14.1.08

Isadora Ribeiro de Alcântara

Isadora Ribeiro de Alcântara, 32 anos, dentista, tinha uma angústia, uma aflição, um diabo dum negócio que apertava a garganta. Daí que hoje, chegando em casa, não guardou compras, não tirou sapatos, não checou emeiols, não alimentou a calopsita, não tomou banho, não deu aquela cagada, não nada. Caiu-se no sofá, e foi pensando naquelas indecentes marcas de batom encontradas ontem à noite na cueca do marido. Que obviamente não eram dela, ora. Tinha tanto horror a sexo oral, que não facilitava, e ia mantendo seus lábios sempre acima da terceira vértebra lombar. Alegava motivos religiosos, mas a desconfiança do marido, e minha também, é que assim ganhava terreno na defesa de seu próprio cóccix. Quando ele finalmente chegou da faculdade (era professor), pudera!, estranhou aquele desmazelo: “Amor, tá tudo bem?”, “Hein!”, e levantou-se sobressaltada, baixando a saia que subira até a cintura, “Sim, cochilei”, foi o que respondeu, e mais não disse, foi levando pra cozinha as porcarias congeladas que tinha trazido. O marido que preparasse a janta, ele adorava cozinhar, isso todos sabiam. Jantaram em silêncio. Dormiram.

No dia seguinte, que seria amanhã, mas como chegou agora fica sendo hoje, Isadora acumulou funções, obturando dentes e planejando uma vingança cheia de inteligência, cálculo e acessórios digitais, no que resultou em algumas gengivas cortadas e na obturação de um dente que não precisava. Quando despediu-se do último cliente, que sentia estar com a boca torta (e estava mesmo), o telefone tocou, e era ele avisando que precisavam conversar em tal lugar, mais para ali, entrando à esquerda depois daquele motel, fazendo um gato pra pegar o retorno e outras infrações que ninguém multa, nem mata ninguém. Foi. E lá ele confessou ter um caso e querer o divórcio. Era só o que faltava. E Isadora passou anos a se perguntar de onde teriam vindo as marcas de batom, já que, como depois veio a saber, ele tinha mais era ido morar com um aluno por quem se apaixonara, menos pelas idéias brilhantes do que pelo corpo adolescente e os ideais de ateísmo e revolução social. Tão românticos e belos.

8.1.08

Para esquecer

Ontem acordei com pé esquerdo, outra vez. Inacreditável: furtaram-me um livro enquanto sacava grana no caixa. Pra ser exato, um livro, uma agenda novinha e os três números da versão tupiniquim de Ex Machina. Mas o pior é o livro: a leitura pela metade, meu deus. Uma mistura de angústia crescendo pelo peito, queimando as fossas nasais, olhos que se umedecem, vontade de chorar, e uma raiva dos diabos. Porra, roubar livro, a que ponto chegamos! Inda bem que hoje já foi melhorzinho.

Mas... o que ninguém me tira da cabeça é que podiam ter me roubado a carteira, ah bem que podiam, sim senhor. Mas não. Já não querem nossas carteiras; agora, querem nossas almas.

4.1.08

Microconto roubado da página 73 da História do Cerco de Lisboa

Fizeram-no passar para a sala de espera da direcção e ali o deixaram ficar mais de um quarto de hora, o que serve para demonstrar a vanidade de temores que pouco têm de pontuais.

3.1.08

Micros

Difícil levantar: acordou, sentiu o sol, até ouviu automóveis, mas não conseguia ver nada. Aí lembrou: morto. Cemitério da Consolação.

2.1.08

A cretinice, os internautas e o problema em se ter amigos

Eu tenho que falar. Há um grupo de pessoas que são, decididamente, imbecis. Sua incapacidade não se deve a uma perturbação do desenvolvimento físico, considerando a quantidade de emeiols cretinos que elas conseguem enviar por dia, nem tampouco intelectual, já que sabem exatamente o que estão fazendo. Sua idiotice é, antes, uma consciente escolha, uma decisão, e é por isso que são decididamente imbecis.

