31.8.09

E agora professores das redes estadual, municipal, particular etc. perderam seus sábados até o fim do ano: a maioria das escolas anunciou reposição das aulas perdidas com a gripe. Inclusive a minha. E foi assim que eu disse à minha querida diretora que não topava.




P.S. Se fiz mesmo isso? Bom, na segunda passada, finalmente consegui entregar isto à sra. diretora, que é realmente querida. Após algum tempo, chamou-me para alguns esclarecimentos. Após uma conversinha nossa, acabei convencido de que a versão a ser enviada para a secretaria de educação deveria ser mais light, menos emotiva, por este motivo e mais aquele outro, de maneira que eliminássemos termos como "necessidade de ócio", "cansativa jornada", com alguma hipocrisia, sem tanto atrevimento e antíteses padrevieirianas. E foi o que fiz, na terça. Com que direito posso eu querer ser sincero, íntegro? Seria muita audácia para este tão primitivo estágio da história. E, outra vez, deixei de ouvir o que sentia para dizer somente o que raciocinava.

Sim, mesmo eu, que tento ser só o que sou, o que sou mesmo é um grande bunda-mole.

De qualquer maneira, não trabalharei aos sábados.

30.8.09

Tempo

Num momento quando já não tinha argumentos para explicar o absurdo que aos poucos vou praticando, um bom amigo me falou numa tal oposição entre cronos e kairos. Até nessa hora os gregos ajudam. Eles, realmente, pensaram em tudo:

Para os gregos, cronos representava o tempo que falta para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é kairos: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte!

Gostei muito de ler isso. Acho que começo a entrar numa fase espiritualista, embora cada vez mais crente no materialismo dialético. Vá lá entender.

24.8.09

Antropologia

Sábado, pus-me pra fora do abc paulista e fui à capital, até a praça Roosevelt ver os "120 dias de Sodoma". Não sei se fiz bem em revê-los. Fazia tempo que não passava pelo centro velho. E agora, além das crianças malabaristas, pirotécnicos, limpadores de parabrisas, mendigos enrolados em cobertores imundos – temos novos rituais de contato. Na esquina da Ricardo Jafet com a avenida do Estado, um menino de uns 11, 12 anos, antes do show, subiu na linha branca, olhou-me de frente, levantou a camiseta (só de camiseta num frio do caralho), virou-se de costas, voltou-se outra vez, baixou a camisa, fez um leve aceno com a cabeça e começou o espetáculo. Na Ipiranga com a Rio Branco, um morador de rua aproximando-se de um carro, de novo, mostrou ao motorista que não portava armas na cintura, e só então aproximou-se dos vidros sujos.

Andar pelas ruas é como travar contato com mundos os mais desconhecidos, etnias as mais diversas, costumes os mais estranhos, linguagens as mais absurdas, seres humanos os mais improváveis, relações humanas as mais desumanas. Fiquei perturbado sem saber como responder, ou não responder, se mostrar boa vontade, se me esconder, se expressar menos medo (expressei medo?), se corresponder à confiança, se duvidar das falsas amistosidades, se mostrar que não sou perigoso, dar a moeda, não dar a moeda, viver, morrer, viver, morrer...

Não é pra menos que a gente viva morrendo todo dia. Há muito tempo encena-se uma história da humanidade, com os mais horrendos crimes, hipocrisias e degradações, violentamente apagados pela alegria contagiante e final de quantos carnavais puder fazer a indústria. A gente demora a entender que não deve cantar a música.

22.8.09

Loucura

Um cara vai ao médico, preocupado. Sofre dores no estômago, o médico lhe diz que as causas, além de genéticas ou resultado de alimentação ruim, são agravadas por abalos emocionais, e o homem acredita mais nessa última explicação, tem ele percebido isso tudo, nesta parte do ano quando o movimento é mais intenso no trabalho, está mais estressado. Sabem as causas de sua aflição, ele e o médico, que lhe receita alguma droga. E combate-se o efeito, mesmo sabendo-se das causas.

Que é o homem, que é a sociedade, que é a existência, que é a matéria? Nenhuma pergunta sobre nenhum objeto poderá ser suficientemente respondida sem que se conheça suas origens, suas causas, sua gênese. Muitas das causas dos problemas que afligem um e outros são bem conhecidas, estudadas, comprovadas etc. etc. Mas não se combatem as causas. Só os efeitos.

