20.8.10

O caso brasileiro no contexto do lulismo

Agora, com as eleições, começou a aparecer uma fala, interessantíssima, que é mais ou menos a seguinte: "gente, o Lula fez um mal danado ao país... vocês não sabem como está o nordeste, com a bolsa-família... ninguém quer mais trabalhar... aqui [sudeste], 100 reais não é nada, mas lá... um erro, um erro..." Não é preciso esticar muito o cérebro para perceber o duplo grau de miséria. Em que nível de desenvolvimento socioeconômicocultural está um lugar no qual 100 reais a mais no orçamento familiar causa a alegria de uns e a raiva de outros? Esta reação da classe média paulistana não só mostra a miséria material da população de baixíssima renda do norte e nordeste, como também a miséria espiritual das classes urbanas do sul. De onde vem isso, afinal?

São muitos os escritos sobre o caráter retrógrado da sociedade brasileira. Fala-se especialmente do pensamento atrasado da elite dirigente, da classe dominante. Vai-se ao limite de dizer que é marca do Brasil "uma burguesia especialmente despojada de 'ilusões humanitárias' " [1, aspas do autor]. Ora, mas o que seriam ilusões? Uma tentativa fracassada de "ilusão humanitária", acontecida no declínio da ditadura militar, talvez indique algumas raízes desta anomalia das Américas.

Em 1976, quando o milagre econômico da ditadura acabou, e foi ficando difícil os generais continuarem no poder, o senador fluminense Saturnino Braga, do MDB, criticava a política das exportações. Não que fosse mal exportar, mal era o ponto até onde foi o governo militar, dando "uma soma tão grande de incentivos - isenção de IPI, isenção do ICM, crédito do IPI, financiamento a juros subsidiados e outros - imposto de renda, também, que muitos economistas nossos sustentam que estamos vendendo [nossa produção] a preços inferiores aos custos internos de produção, subsidiando, portanto, o consumo de outras nações" [2, itálico meu]. Quando li este final de frase pela primeira vez, não acreditei no absurdo, que dificilmente se configura em nossa mente. Monstruosidades semelhantes já tinham levado em 2003 o sociólogo Francisco de Oliveira a apelidar o Brasil de ornitorrinco. A proposta de ruptura do ciclo é ainda hoje um tanto familiar: implantar e fazer crescer a indústria de base, de bens de capital - numa palavra, dos bens de produção. As dificuldades também eram as mesmas: fabricar equipamentos requer investir em tecnologias modernas e complexas - coisa que, naquele momento, só as multinacionais tinham. Aí o absurdo da dependência estrangeira já fica mais fácil de entender.

A proposta, a mais humana possível ali, era simples: abandonar esse modelo econômico voltado pra fora (e socialmente injusto),  por um modelo econômico voltado pra dentro. Como? Deixando de subsidiar bens de consumo duráveis (automóveis). Disso resultariam "os mesmos empregos, certamente em maior quantidade, os mesmos salários e impostos poderiam resultar do desenvolvimento maior de outras indústrias - alimentação, tecidos, confecção, calçados, mobiliário etc. que atenderiam às necessidades não de cinco milhões mas de 110 milhões de brasileiros." [3] Era isto: em meados da década de 1970, apenas 4,5% da população comprava carros; o resto não comprava comida nem livros. E, no entanto, as multinacionais eram o centro da economia. É claro que a proposta de Saturnino Braga perdeu. E ela só era humana, não tinha nada de revolucionária: era humanamente burguesa. Ela mostra uma das muitas derrotas que sofreu a parcela da burguesia nacional comprometida com um projeto de nação, feita por cidadãos, com necessidades atendidas e oportunidades para todos. E o Brasil continuou injusto, dependente, exportador, voltado pra fora etc. etc. Sobre as costas de cada pequeno brasileiro, ainda que em formação no ventre das mães, pesava, especialmente neste período, a obrigação de financiar o consumo externo, na forma de privações alimentares ou médicas. Por quê?

Uma das respostas tem a ver com o modo como vemos o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Quer dizer, há uma via única ou vários caminhos pelos quais cada país desenvolve o capitalismo? José Chasin apostou na última aternativa, distiguindo o caso brasileiro da via alemã (ou via prussiana), por onde também passa o caso russo, o japonês, o italiano, que já eram tardios, se comparados com Inglaterra e França (a via clássica) ou mesmo EUA. E, particularizando ainda mais o caminho brasileiro, chama-lhe via colonial. É bem parecido com o caso alemão, que Marx não se cansava de chamar miséria alemã (terreno fértil para o nazismo do século seguinte), porém com uma diferença: "o 'verdadeiro capitalismo' alemão é tardio, se bem que autônomo, ao passo que o brasileiro, além de hiper-tardio, é caudatário das economias centrais." [4, aspas e itálico do autor]

Ora, como é a via clássica ou norte-americana de desenvolvimento do capitalismo? Ela acontece de maneira rápida, por meio de revoluções nas quais a burguesia derruba com violência o velho (as relações de produção feudais ou, no caso norte-americano, talvez algum pacto colonial e, ainda, mais tarde, quem sabe, na guerra de secessão, o escravismo, que opunha estados do norte e do sul) e logo põe em seu lugar o novo (relações entre capital e trabalho assalariado). No entanto, o desenvolvimento pela via prussiana, ou russa, é lento: aqui, o novo faz alianças com o velho. Isto é, enquanto na França uma burguesia violenta faz os nobres perderem, além da cabeça, também as terras, na Alemanha a nobreza fundiária é quem vai se convertendo lentamente em burguesia, com toda a sorte de privações, desgraças e explorações sobre a massa camponesa/operária. Em suma, a via clássica traz um grande progresso social; a via tardia gera um grande custo social. É assim que José Chasin observa o caso brasileiro: embora tenha aspectos comuns à via prussiana, tem também suas singularidades.

Observação que nos conduz, portanto, à constatação não mais apenas de uma única forma particular de constituição não clássica do capitalismo, mas a mais de uma. No caso concreto, cremos se está perfeitamente autorizado a identificar duas, de tal sorte que temos, acolhíveis sob o universal das formas não clássicas de objetivação do capitalismo, a forma particular do caminho prussiano, e um outro particular, próprio aos países, ou pelo menos a alguns países (questão a ser concretamente verificada) de extração colonial. De maneira que ficam distinguidos, neste universal das formas não clássicas, das formas que, no seu caminho lento e irregular para o progresso histórico-social, pagam alto tributo ao atraso, dois particulares que, conciliando ambos com o historicamente velho, conciliam, no entanto, com um velho que não é, nem se põe como o mesmo. [5, grifos do autor]

A partir da proposta do senador emedebista, para uma perspetiva mais ampla em termos de história, acrescente-se o seguinte:

Numa formulação mais do que esquemática, fácil é observar o caráter hiper-tardio da entificação histórica do capital industrial no Brasil. Bastaria referir que até a atualidade este processo não se completou, haja vista que a grande questão que, hoje, torna a se pôr (e que data de suas origens), é a da produção de bens de produção. Bastaria também lembrar que a industrialização, nas fronteiras nacionais, atravessou toda a primeira metade deste século em tentativas e contramarchas que não lograram ultrapassar o nível de incipiência. Considerados, pois, os casos clássicos de objetivação do modo de produção especificamente capitalista (Inglaterra, França), em face dos quais a industrialização alemã e a italiana já são tardias (datando das últimas décadas do século passado), a industrialização brasileira é hiper-tardia. [6, grifos do autor]

É preciso que o leitor, conforme adverte o autor, não leia esta diferenciação apenas cronologicamente, mas historicamente, isto é, com todas as implicações que a demora traz para a classe empresarial brasileira, entre elas, ter de enfrentar trabalhadores já maduros em luta de classes e ainda concorrer com potências industriais, numa difícil luta tanto contra o trabalho como contra os outros capitais.

