25.1.07

Ritual

À meia-noite duma noite quente, lia numa antiga Seleções o registro de uma tradição oral pré-colombiana que havia sido recolhida por Mário de Andrade, na Amazônia peruana. A matéria trazia fotos de pés pintados que, afirmava-se, eram de Macunaíma. Fui lendo interessado, pois não sabia que eles tinham passado por outros países sul-americanos, e quando notei fui alucinogenamente inserto no ritual descrito pela lenda. Invocava a deusa Inanna e dançava pedindo fartura na colheita:

Eh, terra de Inanna

Eh, eh, terra onde corre leite e mel

Eh, eh, eh, adoçai minha boca, minha terra

Fiquei meio desconfiado. Mas fui seguindo fielmente as instruções, dizia-se que era preciso repetir a dança três vezes, cantando, sob uma palmeira-anã. Fui dizendo aquele mantra, e o curioso é que comecei a acreditar naquilo de repente e de repente: choveu torrencialmente sobre minha cabeça, do alto da copa da palmeira, leite, mel e abelhas. As abelhas eram mansas e não picavam. Fiquei assim, entre incrédulo e melado, e fui repetindo novamente o ritual, porque ainda não havia chegado à terceira vez e tive medo de desagradar aos deuses e abelhas, e vacas eventuais:

Eh, terra de Inanna

Eh, eh, terra onde corre leite e mel

Eh, eh, eh, adoçai minha boca, minha terra

E antes mesmo que pudesse chegar ao último verso, fui violentamente trazido para o meu quarto e tudo que vi foi a escuridão da noite. Ri aquele riso safado, zombando da credulidade dos nativos e camponeses amazonenses que preservaram oralmente esse ritual. E ainda ri do Mário, que foi escrever. Ham! E, quando ia caminhando à cozinha, pouco antes da porta, fui tragado pelo solo, agarrei-me desesperadamente ao criado-mudo e assim fiquei, enterrado ao chão até o peito, e só a muito custo pude soerguer-me. Fui acender a luz. Escuro. Fui pra sala. Escuro. Nenhuma lâmpada funcionava. Tive calafrios e comecei a pressentir a ocorrência sobrenatural do incompreensível. Resolvi sair do apartamento. Abri a porta e, assombrado, tive a visão translúcida de uma realidade nova: a parede, ao lado esquerdo dos umbrais, exactamente onde o sulco da fechadura encerrava minha segurança, abria-se e ia, formando duas retas semi-paralelas que se afastavam gradualmente e deixavam-me entrever, entre elas, um abismo, um espaço inexplorado nas minhas cotidianas passagens e, dentro, lá estava a mesma escuridão do quarto. Fui falar com o síndico: expus minhas desconfianças e ele disse que faria uma reunião em caráter de urgência. Achei esquisito. Era já madrugada: duas horas. Vieram mulheres evangélicas. Vieram céticos. Vieram espíritas. Vieram materialistas. Veio a desgraçada da dona Hermínia, do 98. Conversamos. E ficamos toda aquela madrugada tomando café e descascando feijão, contando histórias, rindo, naquela sala ampla do térreo, onde ocorriam as reuniões. O feijão havia sido doado ao condomínio, mas não estava descascado, não sei por que, desconfio de negócios mais escusos que esse nesta gestão. “Cavalo dado não se olha os dentes”, foi a desculpa. Então, fizemos uma roda em volta dum lençol sobre o qual pusemos as vagens, e cada um puxava um pouco para si, junto à borda. Era fácil descascar feijão com os vizinhos, contar histórias e tomar café, e por um minuto a desconfiança riu sarcástica para minha alma, até que um reincidente calafrio caminhou lentamente nalgumas frações de segundo por minha espinha, e senti carnalmente que já havia vivido, falado, recordado, sentido e comemorado tudo aquilo antes. Déjà-vu. E só-deus-sabe como tardou o amanhecer.

2 comments:

Roberta Navarro said...

Como sempre, seus textos estão maravilhosos!!!
Se tenho um orgulho verdadeiro na vida, é ser sua amiga e poder compartilhar com você tantas idéias lindas e brilhantes.
Quem dera o Brasil fosse feito de brasileiros como você! Consciente e corajoso!

Um grande beijo de uma amiga que te ama,

Beta

roque said...

Bom, Beta, v. sabe que em público eu não gosto muito nem de sexo nem de amor, v. sabe que, em público, eu só quero ouvir "reclamassão"... masss, muito obrigado, querida, te amo, o beijo vai pra minha mãe, pro meu pai e especialmente pra você!!!