Certa vez um professor questionou: "afinal, quem é realmente louco: nós ou os loucos?" Não entendi então. Mas agora vejo bem: a loucura é um dado meramente proporcional. Se num dado país a maior parte das pessoas forem loucas, os normais é que serão os loucos. Disso resulta que, num mundo inteiramente globalizado pela insanidade, aqueles que veem percebendo a essência das coisas só podem ser loucos.

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Update 1: Donde se conclui que a sabedoria popular tem de fato alguma sabedoria: "Não estude muito, menino, que isso deixa louco." Ouvi isso do meu avô tempos atrás. E eu só estava lendo a Bíblia.

Update 2: Mia Couto usou no seu Um outro pé da sereia uma epígrafe que há três anos atrás não só não entendi como recusei com nojo. Hoje, entendo tão bem que sinto dentro de mim:

Quem acha doce a terra natal ainda é um tenro principiante;
aquele para quem toda terra é natal já é forte;
mas é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estrangeiro.
A alma tenra fixou seu amor num único ponto do mundo;
a pessoa forte estendeu seu amor a todos os lugares;
o homem perfeito extinguiu o seu.
(Hugo de Saint Victor, monge saxão do séc. XI)

21.8.09

Burrice ortográfica

Quem um dia ler Eça de Queiroz (A cidade e as serras), quando chegar em:

"Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cenáculo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a espingarda de agulha que vencera em Sadowa e fora o mestre-escola quem vencera em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição."

ou vai chegar ao final, compreendendo bem a desconfiança no positivismo, ou, mais burro, como eu, vai se demorar muito, perdendo tempo e vida, empacando (como sói ocorrer aos animais híbridos) naquele pedaço vermelho, em que flagrantemente Eça errou a sintaxe, devendo-se escrever "a quem" em lugar de "quem". Na verdade, o problema todo está na leitura dos dois "fora" que aparecem: sei lá por que(1), li cinco vezes como 'fóra', quando o certo é ler como 'fôra'. Culpa de quem? Minha, que sou burro e não sei das batalhas do XIX. Mas também das reformas ortográficas, primeiro da que tirou o circunflexo desta forma verbal; em segundo, desta última de agora, que também não pôs de volta. E agora Eça já não tem mais culpa, restando os xingamentos para a secreta ligação que une revisores, editores, copidesques, donos de editora e ministros da educação em geral. Aliás, essa reforma foi só mesmo pra realimentar o mercado editorial. O melhor da minha burrice não foi ter chegado ao entendimento só na sexta leitura, mas principalmente perder tempo fazendo um post, que não vai mudar nada. Também, só de burrice, daqui pra frente vou escrever sempre "fôra" erradamente, com acento e tudo, pra me conformar comigo mesmo.

1 - Na verdade, sei, e a razão se deve à combinação de duas circunstâncias: o pretérito mais-que-perfeito simples em geral não é falado, e só raramente escrito; no caso do verbo "ser", é muito mais usado o homônimo advérbio "fóra".

15.8.09

Fora, Sarney!

Taí uma coisa que eu não faço mais. As pessoas que vão pra Paulista, talvez pensem que fazendo isso estão consolidando os valores democráticos e dando um basta à corrupção, como se a corrupção estivesse encarnada em Sarney, como se não fosse estrutural. Por que será que a Folha, o Estadão, a Globo – tudo que é jornaleco não param de falar na corrupção no Senado? Não há corrupção na Câmara? Dizer que a mídia é golpista é demais, mas não dá pra negar que é poderosa e tendenciosa. Mesmo assim, a sociedade pauta suas lutas a partir daquilo que é notícia, sem ponderar que a imprensa recorta um fragmento do mundo, apenas um fragmento. Mas... e o que não é notícia? A concentração de renda, a exclusão e o engodo chamado democracia – baseado em voto, passeatas na Paulista e abaixo-assinados, que nunca resolvem nada – são problemas muito mais graves, mas como não são notícia (nem podem ser, porque fragmentadamente isso não é visível, e mesmo quando noticiada a coisa é vista pela conservadoríssima concepção epistemológica de que o mundo é estático e, além do mais, o modo mais apropriado de ver o movimento é a dialética, e quase ninguém mais lê Heráclito) ... mas como não são notícia, ninguém reclama mais disso. Virou a coisa mais normal do mundo.