Enquanto a industrialização tardia se efetiva num quadro histórico em que o proletariado já travou suas primeiras batalhas teóricas e práticas, e a estruturação dos impérios coloniais já se configurou, a industrialização hiper-tardia se realiza já no quadro da acumulação monopolista avançada, no tempo em que guerras imperialistas já foram travadas, e numa configuração mundial em que a perspectiva do trabalho já se materializou na ocupação do poder de estado em parcela das unidades nacionais que compõem o conjunto internacional. Ainda mais, a industrialização tardia, apesar de retardatária, é autônoma, enquanto a híper-tardia, além de seu atraso no tempo, dando-se em países de extração colonial, é realizada sem que estes tenham deixado de ser subordinados das economias centrais. [7]

Deste processo, pode-se imaginar o que resulta: burguesia covarde e proletariado superexplorado (além do que seria a exploração normal). Ressalte-se o caráter débil da primeira em se construir sobre o esqueleto da economia agroexportadora, que "exportava seu excedente", descartando portanto "uma acumulação que se cristalizasse na máquina". [8] As consequências são patéticas.

A burguesia industrial brasileira teve que se contentar com fatias de reinado no colegiado dos pactos, e acumular sob a proteção do estado e o olho guloso do capital estrangeiro. Existência estranha se se raciocina com a imagem da redentora clássica do "ancien régime". Mas outra coisa não é a nossa heroína nacional, em foto 3x4, com data no peito para colar em documento de identidade. [9]

A superexploração do trabalho aparece como resultado inevitável do modelo econômico voltado para fora. A forma de acumulação de capital realiza-se sob a tutela do capital internacional, que sai altamente remunerado deste processo produtivo, sem prejuízo do lucro da burguesia nacional: o prejuízo é do trabalho. O esforço exportador aparece combinado com "a produção de bens de consumo duráveis (automóveis, eletro-eletrônicos e correlatos); para seu consumo é estruturado, internamente, um mercado privilegiado e reduzido. É o pacto com o segmento alto das camadas médias." [10] Ou seja, para o mal da população trabalhadora de renda baixa, a produção se organiza nacionalmente de maneira a distribuir desigualmente a riqueza, e o nosso autor faz questão de enfatizar essa injusta distribuição derivada da articulação produtiva.

Para que tal mecânica funcione, nas condições de um país subordinado ao capital estrangeiro, são necessários o concurso de dinheiros internacionais e a aplicação do arrocho salarial sobre a grande massa dos trabalhadores. O primeiro aparece sob a forma de investimentos diretos e muito especialmente de empréstimos. O arrocho preserva a existência de mão-de-obra barata e faculta a produção de bens, ditos competitivos, para o mercado internacional. [11]

Ora, quando se diz que "ninguém quer mais trabalhar no nordeste" é preciso saber perceber quem está dizendo isto. Se é a população do nordeste quem está a assistir a este fenômeno calamitoso de ociosidade generalizada, temos uma informação. Mas se estamos a ouvir a reação indignada de fração da burguesia nacional, especialmente fundiária, que viu o preço da mão-de-obra costumeiramente barata repentinamente esfumar-se nos anos do governo Lula – neste caso, temos outra informação. O fenômeno pode se dever a fatores além do Programa Bolsa Família (PBF).

Se no Norte-Nordeste o PBF fez surgir setores antes inexistentes, como clínicas dentárias para pobres, o aquecimento destas pequenas economias pode ter gerado uma gama de oportunidades de trabalho que permite mesmo ao camponês mais pobre recusar-se a arrancar tocos de sol a sol em troca de um quilo de arroz, meio quilo de café e alpercatas - no conhecido sistema de crédito em comércio que geralmente pertence ao patrão, resultando quase sempre em o trabalhador dever salário ao fim do mês, em vez de recebê-lo. Por outro lado, aqui em São Paulo de uns tempos pra cá passou a aparecer, vez ou outra, ainda raras, placas de "precisa-se" para garçons, cozinheiros, caixas etc., donde se conlui que: a) o grau de exigência para contratação está muito alto; ou b) o povo deixou de ser trouxa e passou a valorizar o valor imensurável de sua força de trabalho.

Daí se explica o choramingo da classe média, "cansada" do descaso a que vem sendo submetida. Isto pode significar que reproduzem a queixa da fração burguesa proprietária de terras, que se vê prejudicada com a ascensão da qualidade de vida e o fim da servidão tropical, bem como da correspondente corveia, como também explica a base de sustentação do governo Lula tanto pela fração da burguesia nacional beneficiada pela explosão do mercado interno, como também pelos subproletários repentinamente banhados por um leve feixe luminoso de inédita dignidade e guiados não pela liberdade de peito nu, como a viu Delacroix, mas por um ex-operário coberto de barbas. Isto talvez indique o laço entre a facilidade como acionistas da Oi entram e saem do Palácio do Planalto, com a facilidade de aquisição de telefones celulares por brasileiros de qualquer classe social. Resta saber, a partir destes elementos, se teria havido de fato um realinhamento do sistema produtivo nacional e efetiva instalação do setor produtivo de bens popular-operários, como alimentação, calçados, roupas etc. E se o celular, neste estágio histórico, teria se convertido, como outras mercadorias, de bem suntuoso em bem popular-operário.

[1] José Chasin. Miséria brasileira. Ad hominem: Santo André, 2000, p. 34.
[2] Saturnino Braga. "Proposta de modelo econômico e político para o Brasil", versão condensada e publicada pela Folha de S. Paulo, em 26/06/1977, 4º caderno, p. 41. Apud José Chasin. Op. cit., p. 27.
[3] Saturnino Braga. Op. cit., p. 41. Apud José Chasin. Op. cit., p. 33.
[4] José Chasin. Op. cit., p. 17.
[5] Ibidem.
[6] José Chasin. Op. cit., p. 34.
[7] Ibidem.
[8] Francisco de Oliveira. A economia da dependência imperfeita. RJ: Ed. Graal, 1977, p. 116. Apud José Chasin. Op. cit., p. 35.
[9] José Chasin. Op. cit., p. 35.
[10] José Chasin. Op. cit., p. 85.
[11] Ibidem.