Surgiram no Brasil na segunda metade da década de 90. Primeiro, por emeiols, espalharam sua estupidez em correntes, burrice lúdica que consiste em gastar o tempo fútil dos néscios. Contudo, sua maior contribuição foi, paradoxalmente, filosófica, quando, num atentado à religião, suscitaram dúvidas metafísicas tais como “Terá acesso a emeiol a Virgem Maria, para me castigar, caso eu não repasse essa mensagem?”

A palurdice não se restringiu a superstições fundadas em espiritualidades toscas. Não tardou assomar às caixas de entrada emeiols com eslaides anexos, marcados por algumas dezenas de encaminhamentos. A literatura e pintura kitsch nunca tiveram tanta força. Ilustrando paisagens bucólicas, mensagens bestiagas, ababosadas, extraídas de livros de auto-ajuda, principiaram a atoleimar a rede mundial. E as pessoas iam lendo aquelas porcarias sobre o amor e cultivando o ódio por aquelas planícies, cachoeiras, naturezas-mortas.

A canalhice era evidente. Logo ficou claro que aquilo que vinha nos anexos, de autoria duvidosa, em nada correspondia à sinceridade do remetente. Muito poucas vezes havia algo de sua autoria expresso nestes emeiols. E quando havia, restringia-se a algo como “Muito legal!”, apenas. A superficialidade de tudo é que é ainda mais flagrante. Somente o sentimentalismo débil justificaria a reunião artificial de diversos destinatários num mesmo emeiol expressando os mais altos votos de urbanidade, a cada dia, a cada semana, a cada mês. De resto, uma tontice.

Depois, na década primeira do século XXI, quando descobriram o orkut, a toda sexta-feira alguém deixa um scrapt: “Bom final-de-semana!”. Que é pra começar a estragá-lo. É claro que eu não vou dizer tudo isso aos meus amigos que gostam de receber e encaminhar emeiols, porque, embora não pareça, eu gosto dos meus amigos. Mas daqui pra frente, quando eu estiver puto com eles, venho aqui e desabafo. É isso.

Agora, pensando bem, eu também acho que, se tenho amigos assim, o problema talvez seja só meu. Lembrete: rever os critérios para aquisição de amigos.

19.12.07

Luiz Biajoni e o Sexo Anal

Se v. ainda não comprou presente de natal, se gosta de ler e de dividir leituras, se está procurando alguma coisa nova, gostosa, genial até... ora, dê um livro, cara pálida. É verdade que o material livro está cada vez mais desmoralizado, mas haverá sempre alguém escrevendo, e escrevendo bem, como Luiz Biajoni.

O site Os Viralata é quem recomenda sair do óbvio e presentear com literatura independente. E lá está à venda o... best-seller não, que o autor não é desses... mas o maldito Sexo Anal, um romance, ops... uma novela que primeiro foi disponibilizada como e-book, e que agora sai empapelada numa edição comemorativa pelos dez mil down-loads e pelas dezesseis rejeições de editoras. E vale a comemoração. Existem livros raros: livros pra se ler gozando. Sexo Anal é assim. Além dele, lá se encontra Virgínia Berlim, o segundo livro do Biajoni, que traz um cd com a trilha da história, além de outras diferenças mais significativas. Não vou fazer crítica, primeiro porque já fizeram muitas, e bem feitas; segundo, porque agora tenho preguiça. Enfim, leia.

15.12.07

Um soneto de Vicente de Carvalho

Velho Tema

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Gosto desse tipo de poesia velha. Talvez eu seja burro demais pra entender a arte moderna ou a física quântica, mas não sei de onde veio essa idéia de que os parnasianos sejam menores. Deve ter algo a ver com o stablishment. E com a gente otimista que quer ser feliz. Mas, gostem ou não dos pessimistas, a turminha do Olavo Bilac disse muitas verdades.

Uma coisa, por exemplo, é essa busca infindável pelas coisas inacessíveis. E, pior, por caminhos clandestinos. Não tenho nada contra a clandestinidade, até acho bem poética a atmosfera escura e suja dos porões secretos, mas... a clandestinidade tem de ter um propósito concreto. Não o idealismo cego. No entanto, os riscos a que nos submetemos todo dia tentando conquistar sei-lá-o-quê são tão grandes, que nem os vemos, e mal vemos aonde e onde vamos, inda mais quando o que se põe em jogo é a integridade física ou psíquica. Não vou nem falar em moral.

