” acima dos particularismos de classe, da harmonização dos conflitos e, principalmente, na crença que o desenvolvimento da economia capitalista resolve as desigualdades sociais
através do ciclo virtuoso da produção, emprego, consumo e que aos mais miseráveis o Estado contempla com políticas compesatórias. O horizonte desta formulação é pequeno-burguês.
Qual a base material de sustentação desta expressão política? As burocracias partidárias e sindicais, além dos espaços institucionais graças a este monopólio conquistados, seja na máquina do Estado Burguês, seja na institucionalidade da sociedade civil burguesa. Como a fonte de poder é o controle de espaços políticos de representação, inclusive no que tange ao controle dos Fundos de Pensão, trata-se de uma pequena burguesia “política”, querendo com isso indicar que seu poder deriva fundamentalmente do controle de espaços políticos de representação.
----------------------- Page 3-----------------------
Não é, propriamente, uma “aristocracia operária”, tal como define Lênin. A aristocracia operária tinha como principal fonte de legitimidade os trabalhadores organizados e sua capacidade de pressão. A pequena burguesia política de certa forma se independentizou da classe e a controla por meio de aparatos que não dependem da capacidade de organização e ação concreta, pelo contrário, sua força vem, em grande medida, da passividade da classe que se submete a uma hegemonia passiva.
Sendo assim, parece-me que o conceito de “pequena burguesia política” pode ser uma ferramenta teórica e política útil às nossas formulações.
Fonte: http://www.pcb.org.br/portal/precongresso/pequenaburguesia.pdf
O leitor de "orelha de livro" ou, no meu caso, de "primeiros capítulos", deve ser, em dado grau e medida, culpa também dos escritores prolixos.
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Nota sobre o conceito de “pequena burguesia política”
Mauro Luis Iasi
Precisamos aprofundar entre nós a discussão sobre a caracterização do governo e suas determinações de classe. Tenho trabalhado com a categoria de pequena burguesia política e explico porque. Vários autores, como o Chico de Oliveira, trabalha com a idéia de que se formou uma nova classe, ou mais precisamente, um novo setor da burguesia financeira baseado na administração dos fundos de pensão. Não concordo com esta apreciação por dois motivos fundamentais: a) estamos em um grau de desenvolvimento monopolista e imperialista e, portanto, não há vagas na burguesia monopolista no atual grau de concentração e centralização dos meios de produção; b) esta caracterização desloca o sistema financeiro para a centralidade do sistema e despreza a propriedade real dos meios de produção monopolizados dando autonomia a um setor que ele de fato não tem.
Outros ainda, numa outra visão, vêm o governo como sendo uma frente de centro esquerda atribuindo ao PT e ao governo Lula um caráter de aliança entre os trabalhadores (representados pelo PT) e setores da burguesia progressista contrária ao eixo neoliberal. Ora, acredito que houve um descolamento da representação em relação à classe que um dia se viu representada por esta alternativa partidária. Este descolamento produziu uma burocracia, extremamente forte politicamente e mesmo com certo grau de controle de recursos econômicos, mas que não faz dela um setor de classe da burguesia, mas exatamente isso, uma burocracia partidária e sindical que ocupa posições de poder na ordem institucional, inclusive na máquina governamental.
Como caracterizá-la? Descolou-se politicamente da classe trabalhadora (classe que é a origem pessoal de várias das figuras centrais do governo inclusive do presidente) sem que tenha composto a burguesia como um setor específico. Seu campo de ação e suas bases de poder (político, social e econômico) advém do controle de espaços políticos de representação passiva (sindicatos, centrais, partidos, mandatos e cargos administrativos), por isso o termo "pequena burguesia política".