Outro dia apareceu uma cidade do Sul aí que, por causa da gripe suína, mandou fechar tudo que era restaurante e boteco, só alguns casos especias puderam abrir. Mesmo os que abriram, reclamavam do fraco movimento: "As pessoas estão com medo de sair de casa, esse mês fecharemos no vermelho, prejuízo, prejuízo." Em nenhum momento alguém lamentou o desperdício de comida que isso representou (e que ocorre em todo restaurante até em situações normais), porque, quando a visão do tema é fragmentada, isso não tem muita importância, nem relação com a fome de outros lugares. Vou assistindo sempre que posso a tevê Senado, agora fazer alguma coisa, tô fora. Fazer o quê, se estamos todos cegos, sem saber o que fazer. E agora a culpa toda é do Sarney, ele é a maior afronta à democracia e à sociedade?

Engraçado ninguém ter dado bola pro caso da PROIBIÇÃO da "marcha da maconha", quer atentado maior à democracia? Proibiram uma marcha! Os maconheiros também são bem burros: é claro que o Estado não vai permitir tão fácil a legalização desse tipo de drogas. Cada lei que for extinta, é a negação de Foucault, uma razão a menos pra existir polícia e outras tantas mais pra não necessitarmos de OAB, Porto Seguro, Cadeados Papaiz e deus sabe que mais ramos industriais. De qualquer maneira, essa é a democracia. Ah, me poupe dessa farsa.

10.8.09

Sobre o PLC 122/2006

Algumas pessoas conseguem explicar as coisas mais complicadas com as palavras mais simples. Não sei como alguém que leia isto honestamente não possa se colocar ao lado do autor. Pra que a humanidade se liberte do seu maior algoz: ela mesma.

6.8.09

Acordei sem sono, eram duas da manhã. Tinha ido dormir cedo, mas nunca tenho muito tempo para dormir, e continuei de olhos fechados, insistente até quando não deu. Quando os abri, vi pelo vidro o balançar dos galhos mais altos de um árvore cuja espécie não sei, tem uns 70 metros de altura, e o vento faz barulho ao mover cada folha de sua copa. Devo morar perto de área de mananciais. E fiquei me perguntando por que não dormia, em vez de constatações inúteis e perigosamente bichogrilosas. Mas logo vi que o céu estava estranhamente claro, coisa rara na cidade, lembrava-me os céus da infância, claros, estrelados, alumiados da lua, tão perto agora. Era um céu escandalosamente decifrável, apesar das nuvens, via-se tudo pela janela. Havia a lâmpada de 500 watts fora do prédio, mas só ela não faria tanto. Distingui vida em cada caule de árvores, vi o branco da nuvem, o azul enegrecido do céu de espaço a espaço. Era um milagre. Abri a janela e percorri o olhar pelo espaço a procura do disco voador, mas não vi nenhum. Só ouvi os metais dos grilos, a sinfonia dos sapos, cães viralatas latiam de tempo em tempo. No mais, o silêncio. Grande. E quis pôr tudo abaixo. Se tivesse o poder de Pyongyang teria mandado tudo pelos ares, detonaria não só minhas ogivas nucleares, mas também as adversárias. Por um momento achei que o planeta viveria melhor sem os humanos.

Mas logo me interrompi. Que pensará o planeta sobre melhor e pior? Que é, de fato, a paz, a tranquilidade e o silêncio das duas da madrugada depois que o último ser humano dorme? Que é vida? Nada, quando tudo dorme. Nada tem importância, senão para nós mesmos acordados. A medida do tempo, a transparência dos cristais, os nomes da fauna e da flora, as medidas do espaço, a demarcação das áreas, as fases da vida, a memória, o homem na lua, a eletricidade, as cores, a aerodinâmica das naves espaciais, a constituição carbônica dos alienígenas, a diplomacia, a bomba atômica, o poder, a verdade. Tudo, absolutamente tudo, das estrelas aos micróbios – é algo que jamais saberemos. Porque toda vez que olhamos estrelas e micróbios não estamos vendo nada além de nós mesmos. O mundo tal qual é deixará de ser nos primeiros movimentos do cosmos, da physis, do universo – sem os homens.

