11.2.08

Antero de Quental

Antero de Quental, líder da geração de 70, poeta, político, revolucionário, símbolo do realismo português, em 11 de setembro de 1891, em profunda depressão, suicidou-se com um tiro na cabeça, numa praça pública, romanticamente, com toda a ironia que este romantismo represente para um realista. E, coincidentemente, nestes dias de conversas sobre tanatologia, uma amiga me falou sobre o Parnaso de Além-Túmulo, um livro publicado em 1932 por Francisco Cândido Xavier. Melhor, trouxe-me. Recebi com o gesto de desprezo que o meu discreto ateísmo recomendava. E quando abri suas páginas... meu deus! Uma enxurrada de poemas psicografados pelo médium por volta de 1931. De Casimiro de Abreu a Augusto dos Anjos, passando por muitos nomes significativos da poesia luso-brasileira. Fui logo a Antero de Quental, Guerra Junqueiro e a turma toda que, enquanto vivos, viveu descendo o cacete em tudo, sobretudo em Deus. E foi impressionante.

O Remorso

Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.

Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!...
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: –

“Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo?”

Ele riu-se e clamou para meus ais:
“Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!”

Este soneto foi atribuído a Quental. Eu não sei o que gente que entende muito de literatura vai achar disso, mas pra mim, de significativo em termos de conteúdo, chamou-me a atenção a referência ao suicídio do autor e ao corvo de Edgar Allan Poe. Quanto à forma, é indiscutível a qualidade do soneto: vocabulário erudito, métrica perfeita, rimas ricas, talvez raras. Indubitavelmente Poesia. Quanto ao conjunto formado pelo livro, só sei de uma coisa: duvido, duvido muito que do alto de seus 21 anos de idade Xavier tivesse bagagem cultural suficiente para criar, sozinho ou com ajuda de amigos, algo tão engenhoso, poemas tão bem acabados e a um tempo tão singulares que nos permitem identificar realmente os traços estilísticos de um Castro Alves, de um Alphonsus de Guimaraens, de um Cruz e Souza. E embora isso não me tenha convertido ainda, confesso-vos que estou besta. Volto ao assunto quando concluir a leitura.

2 comments:

Fábio Babette said...

Treze almas, Chico Xavier, um blog espiritualista! Mas, sabe, gosto dessas histórias, gostava do Chico. E acredito em tudo enquanto leio, ouço... Depois, não sei. Mas o que importa é o durante.

r. silva said...

ainda que simpatizante do ateísmo, meu mapa astral diz que minha natureza anseia por elevados padrões religiosos e filosóficos a serem cultivados, então só estou colocando aqui algum fertilizante.