10.12.07

O Brasil é um país, uma nação e um povo. Um país é um território habitado por um conjunto de pessoas com uma história própria. Durante muito tempo se pensou o contrário, mas hoje sabemos que uma nação é um grupo político independente cujos membros não precisam ter, necessariamente, a mesma origem, língua, religião ou suposta raça. É justamente com suas muitas origens, línguas, costumes e tradições que se pode definir o povo brasileiro e sua história. Assim fica boa e bonita esta definição.

Mas.

O país é sempre um futuro, que não vem. A nação é para sempre o produto do passado colonial, a um tempo vergonhoso e glorioso. E o povo é sempre povo. Sempre povo. Sempre marcado do passado. Sempre esperançoso do futuro. Sempre alheio do presente, da política e da História.

4.12.07

Diálogo entre espírito e matéria

– Pois é o que eu digo. Há luz no fim do túnel. Sim, senhora. Há esperança para o mundo. O que vivemos é o retorno a um ciclo de espiritualismo, que está sempre a se alternar com ciclos materialistas ao longo da História. Cai um tempo de fé, levanta-se um tempo de materialidade; cessa um tempo de ações, acende-se um tempo de orações. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

– Pois sigo dizendo que não é assim. Não. Não há esperança. O que vivemos é o início de um ciclo sem precedentes, porque não há, a rigor, alternância de materialismo para espiritualismo: há consubstanciação. O espiritualismo, transformado em produto e, assim, materializado, é mais uma faceta das sociedades de consumo do mundo pós-capitalista. E a luz que o senhor vê, ao fim do túnel, nada mais é que o fogo do inferno! Não lhe faltará combustível. Prova-o a numerosa existência de seitas religiosas.

1.12.07

E os meus avós vieram passar o natal em casa. E vieram da região oeste de um pequeno estado do nordeste brasileiro. E meu avô, que dos seus 77 anos não gastou nenhum na escola, vez por outra solta uns vocábulos desconhecidos:

– Que que é aribé, vô?
– É um tipo de aguidar.
– Mas que que é aguidar, vô?
– Ora-mas-na-verdade, é um tipo de vasilha! E, home, vamo parar com essa conversa que já tá desenxavida demais.
– Desenxavida?
– Sem graça. E v. fez faculdade, foi, meu neto?

25.11.07

Somente muitos minutos mais tarde é que você, relutante, vai aceitar a existência das coisas fantásticas, quando, guardando cerveja na geladeira, deixa uma delas cair. Milagrosamente, a longuinéque não se quebra. E eis que, ainda a duvidar da normalidade, e mesmo pressentindo a sobrenaturalidade assombrosa das coisas imprevisíveis, segue produzindo diálogos desta natureza:

– Ah, não quebrou, menina, mas isso não é possível – e beija a chapinha de metal –, devia mais era ter quebrado: eu NÃO posso fazer isso com você! – e faz um cafuné no rótulo.

Espero que seja apenas alcoolismo. E não insanidade total e irreversível.

21.11.07

Dúvidas e certezas

Não, dessa vez emaluqueci. Tô aqui, bem, tudo bem, com quase tudo, oxigênio, calor, algum espaço com alguma lama para chafurdar, mas... é estranho. Parece tudo bem, mas tô com aquela tal comichão no cérebro aliada a um apertãozão no peito, fundo, melancólico, de nostalgia, sei lá do quê, de alguma coisa que eu ainda não conheço.

Não é pela morte de ninguém: nunca levei ao cemitério nenhum ente querido. Talvez por isso até acho romântico andar em câmera lenta, por entre catatumbas, em silêncio, ouvindo Atmosphere. Também não é por desilusões amorosas: já estou velho e maduro, e isso é coisa pra adolescente emo. Não é pela solidão nem pela tristeza: conheci que ser feliz é aprender a ouvir a beleza que existe no silêncio. Trauma de infância não pode ser: pobre não tem infância. Não, definitivamente, não é isso. Parece ser alguma coisa que eu ainda não vi.

Talvez seja liberdade.