29.7.09

A mãe

No dia 29 de julho, exatamente às 19h47, entrei na cozinha, encontrei minha mãe e perdi algo. Seria um encontro qualquer, mas havia alguma coisa, ela olhou-me sorrindo e enquanto via os dentes, contou-me algo importante e feliz; agitava as mãos abertas no ar. Deus, fossem só sorrisos e mãos... havia brilho nos olhos. Um choque de anormalidade, olhei percebendo bem, alegrias tornando-se estranhas. E resisti ouvindo dois minutos, vendo o que nunca tinha visto, sentindo um estranhamento, um nó na garganta, sabendo a incomum alegria depois das comuns tristezas, e veio a lembrança, de todas a mais velha – e enquanto no chão perguntava sobre o mundo, ela muito alta e jovem explicando –, vi também rugas em seu rosto, vi em seus dedos as marcas do tempo, vi em seus olhos agora pequenos tanta felicidade... Perdi alguma coisa, pensei, pela primeira vez perdi algo realmente importante, como um Paulo Honório que diz, braços sobre a mesa – estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente. Disse qualquer coisa e fugi perturbado ao meu quarto, um aperto no peito. E senti-me no tempo, inteiro, impotente, só. Chorei um choro delicioso e trágico. Devo ter soluçado alto, ela escutou, as mães se preocupam, abriu a porta, indagou se tudo bem. Estava, estava tudo ótimo. Fiquei bravo, então um homem não pode chorar em paz? E essa mania de abrir a porta... Além do que, um homem chorando é sempre patético, não expliquei, ela saiu, nem poderia explicar, porque voltava à minha verdadeira situação, só outra vez. Chorei dez minutos mais, sentindo a verdade, sentindo-me bem, sem saber por que tanto desgosto, por que tantas lágrimas, sentindo-me o mais patético dos homens, sentindo-me mal, sem saber o que fazer, sem saber o que perdi.

26.7.09

Fome

Era uma quinta-feira. Tarde-noite. Chovia. Estava no caminho quando ela me ligou e avisou do atraso. Senti fome: quis muito umas esfihas. Tinha ganhado um tempo, então parei e comprei quatro, e enquanto ia comendo fui gostando o gosto do limão, e olhando o verde do limão, ah...., quis de todo coração uma caipirinha, tinha fome outra vez, mas a fome agora era outra. E já estava na segunda dose, e a vodca nunca foi tão boa, e enquanto ia bebendo, ah... quis beber para sempre... Tinha uma grande fome de beber, mas era diferente, a fome agora, sendo outra, era uma fome de viver. Mas lembrei que amanhã trabalhava. Senti raiva. E enquanto o meu ódio crescia, foi aparecendo despretenciosamente, agora devagar, agora como um raio, um pensamento pequeno e agora ligeiro: e se eu roubasse? Quis muito ganhar sem trabalhar, quis muito prazer sem esforço, quis muito viver sem morrer. A fome agora era outra.

22.7.09

Passei três longos anos sentado em minha cadeira, digitando em meu teclado, olhando em minha tela, dobrando meus joelhos. Sob a escrivaninha, havia um compartimento tipo prateleira, onde incialmente deixei o estabilizador e a quem lentamente fui juntando uma biblioteca de livros insossos, cds inúteis, apostilas velhas, pastas, envelopes e um nunca mais acabar de papéis, textos, fanzines, correspondência bancária, publicidade e muita poeira. Um dia, a prateleira caiu. Ainda tentei voltá-la ao lugar, calcei com caixas, tomei cuidado, rezei – tudo em vão. Estava inflexível. Saiu. E agora posso esticar minhas pernas, endireitar a coluna, encostar meus pés cansados na parede. De fato, só vemos a ruindade das coisas quando as perdemos. Também por isso damos talvez tanto valor a nossos cães, casas, carros, empregos, vidas, amigos e parentes.

24.6.09

Se o universo é feito de música e se, como você afirma, as pessoas são mesmo poemas, me mostre: o que é a poesia?