15.8.10

André Singer e As raízes sociais e ideológicas do lulismo

Costuma-se dizer, em tom de piada, que o Brasil é o único país onde pobre é de direita. Ora, isto é meia verdade, mas não chega à verdade. Afinal, o conservadorismo dos pobres não é privilégio do Brasil. Quando escreveu O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx notou fenômeno semelhante na França de 1848.

O fato é que eu já tinha lido este artigo de André Singer, a respeito do lulismo, graças ao Luiz Nassif que o havia mostrado no seu blog no começo deste ano. Mas só agora é que pude fazer uma leitura correta, percebendo os fios sutis das ideias tecidas no texto, discutindo com o autor, lendo os outros com quem ele discute. A conclusão é que a leitura que faz o Singer, sem prejuízo de que tenha sido porta-voz do Lula no primeiro mandato (talvez isso tenha ajudado mais que atrapalhado), é muito coerente. E já vem de alguns anos. Parece mesmo ter começado com o pai, Paul Singer, que em 1980 notou, para além da clássica categoria "proletária", uma classe "subproletária" na particularidade da objetivação capitalista do Brasil. Seriam subproletários aqueles que “oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais”. Estão nessa categoria “empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes.” E esta gente é: 1) numerosa, metade da população; 2) de direita, por absurdo que pareça.

Diz Singer:

"O tripé formado pela Bolsa Família, pelo salário mínimo e pela expansão do crédito, somado aos referidos programas especíicos, resultaram em uma diminuição significativa da pobreza a partir de 2004, quando a economia voltou a crescer e o emprego a aumentar. É isso que Marcelo Neri chama de 'o Real de Lula': 'No biênio 1993-1995 a proporção de pessoas abaixo da linha da miséria cai 18,47% e, no período 2003-2005, a mesma cai 19,18%.' "

"O pulo do gato de Lula foi, sobre o pano de fundo da ortodoxia econômica, construir uma substantiva política de promoção do mercado interno voltado aos menos favorecidos, a qual, somada à manutenção da estabilidade, corresponde nada mais nada menos que à realização de um completo programa de classe", ou, pelo menos, de uma fração dela.

Viu-se que, enquanto eleitores de escolaridade superior se dividem igualmente entre esquerda, direita e centro (em torno de 31%), os de baixa escolaridade preferem a direita (44%). Não se avançou a construção de uma hegemonia político-cultural de esquerda. “Em que pese o sucesso do PT e da CUT, a esquerda não foi capaz de dar a direção ao subproletariado, uma fração de classe particularmente difícil de organizar.” Excetuando casos como o MST, o subproletariado tende a ser organizado desde cima, como observou Marx em 1848 a respeito dos camponeses franceses e como o faz agora Lula. “Atomizados pela sua inserção no sistema produtivo, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber a projeção de suas aspirações.”

“O popular que havia ficado fora de moda, seja pela retórica da modernização, ao centro, seja pelo discurso de classe, à esquerda, está de volta. Diferentemente da experiência peessedebista, o 'Real de Lula' veio acompanhado de uma mensagem que faz sentido para os de menor renda: pela primeira vez o Estado brasileiro olha para os mais frágeis e, portanto, se popularizou. Essa é a razão pela qual o presidente insiste que 'nunca na história deste país… etc. etc.'. Irritados, os supostos 'formadores de opinião' não percebem que Lula não está se dirigindo a eles e insistem na tecla de que a história não começou com Lula, o que é verdade, mas ouvido vários degraus abaixo, o bordão adquire outro sentido.”

“O relativo desinteresse de Lula pelos 'formadores de opinião' significa que o realinhamento tirou centralidade dos estratos médios, que eram mais importantes no alinhamento anterior.”

Em suma, vale a pena a leitura.

13.8.10

O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo

À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas. [...] É evidente que o homem por meio de sua atividade modifica as formas das matérias naturais de um modo que lhe é útil. A forma da madeira, por exemplo, é modificada quando dela se faz uma mesa. Não obstante a mesa continua sendo madeira, uma coisa ordinariamente física. Mas logo que ela aparece como mercadoria, ela se transforma numa coisa fisicamente metafísica. Além de se pôr com os pés no chão, ela se põe sobre a cabeça perante as outras mercadorias e desenvolve de sua cabeça de madeira cismas muito mais estranhas do que se ela começasse a dançar por sua própria iniciativa.

[...]

De onde provém, então, o caráter enigmático do produto do trabalho, tão logo ele assume a forma mercadoria? Evidentemente, dessa forma mesmo. A igualdade dos trabalhos humanos assume a forma material de igual objetividade de valor dos produtos do trabalho; a medida do dispêndio de força de trabalho do homem, por meio de sua duração, assume a forma da grandeza de valor dos produtos de trabalho; finalmente, as relações entre os produtores, em que aquelas características sociais de seus trabalhos são ativadas, assumem a forma de uma relação social entre os produtos de trabalho.

O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente no fato de que ela reflete aos homens características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtores com o trabalho total como uma relação social existente fora deles, entre objetos. [...] Não é mais nada que determinada relação social entre os próprios homens que para eles aqui assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Por isso, para encontrar uma analogia, temos de nos deslocar à região nebulosa do mundo da religião. Aqui, os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias.

[...]

Como os produtores somente entram em contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca. [...] Por isso, aos [produtores] aparecem as relações sociais entre seus trabalhos privados como o que são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pessoas e relações sociais entre as coisas.

[...]

[As grandezas de valor da mercadoria] variam sempre, independentemente da vontade, da previsão e da ação dos que trocam. Seu próprio movimento social possui para eles a forma de um movimento de coisas, sob cujo controle se encontram, em vez de controlá-las. [...] A determinação da grandeza de valor pelo tempo de trabalho é, por isso, um segredo oculto sob os movimentos manifestos dos valores relativos das mercadorias.

[...]

Tais formas constituem pois as categorias da economia burguesa. São formas de pensamento socialmente válidas e, portanto, objetivas para as condições de produção desse modo social de produção, historicamente determinado, a produção de mercadorias. Todo o misticismo do mundo das mercadorias, toda magia e fantasmagoria que enevoa os produtos de trabalho na base da produção de mercadorias, desaparece, por isso, imediatamente, tão logo nos refugiemos em outras formas de produção.

[...]

O reflexo religioso do mundo real somente pode desaparecer quando as circunstâncias cotidianas, da vida prática, representarem para os homens relações transparentes e racionais entre si e com a natureza. A figura do processo social da vida, isto é, do processo de produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu controle consciente e planejado. Para tanto, porém, se requer uma base material da sociedade ou uma série de condições materiais de existência, que, por sua vez, são o produto natural de uma evolução histórica longa e penosa.

