11.8.10

Estranhamento

Domingo fui passar o cartão de débito e não passou. Defeito na máquina, moço. Então, fui ao banco, pegar dinheiro vivo. Lá na agência, frente aos caixas, vejo uma cena que não me sai da memória.

Era uma pintura. Era a desolação humana, a melancolia, a prostração física e espiritual. Era Guernica mais O grito. Eram seres humanos mortos, desalmalizados.

É que os caixas eletrônicos também estavam parados. Com o sistema fora do ar, pessoas que encontrei, cabisbaixas, pareciam perdidas. Sem vida. Inda mais num domingo, lamentavam. Alguém tinha que pegá-las pela mão, apontar o caminho, fazer algo. E elas só não tinham dinheiro! Engraçado como essas cenas se nos apresentam e se reproduzem, com a naturalidade de um respiração. Quando alguém denuncia o quadro absurdo da nossa existência, cérebros automatizados ouvem entendendo bem mas olham vendo figuras inversas, como se aqueles é que estivessem fora da realidade. De fato, saímos dela - uma realidade cega -, ao olhar o que somos - cegos. E perdemos pouco. Porque nós construímos estas monstruosidades, que, embora inanimadas – neste caso, o dinheiro, mas em geral a mercadoria –, parecem ter vida própria, ou melhor, nossa vida.

Como um sujeito que, tempos atrás, após um acidente destruiu o carro. Tinha arranhões pelo corpo e mancava de uma perna, e chorava à beira da estrada, em criança. Repetia sempre: "Meu carro, meu carro..." Também vem a cena do sujeito no banco, bancário, com a arma na cabeça, a relutar sobre entregar/não entregar o dinheiro. E acaba entregando, que fazer. Os homens maus se vão, mulheres trêmulas, velhinhos nervosos. E o funcionário, ausente, olhando o chão fixamente, balançando duvidosamente a cabeça, distante, quando solta o que lhe vai na alma: "Isso vai dar um problema na contabilidade..."

Faz tempo que deixamos de caminhar, para seguirmos arrastados por forças que sem nós não existiriam.

1 comment:

Carol said...

adorei (o texto, né).