1.6.09

Felicidade

Agora, ultimamente, tem me aparecido uma sensação vaga de tranqulidade e calma, que se confunde com felicidade, mas que não resiste muito. É aparecer e me incomodar, o que me faz perguntar de onde essa sensação vem, e isso eu sei bem, mas não sei o que ela é. Porque é sempre franzir o cenho, como quem enxota um cão intruso, e perceber que essas sensações boas só derivam de eu estar vivo, e relativamente livre (porque relativamente só), e somente. De resto, é o mesmo inferno que sempre foi.

Preciso trocar de emprego. Odeio adolescentes, definitivamente (ou pessoas, o que dá no mesmo). As contas estão sempre fechando o mês vermelhas – consumismo filhadaputa e inútil. Não ganho na megasena. Não declarei ainda o imposto de renda. Não leio mais meus livros queridos. Não tenho tempo nem saco de ler pras aulas de sociologia e política. Não tenho tempo de apagar emeiols. Não tenho tempo de pensar. E, pra completar, errei a declamação de um poema ontem, sábado, numa feira do livro: quis morrer. Que merda! Que poema filhadaputa do Drummond! Desaparecer assim da memória, com todo mundo olhando...

Também não jogo mais essa porcaria da megasena. E nunca mais declamo poemas. Idéia besta.

Agora só falta o problema das pessoas, das contas, dos impostos e das insuficientes 24 horas do dia. Ora, quem disser que é difícil viver ou ser feliz, simplesmente não nomeou direito seus problemas.

28.5.09

Lembrete sobre duas coisas:

1. A cultura da paz é, com certeza, o pior dos valores dos nossos tempos. Capitão Nascimento não é tão irracional quanto nos quer fazer parecer nosso bom senso. Ele tem razão num ponto: a hipocrisia é não só a base da nossa organização social globalizada, mas também a base do que nos constitui como seres humanos modernos. Pregando as vantagens de uma cultura de paz, dias atrás é que me dei conta da contradição que existe nisso. Precisei ouvir de uma quase criança de 12 anos que, na verdade: "v. diz que a violência não é o caminho, porque não pode dizer outra coisa; a gente entende; mas sabe que v. não acredita nisso; porque quem leva um tapa na cara, devolve; todo mundo faz isso." Pior que é verdade. Então, por que diabos continuamos a defender a paz e a justiça. Deveríamos defender sim a justiça e a paz, mas sabendo que justiça e paz não prescindem de violência para se concretizar. Não se chega à paz pela paz; chega-se à paz pela guerra, como diz o velho ditado. Então, se é mesmo isso, para que continuamos a dizer que a violência não é o caminho, quando a violência se alastra de diversas formas pelas famílias, pelas ruas, pelas diferentes classes sociais e principalmente na relação entre estas? Sim, mesmo a nós, que nos consideramos politicamente desalienados, críticos e transformadores, mesmo a nós, invisíveis, vêm ter conosco valores alheios que entranhamos e reproduzimos sem o perceber. A cultura de paz nos chega pelas escolas, pela TV, pelos jornais, pelos livros – em uma palavra, pelo Estado. Estes valores não pertencem aos cidadãos – ao contrário, os pais comumente dizem aos filhos: "não bata; mas se apanhar, não apanhe queito: reaja sempre." Então estes valores só podem pertencer àqueles que, estando no poder, controlam o Estado. É evidente que se fosse incentivada uma cultura de violência contra às injustiças, mais cedo ou mais tarde se veria que a maior delas é uma organização social em forma de pirâmide, que permite a uma pequena parcela dominar a imensa base que a sustenta, com métodos tão ou mais violentos quanto os do passado, disfarçados sob um manto de hipocrisia, que lentamente vai se assentando e se escondendo na névoa polifônica do nosso século – cuja complexidade, porém, permite-nos vislumbrá-lo em toda a sua extensão com uma simples figura geométrica.