Estremeço ao pensar nisso. Porque, realmente, é isso. Estou preso. A pensamento e lógica que me faz soar irracional se os contradigo. E, ironicamente, quando digo o que penso a seriedade me abandona, e fico a sós com um cinismo que me marca como louco. Como um louco que diz o contrário do que pensa. E já nem posso acreditar em minhas crenças. Que meu fascínio não é pela vida, é pela morte. Que meu encanto é pelo choro, não pelo riso. Que não vejo nos casamentos a beleza que aspiro nos divórcios. Que meu conceito de amor é uma piada. (Muitas vezes, quando a tarde começa a cair, e sombras de árvores se espalham no chão, e olhos brilham, e suspiros balançam no ar – ama-se tanto, que se vêem coisas visíveis e invisíveis, muito mais no amanhã que no hoje, muito mais no céu que na terra, muito mais cupidos vendando que cupidos vendados, e quando se dá conta se está com febre. Ou ensolação. E a única saída, ou cura, é passar a odiar o objeto do amor. Ser amado então é um perigo no escuro. É por isso que eu amo muito mais as pessoas que me odeiam – porque conheço-as.) Mas estou indo longe demais. Volto.

Volto à razão. Já agora nego a negação que professava.

E sigo acreditando que só há uma crença a seguir, só um norte a buscar: felicidade. É, sim senhor, felicidade. Honestamente, felicidade é a melhor e mais simples coisa do mundo – felicidade é ter um bom espaço de lama para comer, defecar ou chafurdar nas horas quentes do dia. Porque fora do chiqueiro é perigoso, prende-nos a seu interior a corrente da razão. Mas com espaço suficiente para caminharmos em círculos, desenhando à vontade pensamentos altos, livres, no piso enlamaçado da prisão.

20.11.07

Outra vez a tal da arte...

Sabe quando te falam daquele livro, daquele filme, daquela música, que é clááássica, e v. ainda não leu, não viu, não conhece? E ficam dizendo e redizendo sobre a genialidade, o estilo, a belezura que é a obra e o autor? E sabe quando, enfim, v. acaba aceitando, meio sem jeito, uma recomendação, um empréstimo, uma companhia para a tal contemplação da arte? Pois é. E tudo para, ao fim, restar a frustrante sensação de desgosto por não entender como o mundo elevou tão alto algo que te causou unicamente sono.

Foi mais ou menos assim que li todos os meus Shakespeares: Lear, Macbeth, Hamlet etc. E já que acontenceu isso, achei bom criar alguns mecanismos de defesa: 1) nunca dizer nada a ninguém; 2) caso diga, anexar alguma desculpa. Exemplos: a) li em um mau momento da vida; b) traumas de infância me bloqueram; c) não curto este gênero artístico etc. Pro caso do Shakespeare, dava sempre a última, e ainda atribuía culpa a Chico Buarque e Paulo Pontes, que escreveram em 1975 Gota d’Água, primeiro item de uma enfadonha série dramática que vim a ler por obrigações curriculares.

O diabo é que passeando pelo Rio num feriadão chuvoso e frio, sem muita opção, acabei assistindo-a, encenada ali na Glória, do ladinho do hotel homônimo. E não é que foi uma beleza? Inspirado no drama grego Medéia, de Eurípedes, e adaptado à experiência capitalista que em mãos militares aprofundou a concentração de renda no Brasil, o musical é de fazer rir e chorar: o empobrecimento da maioria financiou o milagre econômico e possibilitou o desenvolvimento da classe média. Mas faz pensar. Porque a obra não credita o estrago social unicamente à ditadura militar. O foco está no processo de cooptação dos melhores quadros, dentre os proletários, para servir ao jogo econômico do tupiniquim burguês.

Sempre que um cara menos bichado
surge aqui, pagam seu peso em ouro
pra levá-lo embora. Resultado:
mais negro fica este sumidouro
mais brilhante fica o outro lado
e o seu carnaval, mais duradouro

E a verdade esteve sempre aí, explicando como os opressores foram enfraquecendo os oprimidos e ganhando a guerra (que, aliás, tem um espólio nulo, porque resultou em miséria e exclusão de uns, intranqüilidade e neurastenia de outros, e num caos social comum). Ingresso: 25 réis (e pra meia entrada não pedem carteirinha em momento algum). O filho da “Medéia” cometeu dois erros: desafinou cantando a música do pai; deixou ver que continuava respirando depois de morto. E, segundo um amigo gramático, o excesso de ênclises em algumas bocas ficou irreal. Enfim, nem tudo são flores, mas gostei.