A base teórica para esta caracterização esta no 18 Brumário de Marx. Vejam:
"Contra a burguesia coligada fora formada uma coalizão de pequenos burgueses e operários, o chamado partido socialdemocrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois das jornadas de junho de 1848, que seus interesses materiais corriam perigo e que as garantias democráticas que deviam assegurar a efetivação desses interesses estavam sendo questionadas pela contra-revolução. Em vista disto aliara-se aos operários (...). Quebrou-se o aspecto revolucionário das reivindicações sociais do proletariado e deu-se a elas uma feição democrática; despiu-se a forma puramente política das reivindicações democráticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgia a socialdemocracia. (...) O caráter peculiar da socialdemocracia resume-se no fato de exigir instituições democrático-republicanas como meio não de acabar com os dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transformá-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcançar esse objetivo, por mais que sejam enfeitadas com concepções mais ou menos revolucionárias, o conteúdo permanece o mesmo. Esse conteúdo é a transformação da sociedade por um processo democrático, porém uma transformação dentro dos limites da pequena burguesia." (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 226-227)
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Marx alerta, ainda, que não devemos confundir a pequena burguesia com os “lojistas” (shopkeepers), pois boa parte deles está longe “como o céu da terra” dos pequenos comerciantes. Isso quer dizer que não devemos confundir a caracterização política da pequena burguesia e seu comportamento com o extrato de classe pequeno burgues (altos assalariados ou pequenos proprietários de pequenos negócios que são chamados de classes médias. Numa genial demonstração de que a classe não se define apenas por sua posição econômica no interior de uma divisão social do trabalho, Marx alega que o que torna certas pessoas “representantes da pequena burguesia é o fato de que sua mentalidade não ultrapassa os limites que esta não ultrapassa na vida” (idem, ibidem).
Por seu caráter de termo “médio”, nas palavras de Marx “uma classe de transição”, a pequena burguesia apresenta um projeto e uma atitude política que a identificam em qualquer época ou situação. Deixemos que Marx nos descreva este caráter:
"(...) o democrata, por representar a pequena burguesia, ou seja, uma classe de transição, na qual os interesses de duas classes perdem simultaneamente suas arestas, imagina estar acima dos antagonismos de classes em geral. Os democratas admitem que se defrontam com uma classe privilegiada, mas eles, com todo o resto da nação, constituem opovo . O que eles representam é o direito do povo; o que interessa a eles é o interesse do povo. Por isso, quando um conflito está iminente, não precisam analisar os interesses e as posições das diferentes classes. Não precisam pesar seus próprios recursos de maneira demasiadamente crítica. Têm apenas que dar o sinal e opovo , com todos os seus inexauríveis recursos, cairá sobre os opressores" (MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, cit., v. 1, p. 229).
O essencial na caracterização das forças políticas que atuam em uma conjuntura é o desmascarar dos interesses de classe que estão por trás desta ou daquela manifestação política. O governo Lula e o PT se apresentam como se fossem setores da classe trabalhadora que pela correlação de forças são obrigados a uma composição de “centro-esquerda” que evita a hegemonia da direita, entendida como “neo-liberal” ou
mesmo, exageradamente, “fascista”. Ora, o caráter de uma política não pode ser julgado pela origem de classe de seus atores, mas pela natureza dos interesses que representam. Nesse sentido, apesar da origem de classe de alguns mandatários ou representantes, a lógica política que se impõe é a da conciliação de classe, do interesse na “nação” acima dos particularismos de classe, da harmonização dos conflitos e, principalmente, na crença que o desenvolvimento da economia capitalista resolve as desigualdades sociais
através do ciclo virtuoso da produção, emprego, consumo e que aos mais miseráveis o Estado contempla com políticas compesatórias. O horizonte desta formulação é pequeno-burguês.
Qual a base material de sustentação desta expressão política? As burocracias partidárias e sindicais, além dos espaços institucionais graças a este monopólio conquistados, seja na máquina do Estado Burguês, seja na institucionalidade da sociedade civil burguesa. Como a fonte de poder é o controle de espaços políticos de representação, inclusive no que tange ao controle dos Fundos de Pensão, trata-se de uma pequena burguesia “política”, querendo com isso indicar que seu poder deriva fundamentalmente do controle de espaços políticos de representação.
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Não é, propriamente, uma “aristocracia operária”, tal como define Lênin. A aristocracia operária tinha como principal fonte de legitimidade os trabalhadores organizados e sua capacidade de pressão. A pequena burguesia política de certa forma se independentizou da classe e a controla por meio de aparatos que não dependem da capacidade de organização e ação concreta, pelo contrário, sua força vem, em grande medida, da passividade da classe que se submete a uma hegemonia passiva.
Sendo assim, parece-me que o conceito de “pequena burguesia política” pode ser uma ferramenta teórica e política útil às nossas formulações.
Fonte: http://www.pcb.org.br/portal/precongresso/pequenaburguesia.pdf
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