(Karl Marx. O capital, vol. I, livro primeiro. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983, cap. 1, p. 70-3, 76.)

11.8.10

Estranhamento

Domingo fui passar o cartão de débito e não passou. Defeito na máquina, moço. Então, fui ao banco, pegar dinheiro vivo. Lá na agência, frente aos caixas, vejo uma cena que não me sai da memória.

Era uma pintura. Era a desolação humana, a melancolia, a prostração física e espiritual. Era Guernica mais O grito. Eram seres humanos mortos, desalmalizados.

É que os caixas eletrônicos também estavam parados. Com o sistema fora do ar, pessoas que encontrei, cabisbaixas, pareciam perdidas. Sem vida. Inda mais num domingo, lamentavam. Alguém tinha que pegá-las pela mão, apontar o caminho, fazer algo. E elas só não tinham dinheiro! Engraçado como essas cenas se nos apresentam e se reproduzem, com a naturalidade de um respiração. Quando alguém denuncia o quadro absurdo da nossa existência, cérebros automatizados ouvem entendendo bem mas olham vendo figuras inversas, como se aqueles é que estivessem fora da realidade. De fato, saímos dela - uma realidade cega -, ao olhar o que somos - cegos. E perdemos pouco. Porque nós construímos estas monstruosidades, que, embora inanimadas – neste caso, o dinheiro, mas em geral a mercadoria –, parecem ter vida própria, ou melhor, nossa vida.

Como um sujeito que, tempos atrás, após um acidente destruiu o carro. Tinha arranhões pelo corpo e mancava de uma perna, e chorava à beira da estrada, em criança. Repetia sempre: "Meu carro, meu carro..." Também vem a cena do sujeito no banco, bancário, com a arma na cabeça, a relutar sobre entregar/não entregar o dinheiro. E acaba entregando, que fazer. Os homens maus se vão, mulheres trêmulas, velhinhos nervosos. E o funcionário, ausente, olhando o chão fixamente, balançando duvidosamente a cabeça, distante, quando solta o que lhe vai na alma: "Isso vai dar um problema na contabilidade..."

Faz tempo que deixamos de caminhar, para seguirmos arrastados por forças que sem nós não existiriam.

30.7.10

E o caso brasileiro?

Efetivamente, como diz com muito sabor J. H. Rodrigues, “o processo histórico brasileiro é sempre não-contemporâneo”46.

Dito no espírito da problemática das formas particulares de objetivação do capitalismo que nos enforma, e das quais estivemos falando há pouco:

No Brasil, bem como na generalidade dos países coloniais ou dependentes, a evolução do capitalismo não foi antecedida por uma época de ilusões humanistas e de tentativas – mesmo utópicas – de realizar na prática o 'cidadão' e a comunidade democrática. Os movimentos neste sentido, ocorridos no século passado e no início deste século, foram sempre agitações superficiais, sem nenhum caráter verdadeiramente nacional e popular. Aqui, a burguesia se ligou às antigas classes dominantes, operou no interior da economia retrógrada e fragmentada. Quando as transformações políticas se tornavam necessárias, elas eram feitas 'pelo alto', através de conciliações e concessões mútuas, sem que o povo participasse das decisões e impusesse organicamente a sua vontade coletiva. Em suma, o capitalismo brasileiro, ao invés de promover uma transformação social revolucionária – o que implicaria, pelo menos momentaneamente, a criação de um 'grande mundo' democrático – contribuiu, em muitos casos, para acentuar o isolamento e a solidão, a restrição dos homens ao pequeno mundo de uma mesquinha vida privada 47.

46 José Honório Rodrigues, Conciliação e reforma no Brasil, Civ. Brasileira, RJ, 1965, p. 70.
47 Carlos Nelson Coutinho, Literatura e humanismo, Paz e Terra, RJ, 1967, p. 142.

José Chasin, Miséria brasileira, Ad hominem, Santo André, 2000, p. 54.

20.7.10

Arte superior

O tema da CBC reapareceu tempos atrás quando um amigo curiosamente revelou-me que havia ficado apenas três meses nela. Que, enquanto fabricava balas, pensava "quem será morto por isso?". Está certo que, dentre os motivos de sua saída, pesou muito mais o fato de que seu salário era mais baixo do que o costume. E, também, teve aquela vez que uma bala explodiu, e a pólvora lhe chamuscou superficialmente o braço e parte do rosto. Nada grave. Mas esta preocupação – com o outro, com o efeito das nossas ações, com as coisas que fazemos –, ainda que tendo menos peso em sua decisão de sair da fábrica, ainda que em alguma pequena medida e em algum pouco grau, ainda assim, tudo compôs as linhas corretas e dignas do empregado que, ao ser comunicado de sua renovação de contrato, de sua aprovação no período de experiência, bartlebyanamente responde:

– Não.

– Como não? – interroga o encarregado, momentaneamente atrapalhado.

– Eu prefiro não.

– Como não?

– É que enquanto vocês me avaliavam, nestes três meses também avaliava a empresa. O caso é que vocês não passaram na experiência.

Surpreendido, o chefe olhava o papel que o empregado deveria assinar.

– Mas e o quê que eu faço com esse papel agora?

– Ora! É só escrever aí que não quero...

– Tá, mas...

(O encarregado mal sabia escrever.)

– Assim: "O funcionário não quer assinar, porque decidiu não renovar o contrato." etc. etc.

A hierarquia se invertia: surpreendido pela inversão esdrúxula, o encarregado atentamente escrevia o que o subordinado lhe ditava. Ninguém nunca tinha visto aquilo.

Estas coisas novas, inteiramente novas, que extrapolam as receitas e os costumes, que não obstante têm uma função prática, e que são reais, e apesar de reais, e mesmo reais, também deveriam ser chamadas de "arte". Uma arte superior. Que se consome enquanto se cria.

12.7.10

Fake plastic trees

Há este maldito verso
que bendiz a morte e a vida, ida e vinda,
mas não vem.
No pedaço do papel germina ainda a vontade de explodir mais explosões...
mas nada vem.

O que vem não-é-mais-verso.

Vem um plástico.
Frio...
Feio...
Fóssil...
Vem um tempo fácil,
feito horas maltratadas, produzidas, processadas,
no labor vazio,
Num imóvel trânsito.
Vem a vida.
Esterilizada.

7.7.10

Linguistas desocupados e as operações da Polícia Federal

Um grupo de cientistas desocupados se dedicaram a estudar... os nomes das operações últimas da polícia federal, dentro da área de estudos de análise do discurso, seguindo a linha de pensamento de Bakhtin, que epigrafa o estudo:

Se não esperamos nada da palavra, se sabemos
de antemão tudo o que ela pode dizer,
ela sai do diálogo e se coisifica.