O que me preocupa é que agora minha desculpa foi por água abaixo. É melhor não dizer mais nada sobre o bardo inglês. Falarei somente de dramaturgos caboclos daqui pra frente.

8.11.07

Coisas de que desconfio

Desconfio que a ética não se perdeu somente na esfera estatal brasileira. O universo das empresas privadas é alimentado por um fluxo de lama onde chafurdam os mais irritantes, cínicos e mesquinhos interesses. Como se não bastasse a má qualidade dos serviços, as dificuldades com conexão, o congestionamento das centrais de atendimento, as orientações contraditórias, a ausência de uma agência reguladora, características relativas a qualquer provedor de internet, o meu aperfeiçoou seu nível de imbecilidade. Ao ligar, além de admitir que suas linhas estão muuuuito ocupadas, eles chamam-nos deliberadamente de trouxas: Caro internauta, estamos com um grande volume de ligações. Entre em contato conosco via chat ou pelo emeiol suporte@... Porra! Quem liga para o provedor, liga para resolver algum problema ligado à conexão com internet. Então, como acessar chat ou emeiol? Isso é quase loucura. Mas desconfio que a loucura maior seja a gente ir tacitamente permitindo que o fim único e exclusivo das empresas seja, de fato, o lucro. E assim elas vão-se isentando de coisas como o respeito ao consumidor, a responsabilidade social e o dever de gerar empregos para o progresso da nação.

24.10.07

O Senado Federal em 24 de outubro de 2007

Realmente, o cenário político brasileiro está desolador. Já nem mais pela corrupção, já nem pela inépcia, já nem pela descrença generalizada. Refalar o mesmo é o pior. No entanto, o que se vê dia a dia é a mesma lenga-lenga do governo, que nunca na história desta república fez tanto como fala que fez. A oposição não fica atrás, e é a mesma lenga-lenga de que o governo atual só vem mantendo as bases e programas do governo FHC.

Ainda bem que ainda restam os políticos folclóricos. Mão Santa (PMDB-PI) é um espécime em extinção. E dá gosto vê-lo, seja no plenário, seja na presidência do Senado. Hoje fez três coisas dignas de nota: a) citou Fernando Pessoa como o nariz, dizendo que "só não vale a pena, se a alma é pequena"; b) alertou o petista Eduardo Suplicy sobre o risco de cair numa "emboscada tucana", quando este em meio ao discurso cedia a palavra aos senadores Arthur virgílio e Flexa Ribeiro (e era mesmo uma cilada); c) depois de tanta falação destes últimos, renomeou os "tucanos" de "papagaios", para alegria do plenário.

O engraçado é que ninguém se ofende. E isso porque o PMDB pertence ao bloco governista. Outro dia o senador do Rio Grande do Norte José Agripino Maia mostrou-se ofendidíssimo só porque Lula referiu-se aos integrantes do partido dele, os democratas, como "demos". "Não são demos! São os democratas!" Ora, se não é o Mão Santa já nem se pode mais brincar em Brasília.

20.10.07

Duas coisas sobre Tropa de Elite

1 - O filme é bom. A gente sempre resiste bobamente às coisas que se popularizam. Mas o que Amarante diz sobre isso e o sucesso é a verdade.

2 - Já estava na hora de alguém pôr o dedo na ferida da classe média. No trabalho de Kátia Lund e João Moreira Salles, que é claramente a base do filme, aparece a queixa da polícia: "Eles vão e consomem drogas, financiam a compra de armamentos pelos traficantes e depois reclamam da violência." Não dá pra não entender a vontade de descer o cacete em todos os hipócritas que depois vão participar de passeatas pela paz.