2. É uma grande besteira depositar na escola a esperança de melhora do mundo. Enquanto ela não se dispuser a construir uma visão conjunta da realidade, a partir de alguma ciência antiga ou inédita que congregue e rearticule os conhecimentos básicos entre si – a fragmentação do saber em disciplinas inúteis, a separação das pessoas em individualismos nocivos e a divisão da humanidade em classes sociais perdurará indefinidadamente. Dos que possuem formação para atuar no ensino fundamental, só professores de história e geografia parecem dominar mecanismos de entendimento e explicação coerente do estado do mundo. Dos professores de história e geografia que existem, é ingênuo supor que todos tenham vontade ou condições de ativar todo seu aparato técnico na construção de situações reflexivas de aprendizagem de mundo; se excluírmos aqueles que possuem formação ruim, sobra uma parcela insignificante. Dos professores das outras disciplinas, majoritários, pode até haver vontade ou condições efetivas de explicar o mundo; mas, se lhes sobrar vontade (o que já é pra lá de duvidoso), faltar-lhes-á sempre formação específica e aparato técnico. O que em grande parte explica por que nunca vi um professor de matemática usar um triângulo para associá-lo à sociedade ou ao mundo. O que explica também por que grande parte da matemática e a totalidade de muitas outras ciências, como a gramática, a química ou a física, parecem aos alunos não ter aplicação prática alguma. O que mostra como o positivismo, que no XIX fragmentou o conhecimento, serviu aos interesses da elite, criando – mais que uma divisão do saber – divisórias de pensamento, tapumes da visão... antolhos. O positivismo, se Durkheim não se contentar com ser o criador do melhor dos chicotes, é talvez a mais engenhosa das criações humanas. Os seres humanos, quando no ócio, quando desatrelados do fardo que puxam, quando caminhando pelo mundo – já não olham mais para os lados.

Daí hoje se acreditar, principalmente no Brasil, que direita e esquerda não existe.

E quando olham para o amanhã, para a frente, para o futuro – já nem veem a natureza da ordem que o progresso exige. Ficam obviamente excluídos dessa cegueira nova os que naturalmente já não viam pelas doenças antigas (não há muita diferença entre um camponês medieval e as contemporâneas classes D e E): os cegos antigos (que sofrem o presente) culpam os malefícios do progresso, e vivem a reviver no presente o passado; a maior parte das pessoas que veem, como já se disse, não vive mais no presente: escolheu pensar no futuro. E isso é que é assustador. Porque, se se pensar bem, passado e futuro, na realidade, não existem; são só abstrações.

2.5.09

Em um episódio dos Simpsons, após presenciar uma catástrofe cinematográfica, causada pelas mais inesperadamente vis motivações, o diretor Seymour Skinner, com um riso a um tempo discreto e saboroso, sentenciava lentamente:

– Essa humanidade...

De tempos em tempos me vêm à mente esta cena.


16.4.09

Igreja

Eu não tinha dado muita bola pras críticas do Joseph Ratzinger ao Nietzsche, mas de tanto falarem acabei indo lá ler a notícia no Estadão, de 10 passado. E até por ser Nietzsche um filósofo que cria instabilidades para os valores, perigoso, portanto, para a religião, continuava não vendo ali nada de anormal ou inesperado por parte da Santa Madre Igreja. Até que duas pessoas especialmente, e reproduzo a seguir ideias delas, me alertaram para o fato de que o discurso do Bento é uma puta de uma gafe, e por dois motivos: a) criticar Nietzsche objetiva, na verdade, exortar os fiéis a não o lerem, o que, no fim das contas, é um tiro pela culatra – proibir é estimular; b) esta proibição é anacrônica, medieval e, epa!, lembramos que Bento XVI antes de ser papa era prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, um nome moderno para a Santa Inquisição.

E aqui no Brasil sabe-se que a expulsão de Leonardo Boff da Igreja tem um agente: o atual papa. Sua Igreja continua a mesma Igreja. E sobrevivem em nosso XXI os mesmos preconceitos, fantasmas, obscurantismos, misticismos e autoritarismos contra os quais se rebelaram os iluministas no XVIII. Deveríamos reviver Voltaire para vê-lo de novo dizer, Não concordo com nada... Ou não. Talvez nem precise. Porque essa coisa toda, de ouvir o outro lado, já criou raízes tão profundas em nosso modo de pensar, que mesmo entre os crentes há com certeza uma parcela que desobedecerá o interdito.