Bakhtin

O artigo Palavras em operação: um dizer como trabalho, no trabalho e sobre o trabalho, publicada na Revista da Abralin, mostra como é sutil a ideologia, que vai ressignificando as palavras. E quase nunca nos damos conta dessas ressignificações, que dirá da ideologia propriamente. No caso em questão, é óbvio que, num primeiro momento, os policiais fazem juízo de valor dos alvos investigados no momento quando nomeiam as operações. O que pode escapar é que esse juízo, em si uma interpretação, é retransmitida, num segundo momento, para toda a população pela imprensa, a grande transmissora da ideologia. Só, que no caso em questão, também ela transmite, ainda que não queira, uma interpretação que não é dela, no momento quando divulga o nome da operação - que pode até ser contraideológica.

3.7.10

Vale (do Rio Doce)

O sudeste do Canadá, próximo à fronteira com os EUA, vive uma situação inusitada: trabalhadores do primeiro mundo em greve contra uma poderosa multinacional... brasileira. Há já bastante tempo.

A Vale vive o drama de toda empresa. Para fazer dinheiro, precisa que alguém entre chão adentro e de lá retire o níquel, que ela, Vale, vende lucrativamente a metalúrgicas fabricantes de anticorrosivos para aço, como ela mesma diz. O mesmo para o ouro, dos circuitos de computador; a prata, das velas de ignição; o cobre, dos fios elétricos; o basalto, dos trilhos ferroviários; o cobalto, nas baterias de lítio; o paládio, das obturações dentárias; o rutênio, dos chips eletrônicos; o ródio, dos conectores elétricos; o irídio, das agulhas de injeção – para acumular capital, precisa sempre alguém que trabalhe.

Em março, o Estadão informava que:

A Vale Inco, uma subsidiária da Vale, vai contratar trabalhadores terceirizados para contornar o problema dos funcionários em greve da companhia enquanto reinicia as atividades de mineração de níquel em Ontário, no Canadá, disse Cory McPhee, porta-voz da empresa.

Engraçado o jornal mencionar que a Vale tem um "problema" com a força de trabalho, tão necessária à sua acumulação de lucros, e esquecer os "problemas" enfrentados pelos mineiros que, logo após a Vale adquirir a canadense Inco (a compra ocorreu em 2006), viram mudar seus planos de aposentadoria e um bônus salarial, agora rebaixado, medida justificada pela queda nos preços do níquel. Mais à frente, o jornal deixa a entender que o sindicato exige demais. Mas, em algum vermelho lugar, questionaram: 

"Digo que, se eles têm alguma dúvida se eu mereço o meu salário, é só entrarem debaixo da terra para verem como o trabalho é duro e perigoso."

Hoje, a Folha noticiou que a greve fez um ano. E mais: 

Tudo indica que um acordo está próximo, mas não apagará os problemas dos últimos meses, quando a cidade de 150 mil habitantes, a 380 km de Toronto, viu episódios de violência e processos judiciais mútuos que transformaram a empresa em símbolo local de "ganância corporativa".

Embora o teor desta reportagem da Folha seja menos parcial na cobertura, toda vez que conflitos de classe aparecem, no geral a imprensa mostra o que ela é: classista. Na verdade, está cada vez mais difícil sustentar o mito de uma pátria, para qualquer das classes em disputa, sejam trabalhadores ou empresários. Isto na prática. No plano das ideias, segue a mesma xenofobia de sempre. Por aí, disseram que:

Pessoas que conhecem bem a situação disseram que o estilo hierárquico de administração da Vale entrou em choque com a abordagem mais consensual da Inco, enquanto a inesperada compra encontrou resistência e ressentimento por parte da indústria canadense, mais acostumada a adquirir mineradoras brasileiras.

Já há muito o pensamento socialista, seja ele anarquista ou comunista, havia percebido o non-sense de assalariados se aferrarem a ideia de pátria. As multinacionais já sabem muito bem disso. A imprensa vai aprendendo. Os governos são uma contradição, ora indo na contramão da história, ora forçados a seguir com ela, muito a contragosto e com todos os sacrifícios, como faz agora a Grécia, e como logo farão Portugal, Espanha, Alemanha e EUA. Vai devagar, mas a tendência é que, mais cedo ou mais tarde, todo mundo perceba a mesma coisa: a aldeia global continua dividida em classes.

27.6.10

Notícia

Igreja Universal oferece drive-thru da oração

Comentários das pessoas:

"Pela segunda vez, na mesma semana, o florista Eugenio Ferreira dos Santos, de 47 anos, saiu do trabalho e decidiu parar por alguns minutos em frente ao templo. “Eu recebi a oração e me senti bem. Sempre que posso, passo aqui para receber a proteção divina”, comenta. Priscilla Amaral, administradora, de 24 anos, também gostou da ideia. “É ótima essa iniciativa, pois já que estou parada no trânsito, não custa nada entrar um pouco, receber a intercessão de um homem de Deus e seguir para casa abençoada”, afirma. Até mesmo motociclistas, que não costumam ficar presos em congestionamento, param por alguns minutos em frente à igreja. “É bom estar protegido, ainda mais quando se anda no trânsito de São Paulo de moto. Se todos passassem por aqui, com certeza não teríamos tantos acidentes”, afirma o motociclista Mario Reinaldo, de 40 anos."

Fonte: Iurd

Só faltou o motociclista dizer que as leis da física (força da gravidade, dois corpos não ocuparem o mesmo lugar etc.) e a dificuldade de equilíbrio em duas rodas perderam a influência sobre os acidentes de trânsito. Até quando seguiremos ostentando o título homo sapiens sapiens?

18.6.10

Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga

Quando me disseram que ele estava morto, por uma mensagem sms recebida em meio ao trânsito e à felicidade de uma sexta-feira, ficou a pairar em frente a pergunta, E agora, que faço, e era realmente um não saber o que fazer, também por uma dessas mortificações instantâneas que nos deixam provisoriamente sem alma. É estranho que alguém a quem nunca cumprimentamos e que não nos conheça, nem a mim nem à amiga que me escrevia, possa nos causar dor de perda, que vai permanecendo ainda, passadas dez horas de sua morte. Temos em comum amar José Saramago. Metonimicamente. Me veio então o imperativo de fazer uma homenagem, passou pela cabeça lhe dedicar uma oração, ideia ridícula rapidamente afastada com um abanar de orelhas, depois veio um minuto de silêncio, coisa também descartada, embora menos católica, mas igualmente supersticiosa e imprópria, porque não se poderia nunca calar o pensamento quando morre o homem que passou a vida a dizer o que pensava. Ainda morto, sua voz continuará a falar. Ad eternum. Deus terá agora uma boa companhia, desde que exista, fique claro. Imaginemos o diálogo:

"[...] assim como há milagres para o bem, também os tem havido para o mal, testemunhem-no aqueles infelizes porcos da Escritura que se lançaram ao precipício quando o Bom Jesus lhes meteu no corpo os mafarricos que no endemoninhado estavam, de que resultou padecerem martírio os inocentes animais, e só eles, pois muito maior tinha sido a queda dos anjos rebeldes, logo feitos demónios, quando do motim, e, que se saiba, não morreu nenhum, com o que não se pode perdoar a imprevidência de Deus Nosso Senhor que por essa desatenção deixou fugir a oportunidade de lhes acabar com a raça por uma vez, de bom conselho é o provérbio que previne, Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre, oxalá não venha Deus a ter de arrepender-se um dia, tarde de mais. Ainda assim, se nesse fatal instante tiver tempo de recordar a sua vida passada, esperemos que se lhe faça luz no espírito e possa compreender que nos deveria ter poupado, a todos nós, frágeis porcos e humanos, aqueles vícios, pecados e sofrimentos de insatisfação que são, diz-se, a obra e a marca do maligno. Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga."