16.10.07

até quando seguiremos
bebendo essa bebedeira,
e dizendo essas besteiras
em que não acreditamos?

até quando, até quando,
sorriremos estes dentes,
ficaremos firmes, crentes
no futuro, ou no melhor...

onde está a alegria,
essa mesma, passageira,
que cada vez é mais rara...

onde está a poesia...
onde estão as velhas caras...

pra que tanto trabalhar?
pra ter títulos reluzentes?
eu só quero em dias quentes
ter cerveja pra tomar

beber em praias distantes
rir para os dias chuvosos
tocar sons melodiosos
enrolar para acordar
nada ver: somente olhar...
divagar em pensamento
andar lento, e com preguiça...

e não marchar a calçada
das ruas que vão pra nada

7.10.07

Watchmen

Há cinqüenta anos o Sputnik era lançado pelos soviéticos e a Guerra Fria tinha um de seus mais quentes capítulos. Estava marcado o início da Era Espacial. Depois, chegou-se à Lua, e diferentemente do que ocorreu nas Grandes Navegações, nenhum Camões cantou a viagem de Neil Armstrong. Por que esse descaso? É certo que não dá pra comparar os objetos. Mas parece que algo maior mudou em nossa visão. É verdade que não há mais o interesse econômico das viagens do século XVI, mas talvez a gente é que tenha ficado meio blasé mesmo. Se Júlio Verne ainda fosse vivo talvez se frustrasse com o que vieram a se tornar as viagens espaciais. Como a pena do francês nos deu em 1865 a viagem Da Terra à Lua, antes de termos, de facto, viajado, parece que as viagens na realidade não vieram a ter a mesma graça que imaginamos na ficção. Posteriomente criada, uma das mais geniais obras que retratam o período ignoram-nas: Watchmen.

Watchmen é fantástico. Lançado nos EUA entre 1986 e 1987 pela DC Comics, com arte de Dave Gibbons e argumento de Alan Moore, é a prova de que, mais cedo ou mais tarde, o gênero HQ deverá ser reconhecido como uma das mais importantes formas de arte da nossa cultura, vencendo os preconceitos iniciais, como o cinema também venceu. Em seu enredo, passado entre as décadas de 50 e 80, o terror da Guerra Fria assola o mundo e a figura do herói é posta em cheque. Afinal, o que se pode fazer quando a luta contra o mal se revela um conceito limitado, como é limitado todo maniqueísmo?

A sensação de realidade criada pela obra tem um efeito tão grandioso, que muito se aproxima à sensação que se tem da realidade absurdamente real dos heterônimos de um Fernando Pessoa. Do ponto de vista formal, é digna de todos os aplausos. Os significados multiplicam-se à medida que narrativas paralelas de diversos gêneros entrecruzam-se: trechos de diários, capítulos de livros, artigos jornalísticos e acadêmicos, relatórios policiais, entre outros. As páginas do diário de Roscharch, que aparecem logo no início, nos aproximam tão intimamente deste personagem, um tanto fascista, que enfim simpatizamos com ele. Reproduzidos meio que desinteressadamente, como para ocupar espaço (mas “com autorização do autor”), alguns capítulos da autobiografia de Hollis Mason, Sob a Máscara, revelam os bastidores da vida dos heróis pela visão do herói então aposentado. Mas a mais forte narrativa paralela são os “Contos do Cargueiro Negro”.

Citando diversas fontes, uma matéria jornalística, aparentemente sem ligação alguma com o enredo, posta entre o quinto e sexto capítulo, dizia que: “Em maio de 1960, surgia a primeira edição de um novo e extrardinário título da National Comics, atual D.C. Chamava-se CONTOS DO CARGUEIRO NEGRO.” E acrescenta que tinha por tema a pirataria e por personagens os aventureiros do mar de origem européia que infestavam o Caribe. Na história, um náufrago faz com os cadáveres dos próprios companheiros uma jangada para a salvação. O surpreendente é que já desde o terceiro capítulo vínhamos acompanhando, em metaliguagem, por sobre o ombro de um personagem secundário, leitor de quadrinhos, não só o texto mas também as ilustrações. Aos poucos, a história passa a ganhar mais espaço, preenchendo “toda a tela”, até que já não sabemos em que narrativa estamos. E faz até sentido falar em preencher “toda a tela”: é flagrante a influência do dinamismo do cinema na arte de Gibbons. Por incontáveis vezes, os quadrinhos se integram para dar uma visão geral do ambiente, embora em cada um deles a ação transcorra de maneira independente. Muito bom!

