7.12.09

A necessidade da arte

Ernst Fischer escreveu um livro fabuloso: A necessidade da arte. Sua tese é que a arte tem um papel semelhante ao da ciência: desvendar o mundo. Este desvendamento da realidade é que permite ao ser humano trabalhar sobre ela. Em resumo, nos dois primeiros capítulos, diz que:

A arte, a magia, a ciência e a religião estavam em sua origem intimamente vinculadas. E assim vão permanecer, enquanto ainda estão integradas ao processo de trabalho e enquanto ainda não se percebem nitidamente as relações de causa e conseqüência. A antiguidade do trabalho iguala-se à antiguidade do homem, de modo que os instrumentos de trabalho foram fazendo o homem à medida que o homem produzia instrumentos de trabalho. Pelo trabalho, o homem transforma a natureza, adaptando-a a seus desejos e necessidades.

Como muitas outras espécies animais, aquela que viria a ser homem utilizava ferramentas. As ferramentas, porém, ocupavam um lugar diferente das que hoje utilizamos. Para cada ferramenta que possuímos, temos associada a ela uma função. Mas nem sempre foi assim. Somente após uma madura compreensão das relações de causa e conseqüência é que isso vai se tornar possível. A atividade cerebral primitiva permitia relacionar sensações, como a fome, à imagem de coisas que poderiam solucioná-las, como uma fruta. A utilização de um instrumento qualquer, como um pedaço de madeira, ajuda na obtenção do alimento, que está muito longe do chão, no alto da árvore espinhosa. O processo poderia ser esquematizado numa seqüência: sentir fome – ver a fruta – usar um instrumento. Vê-se que o instrumento aparece por último. A repetição deste processo, porém, deve ter levado a uma inversão, quando, ao ter o instrumento, houve a percepção de que ele tinha uma função: servia para colher uma fruta. Agora, o instrumento não aparecerá mais por último; é o início de um processo que tem agora um propósito; e a fruta e a fome poderão vir agora por último. A partir desta inversão, começa uma atividade consciente de transformação da natureza, denominada trabalho. As atividades terão um propósito pré-definido, associado a um instrumento com uma função específica.

Este instrumento de trabalho pode agora ser melhor escolhido ou até corrigido, a fim de se tornar mais eficiente. Outros materiais podem ser adaptados à condição de instrumentos, seguindo um modelo encontrado na natureza. Não é necessário esperar que eles apareçam: pode-se fabricá-los, imitando modelos já conhecidos. Um galho de árvore pode ser desbastado, a fim de se tornar semelhante a uma vara. Este processo chama-se imitação.

O homem passou assim a observar que certas características dos instrumentos, como uma vara maior ou menor, uma pedra mais ou menos afiada, podiam produzir resultados mais ou menos adequados a seus propósitos. Descobriu com isso as relações de causa e conseqüência e, por saber disso, passou a dominar conscientemente a natureza. Esta sua capacidade mágica de produzir instrumentos lhe dava poder sobre a realidade. Outra capacidade foi sendo ampliada também: a linguagem. O processo mágico de dar nome às coisas deu ao homem domínio sobre elas. Pela linguagem, podia comandar melhor suas ações, marcar lugares, árvores, rios, coisas. A ampliação da linguagem e o aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho permitiu um controle maior da natureza. E, em certo sentido, sua vontade, mediada pelos instrumentos que produzia, transformava o mundo, pelo trabalho.

A descoberta destas relações de causa e efeito, por muito incipientes que fossem, levaram, contudo, a conclusões erradas. O homem deste estágio imaginou que a natureza também podia ser transformada com o uso de outros instrumentos, mágicos; viu em sua vontade uma força extraordinária. Estendeu sua capacidade mágica ao limite. Buscou facilitar sua vida, usando a pintura, a dança, o canto, a fim de conseguir certos propósitos e, fazendo isso, criou a arte. Sua pintura nas cavernas, representando animais mortos, não pretendia, portanto, a mera representação; não tinha efeito estético; não se relacionava com a beleza; buscava apenas produzir um animal morto, com o qual poderia saciar sua fome. Mais uma vez, imitando a natureza, recriando-a, buscava atingir seus propósitos, explorando relações de causa e conseqüência que ainda não entendia bem. Assim, a magia e a arte permanecem vinculadas entre si e ao processo de trabalho, à medida que o homem acredita serem meios efetivos de dominação da natureza.