(História do cerco de Lisboa. RJ/SP: O Globo/Folha de S.Paulo, 2003, p. 19)

11.6.10

Memórias do cárcere

Eu nunca li Michel Foucault, mas é como se o lesse todos os dias. O Estado é um poder tão abrangente, que desconfio teremos uma grande surpresa quando um dia tivermos a completa compreensão do que somos. Porque, uma vez conhecida a parcela de nós cuja construção é obra do Estado, e desconsiderada esta parte constitutiva da nossa essência, receio que, neste resto de ser, sobrará, como aquilo que naturalmente somos, muito pouco.

Diz Graciliano Ramos que, logo ao ser preso, em 1936, foi mais ou menos bem tratado pelos militares que o encarceravam na primeira prisão, em Recife. Mas, ao chegar à cela, o capitão solicitara, mais ou menos cortesmente, que prometesse não tentar comunicação com o preso vizinho, sem explicar por que. Várias semanas depois, e já sabendo que ia ser transferido para o sul, Graciliano recebe uma bolinha de papel com uma mensagem atirada pelas grades pelo vizinho, e entra na dúvida sobre responder ou não responder.

[...] aí notei pela primeira vez um dos horrores sutis em que é fértil a cadeia: pretendem forçar-nos, sob palavra, a ser covardes. A princípio não distinguimos a cilada. – "Está ali um sujeito com quem o senhor não se pode entender." – "Perfeitamente." Aceitamos a imposição sem divisar nenhuma inconveniência. Mais tarde um infeliz nos abre a alma e hesitamos em solidarizar-nos com ele. Haverá maior covardia? Obedeceremos à frase a que não demos a necessária atenção ou escutaremos a voz interior? [RJ: Record, 1996, p. 118]


É irônico que professores costumem queixar-se de que os alunos não prestam atenção. Ora, a maior coisa que a escola ensina, com efeito, e nisso todos saem escolados, é ouvir frases sem dar atenção a elas. Porque, das muitas frases que circulam cotidianamente – e que todos nós ouvimos, em tvs, revistas, jornais, outdoors, regras, leis etc. –, se lhes déssemos a devida atenção, concluiríamos não devemos ouvir nem metade. Porque desnecessárias, ilógicas ou inúteis – adjetivos também aplicáveis a mais da metade do currículo escolar. A questão é que, pensando bem, a fertilidade em horrores não é exclusividade da cadeia. É maior. Está em outro nível, do qual a cadeia faz parte: o Estado. As escolas, um braço do mesmo monstro, armam cotidianamente, proibindo recados e papéis entre carteiras, ciladas semelhantes. Sempre com o mesmo objetivo: criar covardes. Em maior ou menor grau, todos nós que passamos um dia pela escola temos propensão à covardia.

O pior de tudo é que não posso me orgulhar de ter percebido isso. Vejo claramente, neste momento vital, a mesma possibilidade de comunicação, de solidariedade, de transgressão... e hesito. Que falta para fazer o que quero? Uma inércia maior que mim me amarra ao que sou e ao que faço. Ando num deserto de pronomes oblíquos sem nenhuma gota de eu. E sigo, ouvindo frases a que não dou atenção, calando a voz interior que me tortura, sendo uma vez mais o mesmo. E sinto que não estou só. Bom? Não, mas deveria ser, porque não fui educado para me sentir bem sozinho: fui produzido em série. Feliz?

7.6.10

Aham!!!

Hoje é um dia histórico. Luiz Felipé Pondé mostrou quem é. Em suma, um reformador da lógica, desde que Aristóteles a fundou. Vai parecer que eu estou pegando no pé do menino, mas hoje, na Folha, seu texto foi demais.

Começou defendendo a liberdade de pensamento:

"O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade? Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: 'O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...' "

Depois, atacou a liberdade de pensamento:

 "Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice [...]"

Por fim, mostrou quanto conhece sobre a crendice da qual fala:

"[...] torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, 'haverá outro mundo quando o McDonald"s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba'."

Ele crê que conhece o país e o mundo onde está, quando apenas está neles, sem vê-los de fato. Vejamos:

1. Ele faz crer que há muitos professores marxistas, quando na verdade mal se veem os marxistas entre estruturalistas, funcionalistas, evolucionistas e marxistas-recauchutados à Maximillian Weber [isso pra falar só no ensino básico; na faculdade, a coisa só piora: a quantidade de cursos técnicos ou a-históricos é tão grande, que o marxismo fica restrito às poucas ciências que lhe servem de objeto. Mas, ainda assim, é raríssimo achar um curso com orientação marxista. O que se encontra é um ou outro professor isolado, o que conta pouco.]

2. Que havendo estas quatro correntes de pensamento, proibindo uma e preservando as outras três, por sinal dominantes (basta ver a grade do ensino básico, com supremacia horária discutível das linguagens [português e matemática] e ciências naturais [biologia, física, química], e tempo minúsculamente ridículo para as ciências da sociedade), presta-se um grande serviço à ciência.

3. Que Cuba, Coreia do Norte, China e Vietnã têm ainda alguma coisa de marxistas.

Eu, na verdade, sei que ele não fez mais que uma crítica em forma de brincadeira. Mas saiu tão superficial, chula, rebaixada, que, ainda brincadeira, a falta de sutileza, de fineza no humor revela em grande medida, sem prejuízo de algum pequeno ressentimento escondido e guardado, um vasto universo de ignorância, só posso crer que proposital, por parte do autor. Francamente.

Eu, cá por mim, não sou contra perspectiva alguma nas escolas. Por mim, eu formaria os alunos com todas as visões possíveis. Que eles escolham para si dentre todas, inclusive o criacionismo, qual explica melhor a realidade. Qual o problema?

1.6.10

Ciência


"Acho as ciências humanas incertas e inúteis."
Luiz Felipe Pondé*

Faz algum tempo, nasceu um discurso. Deve ter sido chocado no XIX, quebrou a casca dos ovos no começo do XX e veio serpenteando até nossos dias. Esgueirou-se sinuosamente por entre duas guerras mundiais, a grande crise de 29, nazismo, fascismo, stalinismo, bombas atômicas, guerra fria, homem na lua, ditaduras militares, crise, queda e construção de muros, neoliberalismo, crise. Avançando sub-repticiamente, em ziguezagues, alcançou o status de verdade e alojou-se nas mentes, mesmo as mais inteligentes. Aí foi onde, ironicamente, criou as raízes mais profundas. Arrastando-se pelo chão, andando, movendo-se tortuosamente, elevou-se a uma categoria pura e plena: a das ideias ornadas de lama, limbo, musgos e superstições.

