1.2.08

Uma história sobre histórias

O Cemitério São Pedro, situado na Vila Alpina, abriga, entre muitas histórias trágicas, um caso singular. Em 1974 treze corpos foram enterrados lado a lado. Eram parte dos 179 mortos do incêndio ocorrido no dia 1 de fevereiro, no Edifício Joelma. O que diferencia estas treze almas é o fato de que, por terem sido carbonizados, não puderam ser identificadas. Grande parte dos sobreviventes, mais de quatrocentos, escaparam do prédio em chamas graças ao elevador e aos denodados ascensoristas. Mas, após diversas idas e vindas, o sistema dos elevadores foi afetado pelo incêndio, causando a ruptura dos cabos e a posterior carbonização dos seus treze ocupantes.

Fui até lá esta tarde. Encontrei o seu João. Há mais de um ano, seu João, funcionário do cemitério, faz a manutenção do local, que além dos túmulos, conta com uma capela erigida em memória das treze almas. Uma infinidade de faixas, placas de mármore e flores rodeiam os jazigos. Na maior parte, agradecimentos por graças alcançadas. “Quem não acredita, que não caçoe!”, é o que adverte uma das devotas visitantes que encontramos no local. Já alcançou uma graça, tem fé que alcançará uma outra que necessita, e fala com a naturalidade daqueles que vêem a existência das coisas inverossímeis e a certeza de nosso desconhecimento da verdade. Uma outra senhora relembra o dia, quando tinha 17 anos e, trabalhando defronte ao edifício, viu e ouviu as cenas e os gritos de terror. Lá pelas tantas, lembra ao seu João que é importante “regar” os túmulos. Explica o porquê: quem morre carbonizado sente muita sede.
Então seu João percebe como tudo faz sentido. Conta-nos que, ao tempo em que era coveiro, sepultou uma criança cujos pais não tinham dinheiro. Assim, ele por conta própria plantou umas flores e, mal passou o tempo, já lá havia um pequeno jardim sobre a cova. Mas o fato intrigante é que, pouco tempo depois do sepultamento, um menino aproximou-se dele e pediu um copo de água. Seu João deu-lho. Mas era o mesmo menino que havia sido sepultado! Quando os pais finalmente voltam para visita, surpreendem-se com o túmulo tão bem cuidado, e ao descobrirem quem foi o responsável, alegram-se e conversam. E enfim revelam ao coveiro a causa mortis do filho: fogo.

Esta foi uma tarde que precisa ser refeita.

É claro que acredita quem quer. Mas há a lição de Alex Castro sobre uma de nossas prisões: que importa crer ou não crer? Boas ou más, crenças e descrenças sempre limitam as visões. E o que se colhe do contato com as histórias alheias, ou do além, é sempre a beleza da experiência humana, diversa, prodigiosa, incomum. E transcendente. Porque estas histórias estarão sempre acima das idéias e conhecimentos ordinários.

5 comments:

Alex Castro said...

pois eu sou ateu ateh a alma e fiquei arrepiado com a historia, adorei obrigado. eu nasci 2 semanas depois desse incendio.

Leco Vilela said...

Poxa vida, é uma coisa lógica o lance da água, mesmo a situação fugindo da lógica!... concordo com o fim do texto... Curti teu espaço.

carol said...

nada muito profundo a dizer, só que gostei do post.

r. silva said...

Legal, brigado, pessoal, às vezes a gente erra e acaba agradando. Agora, tem uma coisa sobre esse dia aí. O objetivo da visita lá ao cemitério era encontrar lá um zelador antigo do lugar, chamado Luiz, que concedeu entrevista prum especial do Linha Direta que até tá lá no youtube, sobre o Joelma, e no qual ele conta que ouvia gritos e coisas estranhas antes de habituar-se a jogar água pras almas. Chegamos lá e descobrimos que há cerca de um ano ele foi-se embora pra Sorocaba, e ficamos frustrados. E aí, conversando como quem não quer nada com o novo zelador, ele vai conta despretensiosamente sobre esse caso aí.

Anonymous said...

tinha 16 anos. era "office-boy" no 19º andar de um prédio na prestes maia. vi tudo de lá...nunca me esquecerei das labaredas que também mataram meu amigo de infância rosemar, funcionário do banco crefisul. até hoje relembro aquele triste dia 2 de fevereiro...me emocionou muito.