Isto é, com poucos acréscimos, o que ele diz. Esta linha de pensamento sobre a arte, porém, penso eu, vai trazer alguns esclarecimentos também para a ciência. Ora, o autor adverte que não seria nada inteligente que nós ríssemos das pretensões destes homens, pré-históricos, que usavam instrumentos inadequados, como figuras em paredes, para com elas conseguir alimento – e é isto que me interessou bastante. A pintura rupestre tanto podia ser uma tentativa de produção de um animal para consumo, como também uma espécie de ritual mágico que permitiria, pela figuração, facilitar a morte do animal quando estivesse o homem efetivamente a caçá-lo – na antropologia, não se sabe qual das duas possibilidades é mais verdadeira. O fato é que estes homens só estavam começando a conhecer o mundo. Para rirmos deles, teríamos que acreditar em duas coisas: primeiro, que já conhecemos completamente a realidade; segundo, que já não usamos instrumentos inadequados para adequar a realidade a nossos desejos. Tanto uma quanto outra crença seriam completamente falsas. Quantas vezes, hoje em dia, não vemos pessoas a pedir que Deus ajude nisso ou naquilo, como, por exemplo, arranjar um emprego? Todo aquele que faz isso não compreende bem como funciona o sistema de trabalho atual; e são muitos os que assim são. Se conhecesse, compreenderia que a atividade humana é, como todo fenômeno natural, regido por leis naturais; e que a oferta de emprego digno para todos depende menos de Deus que dos homens.

Uma contradição que Ernst Fischer aborda, porém, é a seguinte: os instrumentos, mesmo inadequados, acabam tendo um efeito prático, ainda que indireto. O homem que pintava adquiria mais poder sobre o animal que ia matar; a tribo que dançava conseguia acumular mais poder sobre a tribo inimigo com a qual ia lutar; o guerreiro ao entoar seu canto realmente assustava o inimigo. Conseguia efetivar melhor suas ações, porque acreditava que estava sendo ajudado. Até hoje isto continua. Os homens, porque não acreditam em si mesmos, precisam acreditar o tempo todo em outra coisa que eles não são para, só então, executarem as coisas que tão-somente a eles compete fazer.

Isto revela a ampla medida do nosso primitivismo. Há, porém, um elemento que piora tudo. A ciência durante muito tempo esteve a cumprir o papel de desvendar a realidade, bem como a arte. Hoje, de um modo geral, não fazem mais isso. Todo investimento em pesquisa é feito não com a intenção de produzir conhecimento, mas, sobretudo, com a intenção de produzir conhecimento que ofereça possibilidades lucrativas. Toda política estatal é diretamente influenciada pelas políticas das grandes corporações. Com isso, toda vez que algum ramo científico sai da linha e confronta o stablishment, e em vez de oferecer lucro questiona mesmo a existência do lucro, é automaticamente descartado, quando não perseguido. Não é à toa que muitas das relações de causa e consequência hoje precisam ser apagadas, ou intocadas. Hoje, de um modo geral, é baixíssima a produção de ciência. Isto explica também a baixíssima qualidade da arte pós-moderna. Em termos quantitativos, a imensa maioria daquilo que hoje se chama arte é, em essência, medíocre.

3 comments:

Luca said...

"Os filósofos têm se ocupado o tempo todo em transformar o mundo, sendo que realmente importante é transformar a si mesmo."
Lucas de Sena Lima

PPGCB said...

Os Filosofos após mudarem a si mesmos perceberam a importância de apenas mostrar aos outros o benefício da mudança.

r. silva said...

Já tenho cá pra mim que não há como julgar uma realidade que está para além do homem: a mudança. Não há o que questionar em relação a mudanças, se boas ou ruins, porque elas simplesmente são, e não podemos fazer nada. O mundo muda, as pessoas mudam. Se resistimos às mudanças, é aí que aparecem os problemas, na verdade o grande problema: se se tenta não mudar, entra-se em desacordo com todo o universo, natural ou humanizado, que é essencialmente mudança.