7.6.10

Aham!!!

Hoje é um dia histórico. Luiz Felipé Pondé mostrou quem é. Em suma, um reformador da lógica, desde que Aristóteles a fundou. Vai parecer que eu estou pegando no pé do menino, mas hoje, na Folha, seu texto foi demais.

Começou defendendo a liberdade de pensamento:

"O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade? Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: 'O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...' "

Depois, atacou a liberdade de pensamento:

 "Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice [...]"

Por fim, mostrou quanto conhece sobre a crendice da qual fala:

"[...] torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, 'haverá outro mundo quando o McDonald"s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba'."

Ele crê que conhece o país e o mundo onde está, quando apenas está neles, sem vê-los de fato. Vejamos:

1. Ele faz crer que há muitos professores marxistas, quando na verdade mal se veem os marxistas entre estruturalistas, funcionalistas, evolucionistas e marxistas-recauchutados à Maximillian Weber [isso pra falar só no ensino básico; na faculdade, a coisa só piora: a quantidade de cursos técnicos ou a-históricos é tão grande, que o marxismo fica restrito às poucas ciências que lhe servem de objeto. Mas, ainda assim, é raríssimo achar um curso com orientação marxista. O que se encontra é um ou outro professor isolado, o que conta pouco.]

2. Que havendo estas quatro correntes de pensamento, proibindo uma e preservando as outras três, por sinal dominantes (basta ver a grade do ensino básico, com supremacia horária discutível das linguagens [português e matemática] e ciências naturais [biologia, física, química], e tempo minúsculamente ridículo para as ciências da sociedade), presta-se um grande serviço à ciência.

3. Que Cuba, Coreia do Norte, China e Vietnã têm ainda alguma coisa de marxistas.

Eu, na verdade, sei que ele não fez mais que uma crítica em forma de brincadeira. Mas saiu tão superficial, chula, rebaixada, que, ainda brincadeira, a falta de sutileza, de fineza no humor revela em grande medida, sem prejuízo de algum pequeno ressentimento escondido e guardado, um vasto universo de ignorância, só posso crer que proposital, por parte do autor. Francamente.

Eu, cá por mim, não sou contra perspectiva alguma nas escolas. Por mim, eu formaria os alunos com todas as visões possíveis. Que eles escolham para si dentre todas, inclusive o criacionismo, qual explica melhor a realidade. Qual o problema?

5 comments:

Leco Vilela said...

Luiz Felipé Pondé, é um pé no saco, suas "críticas" sempre devendem a ideologia evangélica, a base na familia nuclear...

Mudando de assunto, procure por "O Espaço Vazio" - Peter Brook ... é um diretor de teatro renomado, mas fala sobre muitas questões da potencialidade do ensino, da criação a partir do vazio. é claro que o enfoque é teatro, mas tem muito coisa proveitosa pelo lado pedagógico

Carol said...

tenho minhas dificuldades com o pondé (tanto que evito ler), mas tem um fundo de razão nisso de marxismo como crendice (não da luta de classes, mas do marxismo como teoria). para além do fato de o que a gente chama de ciência ser a crença dos nossos tempos (para alguns, claro), o marxismo tem essa coisa da ideologia, né. tanto que tem aquela coisa, a revolução decorre "automaticamente" da tomada de consciência; logo, ninguém realmente discorda, só não enxergou a verdade ainda. e dá-lhe aquele tom meio religioso, condescendente, do "eles não sabem o que fazem", quase sempre usado pra deslegitimar outros pontos de vista.
o que me leva a concordar 100% com seu último parágrafo. foda é professor que passa uma perspectiva - qualquer que seja ela - como se fosse verdade universal.
tô tagarela hoje (e talvez com saudade das ciências sociais).

- said...

A primeira vez que falei dele(Pondé) para um professor meu, ele logo disse que aquele era um conservador e outras coisas mais. De início, me assustei... Mas, cai na gargalhada quando vi na introdução da entrevista que ele deu a revista Filosofia(Conhecimento Prático), a completa noção que ele possuia de sua fama, no mínimo, inadequada que percorria por ai.

Não o considero um reformulador da lógica, até porque ele mesmo já afirmou em textos anteriores que 'Como não levo a razão tão a sério, não temo suas incoerências.'

Percebo Pondé, não como um intelectual que escreve sobre a vida, mas, como um homem que transforma o odor do humano em palavras. Pincelar os fascimos de hoje em dia, sem considerá-los "os males da humanidade", é coisa rara... Poucos os percebem, e aqueles que o fazem, consideram-nos como grandes aberrações.

Pondé se permite o luxo de se contradizer, o que muitos racionalistas estremecem de medo por ai...

Renan Carletti

r. silva said...
This comment has been removed by the author.
r. silva said...

Bom, não tinha todas essas informações sobre o Pondé. Mas isso que ele diz (conforme v. relatou, nunca li a tal revista) - de não levar a razão a sério - não é coisa que devemos levar a sério, penso eu. Se ele não a levasse, poderia testar se sobrevive à queda de um viaduto. Ele certamente prescinde da razão quando escreve, sobre a sociedade, sobre a humanidade, mas isto são escolhas pessoais. Particularmente, acho que ele encarna um pseudo-personagem quando abraça a irracionalidade; escrevi isso a ele e, na resposta, não se de ao trabalho de negar, não sei se intencionalmente ou por descuido.