Há um bom tempo ouvimos que "a ciência falhou em promover bem-estar à  humanidade"; que "a fé nesta ciência revelou-se um erro".

Pondé parafraseia Pascal, que, referindo-se a Descartes, provavelmente louvava a matemática, sempre exata na quantificação do vasto e grande mundo, em contraposição à filosofia, sempre incerta, apesar da simples tarefa de desvendar como funcionam as pequenas relações humanas. Há nisso mais ideologia política e religião do que, propriamente, ciência. Afinal, falhou a ciência ou falharam os homens de ciência? É importante revelar o tempo todo o que somos: agentes. Se o resultado de nossa atuação acarreta prejuízos, deve-se apontar quais sejam. Principalmente quando se sente um rebaixamento aviltante da espiritualidade – de dimensões humanas que se perdem. O funcionamento de um mundo humano depende de descobrirmos a causa magna de seu movimento, para adequá-lo a nossos desejos.

Ao longo do século XX o grosso da produção científica teve em vista este objetivo? Que significam os bilhões das naves espaciais de ontem e de hoje?

*Folha, ilustrada, 31/05

29.5.10

Poesia

Tempo atrás, encontramos um hippie. Eu nunca tinha visto um. Meu amigo se interessou mais, e assisti a conversa, que demorou. Falaram de artesanato, música, arte, política, variedades. Chato. Impaciente, alternando o pé de apoio, e já com as despedidas, fui andando. Quando voltei-me, assisti ainda o companheiro a indagar um "e onde você mora?". O hippie, prosaicamente, respondeu:

– Eu não moro.

26.5.10

Crises

Um dia – quando devia dar uma aula de verbos no pretérito imperfeito do subjuntivo –, me veio a ideia marota, quase indecente, de, por pura farra, falar de sociedade dividida em classes, mercadoria e trabalho alienado. E, dada a inesperada recepção da sala, talvez desconfiada de tão estranha gramática, logo me vi falando em valor de uso, valor de troca, força de trabalho e, principalmente:

D - M - D' - M - D'' - M - D'''

Foi então que, sem mais nada, uma pobre garota de 11 anos levantou sua mão tímida e, com um franzir de testa, questionou:

– Mas, professor, não chega uma hora que falta dinheiro não?

Donde se conclui que, talvez, as crianças sejam os únicos seres ainda capazes de entender o que é o capitalismo.

31.3.10

Estafa

Anos atrás, começou a dar na imprensa que cortadores de cana morrem. Em 29 de junho de 2006, foi a vez de Juraci Barbosa pôr fim aos seus 39 anos e milhares de toneladas de cana.

O pintor porto-riquenho Rafael Tufiño xilogravou. O estudante brasileiro Roberto Benjamin escreveu. Este sítio publicou o primeiro. Um panfleto sem data de alunos da fundação santo andré apoiando uma greve de professores, por sua vez, propagou o segundo. O fato é que, cá pra mim, os dois ficam bem juntos.


Estafa!!
A vida não valeu:
mais-valia.



17.3.10

Estado, escola e professores em SP

O Estado tem orgasmos múltiplos sobre nós – dizia-me Alex, um amigo que acaba de conhecer a máquina por dentro. De fato, uma vez dentro, pode-se ver até onde nos explora, e de tal maneira e com tal intensidade, que chega a lembrar a mais grotesca das explorações, que é a sexual. Alex é um professor em formação. Estudante, com um ano de curso, já pôde ingressar na educação e lhe foram atribuídas 18 aulas de sociologia, no ensino médio. Sua fala baseia-se principalmente neste sistema de atribuição de aulas, que passou por modificações recentemente.

O Estado de São Paulo estabeleceu algumas avaliações para seu corpo docente, e uma delas implicava em favorecer os melhores colocados numa das provas com a preferência na escolha das aulas, independentemente de sua categoria. Em São Paulo, embora todos realizem o mesmo trabalho, os professores estão divididos em permanentes (130 mil) e temporários (100 mil). Os temporários, por sua vez, dividem-se em subcategorias, como ACT (admitido em caráter temporário), OFA (ocupação de função atividade) etc. A categoria OFA, por sua vez, subdivide-se em mais subcategorias, a saber, F, L e agora já se ouve falar em categoria V. Não me perguntem o que são essas coisas, que também não sei. Esses 230 mil profissionais da categoria paulista, envoltos nessa fragmentação – que resulta em diferenças de quantidade de aulas, de salário, de direitos trabalhistas etc. – geralmente leem esta separação em castas sob duas perspectivas: a) administrativamente, como uma forma de reduzir custos ligados à contratação e pagamento de um profissional efetivo (o que explica como um estudante em formação pode ser também professor); b) politicamente, como uma maneira de dividir a classe, que mesmo dividida faz barulho e dá trabalho. A primeira leitura é majoritária, apesar de incompleta. O dado político é importante.

Na atribuição, Alex chega, estudante, e senta-se ao lado de um profissional antigo, já professor há anos. Alex, como muitos outros estudantes, foi melhor classificado na prova que grande parcela dos professores já formados e em atividade. O clima não é amistoso. O professor ao lado é de educação física, o que não vem ao caso, pois a primeira coisa que ele diz é:

– O que é que v. é: O, F ou L?

– Sei lá... diz aí: o que é que eu sou?

O professor também não sabe, é difícil saber.

– Meu, se algum desses categoria O pega minhas aulas, eu pego esse cara, eu quebro ele. Eu acabo com um cara desse. Quê que v. acha?


– Eu acho que v. tá certo...

Isto é o que Alex achava, porque, como mais tarde se veio a saber, Alex ainda não sabia o que era; logo depois descobriu ser exatamente um O. Se politicamente ou administrativamente é interessante ao Estado transformar os professores em letras, para os remunerar mal ou os dominar ideologicamente, o que é um efeito positivo, por outro lado acaba lidando com um efeito colateral: má qualidade do trabalho. Ora, se numa mesma escola convivem profissionais que se odeiam em tantas direções quantas forem as castas, jamais trabalharão em cooperação, para não falar da instabilidade política e do ambiente de competição selvagem. Resultado: um problema educacional aparentemente insolúvel.

Considerando tudo, é inacreditável que a Apeoesp, o sindicato dos professores, consiga juntar 20 mil pessoas nas ruas protestando contra o governo. Ainda que sejam só 5 mil, como diz a polícia, continua inacreditável. É inacreditável o nível de desentendimento, de conflito, de rebaixamento das nossas relações sociais. Se eu não vivesse tudo isso, não acreditaria.