15.4.09

Estado

Se o Estado é tão somente uma máquina destinada a amortecer conflitos, a manter a ordem, a mediar interesses antagônicos, a minimizar os efeitos da desigualdade social, a possibilitar a dominação de um grupo de pessoas por outro grupo de pessoas, não é surpresa nenhuma que Protógenes Queiroz seja afastado de suas funções. A polícia federal, como parte de uma força especial armada com os impostos saqueados pelo Estado junto aos súditos, não foi criada para reprimir o grupo dominante. Esta anomalia está completamente fora de suas atribuições e, embora não pareça, isto é sério. A valer este raciocínio, Fausto Martin de Sanctis e Rodrigo de Grandis são os próximos.

11.4.09

Adriano

José Geraldo Couto mandou bem. Não é todo dia que caderno de esportes faz a gente pensar. Sobre o Adriano, imperador e tudo, ter decidido parar de jogar futebol e ganhar milhões de euros, chocando-nos a todos com tão grande e dupla perda (se bem que, pra mim, a perda maior é dos milhões mesmo; o Adriano é que nem aquele Luizão que vestiu a camisa dos quatro grandes de Sampa: faz gol, e ponto.), ele escreveu hoje na Fôia que:

Pululam as explicações fáceis, as respostas automáticas: é dor de corno, depressão, muita droga, birita, falta de estrutura, burrice pura e simples. Seja qual for a explicação mais convincente, Adriano criou um fato.

Tomou uma atitude inesperada num mundo de reações tão programadas e previsíveis. Foi na contramão da corrente hegemônica, desafinou o coro dos contentes. Seu gesto inquieta e perturba porque, na sua aparente irracionalidade, nos faz questionar a lógica absurda que comanda nossas vidas.

O leitor que acompanha ou suporta esta coluna sabe o quanto valorizo o lance que destoa: a furada, o frango, o erro. Deslizes que iluminam, que sobressaltam, que acordam. João Cabral de Melo Neto dizia que, em sua poesia, evitava "embalar" o leitor numa música que o fizesse deslizar como quem roda por uma estrada bem asfaltada. Preferia construir um caminho de pedras que, com seus solavancos, levasse o leitor a despertar.

Mal comparando, uma atitude como a de Adriano equivale a uma canelada, um tropeção, uma pedra com que se topa no meio do caminho. Quem quiser que se defenda do susto respondendo com as frases feitas citadas lá em cima. E quem tiver coragem que encare o Adriano que traz dentro de si.

3.4.09

O dilema das casas blindadas no Rio de Janeiro

"Es el eterno dilema: adaptarse ante la realidad de la violencia cotidiana, blindando a las favelas con muros y construcciones búnker o luchar sin cuartel para expulsar de ellas a los narcos que han creado en ese mundo marginal su imperio, sus leyes y su poder."

Juan Arias deve estar brincando. Achando que o dilema se reduz a isso, ou não conhece o Brasil ou não conhece o mundo.

31.3.09

Rachas

Certa vez, ao encontrar um amigo petista com quem há muito não falava, lá pelas tantas perguntei assombrado:
– Mas você ainda está no PT?
Isso foi mais ou menos na época em que o partido expulsou algumas pessoas, e alguns novos partidos foram criados. Ele respondeu que estava. E que não sairia. E não saiu. Sair para quê? Fundar um novo partido?

Pensando bem, hoje eu não faria a mesma pergunta. E tomei convicção disso depois de ver um cartaz de um certo movimento chamado "A plenos pulmões". A primeira vista parecia um movimento político em prol do esporte ou do bem-estar físico, etc. Mas não. É um movimento genuinamente político, ou seja, em prol de causas sociais. Depois descobri o que o originou. O caminho, segundo me disseram, é mais ou menos o seguinte:











Não sei ao certo o que ocasionou todo esse tortuoso caminho. O certo é que: 1) os trotskistas têm acumulado uma vasta experiência em parar e voltar à estaca zero; 2) quem é petista deve estar ainda no PT. Puto da vida, mas ainda lá. Ainda atuando. Ainda a caminho. O que nos faz pensar a quem faz bem aqueles rachas todos.

O que nos leva à pergunta inevitável: havendo um novo racha, conseguirá o organismo sobreviver com apenas um pulmão?