Fiquei tão impressionado com a originalidade da história do cargueiro negro que procurei sem sucesso encontrar alguma edição desse gibi, até que um respeitável conhecedor de HQ me declarou não conhecê-lo. E ficou a pergunta no ar: “Você já parou pra pensar que os contos do cargueiro negro na realidade talvez não existam?” Não. Não tinha pensado. Parece que caí como um pato na armadilha ficcional. O que não é nenhuma novidade. Sempre que leio as críticas feitas por Álvaro de Campos a Fernando Pessoa, Ricardo Reis e António Mora, nas “Notas para recordação do meu mestre Caeiro”, acho absurdo imaginá-los somente como uma criação.

19.9.07

Para uma arte de ler no banheiro

Para um pessimista, a vida é uma contínua sucessão de dores permeada por alguns momentos de alegria. Para um pessimista preguiçoso, a vida é um sem-número de trabalhos ponteado por raros momentos de ócio. A receita da felicidade resume-se a prolongar, de alguma forma, os minutos de ócio. Ou de alegria.

Se sentir alegria causa prazer, e se a leitura é um prazer, o fato é que ler, para o diletante preguiçoso, tem uma dimensão paradoxalmente trabalhosa. A solução é, na tentativa de gozar plenamente o ócio, acumular o máximo de tarefas possíveis num mesmo espaço de tempo, aumentando assim o tempo livre. Algumas tarefas são tarefas vitais. E aí está por que muitas pessoas lêem no banheiro.

Minha importante descoberta ultimamente foi ter entrevisto uma tênue linha a dividir os preguiçosos que lêem no banheiro. Uns lêem rótulos de xampu, bulas de remédio, revistas “veja” velhas. Outros não sentem pudor em levar a alta literatura para a privada. E eis que, descaradamente, confesso ter largado as cerimônias e lido diariamente grandes clássicos. Fiz a experiência caseira, primeiramente, lendo os capítulos finais de Quincas Borba, aventurei-me pela América Latina e reli grande parte de O Amor nos Tempos do Cólera, já mais atrevido agora, tenho adorado os curtos capítulos do grande A menina que roubava livros, de Markus Zusak. E tudo isso sem falar na portentosa leitura de Watchmen (me perdoe o amigo que me confiou os seis números da rara edição de 1989, da editora Abril).

2.9.07

Pessimismo

Eu não sei se as pessoas que têm esperança nas coisas grandes e boas colecionam mais alegrias ou frustrações ao longo da vida; o fato é que eu não tenho. E acho que sou infeliz. Todavia, me considerar feliz seria otimismo, e ser otimista é um erro. De todo modo, não mudo, já estou velho demais pra mudar. Paradoxalmente, posso até dizer que sou feliz sendo infeliz.

Schopenhauer esteve certo o tempo todo. As coisas negativas da vida serão sempre maiores que os aspectos positivos que possam existir, se é que existem. E pode até ser que eu seja meio insensível pra isso, mas perceber o ódio que sentem por mim vem sempre primeiro que o prazer de me descobrir amado. O que não deve ser exclusividade minha: os atos de agressão são sempre mais visíveis; os atos de carinho é que são muito mais raros, porque nós, terráqueos, desenvolvemos mecanismos de defesa que nos fazem esconder aquilo que achamos ser pontos fracos em nós. Se a experiência de ser magoado é horrível, o melhor é não dar margem a surpresas ruins e, assim, as surpresas boas, apesar de poucas, serão suficientes para regar o fio da vida com alguns racionados goles de alegria.

O fato é que, talvez, a receita da felicidade seja esta. Não esperar coisas boas. Descobri que, antes de tomar o sorvete, ter a certeza de que ele vai cair no meu pé, logo nas primeiras lambidas, resulta quase sempre no inusitado de chegar ao fim sem vexames. Acreditar antes que o professor vai dar um nota ruim e ainda me esculachar publicamente me faz avaliar depois que tudo foi muito melhor do que pensei que seria. Acreditar que a infelicidade é inexpugnável é uma dádiva que me mantém resignadamente satisfeito. E sem me importar muito com o fim de tudo, que será definitivamente final, vou andando muito tranqüilamente, sem pressa nenhuma de chegar ao final da estrada. Não deve haver nada de bom no fim dela.