14.2.10

Miséria

Semana passada, aniversário de um amigo em São Paulo, saio para a rua Augusta e lá está numa esquina Alan, cerca de 35 anos, alagoano, natural de Arapiraca, buscando latinhas. Conversamos. É pra uma quentinha, preciso almoçar amanhã. Mas, rapaz... às vez eu penso, sou mermo um lixo, nunca imaginei chegar nessa situação... catar latinha.

Ontem, tomo minha cerveja ao fim da tarde em Santo André, quando aparece uma dona de 55 anos, sobrancelhas sofridas, pede alguma coisa, um mínimo que seja. É pra comprar feijão, meu filho. Horas depois, semáforos à frente, umas nove da noite, lá está no meio da rua uma mulher de 30 anos, pouco mais ou menos, e me pede qualquer coisa, 10 centavos que seja. Procuro, ela espera, mas não encontro nada, não tinha moeda alguma mesmo. Olho com pena, ela responde, tudo bem, o que vale é você ter falado comigo, me dado atenção, boa noite, e vendo-me acompanhado diz, vocês são um casal bonito. Antes não dissesse nada, porque o pior é que disse isso com amor!

Isto tem sido assim, bem sei, nenhuma explosão súbita de miserabilidade, mas o fato é que cada vez mais isso aqui começa a ficar, realmente, totalmente sem graça. Não é que venha sendo. Vai ficando mais...

Viver, trabalhar, chorar, comer, beber, andar, ver o sinal, parar, ver, conversar, continuar, dar a moeda, não dar a moeda, dar, não dar...

Por que não me alieno?

2.1.10

Boris Casoy, o valor das coisas e a intolerância com piadas

Sobre a gafe do Boris, já por estas horas, e com a velocidade deste mundo internético, muito já se disse e admoestou-se e criticou-se e exigiu-se a demissão do âncora. O que não pode haver é surpresa: desde muito, muitos eram os rumores sobre o caráter do Boris; é perfeitamente adequado ao perfil do homem que, segundo especialistas, integrou no regime militar o chamado ccc, comando de caça aos comunistas.

O que chama a atenção é o exemplo duplo que ele dá de desintegridade existencial e estreiteza intelectual. Tentando fugir do moralismo, não vai bem criticar o ato, nem lhe negar as desculpas. O problema é menos deste homem que do tempo que o fez homem. A questão é achar a causa disso, não seus efeitos. ?É lá possível que alguém, no ar, desenhe uma linha de atuação extremamente moralista, fazendo da "vergonha" uma sua bandeira, e, paralelamente, fora do ar, faça piadas deste tipo? Sim, é perfeitamente possível, e a prova aí está. Faz lembrar uma definição que ouvi certa vez: o hipócrita é aquele que ostenta virtudes sem possuí-las; porque, se as possuísse, não teria por que as ostentar. A hipocrisia é uma marca do nosso tempo e, tal qual assinalaram pensadores hoje tidos como ultrapassados, suas razões são econômicas. E, para nosso mal, não é típica do Boris; é típica de todos nós, em alguma medida. E, talvez, nem seja bom nomear isso como "hipocrisia", afinal, agora fomos incluídos. O fato é que, toda vez que se baixa a vigilância, ela aparece. Não é um exercício fácil: somos educados para ser, na falta de um adjetivo melhor, hipócritas. Somos educados a considerar todas as profissões, sem exceção, importantes e valorosas, e a declarar isso, mesmo sabendo que, no fundo, no fundo, não são ou, pelo menos, não parecem ser. O que traz outro problema: como não são? A resposta é ambígua: são e não são. São importantes do ponto de vista funcional: uma cidade não existe sem garis; mas são extremamente desvalorizadas do ponto de vista econômico: muitos podem ser garis, logo, o salário é baixo.

A lei da oferta e da procura exerce em nosso imaginário um poder maior do que supomos ter. Raramente relacionamos estes dois fatos: 1) achamos os jornalistas mais importantes que os garis; 2) a oferta de jornalistas é menor que a de garis, que é enorme: até você pode ser um.

Vivemos numa sociedade que precisa, como todo sistema, que indivíduos atuem como diferentes peças – o valor de uso dos trabalhos é igual para todos, portanto; mas, como essa atuação envolve a escolha das peças em diferentes castas, resta que sobram peças para funções simples e rareiam peças em funções complexas, sobretudo as que exigem modelação técnico-científica – então o valor de troca dos trabalhos aumenta ou diminui na mesma razão em que aumenta ou diminui a posição das castas. O valor de uso, regido pela lei da necessidade, e o valor de troca, regido pela lei da oferta e da procura, estampa tudo e todos, desde as mercadorias até os seres que as produzem. Como tudo tem um caráter duplo – necessidade e troca –, isso só pode dar em hipocrisia. Necessitamos de muitos seres humanos para viver; mas, para tê-los próximos, trocamos suas ações benéficas por dinheiro. Estas são as misteriosas forças que desintegram Boris Casoy, e todos os seus companheiros de espécie, dividindo-o em dois homens: um ideal, que valoriza em absoluto todas as pessoas; e um prático, que relativiza o valor de mercado que cada um tem.

Talvez nem faça bem falarmos em hipocrisia, que traz uma certa carga de moralismo que o termo desintegração não tem. A desintegridade é evidente, e o que se expõe em teoria aqui, é o que se viu na prática lá. E, com isso, chegamos a uma séria dificuldade das ciências sociais: fazer a teoria coincidir com a prática [incluo aqui todas as correntes de pensamento contemporâneas – as que eu conheço, pelo menos]. E, também, chegamos à estreiteza de pensamento do Boris. Ele aceita naturalmente a existência das castas: ou são eternas, ou determinadas por mistérios divinos, ou possuem causas desconhecidas [poderia até usar as três justificativas, afinal, reparando bem, são uma só coisa]. O que ele não pode aceitar é que um gari, membro que é da mais inferior das castas trabalhistas [pouco importa usar o termo "casta" ou "escala"], ou membro da merda, deseje alguma coisa boa.

O pessoal dos blogues tem andado meio rígido ultimamente com algumas piadas, de negro, de mulher ou de gay. E durante muito tempo fiquei pensando se era certo ou não esse cerceamento à liberdade dos humoristas. Com isso, acabo de concluir que certas piadas não devem mesmo ser feitas e que, se a liberdade dos humoristas ruins for restrita, disso haverá de nascer uma geração nova de humoristas e piadas boas, que inverta o mundo, para pô-lo direito. O riso de alguns não compensa o choro de muitos. O que vai compensar é ver amanhã, nos jornais, uma charge de um Angeli, por exemplo, com a grande vantagem de que fará rir a muitos, e chorar somente a um ou dois. O que, é sempre bom lembrar, poderia constituir uma grande injustiça para esta ínfima minoria que chora, mas acaba por não ser, pela razão única e bastante de que estas pessoas não choram por coisas tão banais como... ora, a humanidade a que pertencem.